Adonis Reis Lira de Carvalho (Recife, 6 de janeiro de 1928— Recife, 12 de fevereiro de 2014) foi um médico-patologista, professor de anatomia patológica (Titular e Emérito da UFPE) e criador do Registro de Câncer com base populacional de Pernambuco (1957). Pelo seu papel pioneiro na Patologia no Brasil, foi o primeiro latino-americano e único brasileiro a presidir a International Academy of Pathology (IAP) - (1986-1988). Também contribuiu para descoberta do papilomavírus humano (HPV) como principal causa do câncer do colo uterino, através de sua participação no projeto da International Agency for Research on Cancer (IARC, Lyon/França), sobre Carcinogênese do Colo Uterino e do pênis pelo HPV, comandado pela pesquisadora e epidemiologista Núbia Muñoz.

Biografia Adonis Carvalho nasceu no Recife, em 6 de janeiro de 1928, filho de um imigrante português, Joaquim Correia de Carvalho e uma pernambucana, Constância Lira de Carvalho. Cursou seu primeiro e segundo graus no Colégio Leão XIII e no Colégio Oswaldo Cruz, tendo ingressado ao ginásio precocemente, aos 10 anos. Com a morte da irmã Astrea, por diabetes juvenil, Adonis demonstrou pela primeira vez sua vontade em se tornar médico, no desejo de encontrar uma cura da doença.

Formação superior e atividades profissionais Em 1945, aos 17 anos de idade, ingressou na Faculdade de Medicina do Recife, como aluno classificado em 4º lugar no Vestibular e o mais jovem aluno de sua turma. Apresentou vários trabalhos à Sociedade de Internos dos Hospitais do Recife, fundada em 1926, ainda como acadêmico de Medicina. Em 1950 se tornou presidente da Sociedade. Um desses trabalhos apresentados foi publicado na Revista Acadêmica de Medicina. Foi Acadêmico Interno da Cátedra de Clínica Propedêutica Médica, serviço do Professor Arnaldo Marques, por concurso realizado em 1948, no qual obteve o primeiro lugar, exercendo essa atividade até sua formatura. Nessa função, sob a supervisão do Prof. Ruy João Marques, era responsável pelos pacientes da Secção Laennec da Enfermaria São José, no Hospital Pedro II, encarregado da revisão e da seleção de pacientes para as aulas práticas, preparação de prontuários, bem como orientação dos estudantes. Era responsável pelos exames de rotina em um pequeno laboratório existente na enfermaria. Foi plantonista do Hospital do Pronto-Socorro, após concurso em que se classificou em primeiro lugar. Como estudante, recebeu grande influência intelectual dos professores Mário Ramos, Aluízio Bezerra Coutinho, Arnaldo Marques, Ruy João Marques e Joaquim Cavalcanti.

Concluiu o curso médico em 1950, como aluno laureado da turma, o que lhe valeu ambos os prêmios que eram oferecidos à época aos alunos distintos: o Prêmio Raul Leite e o Prêmio Diario de Pernambuco. Após a colação de grau em Medicina foi contemplado com bolsa de estudos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) na Universidade de São Paulo (USP). A bolsa se referia a treinamento em laboratório especializado, no serviço de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas, sob a direção do Professor José Fernandes Pontes. Adonis frequentava nesse período os Laboratórios de Bioquímica do Hospital das Clínicas, Professor Otávio Germeck, o de Hematologia, Prof. Michel Jamra, e o Departamento de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina, Prof. Cunha Mota. Nesse último, trabalhou com o jovem assistente Dr. Mário Rubens Montenegro, em Patologia Hepática, assunto de sua predileção à época. Esse contato despertou o seu interesse pela Patologia.

Ao retornar ao Recife, ainda que designado Assistente Voluntário da Clínica Propedêutica Médica, passou a frequentar a Cátedra de Anatomia Patológica, Professor Raimundo de Barros Coelho, assistindo e auxiliando necrópsias. Em 1952 foi convidado pelo Prof. Barros Coelho para ingressar nesse serviço, nomeado como Assistente Voluntário e também para o Serviço de Verificação de Óbitos. Em 1953 aceitou o convite do Prof. Durval Lucena, catedrático de Patologia Geral da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE), para o cargo de Assistente. Em 1954 foi nomeado Assistente Efetivo da Cátedra de Anatomia Patológica da UFPE e, nesse mesmo ano, publicou seu primeiro trabalho de Patologia, um estudo sobre carcinoma primário do fígadoCARVALHO, Adonis R. L. A incidência do câncer primitivo do fígado em Pernambuco, Brasil. Anais Fac. Med. Univ. Recife, 12:3-12, 1954, Reimpresso em resumo no Journal of American Medical Association, 159: 62, 1955). No âmbito privado, fundou o Laboratório de Patologia Adonis Carvalho, pioneiro em vários aspectos práticos da Anatomia Patológica de Pernambuco.

Patologia cirúrgica oncológica em Pernambuco Em 1954, foi selecionado para uma bolsa de estudos do Institute of International Education, em New York, realizando-a no M. D. Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, Houston (EUA), sob a direção dos Drs. William O. Russell, Jack Old Jr. e Alvan G. Foraker, o qual exerceu grande influência sobre ele. Foi durante o seu período de fellowship nos Estados Unidos, que se tornou membro da International Academy of Pathology (IAP), da qual foi Presidente 30 anos depois. Nesse período, além do trabalho rotineiro de Residente em Patologia, familiarizou-se com os mais modernos processos de investigação existentes no período, os quais faziam desse hospital um centro de vanguarda em Oncologia. A sua estada no M. D. Anderson dirigiu o seu interesse para o campo da patologia dos processos neoplásicos.

Ao regressar ao Brasil, deu continuidade aos estudos que havia iniciado sobre lesões hepáticas carenciais, o que resultou na sua primeira Tese de Livre-Docência em Anatomia Patológica. Nesse trabalho, Adonis retomou o assunto de predileção do Prof. Aggeu Magalhães, fundador da chamada Escola Pernambucana de Patologia. Estudou a histopatologia da esteatose hepática em crianças desnutridas e diferenciou a síndrome identificada no seu material da descrita na África como “kwashiorkor”, bem como demonstrou a ocorrência de siderose do tipo pelagroso nos seus casos e trouxe elementos esclarecedores da transição esteatose-fibrose hepáticaCARVALHO, Adonis R. L. Histopatologia de lesões hepáticas atribuíveis à desnutrição em indivíduos de 0 a 15 anos de idade no Recife, Pernambuco, Brasil. Tese. Fac. Med. Univ. Recife 17: 11-34, 1957..

Aos 27 anos, pouco depois da sua chegada dos EUA, foi convidado pelo Diretor da Clínica de Câncer de Pernambuco (hoje Hospital de Câncer de Pernambuco - HCP), Dr. Waldemir Ferreira Lopes, para integrar a equipe da instituição, então com apenas quinze leitos. Iniciou seus trabalhos em um tempo em que as condições da Clínica de Câncer eram muito precárias. Adonis Carvalho foi aos poucos fomentando a melhoria de instalações, equipamentos e recursos humanos. A presença de um patologista disponível no serviço teve uma grande repercussão em uma clínica que carecia de profissionais devidamente treinados, o que estimulou Dr. Adonis a pleitear o estabelecimento de um Departamento de PatologiaCARVALHO, A.R.L; LIMA, M.C.A. História da Patologia em Pernambuco. In: FRANCO, M.F.; SOARES, F.A. História da Patologia no Brasil. São Paulo: Sociedade Brasileira de Patologia, 2001. p. 202-224..

Em 1958 esse objetivo se concretizou. O novo Departamento se tornou um centro acadêmico das Cadeiras de Anatomia Patológica da UFPE e de Patologia Geral da UPE. Foi responsável pela formação e treinamento de anatomopatologistas, citopatologistas, citotecnologistas e médicos residentes de várias procedências do país. Através do Prof. Adonis, esse hospital foi pioneiro no exame intraoperatório para diagnóstico por congelação em 1954. Entusiasta das novas tecnologiasCARVALHO, A. R. L.; LIMA, M. C. A. E. Anatomia Patológica e a alta tecnologia. Vitro Cancerologia, Rio de Janeiro, v. 1, p. 25-30, 1993; CARVALHO, A. R. L. O anátomopatologista do futuro. Jornal do Anatomopatologista, São Paulo, v. 3, p. 1-1, 1988; CARVALHO, A. R. L.; Abreu-e-Lima, M. C. C . Simulação por computadores em Anatomia Patológica - Um programa para estudo de proliferacão neoplásica. In: Jornada de Anatomia Patológica, 1993, São Paulo. Jornal do Anatomopatologista. São Paulo, 1993. v. 8. p. 4-5; CARVALHO, A. R. L. Análise de Imagem Em Anatomia Patológica. In: XVI CONGRESSO LATINOAMERICANO DE PATOLOGIA, 1987. SALVADOR - BA. p. 0-0, Adonis informatizou, no início dos anos 80, o banco de dados do Departamento de Patologia. O acervo atual, com mais de 300 mil exames, permanece como a principal fonte de pesquisa do corpo clínico do HCP, o que contribuiu para o desenvolvimento de diversas dissertações e teses da UFPE e UPE. Com Adonis à frente do Depto. de Patologia do HCP foi o primeiro hospital do Estado a introduzir o exame imunoistoquímico anos depois, destinando-se aos pacientes do SUS.CARVALHO. Adonis R. L.; LIMA, João Plutarco Rodrigues. Diagnóstico imediato por congelação – Estudo de 200 biópsias consecutivas. Anais Fac. Med. Univ. do Recife, 18: 103-124, 1958..

Como Professor Assistente recém-ingresso na Cadeira de Anatomia Patológica da UFPE, Adonis reconheceu que, contrastando com o excelente ensino e serviço de autópsias, havia grandes deficiências na Patologia Cirúrgica e assim propôs ao Prof. Barros Coelho que fosse dada a devida importância a esse campo da Patologia. Por conseguinte, a Divisão de Patologia Cirúrgica foi oficialmente formalizada em 1958, sendo possível dotar a disciplina de Anatomia Patológica com uma Patologia Cirúrgica moderna e eficiente, incluindo a introdução das descrições sistemáticas e minuciosas das peças cirúrgicas. Dessa maneira foram formados os patologistas cirúrgicos de Pernambuco. Nesse período, Adonis apresentou e publicou vários trabalhos sobre exame intraoperatório e modos de operação de laboratórios de Patologia.

Registro de Câncer do País em bases populacionais O Professor Adonis verificou não haver no Brasil estudos epidemiológicos em câncer e propôs o estabelecimento do Registro de Câncer de Pernambuco, na disciplina de Anatomia Patológica, aprovado em 1957Ata da Congregação da Faculdade de Medicina da UFPE de 2 de Setembro de 1957; Veloso Costa, op. cit. Vol. II, pp 119-130;CARVALHO, A. R. L: Anteprojeto do Serviço de Registro de Câncer de Pernambuco. Rev Brasileira Cancerologia. 23: 57-63, 1965;