O Guajupiá (Gûaîupîá ou Ûaîupîá em tupiNAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil: vocabulário português-tupi, dicionário tupi-português, tupinismos no português do Brasil, etimologias de topônimos e antropônimos de origem tupi. São Paulo: Global, 2013. p. 131.) é o paraíso mítico na cosmologia e mitologia de povos tupis e guaranis. É um lugar sagrado no pós-vida, para onde as almas dos grandes guerreiros, heróis e xamãs vão para desfrutar da felicidade eterna.
O paraíso do pós-vida Os tupinambás acreditavam na existência do Guajupiá, um paraíso criado pelo Pai Grande (MonãVAINFAS, Ronaldo. Idolatrias e milenarismos: a resistência indígena nas Américas. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 9, p. 29-43, 1992. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/article/view/2329. Acesso em: 4 jun. 2026.) para os mortos situado para "além das montanhas" no oeste (o religioso francês Yves d'Évreux diz, mais precisamente, além dos Andes), alcançado com auxílio de rituais fúnebres e mais facilmente por aqueles com mérito bélico. Lá, os mortos se reúnem com seu "Avô" e com seus antepassados e vivem eternamente em festas, danças e fartura, divertindo-se sem cessar.D’ABBEVILLE, Claude. (1874). História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circumvisinhaças. Typ. do Frias. https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/221724THEVET, André. Les singularitez de la France Antarctique. Nouvelle édition avec notes et commentaires par Paul Gaffarel. Paris: Maisonneuve & Cie, 1878. 459 p. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/518771. Acesso em: 2 jun. 2026.
Monã é o "Grande Pai" descrito por André Thevet ou o "Avô" conforme escrito por Claude d’Abbeville (Tamoï, Tamũîa, "Avô" em tupi, conhecido como Ñane Ramõi, "Nosso Avô", pelos guaranis), que se retirou para o poente, onde estabeleceu o paraíso terrestre no qual os mortos vão encontrar-se com esse deus e o qual os vivos também esperam alcançar. Os guaraios contam que os mortos, quando vão ter com Tamoї (que eles chamam AbaanguiCARDÚS, José. Las misiones franciscanas entre los infieles de Bolivia: descripción del estado de ellas en 1883 y 1884. Barcelona: Librería de la Inmaculada Concepción, 1886. 429 p. Disponível em: https://books.google.com.br/books/about/Las_misiones_franciscanas_entre_los_infi.html?id=bBcrAQAAMAAJ. Acesso em: 7 jun. 2026.), são imersos em uma bacia, de cujo banho saem na idade de contrair matrimônio (isto é, rejuvenescidos). O mesmo motivo encontra-se no mito tembé e, talvez também, nas crenças dos xipaias.MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267). Disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/40/1/267%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf. Acesso em: 28 maio 2026.
O Guajupiá é acessível apenas a alguns escolhidos, geralmente selecionados dentre homens que personificam certos ideais contidos no código de conduta tupinambá. Os perversos, os efeminados e os covardes são consumidos na danação eterna, levados por Jurupari ou Anhanga, que atormentam aqueles que não vivem segundo os bons costumes, que não hão demonstrado bravura nas guerras ou capturado numerosos inimigos, sacrificando-os ritualmente.FERNANDES, Florestan. Organização social dos Tupinambá. 2. ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963. 331 p. (Corpo e Alma do Brasil). Disponível em: http://www.etnolinguistica.org/biblio:fernandes-1963-organizacao. Acesso em: 2 jun. 2026.
Os xamãs (pajés e caraíbas) são chamados de Guayupiá yára, "senhores do Guajupiá".RUIZ DE MONTOYA, Antonio. Tesoro de la lengua guaraní. Madrid: Juan Sánchez, 1639. 407 f. Disponível em: http://www.etnolinguistica.org/biblio:montoya-1639-tesoro. Acesso em: 13 jun. 2026.
Não se deve confundir o Guajupiá com a Yvy Marã E'ỹ, ilha mítica onde não haveria morte, fome, guerras ou doenças no Oceano Atlântico ao leste.
Ver também Campos Elísios Céu (religião) Paraíso Terra sem males Valhala
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