miniaturadaimagem|300x300px|Da esquerda para a direita: Júlio César, Crasso e Pompeu. O Primeiro Triunvirato foi uma aliança política informal estabelecida em 60 a.C., na República Romana, entre Júlio César, Pompeu, o Grande e Marco Licínio Crasso, que haveria de se prolongar até 53 a.C..

Em Roma, o início da década de 50 a.C. foi marcado pela união de três homens: Júlio César - acabado de ser eleito cônsul; Pompeu - extremamente popular junto dos cidadãos devido às suas conquistas militares, mas desprezado pela classe senatorial pela falta de sangue azul da sua família; Crasso - considerado o homem mais rico de Roma, mas a quem faltava influência política. Uma vez que César não tinha aliados políticos, Pompeu não conseguia obter terras de cultivo para os veteranos das suas legiões e Crasso não era levado a sério na sua ideia de conquistar o Império Parta, os três juntaram-se para unir esforços.

Ao contrário do Segundo Triunvirato, este acordo era informal e não continha nenhum valor jurídico. A única transacção efectuada foi a de Júlia Cesaris, filha de César, que se tornou mulher de Pompeu num casamento que haveria de se revelar feliz.

Durante o seu consulado em 59 a.C., César legislou terras para os soldados de Pompeu, apesar de forte contestação da facção conservadora do senado, e leis que favoreciam os negócios de Crasso. Em troca, obteve o apoio de Pompeu para conseguir o governo da Gália e iniciar a conquista de toda a região (Guerras Gálicas). Em 55 a.C., Pompeu e Crasso foram eleitos cônsules em parceria e prolongam o poder de César na Gália por mais cinco anos. Crasso assegurou ainda os fundos e legiões para a tão desejada campanha persa.

No ano seguinte, a morte de Júlia enfraqueceu a relação entre Pompeu e César e, em 53 a.C. Crasso foi morto pelos partas na Batalha de Carras. Sem mais nada a uni-los, Pompeu e César desfazem a aliança e transformam-se em inimigos.

Nomenclatura O termo «Primeiro Triunvirato», embora amplamente difundido, é considerado enganoso e rotineiramente evitado por historiadores modernos da República tardia. Comissões colegiadas constituídas por um número fixo de magistrados, como os decênviros (decemviri), eram instrumentos regulares da administração pública romana, mas essa aliança política não correspondia a nenhuma dessas magistraturas. A expressão inexiste nas fontes clássicas da Antiguidade, não designa nenhum cargo público legalmente constituído e é «completa e manifestamente errônea». No mundo romano, a aliança tripartida era designada por termos variados: Cícero, em texto contemporâneo, referiu-se a «três homens» (tris homines)Cic. Att. 2.9.2, citado por . que exerciam um regnum; uma sátira de Marco Terêncio Varrão chamou-a de «monstro de três cabeças» (tricaranos); historiadores posteriores, como Suetônio e Tito Lívio, descreveram a união como uma societas ou conspiratio; já os próprios aliados «presumivelmente se referiam a ela apenas como amicitia».

O emprego da palavra «triunvirato» para definir esse acordo político não encontra registros no Renascimento. Identificada pela primeira vez em 1681, a designação começou a se consolidar apenas ao longo do século XVIII; durante muito tempo, desconhecia-se que a expressão se tratava de uma criação moderna, fato demonstrado apenas em 1807. No século XIX, o uso já era relativamente frequente — sobretudo na historiografia em línguas inglesa e francesa, mas não em alemão —, sendo quase sempre acompanhado de advertências explícitas de que o termo não aludia a nenhuma magistratura oficial.

Em décadas recentes, pesquisadores passaram a rejeitar por completo a expressão em publicações acadêmicas. Harriet Flower, na obra Roman Republics, afirma que «Primeiro Triunvirato» é um termo «enganoso ao equiparar a conjuntura da década de 50 a.C. ao triunvirato oficial de Antônio, Lépido e Otaviano», preferindo empregar «aliança» ou «os três grandes» (Big Three). Estudos de Andrew Lintott e Richard Billows igualmente evitam a menção a «Primeiro Triunvirato». Outros especialistas apontam razões conceituais adicionais; Robert Morstein-Marx, em seu livro de 2021 Julius Caesar and the Roman People, pontua: «é quase impossível empregar a expressão "Primeiro Triunvirato" sem adotar alguma variante da premissa de que se tratava de uma espécie de conspiração contra a República... A nomenclatura importa... Eu evito por completo o tradicional "Primeiro Triunvirato"».

Autores voltados à divulgação histórica para o grande público também têm evitado o termo. Mary Beard, por exemplo, emprega a expressão «Bando dos Três» (Gang of Three) em sua obra de 2015, SPQR. Outros historiadores, como Adrian Goldsworthy, mantêm a denominação tradicional, embora pontuem didaticamente a sua imprecisão técnica.Ver, por exemplo, . A quarta edição do Oxford Classical Dictionary, por sua vez, ressalta que «a coalizão formada entre César, Pompeu e Crasso em 60 a.C. foi inteiramente oficiosa e jamais descrita à época como um triunvirato... "Primeiro" e "Segundo Triunvirato" são termos modernos e enganosos».

História

Formação A aliança entre Pompeu, Crasso e César emergiu da incapacidade mútua de aprovarem pontos centrais de suas agendas políticas diante da paralisia institucional em que se encontrava a República Romana nos anos que antecederam 60 a.C. Todos os três tinham reivindicações prementes, mas vinham sendo sistematicamente bloqueados por seus opositores no Senado e nas assembleias populares.

Pompeu Pompeu havia retornado dois anos antes da Terceira Guerra Mitridática e necessitava da ratificação dos acordos diplomáticos e assentamentos territoriais que estabelecera no Oriente. Também buscava a concessão de terras públicas para o assentamento de seus veteranos de guerra desmobilizados. Após retornar da Guerra Sertoriana na Hispânia em 71 a.C., ele conseguira aprovar uma distribuição semelhante; por isso, enviou aliados a Roma para concorrerem ao tribunato da plebe a fim de apresentarem as leis necessárias (tentativa rechaçada em 63 a.C. pela oposição do então cônsul Cícero em seus discursos De lege agraria). Novas investidas em 62 a.C. terminaram com a fuga da cidade de seu tribuno aliado. Embora tenha elegido um de seus partidários, Marco Púpio Pisão Frúgio Calpurniano, como cônsul para 61 a.C., um escândalo religioso imprevisto paralisou os trabalhos e inviabilizou a votação das leis agrárias. Por meio de subornos massivos, Pompeu conseguiu eleger mais aliados para o ano de 60 a.C. (Lúcio Afrânio como cônsul e Lúcio Flávio como tribuno da plebe), mas ambos foram igualmente neutralizados. Catão, o Jovem e Quinto Cecílio Metelo Céler articularam uma ferrenha frente obstrucionista, motivados tanto pela animosidade contra a substituição irregular do amigo Lúculo no comando contra Mitrídates e pelo recente divórcio de Pompeu da meia-irmã de Céler (uma tentativa frustrada de contrair matrimônio com a família de Catão), quanto pelo temor à excessiva concentração de poder nas mãos de Pompeu. Lúculo abandonou a semiaposentadoria para exigir um escrutínio detalhado de cada cláusula dos arranjos orientais de Pompeu, o que atrasaria a tramitação indefinidamente. Desprovido de magistrados hábeis em Roma — tanto Pisão quanto Afrânio mostraram-se inoperantes —, Pompeu viu-se forçado a buscar alianças alternativas.

Crasso Crasso era um dos homens mais abastados de Roma, tendo acumulado vasta fortuna beneficiando-se das proscrições de Sula. Atuava como patrono e porta-voz dos homens de negócios da ordem equestre (equites), os publicanos. Ele havia compartilhado o consulado com Pompeu em 70 a.C. Esses consórcios de publicanos haviam arrematado contratos de arrecadação de tributos na província da Ásia (partes da atual Turquia) por lances excessivamente inflacionados, não prevendo o impacto destrutivo da Terceira Guerra Mitridática na economia regional. Os clientes de Crasso exigiam um abatimento no valor acordado que eram obrigados a repassar ao tesouro público, demanda que foi terminantemente barrada por Catão e Céler no Senado em dezembro de 61 a.C. Embora senadores moderados como Cícero considerassem censurável os publicanos pedirem a anulação de contratos apenas porque superestimaram seus lucros, o plenário senatorial inclinava-se a conceder a anistia antes da intervenção de Céler. Crasso, por sua vez inimigo pessoal de Pompeu, liderou em 60 a.C. a oposição às propostas de terras e aos acordos orientais do general, mobilizando com êxito senadores de escalões inferiores para derrotar tais projetos. A resistência de Crasso visava aproximar-se da facção senatorial conservadora que travava seus próprios pleitos, estratégia que não rendeu os frutos desejados. A renegociação fiscal era questão de honra para Crasso, cuja autoridade e reputação política dependiam de demonstrar eficácia como defensor da influente classe equestre.

César Em meados de 60 a.C., César regressava a Roma após governar a Hispânia Ulterior. Naquele instante, era o elo menos poderoso dos três, embora houvesse conquistado a prestigiada dignidade de pontífice máximo em 63 a.C. contra fortes concorrentes. Enérgico e colaborador leal de Pompeu ao longo da década anterior, mantinha-se também vinculado financeiramente a Crasso, fiador de suas pesadas dívidas eleitorais. Retornando antecipadamente da Espanha em junho de 60 a.C., deparou-se com um dilema legal: cruzar o pomério da cidade para formalizar sua candidatura ao consulado implicava a renúncia compulsória ao seu comando militar (imperium) e o abandono de seu direito ao triunfo romano, ao passo que aguardar a concessão do triunfo do lado de fora o impediria de inscrever-se a tempo. Embora o Senado costumasse autorizar candidaturas in absentia, Catão discursou continuamente até o encerramento da sessão (*filibuster*) para impedir a deliberação; de modo surpreendente, César abriu mão de seu triunfo e ingressou em Roma para disputar o consulado. Reconhecendo o favoritismo eleitoral de César, Catão e seus aliados articularam duas medidas preventivas: aprovaram previamente no Senado a designação das futuras províncias consulares de 59 a.C. como a guarda florestal e os caminhos rurais da Itália (silvae callesque), esvaziando o comando militar de prestígio e oportunidades financeiras, e apoiaram financeiramente um candidato conservador obstinado para lhe fazer oposição.A interpretação historiográfica tradicional sustenta que o Senado atribuiu aos cônsules de 59 as silvae callesque com a intenção deliberada de prejudicar César. Pesquisadores como Rhodes e Balsdon sugeriram, alternativamente, que a medida visava resguardar a Itália de incursões pelo norte enquanto o Senado postergava decisões mais assertivas até que a ameaça na Gália se tornasse nítida. . Ambas as manobras tiveram êxito parcial: o genro de Catão e adversário declarado de César, Marco Calpúrnio Bíbulo, foi eleito cônsul colegiado ao lado de César. Vitorioso no pleito, mas com uma província inócua e um colega hostil no poder, César necessitava de uma base política robusta para superar os vetos constitucionais e obter comandos exteriores de vulto.

Cronologia A datação precisa do surgimento da aliança é objeto de debate historiográfico. Plutarco, Tito Lívio e Apiano situam o acordo antes da eleição consular de César; já Veleio Patérculo, Suetônio e Dião Cássio indicam que o pacto se consumou apenas após a eleição.