thumb|Villa Marlier, n.º 56–58 Am Großen Wannsee, onde a Conferência de Wannsee teve lugar; actualmente um memorial e um museu.|261x261px

A Conferência de Wannsee () consistiu numa reunião de membros superiores do governo da Alemanha Nazi e líderes das SS, realizada no subúrbio de Wannsee, em Berlim, a 20 de Janeiro de 1942.

O objectivo da reunião, marcada pelo director do Gabinete Central de Segurança do Reich, SS-Obergruppenführer Reinhard Heydrich, era assegurar a cooperação dos líderes de vários departamentos do governo na implementação da solução final para a questão judaica, pela qual grande parte dos judeus das regiões europeias ocupadas pela Alemanha seriam deportados para a Polónia e eliminados. Os participantes da reunião incluíam representantes de vários ministérios do governo como secretários-de-estado do Ministérios das Relações Exteriores, Justiça, e Interior, tal como ministros e representantes das Schutzstaffel (SS). No decurso da reunião, Heydrich descreveu como os judeus europeus seriam reunidos desde o oeste ao leste, e enviados para campos de extermínio no Governo Geral (a parte ocupada da Polónia), onde seriam executados.

Pouco depois da invasão da Polónia em Setembro de 1939, a perseguição aos judeus europeus atingiu níveis sem precedentes, mas a matança indiscriminada de homens, mulheres e crianças já tinha começado em Junho de 1941 depois da Operação Barbarossa contra os soviéticos. Em 31 de Julho de 1941, Hermann Göring deu uma autorização por escrito a Heydrich para que este preparasse e enviasse um plano para a "solução total da questão judaica" em territórios sob o controlo alemão, e que coordenasse a participação de todas as organizações envolvidas. Em Wannsee, Heydrich salientou que, quando as deportações em massa estivessem terminadas, as SS ficariam encarregues dos extermínios. Um segundo objectivo era definir quem era formalmente judeu e assim determinar o âmbito do genocídio.

Uma cópia do Protocolo com as suas minutas sobreviveu à guerra. Foi encontrada pelos Aliados em Março de 1947 entre documentos que tinham sido confiscados ao Ministério das Relações Exteriores alemão. O documento foi utilizado como evidências nos Processos de Guerra de Nuremberga. O Palacete Wannsee, local da conferência, é, actualmente, um memorial do Holocausto.

Antecedentes

A discriminação legalizada contra os judeus na Alemanha começou logo após a tomada do poder pelos nazis em Janeiro de 1933. A violência e a tensão económica foram temas usados pelos nazis para encorajar os judeus a, voluntariamente, deixarem o país. A ideologia nazi juntou elementos como o anti-semitismo, a higiene racial e a eugenia, e combinou-os com o pan-Germanismo e o expansionismo territorial com o objectivo de obter mais Lebensraum (espaço vital) para o povo germânico. A Alemanha Nazi tentou obter este novo território atacando a Polónia e a União Soviética, com a intenção de deportar ou exterminar os judeus e os eslavos ali residentes, que eram vistos como sendo inferiores à superior raça ariana.

A discriminação contra os judeus, há muito em prática, mas de forma ilegal, em grande parte da Europa naquele período, foi legislada na Alemanha na sequência da tomada do poder pelos nazis em 30 de Janeiro de 1933. A Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional, que passou à prática em 7 de Abril do mesmo ano, excluiu muitos judeus de exercer profissões legais e de serviço público. Legislação similar rapidamente retirou o direito aos judeus de exercer outras profissões. Pressão económica e violência foram outros métodos utilizados pelo regime nazi para forçar os judeus a partirem do país. Os negócios geridos pelos judeus viam o seu acesso ao mercado negado, eram proibidos de os promover em jornais, e de fechar contratos com o governo. Os cidadãos eram ameaçados e sujeitos a ataques violentos e a boicotes aos seus negócios.

Em Setembro de 1935, as Leis de Nuremberga foram decretadas, proibindo casamentos entre judeus e cidadãos de origem germânica, relações extra-maritais entre judeus e alemães, e a contratação de mulheres alemãs com menos de 45 anos de idade como empregadas domésticas em casas de judeus. A Lei da Cidadania do Reich estabelecia que os verdadeiros cidadãos eram aqueles com sangue alemão, ou com ele relacionado; assim, os judeus e outros grupos minoritários ficaram sem a sua cidadania alemã. Um decreto adicional emitido em Novembro definia como judeu todo aquele com três avós judeus, ou dois avós judeus se a religião judaica fosse seguida. No início da Segunda Guerra Mundial em 1939, cerca de dos judeus a viver na Alemanha emigraram para os Estados Unidos, Palestina, Grã-Bretanha e outros países.

Depois da invasão da Polónia em Setembro de 1939, Hitler deu ordem para que os líderes e a intelligentsia polacos fossem destruídos. O Sonderfahndungsbuch Polen (Livro de Acusação Especial Polónia) — listas de pessoas a serem executadas — já tinha sido previamente elaborado pelas SS em Maio de 1939. Os Einsatzgruppen (forças especiais de intervenção) levavam a cabo aquelas execuções com o apoio do Volksdeutscher Selbstschutz (Grupo Germânico de Auto-protecção), um grupo para-militar que consistia em alemães étnicos a viver na Polónia. Membros das SS, da Wehrmacht (Forças Armadas Alemãs), e a Ordnungspolizei (Polícia de Ordem; Orpo) também mataram civis durante a campanha polaca. Aproximadamente civis foram mortos até ao final de 1939. Para além dos líderes da sociedade polaca, mataram judeus, prostitutas, ciganos e pessoas com deficiências mentais.

Em 31 de Julho de 1941, Hermann Göring deu uma autorização por escrito ao SS-Obergruppenführer (Chefe de Grupo Sénior) Reinhard Heydrich, Chefe do Gabinete Central de Segurança do Reich (RSHA), para que este preparasse e enviasse um plano para uma "solução total da questão judaica" nos territórios sob controlo alemão, e que coordenasse a participação de todas as organizações governamentais envolvidas. O resultante Generalplan Ost (Plano Geral para o Leste) estabelecia a deportação da população da Europa Oriental ocupada, assim como da União Soviética até à Sibéria, para serem utilizados como trabalhadores escravos ou para serem mortos. As minutas da Conferência de Wannsee estimavam que a população judaica da União Soviética fosse de cinco milhões, e mais três milhões da Ucrânia.

Para além da eliminação dos judeus, os nazis também planearam reduzir a população dos territórios ocupados em trinta milhões de pessoas através da falta de alimentos numa operação chamada de Plano de Fome (Hungerplan ou Backe-Plan). O abastecimento de comida seria redireccionado para o exército alemão e para os civis alemães. As cidades seriam destruídas e os terrenos seriam reflorestados ou colonizados por cidadãos alemães. O objectivo do Plano de Fome era infligir a morte pela fome às populações de cidadãos eslavos sob ocupação alemã, entregando todos os alimentos à população da Alemanha e à Wehrmacht na Frente Oriental. De acordo com o historiador Timothy Snyder, "4,2 milhões de cidadãos soviéticos (na sua maioria russos, bielorrussos e ucranianos) morreram de fome" por causa dos nazis (e da Wehrmacht) em 1941–1944, resultado do plano de Backe.

As colheitas foram fracas na Alemanha nos anos de 1940 e 1941, e a comida armazenada era insuficiente, pois o número de trabalhadores forçados que tinham sido levados para o país para trabalhar na indústria do armamento foi em grande número. Se estes trabalhadores — tal como o povo alemão — fossem devidamente alimentados, devia haver uma grande redução de "bocas inúteis", dos quais milhões de judeus sob governo alemão eram, à luz da ideologia nazi, o mais óbvio exemplo.

Quando a Conferência de Wannsee foi realizada, a matança de judeus na União Soviética já estava em curso há alguns meses. Desde o início da Operação Barbarossa — a invasão da União Soviética — os Einsatzgruppen ficaram com a missão de seguir o exército para as áreas conquistadas e matar os judeus. Numa carta de 2 de Julho de 1941, Heydrich transmitiu aos seus chefes das SS e da Polícia que os Einsatzgruppen deviam executar os oficiais do Comintern, membros superiores do Partido Comunista, elementos radicais do Partido Comunista, comissários do povo, e judeus do partido ou de cargos governamentais. Outras instruções, sem limite, foram dadas para executar "elementos radicais (sabotadores, propagandistas, atiradores furtivos, assassinos, agitadores, etc.)." Heydrich deu ordens para que qualquer pogroms iniciados de forma espontânea pelos ocupantes dos territórios conquistados, deviam ser encorajados de forma discreta. A 8 de Julho, anunciou que todos os judeus deviam ser considerados partisans, e ordenou que todos os judeus masculinos com idade compreendida entre os 15 e os 45 deviam ser executados. Em Agosto, a malha foi alargada para incluir mulheres, crianças, e idosos — toda a população judaica. Na altura em que o planeamento estava a decorrer para a Conferência de Wannsee, centenas de milhares de judeus polacos, sérvios e russos já tinham mortos. O plano inicial era implementar o Generalplan Ost depois da conquista da União Soviética. Os judeus europeus deveriam ser deportados para zonas ocupadas da Rússia, onde trabalhariam até à morte em projectos de construção de vias terrestres.

Planeamento da conferência

Em 29 de Novembro de 1941, Heydrich enviou as convocações para uma conferência ministerial a ter lugar a 9 de Dezembro de nos escritórios da Interpol no n.º16 Am Kleinen Wannsee. A 4 de Dezembro, alterou o local da reunião para o actual. Incluiu uma cópia da carta de Göring datada de 31 de Julho que o autorizava a planear uma Solução Final para a Questão Judaica. Os ministérios presentes eram o do Interior, o da Justiça, o do Plano de Quatro Anos, o da Propaganda, e o Ministério do Reich para os Territórios Orientais Ocupados.

Entre a data em que os convites para a conferência foram enviados (29 de Novembro) e a data do cancelamento da primeira reunião (9 de Dezembro), a situação mudou. A 5 de Dezembro, o exército soviético deu início a uma contra-ofensiva junto de Moscovo, terminando, assim com a perspectiva de uma rápida conquista da União Soviética. A 7 de Dezembro, os japoneses atacaram os Estados Unidos em Pearl Harbor, levando os EUA a declarar guerra ao Japão no dia seguinte. O governo do Reich declarou guerra aos EUA a 11 de Dezembro. Alguns dos participantes da reunião estavam envolvidos nestes preparativos, o que levou Heydrich a adiar a conferência. Por esta altura, Hitler decidiu que todos os judeus da Europa deviam ser eliminados imediatamente, e não depois da guerra, a qual não tinha um fim à vista. Na reunião da Chancelaria do Reich de 12 de Dezembro de 1941, Hitler encontrou-se com membros da cúpula do partido e transmitiu-lhes as suas intenções. No dia 18 de Dezembro, Hitler discutiu o destino dos judeus com Himmler na "Toca do Lobo". No seguimento da reunião, Himmler escreveu uma nota no seu calendário de trabalho, que apenas dizia "Questão judaica/para serem destruídos como partisans".

A guerra continuava a decorrer, e como o transporte em massa de pessoas para zonas de combate era impossível, Heydrich decidiu que os judeus que viviam no Governo Geral (área ocupada pelos alemães na Polónia) seriam mortos em campos de extermínio instalados nas zonas ocupadas da Polónia, assim como os outros judeus do resto da Europa.

A 8 de Janeiro de 1942, Heydrich enviou convites para uma reunião no dia 20 de Janeiro. O local para a nova conferência era a Villa Marlier, no n.º56–58 Am Großen Wannsee, com vista para o Großer Wannsee. A villa tinha sido adquirida a Friedrich Minoux em 1940 pela Sicherheitsdienst (Força de Segurança; SD) para ser utilizada como centro de conferências e casa de hóspedes.

Participantes