Maria Villares (São Paulo, fevereiro de 1940) é uma artista visual brasileira multidisciplinar. Sua obra abrange desenho, pintura, escultura, gravura, colagem, cerâmica e instalação. Tem assim uma trajetória artística marcada pela diversidade, por variadas formas de expressão e uma constante experimentação técnica e conceitual.

Ao longo de toda a carreira, a natureza foi uma grande fonte de inspiração. Muitos de seus trabalhos surgiram a partir de fragmentos orgânicos que se tornam a matéria-prima e o ponto de partida de suas obras, objetos encontrados ao acaso, coletados e colecionados. Entre eles sementes, frutas, flores secas, conchas, pedras, gravetos, ossos ou até pedaços de madeira trazidos pela maré.

Iniciou os estudos em arte ainda adolescente, com aulas de desenho e pintura ministradas por Nelson Nóbrega e em história da arte com Gilda Seraphicohttps://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10489/maria-villares. Em 1957, como aluna da Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna (MAM/SP), participou de sua primeira exposição coletiva. Dois anos depois, ingressou em Ciências Sociais na USP (não concluído), mantendo paralelamente sua formação artística.

Entre 1970 e 1980 ampliou o repertório técnico: estudou xilogravura com Ângela Leite e calcogravura com Dudi Maia Rosa, além de frequentar a Escola Brasil e o ateliê de Carlos Fajardo, investindo no desenho e na pintura.

No ano de 1980, na Penland School of Craft, nos Estados Unidos, dedicou-se intensamente também à cerâmica. A partir dessa experiência, de volta ao Brasil, integrou uma série de exposições coletivas, especialmente em São PauloDAFFRÉ, Selma. “Três Artistas, três caminhos”. In: Nove Artistas Novas. Galeria Our Choice, São Paulo, 1989.. O interesse acabou levando a artista a participar de diversos simpósios e workshops com mestres ceramistas.

Na Itália, frequentou o Centro d’Arte Verrocchio, onde desenvolveu técnicas de desenho para escultura. Essa viagem possibilitou o aprimoramento para a arte tridimensional. Ao retornar ao seu país de origem, M. Villares expandiu sua atuação para múltiplas linguagens artísticas, sem abandonar, entretanto, a cerâmica que a projetou nacionalmentehttp://www.mariavillares.art.br/about/.

Em 1991 participou do 22º Panorama da Arte Atual Brasileira: Formas Tridimensionais, no MAM/SPhttps://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento225973/22o-panorama-de-arte-atual-brasileira, e no mesmo ano conquistou medalha de ouro no salão de arte Curitiba Arte 7 (PR), na categoria escultura.

Três anos depois realizou sua primeira exposição individual, na Galeria Nara Roeslerhttp://www.graphias.com.br/novo/artista/maria-villares/, seguida por outras duas: em 1995, no Paço Municipal de Santo André, e, em 1996, no Espaço Institucional da Bayerhttp://www.gravurabrasileira.com/artistas-detalhes.asp?artistaId=72&lang=pt (todas em São Paulo). Na sequência, aos Estados Unidos para expor suas obras em Washington D.C., no Brazilian-American Cultural Institute (1997)https://www.apap.art.br/associados/377/maria-villares/.

Desde então, as pesquisas, estudos e a participação em palestras, workshops e mostras se mantiveram constantes, tanto no BrasilMILLIET, M. Alice; Galeria Nara Roesler, São Paulo. 1994. quanto no exterior. Esse movimento foi intensificado principalmente por meio do projeto Ponte Cultura, iniciativa que reúne artistas brasileiros e alemães em torno do intercâmbio cultural e da construção de diálogos entre diferentes contextos artísticos.

A participação de Maria no projeto proporcionou, por exemplo, exposições e encontros no Brasil (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza/2009, e Belém/1996), na França (St. Dézéry, 1997) e na Alemanha (diversas visitas, em particular em Nuremberg, entre os anos 1994 e 2017).

Arte pública e editorial Em 1996, Maria Villares participou de um projeto experimental de ocupação do espaço físico do Paço das Artes, em São Paulo, na época ainda em construção, ao lado de 12 outros artistas proeminentes, entre eles Edmilson Nunes e Rosana Paulino. Com curadoria de Sérgio Pizoli e propostas elaboradas a partir de uma citação de Paul Valéryhttps://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/7/10/ilustrada/22.html, Maria desenvolveu um site-specific no subsolo, utilizando elementos como a terra e a água para simbolizar a mulher e a fertilidade.

Como parte do projeto PROCENTRO, programa de valorização do centro de São Paulo, em 1998, a artista realizou uma pintura mural na empena cega do Tropical Planalto Hotel, na Avenida Cásper Líbero. Criou também, em 2003, um painel para o Atrium da Torre Oeste, do Centro Empresarial Nações Unidas (CENU), localizado na capital paulista.

Durante a carreira, M. Villares desenvolveu projetos que ampliaram o alcance de sua pesquisa em iniciativas que envolveram ações formativas e colaborações institucionais. Ministrou palestras sobre a sua produção artística e processo criativo para estudantes, entre elas na UNESP (2000) e na Universidade São Judas Tadeu (1999).

Sua produção também dialoga de forma consistente com o campo editorial. Em 2007, lançou o livro de artista “Acordo íntimo entre as partes”, reunindo desenhos, colagens e aquarelas de sua autoria (Livraria da Vila, São Paulo). Nesse mesmo ano, integrou um grupo organizado por Clóvis Ferreira França, com a participação de Marcelo Araújo, Cacilda Teixeira da Costa, Stella Teixeira de Barros e outros profissionais ligados à Pinacoteca, em uma viagem pelo Rio Negro e o arquipélago de Anavilhanas, na região amazônica.

Ao longo da viagem, a artista produziu uma série de fotografias de detalhes da paisagem e elementos que captaram sua atenção. Da experiência surgiu o projeto “Água é Vida”, composto por 11 imagens acompanhadas por trechos de poemas de Manuel de Barros. O projeto teve como desdobramentos uma exposição no Museu Dragão do Mar (Fortaleza/2009) e um álbum fotográfico, lançado em 2011, na Livraria Tijuana/Galeria Vermelho (São Paulo).

Maria Villares participou ainda de outras publicações, como o “Álbum Comemorativo - 10 anos da Galeria Gravura Brasileira” e do livro “Lugar, tempo, olhar - Arte Brasileira na França Românica”, de Anne Louyot (Ateliê Editorial), apresentado na Pinacoteca do Estado de São Paulo (ambos lançados em 2009).

Além disso, parte de sua obra está presente em projetos gráficos e capas, a exemplo do “O Livro das Emoções: Reflexões inspiradas na psicologia do budismo tibetano”, de Bel Cesar (Editora Gaia, 2004), com a pintura “A carta” (1990), e do “Livro das Respostas - Contrapontos ao Libro de las Preguntas de Pablo Neruda”, de Diógenes de Cunha Lima (Massao Ohno Editor, 1996), com "Colóquio" (1992), obra mista sobre tela.

Séries Dentre seus trabalhos principais, algumas séries produzidas ao longo da trajetória artística se destacam:

"Muito Além da Maçã" (1993-2000)

A série revela seu interesse pela imagem do embrião, da semente e do fruto. Nas obras, M. Villares explora metáforas do corpo feminino e da origem da vida através da representação dissecada da maçã. Para a criação desse trabalho, utilizou diferentes referências, materiais e técnicas.https://www1.folha.uol.com.br/fsp/acontece/ac14079901.htm.

Em "Muito Além da Maçã" a artista usou simbologias que transitam entre o sagrado, o anatômico e o erótico. A série foi exibida em 1999 na Galeria Nara Roesler (São Paulo), sob curadoria de Maria Alice Milliet. No ano seguinte, as obras ocuparam o hall da Secretaria de Estado da Cultura do ParanáDI BIAGIO, Rita. “A ousadia da maçã”; In: Muito Além da Maça. Secretaria de Estado da Cultura, Curitiba, 2001.. Exposições que reuniram desenhos, pinturas, gravuras, objetos e instalações.

Mais recentemente, em 2024, dois objetos da série integraram a exposição “Esplendor”, na Casa do Jasmin Arte (São Paulo/SP), com curadoria de Lilian Bado . Parte dessas obras também esteve em cartaz na exposição “Correspondência 3”, realizada em 2025 no Espaço Nexus (São Paulo/SP), sob curadoria de Ernesto Bonato. "Muito Além da Maçã" foi produzida entre 1993 e 2000, com uma última obra criada em 2013.

"Nexus" (2001-2013)

Motivada pela observação de teias de aranhas cobertas pelo orvalho matinal, a série explora a metáfora das memórias tecidas pelo tempo. Dessa imagem inicial, surgiu um desejo: tricotar enormes tramas. E delas vieram outras formas ligadas aos insetos e à natureza. Foi assim que, através de desenhos, pinturas, gravuras e objetos, a artista criou representações de redes e casulos que simbolizam conexões e passagens temporais.

“Nexus” teve desdobramentos em diversas exposições nacionais e internacionais. A série foi apresentada, entre outros lugares, no ano de 2006, na Galeria Gravura Brasileira (São Paulo) e na Galeria Vicente Leite (Ceará); e no Pratt Institute, em Nova Iorque.https://www.revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/7588-29-11-2019-tramas-sao-destaques-de-exposicao-no-complexo-brasiliana.html, em 2007.

Assim como aconteceu em "Muito Além da Maçã", “Nexus” foi revisitada anos mais tarde: os trabalhos que integram a série foram criados entre 2001 e 2013, com uma última obra desenvolvida e apresentada em 2019.

Nesse ano, o percurso se desdobrou em “Tecendo o Tempo”, exposição individual que ocupou o vão central da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (USP), na capital paulista, com duas redes de 10 metros de altura e a sala do subsolo, com obras menores. A mostra teve curadoria de Luiz Armando Bagolin e Fabrício Reiner.

Legado e importância Maria Villares se destaca assim no cenário artístico brasileiro por sua versatilidade técnica e pela coerência conceitual que mantém através de diferentes meios expressivos. Seus trabalhos estabelecem diálogos entre bidimensionalidade e tridimensionalidade, explorando questões relacionadas ao corpo, à memória e às conexões temporais.

Suas obras integram importantes acervos institucionais, como a Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre), o Museo de la Solidaridad Salvador Allende (Santiago, Chile), o Museum of Latin American Art (Long Beach, EUA), o Instituto Cultural Itaú (São Paulo), o Museu de Arte Moderna (MAM/SP) e a Pinacoteca do Estado (São Paulo).

Em 2015, M. Villares inaugurou o Espaço Nexus, no Alto da Boa Vista, na capital paulista. O que a princípio seria apenas um galpão para reunir e conservar suas obras, se transformou em um local dedicado às artes e culturas contemporâneas, que abriga grande parte do seu acervo, um ateliê de gravura, um apartamento para residências artísticas, além de um extenso espaço de exposição. O local ocupa um vão de 5,5 metros entre a empena e a estrutura metálica, ao longo de 25 metros de comprimento.

A artista continua ativa, desenvolvendo projetos, promovendo e participando de exposições, o que consolida uma trajetória de mais de seis décadas dedicadas à arte contemporânea brasileira.

Formação Desenho e história da arte, com Evandro Carlos Jardim. Augôsto Augusta Cultural, São Paulo, 2018-19. Fotogravura, com Sheila Goloborotko. Museu Lasar Segall, São Paulo, 2008. Gravura em metal, com Ernesto Bonato. Ateliê Piratininga, São Paulo, 2004-08. Conferência Regional IFLA 2002 (Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas) - Arquitetura Paisagística nas Américas, Requalificação dos Espaços Urbanos/Conservação do Patrimônio Paisagístico. Estação das Docas, Belém, 2002.

Encontros Disparadores, com Sérgio Lima. São Paulo, 2000-03.

Ateliê de gravura em metal, com Cláudio Mubarac. Museu Lasar Segall, São Paulo, 2000-03.

Monotipia. London Print Studio, Londres (Inglaterra), 1998. Simpósio Imagens, Impressões e Reflexões sobre Documenta de Kassel. Paço das Artes, São Paulo, 1997.

Desenho e pintura, com Selma Daffré e Carlos Daniel. São Paulo, 1988-91.

Litografia, com Ivone Couto. São Paulo, 1987-89.

Desenho e escultura. Centro d’Arte Verrocchio, Casole d’Elsa (Itália), 1987. Workshop cerâmica, com Jacques Buchholtz. Atelier de Cerâmica Lucia Bittencourt, São Paulo, 1985.