Angela Schanelec (14 de fevereiro de 1962) é uma diretora, roteirista e atriz alemã. Associada à Escola de Berlim, seus filmes retratam a Alemanha contemporânea, depois de sua reunificação. Seus filmes Plätze in Städten e Marselha foram exibidos na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes. Em 2019, no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim recebeu o Urso de Prata pela direção de Eu estava em casa, mas.

Desde a queda do Muro, é constante tanto em obras literárias, quanto cinematográficas alemãs que a ausência, o isolamento ou os problemas de comunicação persigam a trama principal como um fantasma. A partir de uma observação concisa, Schanelec transporta a seus filmes a fragilidade do contemporâneo. Há em seus filmes a inconstância e a solidão, assim as personagens aparecem em trânsito lento, perdidas. É nesse vazio e nesse constante desconforto que moldam seu comportamento.

Biografia Entre os anos de 1982 a 1984, estudou teatro na Universidade de Frankfurt de Música e Artes Cênicas (HfMDK). De 1984 a 1991, esteve vinculada ao Schauspielhaus Köln do Teatro Thalia, de Hamburgo.

Entre 1990 e 1995, estudou direção cinematográfica na Academia de Cinema e Televisão de Berlim (dffb). Durante seus estudos na dffb conheceu Christian Petzold e Thomas Arslan e foi aluna dos "mestres do documentário e filme-ensaio Harun Farocki e Hartmut Bitomsky, que eram professores na instituição. Seu filme Das Glück meiner Schwester foi seu trabalho de conclusão.

Atualmente é professora de Narrativa Cinematográfica na Universidade de Belas Artes de Hamburgo.

Filmografia

Filmes AnoFilmeDiretoraRoteiristaAtrizOutras1994Ich bin den Sommer über in Berlin geblieben (I stay in Berlin all summer)SimNadine1995Das Glück meiner Schwester (My sister's good fortune)IsabelMontadora1998Plätze in Städten (Places in Cities)NãoMontadora2001Mein langsames Leben (A minha vida lenta)Ex-esposa de ThomasMontadora2004Marseille (Marselha)Não2007Nachmittag (Uma tarde qualquer)IreneProdutora2010OrlyNão2016Der traumhafte Weg (O caminho dos sonhos)NãoMontadora2019Ich war zuhause, aber (Eu estava em casa, mas)NãoProdutora e Montadora2023Music

Curtas Em diálogo com O Desprezo, do Godard, Schöne gelbe Farbe, seu segundo curta-metragem, sobrepõe a história de seu insuportável colega de moradia com imagens do apartamento vazio e uma narração que se estendem até a porta fechar como o disparo de um tiro. Em preto-e-branco, Weit entfernt retrata uma conversa telefônica, em que uma amiga desabafa a outra sobre seu sentimento de solidão, afastada das pessoas que ama, deseja apenas uma vez mais ter contato com seus amados. Com excertos dum ensaio de Bohumil Hrabal, Prag, März 92 inicia com um grito: "existe apenas um tempo oficial/there is only one’s own time" enquanto acompanha as ruas vazias de Praga logo após a queda da União Soviética. Ich bin den Sommer über in Berlin geblieben acompanha um casal com dificuldades de confiança e um editor que demanda de uma escritora "mais disposição e abertura para ser compreendida/more willingness to make himself understood". Weit entfernt (1991, 9 min) Schöne gelbe Farbe, Beautiful yellow color (1991, 5 min) Prag, März 92, Prague March '92 (1992, 15 min) Über das Entgegenkommen (1992, 4 min)

Linguagem O amadurecimento da trama de Schanelec acontece conforme suas estruturas cinematográficas diluem e escondem causas e motivações para os momentos de existência capturados. Fazendo com que a mera palavra dita sirva como aproximação fragmentária de acontecimentos omissos e não recriados pela narração cinematográfica. É assim em Plätze in Städten que sem construir um retrato psicológico ou social da protagonista do filme, Mimi, compõe apenas na parcela final do filme um resíduo de enredo.

E ainda em A minha vida lenta onde a justaposição de diálogos, com a constante entrada e saída de personagens em diferentes espaços, ocasiona a perda de referências narrativas. E é através da montagem e da orquestração dessas vozes desacordadas que mesmo assim o filme se ramifica e constrói um retrato de um grupo de pessoas. Assim, é através de enquadramentos e de uma montagem que esconde tanto quanto revela, que seus filmes atingem uma tensão propriamente cinematográfica feita de um suspense não narrativo, que decorre do próprio processo perceptivo, retendo coisas que gostaríamos de ver ou saber nos deixando presos entre a expectativa e a frustração.

Desenhando um cinema que oscila entre uma presença saturada da palavra e um mutismo dos personagens, as palavras são observadas na sua opacidade, tal como os corpos e microações das personagens, através de longas cenas dialogadas. Essa oscilação entre a abundância de informação linguística e a ausência de mudanças visuais reflete num trabalho de experimentação sobre as possibilidades de desdramatização da narrativa cinematográfica e das suas estruturas convencionais.

Crítica No lançamento de seu oitavo filme, O caminho dos sonhos, Patrick Holzapfel, do Cineuropa escreve que Angela Schanelec observa as nuances do cotidiano e a pressão do tempo em movimentos episódicos. Regularmente, em seus filmes, passamos um tempo com um grupos de pessoas: em Uma tarde qualquer, inspirada e baseada na peça de Tchekhov, A gaivota, passamos uma tarde com uma família entre seu lago e sua casa; enquanto em Orly, observamos uma série de personagens à espera de seu avião no aeroporto de Orly. A esse tipo de dramaturgia, o cineasta Thom Andersen classificou como 'filmes de passeio e companhia/hanging-out films', porém o proposto por Schanelec não se enquadra ao aconchego e relaxamento. Ao oposto, seus personagens vasculham suas incertezas e dúvidas e o tempo gasto pela diretora nesse modelo de personagem abre a oportunidade de descobrirmos uma esfera pouco vista do cotidiano. A sua direção e roteiro, acrescidas à fotografia de Reinhold Vorschneider, enviam o público a locais onde aparentemente nada acontece e a partir daí, revelam pequenas feridas que eles coletaram por toda uma vida.

Na retrospectiva sobre o trabalho da diretora alemã, Laura Davis, do British Film Institute, diz que os filmes de Schanelec são construídos envolta de um texto composto de fissuras que permitem as múltiplas interpretações e especulações do público. A recusa da diretora em comentar e conceder interpretações sólidas sobre seu trabalho faz com que seu estilo seja difícil de ser copiado. Assim, nos seus filmes, a tensão fala mais alto que a história.

Como ocorre em todos os filmes de Schanelec, a “ação” real não está no enredo, mas sim em seus modos de representação cinematográfica. Rostos e paisagens urbanas são apresentados em composições luminosas e com tomadas sutilmente enquadradas que deliberadamente ocultam na mesma medida em que revelam.

Prêmios e indicações FilmeCategoriaPrêmioAnoSituaçãoDas Glück meiner SchwesterMelhor FilmeAssociação Alemã de Críticos de Cinema (Preis der deutschen Filmkritik)1996VencedorPlätze in StädtenMelhor FilmeUn certain Regard em Cannes1998IndicadoMarselhaMelhor RoteiroAssociação Alemã de Críticos de Cinema (Preis der deutschen Filmkritik)2004VencedorMelhor FilmeUn certain Regard em CannesIndicadoOrlyMelhor FilmeFestival de Cinema Alemão em Ludwigshafen (Filmkunstpreis)2010VencedorO caminho dos SonhosMelhor FilmeLeopardo de Ouro no Festival de Locarno2016IndicadoMelhor FilmeAssociação Alemã de Críticos de Cinema (Preis der deutschen Filmkritik)2018Eu estava em casa, masMelhor FilmePrêmio Zabaltegi-Tabakalera no Festival de San Sebastián2019VencedorMelhor FilmePrêmio Masters do Festival de Toronto (tiff)IndicadoMelhor FilmeAssociação Alemã de Críticos de Cinema (Preis der deutschen Filmkritik)Melhor RoteiroMelhor EdiçãoMelhor FilmeUrso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de BerlimMelhor DireçãoUrso de Prata no Festival Internacional de Cinema de BerlimVencedorMelhor FilmePrêmio Ástor de Ouro no Festival Mar del PlataIndicadoMelhor DireçãoPrêmio Ástor de Prata no Festival Mar del PlataVencedor

Ver também

Escola de Berlim Christian Petzold Ulrich Köhler Maren Ade

Bibliografia

Trabalhos Dornbusch, Claudia S. «1989 e as consequências: as representações da ausência no cinema pós-muro». Pandaemonium Germanicum (17), 2011. Duarte, Susana Nascimento. «Saturação e rarefação da palavra no cinema de Angela Schanelec» (PDF). CCBB: Escola de Berlim, 2013. Walter, Janaina Cordeiro. «Entre o invisível e o imaginado» (PDF). Compós, Brasília/DF. Anais XXIV Compós, p. 1-15, 2015.

Reportagens Carlos, Cássio Starling. «'O Caminho dos Sonhos' nos atinge via perda, desconexão e abandono», Folha de S. Paulo, 14 de junho de 2018. Davis, Laura. «Where to begin with Angela Schanelec». British Film Institute (em inglês), 18 de fevereiro de 2020. Picard, André. «Let's Dance: The Films of Angela Schanelec». TIFF (em inglês), 04 de dezembro de 2019. Perrin, David. «Angela Schanelec: Life is Slow» Mubi (em inglês), 28 de abril de 2018. Sicinski, Michael. «Angela Schanelec: The Decisive Cut» Mubi (em inglês), 05 de abril de 2018. Williams, Blake. «Saying Something: The Films of Angela Schanelec» (em inglês), 2016. Schanelec, Angela. «Marseilles Diary» (em inglês), 27 novembro de 2017. Traduzido e publicado por Giovanni Marchini Camia para a quinta edição da Revista Fireflies, em 2017, os Diários foram escritos por Schanelec em 2002 enquanto ela preparava seu filme: Marseille. A versão original, em alemão está disponível aqui. Holzapfel, Patrick. «Angela Schanelec, Director». Cineeuropa, 04 de outubro de 2018.

Entrevistas O que se vê quando as pessoas falam? Uma conversa com Angela Schanelec», entrevista por André Dias, publicada no blog “Ainda não começamos a pensar”, em fevereiro de 2008.

Ligações externas Focus: Angela Schanelec. Mostra especial na Tabakalera: Centro de Cultura Contemporânea Internacional em San Sebastián, Espanha, em 2019. Find without seeking: the films of Angela Schanelec. Mostra especial no Harvard Film Archive (HFA), Cambridge, em janeiro e fevereiro de 2020. Dreamed Paths: The Films of Angela Schanelec. Mostra especial no Film Society of Lincon Center, Nova Iorque, em fevereiro de 2020. Site de Ich war zuhause, aber, Eu estava em casa, mas, seu último filme.

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