Olavo de Medeiros Filho (Caicó, 13 de fevereiro de 1934 – Natal, 3 de julho de 2005) foi um bancário e historiador, atuando principalmente no Rio Grande do Norte. Teve o Seridó e a história colonial do Rio Grande do Norte como focos principais de seus estudos.
Vida esquerda|miniaturadaimagem|260x260px|Olavo de Medeiros Filho autografando Gênese Natalense Era filho do médico Olavo da Silva Medeiros e da professora de inglês Severina Dantas de Medeiros. Atuou como um historiador voltado para temas regionais e destacou-se como um dos mais importantes estudiosos da história colonial do Rio Grande do Norte, ficando lado a lado de nomes como Tavares de Lyra, Câmara Cascudo e Hélio Galvão. Ao todo, é autor de 31 publicações, reunidas em torno de 16 livros e 15 plaquetes, além de inúmeros artigos publicados em jornais e revistas.
Olavo de Medeiros Filho passou apenas os seis primeiros em Caicó, vindo depois a morar em Natal em 1940. Ingressou no Banco do Brasil em 1952, aposentando-se em 1982. Ainda menino, acompanhado de um caderno, costumava anotar as narrativas dos mais velhos, que sempre lhe davam muita atenção. Cultuava os seus antepassados, investigando a historiografia do Rio Grande do Norte com especial interesse pelo Seridó, procurando descobrir sua referência histórica e cultural, assim como a origem das famílias que habitavam a região. miniaturadaimagem|296x296px|Tomando posse no Instituto Histórico e Geográfico, em 29/03/1982. Era membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, onde acumulava os cargos de diretor do arquivo, do museu e da biblioteca desta instituição. Além da Genealogia, os estudos de Olavo também se voltavam à história colonial do Rio Grande do Norte. Pela veracidade com que fazia suas pesquisas — quase sempre temas novos ou pouco conhecidos —, imprimia respeito. Avesso às repetições de outros estudiosos, procurava outros caminhos e alcançava deduções convincentes. É considerado o principal pesquisador e autor de livros sobre a presença holandesa no Rio Grande do Norte e, no tocante aos indígenas, seus estudos são pioneiros na desmistificação de teses consagradas acerca dos nativos que se encontravam na capitania do Rio Grande quando os conquistadores chegaram. Em suas pesquisas ficava claro o quão a contradição era necessária, vindo quase sempre a questionar outros estudiosos. No lugar de respostas prontas e acabadas, ele sempre esteve em busca de fontes as mais diversas, formando uma ideia própria e madura dos fatos, para assim desvendar percursos intrincados e não se perder em labirintos.
Andou por cartórios e igrejas, examinando arquivos, escutando narrativas e explorando bibliotecas. Daí surge em 1981, Velhas Famílias do Seridó, seu primeiro livro, publicado em 1981 pelo Centro Gráfico do Senado Federal. O livro teve toda a sua edição doada à Paróquia de Sant’Ana de Caicó, numa homenagem do autor à sua terra natal e dos seus ancestrais, como Caetano Dantas Correia. A estrutura do livro é composta de onze capítulos dedicados a patriarcas de famílias tradicionais e seus descendentes.
Obras Alguns de seus exemplares passaram anos esgotados, até que o Sebo Vermelho juntou esforços para publicar reedições de suas obras, entre elas Velhas Famílias do Seridó, Índios do Açu e Seridó, Terra Natalense, Os Holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte e outros. miniaturadaimagem|269x269px|Capa original de Velhas Famílias do Seridó
Livros publicados Velhas Famílias do Seridó. Centro Gráfico do Senado Federal, Brasília, 1981 Velhos inventários do Seridó. Centro Gráfico do Senado Federal, Brasília, 1983 Índios do Açu e Seridó. Centro Gráfico do Senado Federal, Brasília, 1984 Naufrágios no litoral potiguar. IHGRN, Natal, 1988 Caicó, Cem Anos Atrás. Centro Gráfico do Senado Federal, Brasília, Brasília, 1988 No Rastro dos Flamengos. Fundação José Augusto, Natal, 1989 Terra Natalense. Fundação José Augusto, Natal, 1991 O Engenho Cunhaú à Luz de um Inventário. Fundação José Augusto, Natal, 1994 Aconteceu na Capitania do Rio Grande. IHGRN, Natal, 1997 Os Holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte. IHGRN, Natal, 1998 Gênese Natalense. Sebo Vermelho, Natal, 2002 Cronologia Seridoense. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 2002 Ribeiras do Açu e Mossoró – Notas para a sua História. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 2003 Os Fenícios do Professor Chovenágua. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 2004 Os Barões do Ceará-Mirim e Mipibu. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 2005
Plaquetes publicadas O Terço dos paulistas do Mestre-de-Campo Manuel Tavares de Morais Navarro e a guerra dos Bárbaros. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1987 Os Holandeses na Serra de João do Vale. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1987 Notícia sobre a Fazenda do Monxoró, em 1712. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1987 Os Antigos Cronistas e os Rios Upanema, Apodi e Mossoró. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1987 Origens Genealógicas dos Morais Navarro no Nordeste brasileiro. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1988 Os Tarairiús, Extintos Tapuias do Nordeste. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1988 Alguns Descendentes de Cristãos-novos em Mossoró. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1993 Estudo Crítico sobre um Artigo de Nonato Mota. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1997 Joaquim Estanislau de Medeiros (Major Quinca Berto do Fechado). Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1998 As Salinas Holandesas no Litoral Potiguar. Fundação Vingt-un Rosado, Mossoró, 1998 Subsídios para a História da Cidade de Nísia Floresta. Sebo Vermelho, Natal, 2015 Aspectos Histórico-Geográficos do Trecho Litorâneo entre a Praia de Tibau do Sul e o Rio Sibaúna, RN – Séculos XVII e XVIII. Sebo Vermelho, Natal, 2016 Holandeses no Seridó Colonial? Sebo Vermelho, Natal, 2017 Os Tarairiús, o Rio Grande do Norte e a Guerra dos Bárbaros. Sebo Vermelho, Natal, 2021 Domingos Jorge Velho na Capitania do Rio Grande. Sebo Vermelho, Natal, 2025
Comentários sobre as obras Apesar da sua significante contribuição para a identidade seridoense, algumas críticas têm sido levantadas pelo fato do autor, em suas pesquisas genealógicas, valorizar as famílias tradicionais brancas, deixando as de origem negra em um plano secundário. Mas segundo o historiador Helder Alexandre Medeiros de Macedo ao escrever a orelha da nova edição de Velhas Famílias do Seridó publicada pelo Sebo Vermelho (2022):
(...) é preciso, todavia, fazer a crítica levando-se em conta o lugar de produção a que Olavo estava ligado à época da publicação da obra: trata-se de seu primeiro grande estudo marcado por intensiva pesquisa bibliográfica e em acervos, com objetivos bastante definidos na própria introdução da obra, o que não lhe retira, em hipótese alguma o mérito. O próprio Olavo, em sua grande obra sobre o Seridó, Cronologia Seridoense (2002), fruto de duas décadas de pesquisas, reconhece que para além das famílias tradicionais “brancas”, coexistiram também no Seridó, parentelas de origem “mestiça”. Um exemplo claro de maturidade e honestidade intelectual do autor em relação a pressupostos anteriormente expressos em sua obra.
Em 1983, igualmente em edição do Centro Gráfico do Senado Federal, teve o seu segundo livro publicado. Velhos Inventários do Seridó foi o resultado de um criterioso e exaustivo trabalho de pesquisa junto a cartórios seridoenses, configurando a realidade socioeconômica da região através da descrição de inventários de bens referentes ao período 1754 a 1875. Além dos inventários específicos, há curiosidades que nos põe a par das coisas e costumes da época. Olavo tinha por característica se rebelar contra o formalmente legitimado e aceito, buscando continuamente a revelação de novos horizontes, mas sempre alicerçado no rigor documental. Nos inventários seridoenses encontra-se grande número de escravos, o que conflita com a ideia corrente de que só existiam em abundância nas zonas canavieiras. Um ano depois, em 1984, publica o trabalho Índios do Açu e Seridó também pelo Centro Gráfico do Senado Federal. Sobre a obra, faz-se significativo destacar trechos da extensa apreciação elaborada pelo professor Américo de Oliveira Costa, escritor e jurista, publicada no jornal Tribuna do Norte, de 23 de setembro de 1984, sob o título de Nossos Índios Tapuios Revisitados:
(...) o livro muito representa nos domínios da nossa bibliografia antropológica, pelo alto nível do seu conteúdo, envolvendo importantes e preciosas áreas do conhecimento de nosso passado indígena. Sem documentos não há história, dizia Paul Valéry, no seu rigorismo intelectual. O antropólogo Olavo de Medeiros Filho se impôs, no curso de seu trabalho, essa norma de exigência, deixando de lado o supérfluo e o vazio. Todas as suas revelações, observações, reflexões se baseiam em depoimentos e testemunhos de indianólogos autorizados, cientistas, viajantes, sertanistas, anotadores, desde o período seiscentista, convocados a repetir-nos constantemente as suas experiências dos contatos e vivências primitivas, tanto no texto, página por página, como na rica relação bibliográfica, do final do volume. Dentro desses limites e dessas fronteiras é que se situa o livro Índios do Açu e Seridó. Olavo de Medeiros Filho, que parece esconder-se numa modéstia quase humildade, típico sem dúvida do seu caráter e do seu temperamento, se inscreve entre os melhores nomes da cultura contemporânea de nosso Estado, no setor de estudos que lhe é consubstancial e que elegeu.
Em edição do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, publicou Naufrágios no Litoral Potiguar (1988) que trata de acidentes ocorridos na costa da Capitania do Rio Grande, no período de 1678 a 1823. Manuscritos e documentos raros integrantes do acervo do Instituto lhe serviram de base de pesquisa para a temática abordada.
No mesmo ano, debruçou-se sobre o estudo da coleção do jornal O Povo, periódico que circulou na cidade de Caicó no período de 1889 a 1892. Impresso em tipografia local, de propriedade do Sr. José Renaud, o jornal O Povo tinha como redatores os jovens Diógenes Celso da Nóbrega, Olegário Gonçalves de Medeiros Vale e Manoel Gomes de Medeiros Dantas."Em Caicó/RN, então cidade do Príncipe, no dia 09 de março de 1889 surgia o Jornal “O Povo”. Este, de tiragem semanal, conforme informava o cabeçalho de seu primeiro exemplar publicado, pertencia ao Sr. José Renaud, tendo como base de seu escritório, um sobrado do centro comercial daquela cidade sertaneja. Como redatores do Jornal estavam: Diógenes Celso da Nóbrega, Olegário de Medeiros Vale, Manoel de Medeiros Dantas e Janúncio Nóbrega Filho." Da leitura do periódico caicoense surgiu Caicó Cem Anos Atrás (1988), através do qual o autor pôde resgatar o cenário político, social e cultural da sociedade caicoense do final do século XIX, descrito pelas lentes do jornalismo local.
O escritor norte-riograndense Raimundo Nonato registra a edição do livro em artigo publicado em 04 de janeiro de 1989, sob o título Caicó, 100 Anos Atrás – Terra das mais ricas tradições: