thumb|300px|direita|<center>Em destaque, o Estado do Ceará.<center> A história do Ceará é marcada pela forte influência indígena e portuguesa, com forte resistência dos nativos e diversas dificuldades de adaptação dos portugueses às condições climáticas particulares do território. Formou-se uma sociedade rural baseada sobretudo na pecuária, assim como na agricultura, em especial nos vales úmidos e serras. A elite econômica e latifundiária, através de seu poder econômico e de complexas relações de parentesco e afilhadagem, possuía controle de quase todos os aspectos da vida social. Os chamados "coronéis" mantinham em suas propriedades muitos dependentes que lhes prestavam serviços ou entregavam parte de sua produção em troca da posse de um lote de terra, em regime praticamente semi-feudal, além de trabalhadores assalariados. A escravização de africanos, embora de menor destaque, foi praticada ao longo de séculos XVII e XVIII, principalmente nas áreas onde a agricultura floresceu.
O desenvolvimento independente do Ceará começaria apenas depois de sua separação de Pernambuco em 1799, e sua história foi sempre marcada por lutas políticas e movimentos armados. Essa instabilidade prolongou-se durante o Império e a Primeira República, normalizando-se depois da reconstitucionalização do país em 1945. As secas, os conturbados fatores sociais e econômicos do Estado acarretaram eventos importantes na história desse povo, como o cangaço, os movimentos messiânicos, a emigração para a Amazônia e para outros estados. Historicamente o Ceará tem passado por grandes transformações desde a década de 1950, progressivamente se tornando predominantemente urbano, mais industrializado e com crescente desigualdade regional e de renda.
Era pré-colonial A região do Ceará possui cerca de 773 sítios arqueológicos do período pré-colonial, com pinturas rupestres, artefatos líticos, abrigos e diversos outros vestígios deixados pelas primeiras populações humanas que habitaram essa região. Os sítios arqueológicos pré-coloniais cearenses são abundantes na região litoral, nas proximidades do Rio Jaguaribe, na região do Vale do Acaraú, no sertão central e no sertão caririense.
Primeiramente, as terras cearenses eram habitadas por diversas etnias tapuias, cuja a origem linguística é incerta, devido a escassez de documentação sobre esses povos, porém, vários pesquisadores apontam que a maioria dos povos indígenas do Ceará no início da colonização, eram do grupo Macro-Jê, o mais comum no nordeste brasileiro. Os povos tapuias que viviam por essas terras eram: os Anacés, os Tacarijus os Aconguaçus, os Jaguaruanas, os Acriús, os Arérius, os Caratiús, os Jaguaribaras, os Quixelôs, os Quixexeus, os Cariús, os Cariris, os Icós, os Icózinhos, os Jucás, os Calabaças e os povos do grupo Otxukayana, que eram os próprios Otxucaianas e os Payacus. Também, existia a grande nação dos Tremembés, um povo marítimo que ocupava desde o litoral norte do Ceará até o oeste do Maranhão. Séculos mais tarde, surgiriam novos povos indígenas pelo Ceará, como os Canindés, os Jenipapos, os Inhamuns e outros. Estes povos "mais recentes" foram fruto das migrações, miscigenações e subdivisões étnicas que aconteceriam ao longo da colonização e até os dias atuais.
Aproximadamente entre os séculos XV e XVI, ocorreram as primeiras migrações dos povos tupis para o Ceará, os Tabajaras dominaram a Serra da Ibiapaba, onde disputavam com os Aconguaçus, Tacarijus e por vezes com os Arérius. Enquanto os Potiguaras seguiram pelo o litoral do Rio Grande do Norte e conquistaram a costa oeste cearense, onde já viviam os Jaguaribaras e mais ao norte, os Tremembés. thumb|alt=Guerreiro Tabajara, 1614 |Guerreiro Tabajara, 1614
Era colonial thumb|Exemplares de artefatos de povos indígenas típicos do Ceará, em gravura da Comissão Científica de Exploração.
Primeiras tentativas de colonização (1535-1607) As terras atualmente pertencentes ao Ceará foram doadas, em 1535, ao português Antônio Cardoso de Barros, mas este não se interessou em colonizá-las e nem sequer chegou a visitar a capitania, embora tivesse ocupado o cargo de provedor-mor da Bahia no governo geral de Tomé de Sousa. Cardoso de Barros, inclusive, faleceu em 1556, ao lado do primeiro bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha, devorado pelos indígenas Caetés, após um naufrágio na costa de Alagoas.
Em 1590, ocorreu a primeira tentativa de colonização do Ceará, quando o capitão francês Adolphe de Montbille liderou uma expedição na Serra da Ibiapaba, onde fundou a Feitoria da Ibiapaba. Nessa região, os franceses realizam trocas com os indígenas Tabajaras, uma grande nação de nativos, de origem tupi. Em 1603, ao notar a crescente influência francesa na região, o governador-geral do Brasil, Diogo Botelho enviou o capitão açoriano Pero Coelho de Sousa para uma expedição que partiria de Pernambuco até o Maranhão, passando pela Ibiapaba. Também, nomeou Pero Coelho como segundo capitão-mor do Ceará, sucedendo Cardoso de Barros.
Após 68 anos da criação da capitania do Ceará, ocorreu a primeira tentativa de colonização portuguesa dessas terras, com a missão de Pero Coelho, que partiu da Paraíba em junho de 1603 e contava com um exército de 200 indígenas tupis e 86 soldados, entre os quais estava o jovem Martim Soares Moreno. Ao chegar no Ceará, iniciou sua bandeira na margem esquerda da foz do rio Jaguaribe, onde em 10 de agosto, fundou o Fortim de São Lourenço, um "simples entricheiramento de paliçada" para defender-se dos indígenas. Então, seguiu a costa cearense por terra, até a região de Camocim, onde adentrou as matas até a Serra da Ibiapaba. Ao chegar na serra, em janeiro de 1604, travou intensa batalha contra os Tabajaras, uma grande nação constituída de setenta aldeias, com as principais sendo lideradas pelos caciques Irapuã (Mel Redondo) e Juripariguaçu (Diabo Grande), também com os franceses, liderados por Jacques Riffault, que fugiram pelo sertão. Contudo, os soldados encontravam-se cansados, maltrapilhos e famintos, assim recusaram seguir viagem até o Maranhão, forçando Pero Coelho a recuar. Retornaram pelo litoral até as margens do rio Ceará, onde batizaram de "Nova Lisboa" e fundaram o Fortim de São Tiago da Nova Lisboa. A expedição de Pero Coelho trouxe a doença, a escravização e a guerra para as populações originárias do Ceará, impactando profundamente a cultura dos indígenas cearense, especialmente aqueles da Ibiapaba.
O Fortim de São Tiago durou pouco tempo, pois os indígenas ressentidos com o comportamento brutal dos "civilizados" europeus passaram a atacar o Fortim. Pero Coelho e os outros colonos retiraram-se para o rio Jaguaribe, buscando refúgio no Fortim de São Lourenço. Contudo, a seca de 1605-1609 (a primeira registrada pela historiografia local) e os persistentes ataques indígenas levaram Pero Coelho a deixar o "Siará" em dolorosa caminhada, na qual pereceram de fome e sede alguns soldados e seu filho mais velho. Dirigindo-se ao Forte dos Reis Magos, em Rio Grande do Norte e depois para Paraíba, onde Pero Coelho começou a cobrar recompensas por seus serviços prestados nas terras cearenses. Logo, partiu para Portugal, buscando fortalecer suas revindicações, mas acabou falecendo na pobreza, em Lisboa.Farias de Airton; Historia do Ceará; p. 14 e 15
thumb|esquerda|250px|O Forte São Sebastião de Martim Soares Moreno. Diante do fracasso de Pero Coelho de conquistar as terras cearenses, em 1607 foram enviados os padres Jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira com o intuito de evangelizar os indígenas. Estes avançaram até a Serra da Ibiapaba, onde ficaram até o assassinato do padre Francisco Pinto em outubro do mesmo ano. O padre Luís Figueira retorna para o Rio Grande do Norte. Posteriormente, relatou sua empreitada em Relação do Maranhão, o primeiro texto escrito sobre o Ceará. Figueira, todavia, não foi muito feliz no relacionamento com os nativos brasileiros. Assim, encerrava-se mais uma tentativa de colonização do Ceará.
Colonização efetiva (1611-1822) Em 1611, sob o comando de Martim Soares Moreno (considerado posteriormente o "fundador" do Ceará), foi construído, às margens do Rio Ceará, o Forte de São Sebastião, local conhecido atualmente como Barra do Ceará (limites entre os Municípios de Fortaleza e Caucaia).
A colonização portuguesa da região, iniciada no século XVII, foi dificultada pela forte oposição das tribos indígenas e as invasões de piratas europeus. O estabelecimento europeu só tomou impulso com a construção, na embocadura do riacho Marajaitiba, do forte holandês Schoonenborch, que em 1654, foi tomado pelos portugueses e passou a ser chamado Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Em volta dessa Fortaleza formou-se a segunda vila do Ceará, a vila do Forte, ou Fortaleza. Depois de muita disputa política entre Aquiraz e Fortaleza, a última passou a ser a capital do Ceará, oficialmente a partir de 13 de abril de 1726 (data em que se comemora o aniversário da cidade).
Houve duas frentes de ocupação portuguesa do território cearense: a do sertão-de-fora, controlada por pernambucanos que vinham pelo litoral; e a do sertão-de-dentro, dominada por baianos. Graças à pecuária e aos deslocamentos de pessoas das áreas então mais povoadas, praticamente todo o Ceará foi ocupado ao longo do tempo, levando ao nascimento de várias cidades importantes nos cruzamentos das principais estradas utilizadas pelos vaqueiros, como Icó. Ao longo do século XVIII, a principal atividade econômica cearense foi a pecuária, levando muitos historiadores a falarem que o Ceará se transformou em uma "Civilização do Couro", pois a partir do couro se faziam praticamente todos os objetos necessários à vida do sertanejo através de um rico artesanato.
O comércio do charque foi decisivo para a vida econômica do Ceará ao longo dos séculos XVIII e XIX. Com ele passou a existir uma clara divisão do trabalho entre as regiões do Estado: no litoral se encontravam as charqueadas e, no sertão, as áreas para criação de gado bovino. O charque também permitiu o enriquecimento de proprietários de terras e de comerciantes, bem como o surgimento de um pequeníssimo mercado interno local. Durante o auge do comércio do charque, a principal cidade cearense foi Aracati, de onde eram exportadas mas também floresceram outros centros regionais, como Sobral, Icó, Acaraú, Camocim e Granja. A era do charque finda-se depois das secas de 1790/93, que devastam o estado e impossibilitam a continuação da pecuária cearense. Com este evento a produção do charque mudou para o Rio Grande do Sul.
Outras cidades nasceram a partir de aldeamentos indígenas, onde os nativos eram confinados sob o controle de jesuítas, responsáveis por sua catequização e aculturação. Este foi o caso de cidades importantes como Caucaia (outrora chamada Soure), Crato, Pacajus, Messejana e Parangaba (as duas últimas atuais bairros de Fortaleza). Os indígenas cearenses foram, em sua maior parte, massacrados, embora tenham resistido até os dias de hoje. Um dos maiores exemplos de sua resistência foi a Guerra dos Bárbaros, na qual indígenas de diversas tribos (Kariri, Janduim, Baiacu, Icó, Anacé, Quixelô, Jaguaribara, Kanindé, Tremembé, Acriú, etc.) se uniram para lutar contra os conquistadores portugueses, resistindo bravamente durante quase 50 anos.