Língua acuntsú ou akuntsú pertence à família Tupari, do tronco Tupi, e é falada por três indígenas monolínguesARAGON, Carolina Coelho. Akuntsú: Organização Social. BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Fundação Nacional do Índio. Diretoria de Proteção Territorial. Coordenação-geral de Índios Isolados e de Recente Contato; 2017. do povo homônimo que vive no sudeste de Rondônia, Brasil, assentado na Terra Indígena Rio Omerê.
Marcado por conflitos com extrativistas e vítima de uma tentativa de extermínio nos anos 1980, os acuntsús se vê hoje extremamente reduzido, e com isso a língua é considerada gravemente ameaçada.ARAGON, Carolina Coelho. Fonologia e aspectos morfológicos e sintáticos da língua akuntsú. 2008. Dissertação (Mestrado em Linguística) - Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas, Universidade de Brasília, Brasília, 2008.
Os estudos do acuntsú foram iniciados pelas primeiras frentes de contato da FUNAI nos anos 1990, e hoje a língua é estudada principalmente pela professora doutora Carolina Coelho Aragon, da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Classificação A língua acuntsú é classificada como parte da família Tuparí, à qual pertencem no total cinco línguas ainda faladas atualmente: o Ayurú, o Makuráp, o Mekéns, o Tuparí e o próprio acuntsú. Todas essas línguas são faladas no estado de Rondônia e são consideradas gravemente ameaçadas.
O cladograma a seguir mostra que o Tuparí pertence ao tronco Tupi, que abrange diversas línguas indígenas da América do Sul:CABRAL, Ana Suelly A. C.; RODRIGUES, A. D. Pronomes e marcas pessoais em línguas do tronco Tupí. In: CABRAL, Ana Suelly A. C.; RODRIGUES, A. D. (Org.). Línguas Indígenas Brasileiras: Fonologia, Gramática e História. Atas, ENCONTRO INTERNACIONAL DO GRUPO DE TRABALHO SOBRE LÍNGUAS INDÍGENAS DA ANPOLL, 1, tomo I, p. 138. Belém: Editora Universitária UFPA. 2002. centro|miniaturadaimagem|793x793px|Cladograma do tronco Tupi, com ênfase na classificação do Acuntsú.NIKULIN, A., CARVALHO, F. O. de. Estudos diacrônicos de línguas indígenas brasileiras: um panorama. MACABÉA – REVISTA ELETRÔNICA DO NETLLI, CRATO, V. 8., N. 2., 2019, p. 255-305.
No entanto, a acuntsú pode ser considerada uma língua distinta de todas as outras da família Tupari, à exceção do Mekéns. Por isso, e devido à atual limitação dos dados existentes sobre a língua, ainda não é possível afirmar se ela é uma língua distinta ou um dialeto do Mekéns.
O quadro a seguir destaca palavras onde a semelhança entre o Mequéns e o acuntsú se sobressai em vista da análise de toda a família Tupari: PortuguêsacuntsúMequénsAyurúMakurápTuparíFacakɨ'pɛʔkipe sĩtgɨte ---putpe sĩĩtLenhao'datotatagopkapocatpotkopkaapMacaco pretoa'nɨ̃ɨmɛãlĩmẽ ---alẽboãrĩmẽMachadogwiʔkwi ---βiβiiOvou'mbiitaupitsaɨpiacopiaopiʔaPena'bɛbopebopeo ---pebʔoSeiokɛ̃mkẽmŋẽpŋẽm ---
Distribuição geográfica { "type": "FeatureCollection", "features": [
"type": "Feature", "properties": { "title": "Terra Indígena Rio Omerê", "description": "url=https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3939/", "marker-symbol": "circle-stroked", "marker-size": "large", "marker-color": "1d1" }, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -61.09634399414063, -12.827870017757295 ]
] }Os acuntsús vive na Terra Indígena do Rio Omerê, onde estão apenas eles e os Kanoê, outro grupo reduzido de indígenas. Acredita-se que antes da exploração da região os acuntsús viviam nas proximidades do rio Corumbiara.
Com a ocupação da região e a intensificação do extrativismo, formou-se às margens do Corumbiara a cidade de Vilhena (que hoje concentra a coordenação regional da FUNAI responsável pelos acuntsús), a 705 quilômetros da capital Porto Velho.
Nesse processo, a tribo foi cada vez mais encurralada nas proximidades da margem direita do rio Omerê, onde vive atualmente.
Contexto histórico e cultural
História O contato com a tribo acuntsú é relativamente recente, datado de 1995, por meio da Frente de Contato Guaporé, da FUNAI. Nesse período o povo já havia sido dizimado pela atividade extrativista em ascensão na região.
Antes desse contato, a única menção ao povo registrada está no livro “Tupari”, de Franz Caspar, no qual o autor registra uma menção do povo vizinho Kanoê a índios os quais eles jamais visitaram referidos por “Akontsu”.
Ao que tudo indica, o termo akuntsú, na língua Kanoê, quer dizer apenas “outro índio” ou “índios estranhos”, de modo que o nome se refere apenas a uma ausência de contato entre os povos.BACELAR, Laércio Nora.Gramática da língua Kanoê. 2004. Tese (Doutorado em Linguística) - Katholieke Universiteit Nijmegen, Nijmegen, 2004. De fato, o povo acuntsú atende por esse nome por ser assim chamado pelos Kanoê, mas carece de autodenominação.
Na década de 1970, principalmente devido à extração de madeira e da instalação de fazendas, o desmatamento se intensificou entre o alto Rio Omerê e o Corumbiara, onde viviam os acuntsús. Com o incentivo do INCRA, nesse período se distribuíram lotes de exploração na região, intensificando os conflitos entre indígenas e fazendeiros.
Na década de 1980, conforme indicam registros da FUNAI e relatos dos sobreviventes dos acuntsús, uma aldeia com cerca de 30 habitantes foi atacada em uma tentativa de extermínio, dizimando quase todos os acuntsús remanescentes. Somente em 1995, após o contato, ocorreu a demarcação das terras onde hoje vive o povo.
Cultura Chama a atenção na cultura dos acuntsús o papel ritualístico do rapé. Assim, como outras tribos da região, o tabaco tem para eles um caráter importante, sendo a cheiração de rapé um ritual de contato com ancestrais.
Outro aspecto cultural, mais relacionado à língua, é o papel da mudança de nomes na marcação de períodos em suas vidas. O cacique e pajé da tribo à época do contato passou a se chamar Konibú por denominação dos índios Mekéns, mas contava que antes seu nome era Kwatin (cobra em acuntsús), pois havia sido picado por uma cobra tempos antes.
Hoje, com o avanço da idade dos falantes e aumento do contato entre eles e outros grupos indígenas e não indígenas, rituais e práticas tradicionais têm deixado de existir, e com isso o léxico encontrado em pesquisas de campo sobre a língua também diminui.ARAGON, Carolina Coelho. A grammar of Akuntsú, a Tupian language. 2014. Tese (Doutorado em Linguística) - University of Hawai'i at Mãnoa, Mãnoa, 2014.
Fonética e Fonologia De modo geral, as sílabas do acuntsús podem ser formadas com uma única vogal (V), como em /i’top/ (“olhe”); uma consoante e uma vogal (CV), por exemplo em /taˈɾa/ (“largo”); ou ainda uma vogal e duas consoantes (CCV, VCC ou CVC), vide /ˈhat/ (“cobra”), /ˈkwini/ (“forquilha”) e /oˈajt/ (“rabo”). Dessas, a realização CV é a de maior ocorrência.
Consoantes O acuntsú apresenta 29 fones consonantais, classificados a seguir: OclusivasBilabiaisAlveolaresAlveopalataisRetroflexosPalataisVelaresLábiovelaresGlotaissurdap pp pʼ ḅʼt tt tʼ ḍʼk kʼ ġʼkʷʔsonorabggʷAfricadassurdat͡ʃsonorad͡ʒFricativassurdasonoraβNasaissonoramnɲ ǰŋFlepesɾɽAproximantessonorawj
Já quanto a fonologia, se observaram 11 fonemas consonantais, expressos a seguir: LabiaisAlveolaresAlveopalataisPalataisVelaresLábiovelaresGlotaisOclusivos e africados/p//t//tʃ//k//ʔ/Nasais/m//n//ŋ/Aproximantes/ɾ//j//w/ Esses fonemas seguem o alfabeto fonético internacional (IPA), e alguns não existem no alfabeto latino. Assim, são eles e os sons que codificam: [ɾ]EX: "r" em "touro"[tʃ]EX: "tch" em "tchau"[ʔ]EX: pausa entre a interjeição "uh-oh!"[ɲ]EX: "nh" em "arranhar"
Vogais As vogais observadas estão distribuídas em 3 graus de altura (alto, médio e baixo) e em 3 posições de recuo da língua (anterior, central e posterior). Vogais longas foram identificadas, porém as ocorrências não foram suficientes para uma interpretação.
O aspecto fonológico é marcado pela presença de cinco fonemas orais e quatro nasais, além de quatro fonemas longos orais. Todos estes se distribuem em dois anteriores, dois centrais e um posterior.
Editar Anterior Quase anterior Central Quase posterior Posterior Fechada 300px • • • u
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• • • o
• • •
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• Quase fechada Semifechada Média Semiaberta Quase aberta Aberta
Quanto às realizações vocálicas fonéticas, as seguintes ocorrem:
Editar Anterior Quase anterior Central Quase posterior Posterior Fechada 300px • •
• •
• ø • • o
• • •
•
• Quase fechada Semifechada Média Semiaberta Quase aberta Aberta Essas realizações podem também acontecer na forma de vogais longas ([u:], [ɨ:], [a:] e [æ:]), cuja ocorrência ainda não é totalmente compreendida, e na forma nasal ([ɯ̃], [ũ], [ã], [ɨ̃], [õ] e [ĩ]). Assim como as consoantes, as vogais são expressas no alfabeto fonético internacional, e algumas não existem no alfabeto latino. São elas e os sons que codificam: [ɨ]EX: No português europeu, "e" em "se"[ɯ]EX: "e" em "pegar"[ʊ]EX: "o" em "pulo"[ɪ]EX: "e" em "cine"[ø]EX: No francês, "eu" em "peu" (pouco)[ɛ]EX: "é" em "pé"[ʌ]EX: No inglês, "u" em "up"[æ]EX: Mais rara, um exemplo no português ocorre no dialeto de Algarve,AZEVEDO, Milton M. Portuguese: A Linguistic Introduction – Page 186. no "e" de "pedra" Na escrita do acuntsú, as vogais, diferentemente das consoantes, são expressas através dos fones e não dos fonemas (ver seção 5).
Variações
Alofones A língua acuntsú traz alofones tanto dos seus fonemas vocálicos quanto dos consonantais, a maioria ocorrendo em variação livre. Eles se alternam conforme as regras de ocorrência trazidas nas seções 3.1 e 3.2. Os que compartilham da mesma regra de ocorrência e decorrem do mesmo fonema variam livremente.
Quando cada fonema ocorre um fone com a mesma articulação será observado, a depender da fonotática. Assim, se uma palavra contém, por exemplo, o fonema /p/, que é oclusivo ou africado e labial, são observados os alofones [p], [pp], [pʼ], [ḅʼ], [pb], [b] e [β], que são de articulação bilabial e envolvem fricativas e oclusivas.
O mesmo ocorre entre as vogais: na situação em que o fonema /e/, que é anterior, menos alto e oral, ocorre, os alofones possíveis são [ɛ], [æ], [e], [ẽ], [ɛ̃], todos anteriores e nenhum alto. Eles variam livremente conforme a fonotática (os fones nasais, por exemplo, nesse caso só ocorrem em ambientes nasais, como em /meti/ - [mẽn'ti] ~ [mɛ̃n'ti]).
Alongamento consonantal É possível que os oclusivos /p/ e /t/ se alonguem e opcionalmente até se sonorizem em sua fase final quando em sílaba final acentuada, como por exemplo: PalavraTranscrição fonéticaAlongamento consonantalAlongamento e sonorizaçãoTradução/opi/[u’pi][u’ppi][u’pbi]meu pé/otoka/[u’tuga][u’ttuga][u’tdoga]meu umbigo
Laringalização Quando precedidas de uma oclusiva glotal (ʔ, a pausa entre os sons vocálicos na expressão “uh-oh!”), as vogais são laringalizadas. Um exemplo é a palavra /waʔi/ ([k15x15pxʔ15x15px], “pedra”), onde as vogais adjacentes à pausa glotal sofrem laringalização. Há, no entanto, outras três possibilidades para a ocorrência desse fenômeno: ele ocorre em vogais em sílabas acentuadas, quando há ênfase em certa palavra e, na fala de mulheres, quando o tema tratado envolve trauma, emoção ou dor.
Em termos de variação sexual, a laringalização é uma parte importante do fenômeno encontrado no Akunstú quanto à pronúncia de vogais, no qual o espaço vocálico feminino tende a ser maior.
Acentos Os acentos na língua acuntsú podem aparecer na última sílaba, como em /ewit/ ([ɛ’kʷit’], “mel”), ou na penúltima sílaba, como em /oakoja/ ([ua’kuja], “minha barba”). Aparentemente, a acentuação não possui caráter distintivo.
Ainda assim, é possível abstrair padrões de acentuação quando da adição de clíticos ou de morfemas: quando um clítico é adicionado, a acentuação passa a ocorre na sílaba mais próxima a ele, como mostrado em (1). Já com a adição de um morfema ao fim de uma frase, ele absorve o acento (2).
(1) kado → okado [kado] → [okado] "colar" → "meu colar"