Charles-Antoine-Guillaume Pigault de l'Épinoy (Calais, 8 de abril de 1753 — La Celle-Saint-Cloud, 24 de julho de 1835), mais conhecido por Pigault-Lebrun, foi um romancista e dramaturgo que se distinguiu pelo tom jocoso, e muitas vezes iconoclasta, das suas obras. Biografia Oriundo de uma família com tradições aristocráticas, que a tradição afirmava ser descendente de Eustache de Saint Pierre, foi filho de Guillaume-Antoine-Hippolyte Pigault de l'Épinoy e de sua esposa Antoinette Maché de Lespinoy (1732-1793). O pai er magistrado, com fama de grande severidade, presidente da câmara de Calais, conselheiro do rei, presidente da comissão da fazenda real, tenente-general da polícia da cidade e do governo de Calais, elevado a conde romano e cavaleiro da Ordem da Espora de Ouro por bula do papa Clemente XIII de 1764, bem como a cavaleiro imperial por José II do Sacro Império Romano-Germânico em 1769.Nobiliaire universel de France ou Recueil général des généalogies historiques des maisons nobles de ce royaume, Volume 3, 1815
Pigault fez os seus estudos secundário na escola da Congregação do Oratório de Boulogne-sur-Mer, findo os quais foi enviado para estagiar numa casa comercial em Londres, mas, tendo seduzido o filha do patrão, e esta tendo morrido no naufrágio do navio em que os dois amantes fugiram, não se atreveu a retornar a Inglaterra e voltou para Calais, onde seu pai, o severo magistrado, o fez prender por meio de uma carta de selo (lettre de cachet), uma ordem do rei de França que no período anterior à Revolução Francesa permitia o aprisionamento sem julgamento.
Depois de dois anos de cativeiro, foi admitido na gendarmeria de elite da Casa Real e tornou-se, pela sua franqueza, alegria e amor pelos prazeres, um dos mais populares membros do regimento. Suprimida a guarda de elite, voltou para Calais, protagonizou um novo caso de amores proibidos e foi novamente preso por lettre de cachet a pedido do seu pai. Este segundo cativeiro durou dois anos, após os quais escapou ao controlo paterno e tornou-se actor ambulante percorrendo os teatros de província. Apesar de péssimo actor, porém, ele conseguia agradar ao público com a sua inteligência e bom humor. Tendo seduzido a filha de um trabalhador em Paris, levou-a para a Holanda, casou com ela e fixou-se em Bruxelas e Liège, continuando a actuar, dando aulas do francês e apresentando algumas peças de sua composição, entre outras, Il faut croire à sa femme [É preciso acreditar na esposa], comédia em um ato, em verso, que apareceu em 1786.
No entanto, seu pai, ao saber a notícia do seu casamento, fez com que Pigault fosse desnaturalizado e inscrito nos registos civis de Calais como já não existindo. Não contente com isso, apresentou um pedido ao Parlamento de Paris que, por decreto, confirmou a morte de Pigault. Face a isso, mudou o seu nome de Pigault de l'Epinoy para passar a ser Pigault-Lebrun. A Queda da Bastilha salvou-o de outra lettre de cachet e de nova prisão a pedido paterno. Indignado com a perseguição que seu pai lhe movia, compôs sobre as suas últimas aventuras uma comédia em cinco actos, em prosa, intitulada Charles et Caroline [Charles e Caroline], que levou à cena no Théâtre des Variétés du Palais-Royal (antigo Théâtre des Variétés-Amusantes) em 1789 e em 1790. Apesar da pobreza das declamações, da fragilidade do enredo e dos personagens, aplausos animados saudaram esta peça onde o acento da verdade se fazia sentir. O autor foi admitido no Théâtre-Français simultaneamente como encenador, diretor e actor.
Contudo, cedo interrompeu a carreira teatral por se alistar no regimento de dragões, onde foi nomeado segundo-tenente e com o qual participou na Batalha de Valmy. Depois de uma comissão de serviço em Saumur, em 1793, como chefe da remonta do regimento, abandonou o serviço militar.
No ano imediato publicou um de seus romances mais populares, o romance de aventuras L'Enfant du carnaval [A criança do Carnaval] cujo sucesso fez com que seu pai reconsiderasse a sua relação com ele, a ponto de o ter mesmo favorecido no seu testamento como o filho mais velho, o que Pigault-Lebrun rejeitou não aceitando nada além do que lhe era devido por divisão igual entre os seus irmãos e irmãs.
Em 1806 obteve um emprego na administração alfandegária, o qual manteve até 1824. Paralelamente serviu como bibliotecário de Jérôme Bonaparte, rei da Vestfália. Foi amigo pessoal e colaborador do grande actor François-Joseph Talma. Nos seus últimos anos viveu uma velhice patriarcal, entre os seus filhos e netos.
A qualidade dominante da obra de Pigault-Lebrun é a sua verve, uma característica que estava profundamente enraizada na sua natureza, até porque não era jovem quando produziu a sus obra, já que tinha quase quarenta anos quando escreveu seu primeiro romance. A obra dá relevo às loucuras da alegria e da boa-vida e não procura esconder a indecência que estava então na moda. O leitor, a princípio desencorajado por múltiplas aventuras que chegam à extravagância e à grosseria, é levado pelo movimento, a fecundidade da imaginação e a alegria inesgotável a que às vezes são acrescentadas belas observações e vislumbres de sensibilidade. A forma, que por vezes deixa a desejar do ponto de vista da correcção estilística, tem a vivacidade própria do carácter do autor.
Um dos seus irmãos, Gaspard-Jean-Eusèbe Pigault de Beymont, conhecido por Pigault-Maubaillarcq, nascido a 15 de dezembro de 1755 em Calais e ali falecido a 1 de dezembro de 1839, publicou dois romances do género usado por Ann Radcliffe intitulados la Famille Wieland (Paris, 1809, 4. vol. in-12) e Isaure d’Aubigné (1812, 4 vol. in-12).
Pigault-Lebrun foi avô de Émile Augier e bisavô de Paul Déroulède, de André Déroulède e de Émile Guiard. Obras publicadas
Pigault-Lebrun é autor dos seguintes romances: L'Enfant du carnaval (1792) Les Barons de Felsheim (1798) Le Cordonnier de Damas Ou La Lanterne Magique, Piéce Curieuse (1798) Angélique et Jeanneton (1799) Mon oncle Thomas (1799) - com episódios retratando a cidade de Angra, nos Açores. Les Cent-vingt jours (1799) La Folie espagnole (1799) M. de. Kinglin (1800) Théodore (1800) Métusko (1800) M. Botte (1802) Jérôme (1804) La Famille Luceval (1806) L'Homme à projets (1807) Une Macédoine (1811) Tableaux de société (1813) Adélaïde de Méran (1815) Le Garçon sans souci, em colaboração com R. Perrin (1816) M. de Roberval et l’Officieux (1818) L'Homme à projets (1819) Nous le sommes tous (1819) L'Observateur (1820) Le Beau-père et le gendre, em colaboração com o seu genro Victor Augier (1820) La Sainte-Ligue (1829)
Pigault-Lebrun escreveu para o teatro diversas peças, com sucesso semelhante ao dos seus romaces: Le Pessimiste, comédie en un acte, en vers (1789) L’Amour et la Raison, comédie en un acte, en prose (1791) Les Dragons et les Bénédictines, vaudeville (1791) Les Dragons en cantonnement, vaudeville (1794) Les Rivaux d’eux-mêmes, comédie en un acte, en prose (1798), muitas vezes representada no Théâtre-Français, etc.
Os seus romances e a sua obra para teatro, bem como as suas Mélanges littéraires et critiques (1816, 2 vol. in 8) [Miscelâneas literárias e críticas], foram reunidos sob o título de Œuvres complètes (Paris, 1822-1824, 20 vol., in-8) [Obras completas]. Ainda se conhece deste autor a obra le Citateur (1803, 2 vol. in-12) [O citador], recolha de citações contra a religião cristã, amplamente baseado em ditos de Voltaire que foram complementados com piadas ao estilo do autor; este livro, publicado com as iniciais P-T L.B., foi apreendido e condenado sob a Restauração, mas, talvez por isso, foi reimpresso várias vezes após 1830. É também autor de uma Histoire de France abrégée, à l’usage des gens du monde (1823-1828, 8 vol. in-8) [História de França resumida para o uso das pessoas do mundo], obra que só conbre o período até à morte de Henrique IV da França. Outra das suas obras é Contes à mon petit-fils (1831, 2 vol. in-12) [Contos para o meu neto]. Referências
Bibliografia Jean-Nicolas Barba, Souvenirs, Paris, Ledoyen et Giret, 1846 Stéphaphe Audeguy, L'enfant du carnaval, Gallimard, 2010 Études Drômoises n.º 1-2 (1995), editado pela Association universitaire d’Études drômoises. Gustave Vapereau, Dictionnaire universel des littératures, Paris, Hachette, 1876, Pigault-Lebrun, L'enfant du bordel ou les aventures de Chérubin. Zulma, Cadeilhan, 2002 (reedição de obra aparecida em 1800) (ISBN 9782843042133).
Ligações externas
Ses pièces de théâtre et leurs représentations sur le site CÉSAR
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