A Catedral de Le Mans (francês: Cathédrale St-Julien du Mans) é uma igreja católica da Diocese de Le Mans localizada em Le Mans, na França. A catedral é dedicada a São Julião de Le Mans, o primeiro bispo da cidade, que introduziu o cristianismo na região no começo do século IV. A sua construção decorreu entre os séculos VI e XV, terminando em 1430, e apresenta diversos elementos do gótico francês.

O edifício, que combina uma nave de estilo românico com um coro gótico, destaca-se pela rica coleção de vitrais e pelos arcobotantes bifurcados da sua extremidade oriental.

História Nada se sabe sobre a forma da igreja original fundada no local por São Julião, que foi codedicada, como sucedia em muitas catedrais antigas, à Virgem e a São Pedro. Embora não existam vestígios arqueológicos das fases de construção anteriores a 1080, a história do bispado e da sua catedral encontra-se detalhada no Actus pontificum Cenomannis in urbe degentium, do século IX. Segundo esta crónica, na primeira metade do século IX realizou-se uma grande reconstrução da catedral original de Julião sob o bispo Aldrico.

Este novo edifício, concebido para albergar as relíquias de São Julião, integrava um grande coro, consagrado em 834, com uma abside e um deambulatório com cinco altares, sendo possivelmente um dos primeiros exemplos do modelo de chevet que mais tarde se tornou padrão nas grandes igrejas do norte da Europa. Uma nova remodelação foi empreendida ao longo da segunda metade do século XI, iniciada sob o bispo Vulgrino por volta de 1060 e concluída sob o bispo Hildeberto, sendo consagrada em 1120.

Na sequência de um incêndio em 1134, foi iniciado um importante programa de reconstrução pelo bispo Guilherme de Passavant (1142–1186). As novas obras foram parcialmente financiadas pelo rei Henrique II de Inglaterra, cujo pai, Godofredo de Anjou, ali fora sepultado em 1151. Enquanto os edifícios anteriores tinham cobertura de madeira, a nova nave de Guilherme, que sobrevive em grande parte intacta, incorporou abóbadas de pedra. Esta solução exigiu o considerável reforço das paredes antigas e o acréscimo de arcobotantes ao longo dos flancos da nave.

Em 1217, o cabido da catedral obteve autorização para demolir parte das muralhas galo-romanas do século IV, que impediam a expansão para leste. As obras de um novo e muito ampliado extremo oriental começaram de imediato, e o novo coro foi consagrado pelo bispo Godofredo de Loudon a 24 de abril de 1254. Em corte transversal, o novo coro segue de perto os exemplos anteriores da Catedral de Bourges e da Catedral de Coutances, apresentando dois deambulatórios laterais em torno do vaso central. O arquiteto de Le Mans combinou este modelo com detalhes inspirados na Catedral de Chartres, nomeadamente as capelas alongadas irradiando da abside e o tratamento dos arcobotantes exteriores como elementos decorativos além de suportes estruturais.

A construção dos transeptos, destinada a ligar os elementos góticos à nave românica, foi adiada por falta de fundos. O transepto sul, projetado por Jean le Maczon, foi iniciado na década de 1380 e concluído em 1392, com o apoio de donativos do rei Carlos VI de França. As obras do transepto norte começaram em 1403, mas foram atrasadas pela retoma da Guerra dos Cem Anos, só ficando concluídas na década de 1430. Em 1500, os planos para elevar os transeptos foram abandonados por razões de custo.

Arquitetura e arte A catedral, com 134 metros de comprimento, ocupa o canto nordeste da cidade antiga, conhecida como Vieux Mans ou Cité Plantagenêt, uma zona sobre uma ligeira elevação dominada por ruas de calçada e casas de meia-madeira.

A nave atual apresenta a forma típica de uma basílica românica, com arcadas de arcos de volta perfeita e naves laterais de cada lado de um vaso central mais amplo, iluminado por janelas de clerestório. Os capitéis dos pilares da nave são ricamente esculpidos, alguns com folhas de acanto clássicas, outros com vegetação mais naturalista, incluindo animais e figuras humanas.

Visto de leste, o conjunto de arcobotantes do coro apresenta uma densa "floresta" de cantaria, devido ao seu invulgar desenho bifurcado. Cada arcobotante divide-se em dois, formando uma figura em "Y" quando vista de cima, apoiando-se cada braço num contraforte distinto. Embora este desenho não tenha sido adotado noutros edifícios, confere uma leveza e delicadeza pouco comuns ao extremo oriental da construção.

Na esquina da fachada ocidental encontra-se um menir pré-histórico com 4,5 metros de altura, conhecido localmente como Pierre St Julien (Pedra de São Julião). Colocado no local em 1778, após a demolição do dólmen de que fizera parte, a erosão natural do arenito conferiu-lhe uma superfície semelhante a drapeado esculpido.

Vitrais A nave conserva cerca de 20 vitrais da reconstrução de meados do século XII, embora quase todos tenham sido deslocados das suas posições originais e extensamente restaurados no século XIX. A grande janela ocidental, representando cenas da vida de São Julião de Le Mans, data de cerca de 1155. A janela da Ascensão, na extremidade ocidental da nave lateral sul, foi datada de 1120, o que a torna um dos mais antigos vitrais existentes em França.

Ao contrário das janelas românicas, o programa de vitrais do século XIII nas partes superiores do coro mantém-se em grande parte intacto, apresentando cenas do Antigo e do Novo Testamento, vidas de santos e milagres da Virgem.

Portal sul Aberto na nave lateral sul, o portal gótico primitivo (cerca de 1150) é abrigado por um alpendre. No seu desenho geral, este portal está estreitamente relacionado com o Pórtico Real da Catedral de Chartres e com a fachada ocidental da abadia de Saint-Denis. O tímpano apresenta a Maiestas Domini, com Cristo numa mandorla rodeado pelos símbolos dos quatro Evangelistas.

Ligações com os Plantageneta As ligações entre a catedral de Le Mans e a dinastia Plantageneta foram estreitas, com acontecimentos como o casamento de Godofredo e Matilde de Inglaterra em 1128, o batismo de Henrique II de Inglaterra em 1133 e o sepultamento de Godofredo em 1151. Estas relações foram reforçadas pelas contribuições financeiras de Henrique II para as obras da catedral.

Sinos A torre alberga seis sinos fundidos pela fundição Bollée père et fils, em Le Mans, em 1859: Julien (bordão) Marie Gervaise Protaise Liboire Aldrique

O campanário e todo o sistema de badalar foram alvo de um grande restauro em 2014.

Ver também Lista de catedrais da França Arquitetura gótica

Ligações externas

Ficha na base Mérimée do Ministério da Cultura francês

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