Este verbete abrange a história do município brasileiro de Campinas do período colonial até o contemporâneo.
Povoamento pré-colonial De acordo com as pesquisas arqueológicas mais recentes, as áreas que hoje constituem o estado de São Paulo já eram habitadas por humanos desde aproximadamente 11.000 a 7.000 anos antes do Presente. Vestígios desses assentamentos são geralmente encontrados próximos a rios, com baixa declividade e presença de afloramentos rochosos nas proximidades, a partir dos quais produziam diversas ferramentas de pedra, como raspadores, pontas de flecha, machados, entre outros. Identificado e escavado em 2001, durante as obras de prolongamento da Rodovia Bandeirantes, o sítio arqueológico Morro Azul contava com diversos instrumentos líticos de sílex e quartzo, sendo o mais antigo testemunho da presença humana no território do município de Campinas.
A presença de grupos ceramistas associados à Tradição Tupiguarani teria se iniciado entre 2.000 e 1.800 anos atrás em todo o território paulista. Esse povoamento também é caracterizado pelo domínio da agricultura, sendo difundido o cultivo da mandioca, milho, feijão e abóbora. Embora nenhum sítio arqueológico dessa tradição tecnológica tenha sido identificado em Campinas até o momento, a região de entorno conta com diversos locais onde a presença desses grupos já foi documentada, como Rage Maluf e Santa Sofia (Monte Mor), Buruzinho (Indaiatuba) e Sítio 14 – São Gabriel (Salto).
Apesar de habitarem a região em um período mais recente, há poucas informações sobre os grupos indígenas que residiam na região de Campinas quando da chegada dos primeiros colonizadores europeus. Os relatos das primeiras expedições não apresentam descrições precisas sobre os costumes e modos de vida destas populações, ou mesmo a qual etnia pertenceriam estes indígenas. Ainda assim, os relatos dos séculos XVI e XVII indicam que a área era extensivamente habitada por grupos ameríndios falantes de idiomas relacionados às famílias linguísticas Jê e Tupi-Guarani, os quais estabeleceram uma complexa relação com os moradores dos povoados e vilas do planalto paulista. Segundo o antropólogo John Monteiro, alianças e conflitos com os recém-chegados europeus variavam conforme o grupo e o contexto em que estas relações se davam, sendo bastante difundida a escravização, catequização, expulsão ou extermínio de indígenas durante todo o período colonial.
Povoamento durante o período colonial português thumb|esquerda|Casa Grande e Tulha, conjunto arquitetônico de valor histórico, construído entre as décadas de 1790 e 1830. Está entre as primeiras edificações de Campinas.
Até a primeira metade do século XVIII, Campinas não passava de uma área ampla constituída por largas faixas de campos naturais, as quais eram designadas simplesmente por campinas, com áreas de mata atlântica fechadas ao redor, em especial nas regiões montanhosas. Naquela época, surgiu um bairro rural na vila de Jundiaí (hoje Jundiaí) chamado "Mato Grosso", próximo a uma trilha feita por bandeirantes do "Planalto de Piratininga" (a região da atual cidade de São Paulo) entre 1721 e 1730. Era o "Caminho dos Goiases", longo percurso que seguia em direção às então recém-descobertas minas de ouro nos atuais estados de Minas Gerais e Goiás.História. Disponível em http://www.urbal.piracicaba.sp.gov.br/caracteriza%E7%E3o/caracteriza%E7%E3o,%20historia%20e%20histsan/campinasdireito/historiaecultcampinas.htm. Acesso em 19 de setembro de 2012.A origem de Campinas. Disponível em http://www.comciencia.br/reportagens/goiases/goiases6.htm. Acesso em 19 de setembro de 2012. Assim, o sertanista Fernão de Camargo promoveu a noroeste da vila de São Paulo a instalação de um ponto de parada de tropeiros (chamado "Campinas do Mato Grosso" por ter sido erguido num desses campos naturais cercados por mata cerrada), usualmente feita por viajantes que iam e voltavam das minas de ouro. Esse e outros pontos de paragem ao longo do caminho permitiam ou facilitavam o reabastecimento durante as viagens, o que incentivou a fixação de colonos no local, os quais se voltavam para o cultivo de alimentos para consumo interno das capitanias. Segundo alguns autores, a fundação de povoados ao longo do Caminho também tinha como objetivo fortalecer as fronteiras da colônia contra possíveis invasores espanhóis, transformando a Capitania de São Paulo em peça fundamental no plano de defesa da chamada América Portuguesa.
Entretanto, apesar de boa parte da futura região de Campinas já ter sido dividida em sesmarias desde 1728, dificuldades em implementar um povoamento efetivo fizeram com que as concessões fossem revogadas pela administração da capitania, sendo a área redistribuída no final do século XVIII. Em 1767, ano do primeiro recenseamento feito nos arredores de Campinas do Mato Grosso, a localidade “contava com 38 fogos (unidades de residência e produção) e 185 habitantes, vivendo todos de roça, de lavouras ou de tropas”. A partir da década de 1790, a agricultura familiar e de abastecimento foi sendo gradualmente substituída pela lavoura de cana-de-açúcar, responsável pelo rápido desenvolvimento econômico da capitania de São Paulo nessa época, já que o açúcar era exportado para a Europa. Segundo alguns historiadores, o surgimento de novos centros de cultivo da cana-de-açúcar nas Américas, tal como no caso de Campinas e de parte do interior paulista, está diretamente relacionado ao processo de independência do Haiti. A então colônia francesa contava com grandes plantações de cana-de-açúcar, as quais respondiam pela maioria da produção mundial durante grande parte do século XVIII, o que provocou um grande reordenamento produtivo da indústria açucareira em nível mundial a partir dos anos 1790. Outro fator que contribuiu para esse desenvolvimento foi a estrutura viária elaborada durante o governo do Morgado de Mateus nos anos de 1770, a qual consistia em interligar uma rede de estradas entre as vilas e freguesias, aproveitando os caminhos dos Goiases e Viamão. Formou-se assim um “quadrilátero do açúcar”, onde os limites e seus principais centros eram as vilas de Sorocaba, Piracicaba, Mogi-Guaçu e Jundiaí.
Por volta do ano de 1772, os moradores daquela região reivindicavam a construção de uma capela, já que a igreja mais próxima do então povoado de Campinas do Mato Grosso situava-se em Jundiaí. A permissão foi concedida um ano mais tarde, demarcando-se, no dia 22 de setembro daquele ano, o local que seria destinado à construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cujo nome foi recebido em homenagem à padroeira, escolhida por votação. A dificuldade das obras daquele tempo fez com que fosse construída uma capela provisória em 1774. No dia 27 de maio desse ano, foi assinado um ato que dava a Francisco Barreto Leme do Prado o título de "fundador, administrador e diretor" do núcleo urbano a ser fundado. Em outro ato feito no mesmo dia, foi definida a medida das ruas e quadras, assim como a posição das casas, sendo esse o primeiro "plano urbanístico" recebido por Campinas. Poucas semanas depois, em 14 de julho de 1774, frei Antônio de Pádua, primeiro vigário da paróquia, rezou a missa que inaugurava a capela provisória coberta de palha e feita às pressas. A partir daí, instalou-se definitivamente a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso e fundou-se a povoação. Em 14 de dezembro de 1797, Campinas foi emancipada de Jundiaí, sendo elevada à condição de vila com o nome de São Carlos. O templo religioso permanente só seria inaugurado em 1883, contudo, mais de setenta anos após o início oficial das obras. Hoje conhecida como Catedral Metropolitana de Campinas, a edificação é considerada patrimônio histórico do estado de São Paulo desde 1981.
Formação administrativa e crescimento econômico no Século XIX thumb|esquerda|Moagem de cana-de-açúcar na Fazenda Cachoeira, em Campinas. Benedito Calixto (1853–1927).
Por volta do século XVIII, houve a chegada de vários fazendeiros oriundos de diversas cidades paulistas, como Itu, Porto Feliz e Taubaté. Esses fazendeiros procuravam terras para cultivarem as já mencionadas lavouras de cana-de-açúcar, criando novos ou ampliando engenhos de açúcar já existentes, utilizando-se da mão de obra escrava que possuíam. De fato, também foi por motivação destes fazendeiros e do governo da Capitania de São Paulo que o bairro rural do Mato Grosso foi transformado em freguesia, depois em vila de São Carlos (1797) e, posteriormente, em cidade de Campinas (1842). Apesar da elevação à condição de cidade ter ocorrido oficialmente somente em 5 de fevereiro de 1842, através da promulgação de uma Lei Provincial, o viajante francês Auguste de Saint-Hilaire já citara a intenção da agora Província de São Paulo em torná-la uma sede municipal em 1840:O ganho de importância econômica e política da vila foi acompanhado por um crescimento demográfico significativo. Segundo dados referentes aos anos de 1816 e 1826, a população da vila de São Carlos teria crescido mais de 45% durante esse decênio, passando de 5.897 para 8.556 habitantes. Ao mesmo tempo em que a população aumentava, também crescia a demanda por diversos produtos de consumo interno, o que manteve o cultivo local de itens como tabaco e algodão. Assim, para além das fazendas voltadas ao plantio da cana-de-açúcar, o comércio local e com regiões próximas também mantinha parte da população livre da vila de São Carlos exercendo funções como caixeiros-viajantes, tropeiros, arrieiros e vendedores em geral.
De acordo com as documentações históricas disponíveis, a região de Campinas atingiu o auge de produção açucareira em 1836, quando começou a perder espaço para o café, que em 1852 contava com 82 fazendas e produção de 200 mil arrobas, número que salta para 177 fazendas em apenas dois anos com uma colheita de 330 mil arrobas. A mudança da cana-de-açúcar para o café enquanto principal produto agrícola trouxe grandes vantagens econômicas, beneficiando-se do mercado externo favorável, sendo relativamente fácil a adaptação da infraestrutura dos engenhos já existentes. Essa transição produtiva também implicou em um novo e rápido ciclo de desenvolvimento da região campineira, o que fez com que o município concentrasse uma grande quantidade de mão de obra escrava. Além disso, um contingente minoritário de trabalhadores livres, oriundos de diferentes regiões do país, também começou a se instalar em Campinas durante o período imperial (1822-1889), exercendo funções tanto em atividades produtivas rurais e urbanas.
O segundo quartel do século XIX também transformou o jeito como a população lidava com as propriedades, quando grandes mudanças ocorreram na legislação em relação à posse da terra, permitindo a capitalização do território. Desde o fim do regime de sesmarias em 1822, quando as propriedades deixaram de ser apenas concessões e passaram a efetivamente pertencer aos seus administradores, muitas fazendas cresceram em área com a anexação de terras consideradas devolutas. Em 1850 foi promulgada a Lei de Terras, legitimando grandes latifúndios e ocupações irregulares até então existentes na região do município de Campinas, ao mesmo tempo em que obrigava todos os proprietários a tirar títulos de posse. Além da legalização da posse de grandes extensões de terras, a legislação elevou radicalmente o preço das propriedades, dificultando sua compra por pessoas comuns. Todavia, tal dinâmica de compra e venda de terras, que se expandiria no país após tal legislação, já era comum em Campinas desde o início do século XIX. Esse cenário teria se dado em decorrência do alto valor obtido na exportação do açúcar e o aumento populacional, o que provocou um prolongado período de ascensão econômica em Campinas.