Lúcio Cornélio Sula (138–; ), conhecido simplesmente como Sula ou Sila, também designado pelos gregos como Epafrodito (; ), foi um militar e estadista da gente Cornélia da República Romana, eleito cônsul por duas vezes, em 88 e (com Quinto Pompeu Rufo e Quinto Cecílio Metelo Pio, respectivamente). Foi também eleito ditador em , o primeiro desde o final do O agnome "Félix" foi adotado já no final de sua carreira, principalmente por sua lendária sorte como general. Ele é por vezes chamado de Sila, provavelmente uma corruptela de uma forma epigráfica "SVILLA", passível de ser derivada em ambas as formas. Em sua época, seu nome provavelmente se pronunciava "Suila".

Foi sem dúvida um dos mais importantes políticos e militares de seu tempo, um dos líderes da facção dos optimates. Depois de se destacar na Guerra contra Jugurta, na Guerra Címbrica e na Guerra Social, as tentativas de Caio Mário de removê-lo do comando do exército, que seguia para combater do Reino do Ponto, o levaram a marchar contra a própria Roma para restaurar o status quo anterior pela força das armas: a primeira vez em toda a história que um exército romano invadiu a cidade. Depois de conseguir recuperar o controle da guerra, Sula deixou a cidade sob o comando de um cônsul da facção dos populares, de Mário, e um outro optimate, Cneu Otávio, partindo para o Oriente. Porém, logo em seguida Mário retornou e, com seu aliado Cina, deu um golpe de estado e acabou morrendo. Cina instaurou um governo autocrático de três anos (conhecido como "Cinnanum tempus") entre 87 e , perseguindo todos os aliados de Sula.Bulst (1964) e Lovano (2002).

Sula, por sua vez, concluiu a guerra no Oriente, obrigado Mitrídates VI a assinar a Paz de Dárdanos (). Sua volta à Itália precipitou a Primeira Guerra Civil (83-), entre populares e optimates, na qual ele derrotou os líderes populares Cneu Papírio Carbão e Caio Mário, o Jovem, que estavam no comando das rendas estatais, enquanto um terceiro rebelde, Quinto Sertório, conseguiria resistir ainda por muitos anos aos partidários de Sula na Hispânia.

À sua vitória foi seguida uma ditadura do próprio Sula, na qual ele perseguiu sistematicamente seus inimigos, estabelecendo uma ambiciosa obra legislativa para conseguir restaurar o funcionamento das instituições republicanas. Finalmente, cumpridos estes objetivos, Sula voltou a ser um simples cidadão, abandonando para sempre o poder e a vida política.

Por tudo isto, Sula é considerado um dos romanos antigos mais extraordinários, apesar de moralmente ambíguo. Político sagaz e habilidoso general, sua carreira reflete fielmente sua época: foi um dos últimos defensores da legalidade constitucional romana, mas também um dos principais responsáveis pelo fim da República. Historiadores posteriores se dividem ao julgar seu legado, sendo ele considerado por alguns como um monstro sanguinário, e ao mesmo tempo muito elogiado por outros por suas habilidades políticas.

Segundo Plutarco, Sula era loiro, de olhos azuis e avermelhado.

Juventude thumb|upright=.8|Em sua juventude, Sula levava uma vida desregrada, geralmente na companhia de atores e prostitutas, um hábito que retomará no final da vida.Afresco em Pompeia, na Casa da Marte e Venere

Lúcio Cornélio Sula era neto de Públio Cornélio Sula, pretor em , e nasceu em Roma numa pequena família aristocrática, a menos destacada das sete que compunham a gente Cornélia, os "Cornélios Sula". Uma vez que a sua própria fama acabou eclipsando totalmente a de seus ancestrais, pouco sabemos sobre eles. As fontes clássicas acabaram enfatizando apenas os aspectos mais negativos. Sobre seu pai, por exemplo, Plutarco relata apenas a sua condição financeira modestaPlutarco, Sula 1. e somente a menção de seu filho em documentos epigráficos é que permitiu resgatar seu prenome. De sua mãe, nada se sabe e tampouco há notícias explícitas sobre outros irmãos, apesar de haver uma referência a um Nônio Sufenas, que seria sobrinho do ditador,Plutarco, Sula 10. o que indica que ele tinha pelo menos uma irmã.

Salústio e Plutarco concordam que a família de Sula estava em plena decadência, mas divergem nos detalhes. Enquanto este implica que Sula saiu da penúria (ilustrada com a anedota de que, durante sua juventude, Sula teria vivido sob o mesmo teto com libertos), a mesma ruína e perda de prestígio pela qual passavam os Cornélios, no , exclusivamente por obra da Fortuna ("o destino"), as referências de Salústio à sua educação e seu excelente domínio do latim e do grego antigo,Salústio, Bellum Iugurthinum 95. ainda que ele admita um considerável grau de ignomínia, se enquadram melhor com uma educação esperada de uma família melhor situada social e economicamente. Uma passagem de Apiano sobre as conversações preliminares que levaram à Paz de Dárdanos,Apiano, Mitrídates 54. ele fala da amizade que unia o pai de Sula com o rei do Ponto, confirmando que o pai de Sula de fato teria sido pretor, como confirmam as evidências epigráficas.

Por outro lado, o proveitoso casamento de Sula com uma rica senhora indica também que se tratava de uma gente menos desprestigiada e com mais recursos do que pretende fazer crer Plutarco. Os Cornélios Sulas podiam ser pobres, mas não literalmente. Sabe-se que o jovem Sula recebia rendas da ordem de sestércios anuais, o que indica posses de sestércios: em comparação com o soldo anual de um trabalhador — não mais de sestércios —, tratava-se de uma soma considerável, mas nada que se comparasse às fabulosas fortunas das outras grandes famílias.

Foi provavelmente a morte de seu pai que deixou Sula nesta situação econômica, que certamente ajudou a converter em aristocrata o "desclassificado" aludido por Plutarco. Com as portas do cursus honorum e da alta sociedade fechadas para ele, o ocioso Sula se refugiou no mundo do teatro, frequentando estalagens e companhias de caráter lascivo e dissoluto, "bufões e triviais". Jovial, beberrão e despreocupado segundo Plutarco, foi seu belo porte físico que o retiraria deste mundo, já uma das cortesãs mais caras de Roma, que se conhece apenas por seu nom de guerre, Nicópolis, loucamente apaixonada por ele, deixou-lhe como herança todas as suas posses. Na mesma época, faleceu a madrasta de Sula, deixando-o novamente como único herdeiro, o que finalmente deu-lhe condições de dispor dos fundos necessários para iniciar sua carreira política quando estava ainda com cerca de trinta anos de idade.Plutarco, Sila 2.

Carreira Guerra contra Jugurta

thumb|esquerda|upright=1|Jugurta capturado (). Apesar de Caio Mário ter levado as honras, foi a articulação de Sula com Boco I, sogro de Jugurta e rei da Mauritânia que permitiu que ele fosse capturado, encerrando a Guerra contra Jugurta. O episódio aumentou muito a popularidade de Sula

Sula iniciou sua carreira em servindo como questor durante a guerra contra o rei da Numídia Jugurta, que vinha, até então, resistindo com sucesso às investidas dos romanos e infligindo-lhes grandes perdas, apesar do grande avanço conseguido por Cecílio Metelo, cônsul em , não havia ainda um fim à vista para o conflito quando Caio Mário assumiu o comando das operações. Mário não gostou do fato de o destino ter-lhe concedido um questor tão afeminado quanto Sula, que tinha sua reputação maculada por paixões, vícios e seu gosto pelo teatro. Apesar disto, Sula rapidamente surpreendeu a todos com suas qualidades extraordinárias.Salústio, Bellum Iugurthinum 96.

O conflito seguiu sem definição, apesar das vitórias romanas, de modo que Sula foi enviado como embaixador para tratar com o sogro do elusivo monarca númida, o rei da Mauritânia Boco I. Sula rapidamente fez amizade com ele e conseguiu convencê-lo a trair Jugurta e aliar-se aos romanos (), entregando o próprio Jugurta a Sula.Plutarco, Sula 3 Esta vitória diplomática proporcionou a Sula um grande prestígio entre os militares e uma considerável popularidade, tanto com Mário como com as tropas, que lhe atribuíram o sucesso em terminar a guerra. Uma estátua dourada de Sula foi doada pelo rei Bobo para ser colocada no Fórum Romano para comemorar o feito. Apesar de Sula ter planejado e executado toda a ação, ele estava, na época, servindo sob Mário e este levou todo o crédito pelo feito.

Plutarco afirma que este episódio foi o começo do atrito entre Mário e Sula, dado que o primeiro se viu bastante irritado (e invejoso) com o êxito de seu subordinado enquanto que o segundo não deixou de lançar lenha à fogueira com uma atitude fanfarrona que encontrou eco entre alguns dos piores inimigos políticos de Mário. Sula reivindicava para si toda a honra da vitória e se mostrava tão orgulhoso dela que mandou gravar a vitória no anel que utilizava como seu selo pessoal.Valério Máximo, Nove Livros de Feitos e Dizeres Memoráveis, VIII, XIV, 4.

Cimbros e teutões

A situação de extremo perigo criada pela invasão dos cimbros e teutões amenizou as possíveis divergências entre o general e seu subordinado, com Sula permanecendo sob as ordens de Mário nas sucessivas campanhas nos dois anos seguinte (). Dirigiu com êxito uma expedição contra os tectósages, matando seu general Cépilo, e, pouco depois, como tribuno militar, destacou-se também ao negociar um tratado com os mársios e dirigindo, extraoficialmente, o exército do cônsul Quinto Lutácio Cátulo (), um dos protegidos de Mário, contra os cimbros que ameaçavam o norte da Itália. Derrotou-os na Batalha de Vercelas, em , na qual estava à frente da cavalaria, revelando simultaneamente tanto a sua capacidade para a guerra quanto para a organização.

Finalmente, o conflito com Mário explodiu em toda sua magnitude depois da vitória sobre os cimbros: Cátulo e Sula parecem ter reclamado por mais crédito por suas atuações em Vercelas do que Mário estava disposto a conceder. "Em circunstâncias tão infantis e pueris", conclui Plutarco, "se fundamentou o ódio entre os dois que, mais tarde, levou aos excessos da guerra civil e, depois, à tirania e à perversão de todo o Estado".Plutarco, Sula, 4. Apesar disto, o conflito entre Mário e Sula se desenvolveu de forma mais lenta do que Plutarco e outros autores parecem admitir e só adquiriu este caráter de hostilidade aberta muito mais tarde.

Pretor e governo da Cilícia Segundo o relato de Plutarco, depois de ter sido desmobilizado, em , Sula se amparou em seu prestígio militar para conseguir se eleger pretor; inicialmente suas tentativas fracassaram, o que obscureceu sua carreira política por alguns anos. Plutarco explica que este fracasso se deveu ao próprio Sula, afirmando que a plebe romana esperava ansiosamente pelos grandes espetáculos que ofereceria como edil. Plutarco acrescenta ainda que Sula não teria comprado votos suficientes, uma opinião que ele ilustra com alguns comentários ácidos sobre a vaidade pessoal de seu biografado.Plutarco, Sula, 5.