Piragiba é uma vila do município brasileiro de Muquém do São Francisco do estado da Bahia, no Vale do São Francisco. Sua população foi estimada em 350 habitantes em 2002. Piragiba está localizada ao longo da rodovia Salvador-Brasília (BR-242-020), a 775 quilômetros de Salvador e a 82 quilômetros ao oeste do Rio São Francisco.
A Praça de Piragiba é um dos sítios arqueológicos atribuídos à Tradição Aratu mais estudados do estado da Bahia. A vila se instalou exatamente sobre uma extinta aldeia indígena, que existiu por volta de 870 AP. Diversos vestígios arqueológicos dos antigos residentes afloram do solo da vila com a constante erosão durante as épocas de chuva, mas a grande cheia do rio São Francisco, em 1971, aumentou consideravelmente a aparição de vestígios. Esse evento levou ao início de campanhas de escavações no local nos anos 90 e, até hoje, estudos e achados continuam na região.<ref name=":5" /
Desde 1996, já foram identificados mais de 140 sepultamentos na Praça de Piragiba, quase todos em urnas funerárias, o que levou o local a ser conhecido como o Cemitério de Piragiba. Além dos enterramentos, mais de 700 lâminas ‘de machado’ lascadas e milhares de lascas foram encontradas no sítio arqueológico.
História miniaturadaimagem|esquerda|Bandeira de Santana (Bahia) Santana dos Brejos, atual Santana, foi fundada como um curral de gado bovino na década de 70, do século XVII, pelo Cel. Francisco Dias D’Ávila.SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL (2016). Relatório de análise de mercados de terras região 15.1 (Muquém do São Francisco, Brejolândia, Serra Dourada, Santana e Sítio do Mato). Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária: Divisão de Obtenção de Terras e Implantação de Projetos de Assentamento. A região, a oeste do rio São Francisco e ao norte do rio Corrente, apresentava uma vastidão de terras férteis, campos naturais e brejos, de onde obteve seu nome. A grande fazenda, criada para o descanso do gado, fazia parte do “caminho do gado” da Casa da Torre, tornando-se parte do maior latifúndio brasileiro já existente.BANDEIRA, L. M. (2000) O feudo: a Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, ed. 1. Dessa forma, Santana dos Brejos foi desbravada e colonizada com a construção de currais bovinos e de sítios de cana-de-açúcar e, até hoje, mantém vastos canaviais e pastagens.<ref name=":2" /
Em 1890, Santana dos Brejos foi elevada à categoria de vila e, em 1901, foi emancipada. Apesar disso, apenas em 1931 a cidade alterou o nome de Santana dos Brejos para Santana mediante decretos estaduais.
Santana dos Nery Por volta do final do século XIX ou início do século XX<ref name=":3" /, algumas famílias de Santana dos Brejos se instalaram em um pequeno vale a 33,8 km de distância de onde viviam.<ref name=":4" /PIRAGIBA: escavacando uma história. (2014) Direção de Luydy Fernandes e Anderson Silveira. Bahia: Recôncavo Arqueológico (UFRB) e Bahia Arqueológica (UFBA), 46:25 min. Nessa região, contida entre dois contrafortes (popularmente conhecidos como “boqueirões”), foi construída uma fazenda chamada Santana dos Nery. Ao redor do núcleo dessa fazenda, foi criada a vila de Santana dos Nery, atualmente chamada de vila de Piragiba. Devido à inexistência de documentos que atestam sobre a fundação da vila até o momento, a história sobre o assentamento recente na região se baseia em informações orais dos moradores.miniaturadaimagem|direita|Vista aérea da vila de Piragiba.
Piragiba De 1944 até 1988, Piragiba designava um distrito subordinado ao município de Barra. Com a nova divisão territorial de 1989, o distrito foi elevado à categoria de município com alteração toponímica para Muquém de São Francisco, desmembrando-se de Barra.
Atualmente, Piragiba se refere a antiga vila de Santana dos Nery, localizada no município de Muquém de São Francisco do estado da Bahia, situado na microrregião de Barra.
Sítio arqueológico de Piragiba A Vila de Piragiba se encontra em um fundo de vale entre as serras Santana e Cruzeiro, onde há passagem do riacho Santana. A vila é composta por um núcleo residencial com duas fileiras com cerca de 50 casas. O espaço entre as fileiras é conhecido como “praça”, e esta situa-se sobre o sítio arqueológico, de tal forma que os vestígios arqueológicos localizam-se na praça e nos quintais das casas.<ref name=":6" /
A região apresenta regime com duas estações climáticas opostas: a seca e a chuvosa. Durante as estações chuvosas, as serras desmatadas não consegue reter a água, que acaba por encher e elevar o nível do riacho Santana. Com o grande volume de água, há o transbordamento do riacho e inundação rápida, porém agressiva, da vila de Piragiba.
Diversos fatores, como a geografia da vila, as estações chuvosas e o desmatamento ao entorno da região, confluem para a erosão contínua do solo da praça. Devido a isso, as urnas funerárias, principais vestígios encontrados na praça, são continuamente levadas à tona.
thumb|direita|Sepultamento em urna funerária escavado na Praça de Piragiba.
O mito do pote de ouro “Esses potes foram aparecendo através das águas que vinham descendo do riacho e passando pelo meio da rua. A gente não sabia o significado daquilo ali. A gente mesmo escavava ali, jogava ossada pra lá e tal, tentando achar algo importante.”- José C. da Silva, morador da Vila de Piragiba.
Antes mesmo dos arqueólogos chegarem ao sítio, a população da vila já conhecia o conteúdo das urnas funerárias. Com o aparecimento das cerâmicas, alguns moradores depredavam os vestígios, movidos pelo mito do pote de ouro. A crença na existência de potes com moedas de ouro, enterrados por jesuítas, missões religiosas ou indígenas, levou a destruição de algumas urnas. No entanto, como os próprios moradores constataram, a quebra das cerâmicas revelava apenas ossos antigos. Um único morador obteve contas feitas de ossos faunísticos de uma das urnas e passou a utilizá-las como adorno.
Após a auto-desmistificação da crença do ouro enterrado, a população de Piragiba quedou-se no reconhecimento de que as urnas funerárias eram “potes dos índios” e “panelas dos tapuias” antes mesmo das intervenções arqueológicas.
Identificação do sítio e intervenções arqueológicas Por volta dos anos 70, o rio São Francisco e o riacho Santana transbordaram e causaram uma grande erosão no solo da praça, resultando no afloramento de um grande número de urnas. Esse evento potencializou o reconhecimento do local como um sítio arqueológico anos depois, em 1992, pela geógrafa Ana Cristina Morais, que estava na região para realizar um levantamento sobre o uso de solos, para a Superintendência de Estudos e Estatísticas da Secretaria de Planejamento do Estado da Bahia.<ref name=":7" /ETCHEVARNE, C. (2012) Vila de Piragiba - Uma riqueza que vem do passado. Revista Chico - Revista do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, v.1, p. 28-30.
“Os afloramentos das urnas com ossadas são perceptíveis na praça da vila, ainda sem calçamento, mas onde já circulam caminhões e carros, que podem danificar os achados, antes mesmo de se conhecer o valor da descoberta.” - trecho do Ofício 90/92 enviado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
A geógrafa solicitou a intervenção arqueológica de professores da UFBA e, no mesmo ano, foi realizada uma visita para reconhecimento do local. A equipe foi coordenada pelo professor Carlos Etchevarne, que confirmou-se que a região de Piragiba se estrutura acima de uma ocupação pré-colonial. Nesse primeiro momento foi possível identificar dois sítios arqueológicos na localidade: o sítio da Praça de Piragiba e o sítio da Roça de Zé Preto, sendo cada um relacionado a grupos ceramistas distintos que utilizaram o mesmo ambiente em momentos diferentes.
Apenas em julho de 1996, as pesquisas arqueológicas foram iniciadas por meio do Projeto Piragiba. Os pesquisadores residiram na vila durante as escavações, que duraram um ano e meio, e conseguiram escavar três sítios arqueológicos, sendo estes localizados na praça da vila, no sítio de Zé Preto e na fazenda do Sr. Antônio Pita, estando esse último a 2 km ao leste da vila de Piragiba.
As escavações nessa época permitiram associar o sítio da praça de Piragiba à Tradição Arqueológica Aratu mediante a exumação de quase 60 sepultamentos, estando a maioria associados a urnas funerárias. As principais observações feitas pelos pesquisadores foram relacionadas a fragmentação das urnas, sobre a posição e decomposição dos corpos. O sítio de Zé Preto, como familiarmente é conhecido o Sr. José Gómes da Silva, e a fazenda do Sr. Antônio Pita foram associados à Tradição Tupiguarani, principalmente devido aos fragmentos cerâmicos associados a grandes vasilhames com decorações incisas.
Tradição aratu “O nome Aratu designa macrounidades culturais referentes a sociedades de horticultores ceramistas, que mantiveram semelhanças em alguns aspectos da cultura material, em especial na produção cerâmica e nos padrões de enterramento.”
Os grupos portadores da tradição Aratu foram identificados pela primeira vez por Valentin Calderón e foram assim nomeados por estarem na Baía de Aratu, no Recôncavo Baiano, a 18 km de Salvador. As pesquisas realizadas no litoral nordestino, principalmente na Bahia, levaram ao reconhecimento e escavação de vários outros sítios associados a essas populações identificadas pela uniformidade de sua produção cerâmica.<ref name=":8" /<ref name=":9" /
Calderón descreveu os grupos Aratu como agricultores sedentarizados que ocupavam áreas próximas de matas fluviais. Dentre os principais achados do pesquisador estão a localização de sítios a céu aberto com manchas de terra preta de dimensões variadas, alta concentração de material cerâmico simples e, como principal elemento diagnóstico da tradição, urnas funerárias. A semelhança do material, em conjunto com a extensão territorial e a existência de uma faixa cronológica contínua para os sítios permitiram o estabelecimento da tradição Aratu.<ref name=":10" /
Distribuição dos grupos aratus A distribuição das ocupações Aratu está relacionada a fatores ambientais, como inserção em áreas de ecótono, e ocorrem nas regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil. Os sítios estão localizados em áreas planas ou em pequenas inclinações próximas a fontes pequenas e médias de água corrente, concentrando-se assim nas áreas litorâneas sobre a Planície Costeira e no interior do Brasil sobre o Planalto Central e Meridional. No Nordeste, a difusão da cultura Aratu se estende por todo o litoral da Bahia, com interiorização até a região do rio Grande e a depressão sanfranciscana. Apesar das ocupações terem sido identificadas primeiro nesta região, o centro-sul de Goiás é o local de maior concentração de ocupações Aratu, também apresentando as datações mais antigas para esses grupos. Para além desse estado, os outros sítios são considerados periféricos, de migração posterior e menor coesão cultural.<ref name=":11" /MARTIN, G. (1998) O Povoamento Pré-Histórico do Vale do São Francisco (Brasil). CLIO - Série Arqueológica, v. 2, n. 13. Recife, UFPE, p. 9-41.
Elementos diagnósticos aratus 280x280px|thumb|direita|Ilustração de lâmina de machado lascada, destacando suas principais partes. A tradição Aratu não está apenas associada à presença de vestígios cerâmicos de uma unidade tecnológica específica, porém também caracteriza uma cultura de horticultores ceramistas que formavam aldeias densas com ocupações demoradas.<ref name=":13" /
Apesar de ser comuns marcas de variabilidades regionais, é possível listar alguns dos principais elementos associados à cultura Aratu:
> Sítios a céu aberto caracterizados por grandes manchas de terra preta com alta densidade de fragmentos cerâmicos;
> Disposição das manchas de habitações em formato circular ao entorno de uma praça central;
> Ocupações próximas a córregos de pequeno e médio porte;
> Ocupações em áreas planas ou de inclinação leve;