Abadia (; derivado do aramaico abba, "pai") é uma comunidade monástica cristã, católica ("casa regular formada"), sob a tutela de um abade ou de uma abadessa, que a dirige com a dignidade de pai (ou madre) espiritual da comunidade. Deve apresentar no mínimo doze monges professos solenes em seus quadros, e cuja ereção canónica tenha sido decretada formalmente pela Santa Sé. O termo é ainda utilizado para se referir a igrejas que pertenceram a abadias hoje extintas, caso da Abadia de Westminster ou da de São Galo. Em Portugal, também se designava como abadia algumas freguesias cujo pároco era designado como abade, mas tal designação não mais é utilizada.
Um priorado apenas difere de uma abadia pelo fato de o seu superior se intitular prior, em vez de abade. Difere dos conventos ou mosteiros em geral, já que estes últimos podem referir-se a comunidades monásticas não cristãs. Os priorados eram, originalmente, casas subsidiárias de uma abadia principal, a cujo abade estavam subordinados. Tal distinção desapareceu praticamente a partir do Renascimento.
As primeiras comunidades cristãs monásticas consistiam em grupos de celas ou cabanas reunidas em torno de um centro, onde habitava um eremita ou anacoreta de reconhecida virtude e de vida ascética exemplar, mas sem obedecer a qualquer ordem espaço-funcional. Tais comunidades já existiam, nesses moldes, entre grupos religiosos não cristãos, como os Essénios na Judeia e talvez entre os Terapeutas, no Egito.
Importância civilizacional
thumb|Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha, Portugal|200x200px Durante a Idade Média, principalmente depois de Carlos Magno e das invasões bárbaras, foram as abadias a tomar as principais iniciativas a nível cultural e mesmo de fomento económico de muitas regiões europeias, não resumindo a sua ação a funções religiosas e litúrgicas mas, de fato, civilizacionais. Em alguns locais, como na Inglaterra e na Alemanha, não foram poucas as vezes em que uma povoação se formava em torno de abadias, ainda que esta tendência não se tenha verificado no Norte de África e no Oriente. Dentro da estrutura social e territorial do feudalismo, muitas abadias conseguiram, principalmente a partir do , obter isenção canónica da autoridade diocesana (ou seja, episcopal), já que alguns bispos assumiam o seu papel de senhores feudais. Estas instituições ficavam, assim, sob a autoridade direta da Santa Sé — em Portugal, tal aconteceu com as abadias cistercienses, enquanto que as abadias beneditinas ficavam, em geral sob a autoridade directa do bispo. Em alguns locais, como na Irlanda, o número de abadias tornou-se tão grande que a divisão do território em dioceses foi praticamente suplantada pelas autoridades abaciais. Algumas das abadias tiveram, também, jurisdição fiscal (recebiam impostos) e judicial sobre alguns territórios, através da atribuição régia de coutos.
A importância cultural das abadias centra-se essencialmente no seu papel de preservadoras das obras da antiguidade, através do trabalho dos monges copistas que, ainda que corrompessem alguns dos textos, enriqueciam outros com comentários, além de desenvolverem a ainda hoje muito apreciada arte das iluminuras. Será das bibliotecas das abadias que sairão os textos fundadores do novo humanismo renascentista.
A importância económica das abadias, ao modificarem o seu espaço circundante, fazendo o arroteamento de matas, a secagem de pântanos, ao aplicarem e experimentarem novas técnicas agrícolas e ao incentivarem a criação de ofícios artesanais foi essencial para a conformação de uma Europa que viria a emergir com o Renascimento. Também de importância foi a sua obra de assistência social, com a fundação de albergarias onde se acolhiam pobres e peregrinos, ou de asilos e enfermarias onde era praticada a ainda incipiente medicina medieval, praticamente baseada na crença dos benefícios das sangrias.
thumb|Mosteiro de Tibães, Casa Mãe da Ordem Beneditina em Portugal|200x200px
A partir do , apareceram os patronos, pertencendo a famílias poderosas, muitos dos quais subjugavam as abadias sob a sua suposta proteção e administração, fazendo a exação dos seus recursos e impondo a sua vontade, sem qualquer preocupação com os objetivos religiosos ou culturais dos conventos, o que originou diversas reclamações. Estes senhores, os advogados, como eram designados no império Carolíngio, assumiam esta função de patronato em decorrência de qualquer favor concedido, em geral de ordem militar, mas o custo era por vezes excessivo para as abadias, que não suportavam a contínua exploração dos sucessivos herdeiros que se consideravam no direito de manter os privilégios e a direção dos próprios mosteiros, influindo, por exemplo, na atribuição de cargos, como o de abade. Nos séculos XIV e XV, ainda que tais patronos fossem desaparecendo, apareceram os abades comendatários, laicos, persistindo as mesmas ingerências. Em 1567, com a reforma das Ordens monásticas, estabelecia-se o princípio da independência das abadias de qualquer controlo por parte dos leigos.
Os séculos XVIII e XIX, com as suas revoluções políticas, por vezes anticlericais, viram a extinção de várias Ordens monásticas e o encerramento de muitas abadias. Seguiu-se, em vários casos, uma autêntica delapidação do património de muitos mosteiros, como aconteceu em Portugal em 1833 e 1834, com o liberalismo. O caso do mosteiro de Tibães é paradigmático - o seu rico espólio foi vendido em hasta pública, perdendo-se assim, nas mãos de particulares, tesouros inestimáveis da arte portuguesa.
O cenobitismo thumb|esquerda|Abade Santo Antão, precursor da vida cenobítica (Representação de Lucas Cranach)|317x317px
No monasticismo cristão primitivo, os monges procurando a santidade através da ascese, viviam sozinhos, de modo independente, não muito longe da igreja da aldeia, sendo responsáveis pelo seu próprio sustento, trabalhando com as suas próprias mãos e distribuindo depois os excedentes pelos pobres, depois de satisfeitas as suas frugais necessidades. Um crescente fervor místico-religioso, incitado pelas perseguições, levou-os a afastarem-se cada vez mais da civilização para desertos e montanhas solitárias, ainda que também se tenham estabelecido mosteiros em cidades como Roma, Cartago, Alexandria e Hipona (cidade de Santo Agostinho, o qual também seria um dos primeiros a estabelecer uma Ordem religiosa, que seria particularmente popular durante a Idade Média). Os desertos do Egito enxamearam-se com as celas ou cabanas destes anacoretas. Santo Antão, retirado em Tebaida, no Egito, durante as perseguições de Maximiano, no ano de 312, tornou-se um dos mais célebres destes monges, os Padres do Deserto, pela sua austeridade, santidade reconhecida pelos outros e pelo seu poder como exorcista. A sua fama granjeou-lhe um grupo apreciável de discípulos desejosos de alcançar a sua santidade pelo caminho do ascetismo. Quanto mais agreste era a morada que escolhia, mais discípulos o rodeavam. Recusando-se a separarem-se do seu guia espiritual, nascia assim a primeira comunidade monástica, consistindo em cabanas (celas), em torno de outra, considerada superior, onde residia o abade. Segundo Neander, na sua História da Igreja, Antão, sem qualquer projeto consciente de arquitetura, tornou-se o fundador de um novo modo de vida em comum: o cenobitismo. Com o passar do tempo, os grupos de cabanas foram tornando mais complexas e ordenadas as suas relações espaciais e funcionais. Começou-se por dispor as celas em linhas, como as tendas de um acampamento ou casas numa rua. Tais fileiras de células individuais passaram a chamar-se de Laurae, Laurai, "ruas" ou "travessas."
O verdadeiro fundador dos mosteiros cenobitas (koinos, comum, e bios, vida) no sentido moderno foi Pacômio, um egípcio que viveu no início do . A primeira comunidade por ele estabelecida situava-se na Tebaida, mais especificamente em Tabenesi, uma ilha do Nilo, no Alto Egito. Apesar de a sua regra ainda ter uma concepção rude, representou uma evolução interessante, ao estabelecer um modo de vida mais comunitário, afastando-se dos rigores extremos dos anacoretas. Durante a sua vida, fundaram-se na região outras oito comunidades, perfazendo cerca de 3 000 monges. Em menos de cinquenta anos após a sua morte, estas sociedades já contavam com cerca de 50 000 membros. Estes cenóbios (coenobia - sendo também usados os termos caenobium, congregatio, fraternitas e asceterion) assemelhavam-se a conjuntos de aldeias, povoadas por uma comunidade religiosa laboriosa do mesmo sexo, sob a obediência de um superior religioso.
As construções estavam separadas, eram pequenas e de carácter humilde. Cada cela ou cabana, de acordo com Sozomeno (H.R. iii. 14), serviria para três monges. Tomavam a refeição principal num refeitório comum às três horas da tarde, depois de terem feito jejum. Comiam em silêncio, com os capuzes tão caídos para a frente que mal podiam ver outra coisa além do que constava na mesa, à sua frente. Os monges devotavam o seu tempo ao serviço religioso ou ao trabalho manual. Paládio, que visitou os mosteiros egípcios no final do , encontrou, entre trezentos membros do cenóbio (coenobium) de Panópolis, sob a regra de Pacômio, quinze alfaiates, sete ferreiros, quatro carpinteiros, doze condutores de camelos e quinze curtidores. Cada comunidade independente tinha o seu próprio 'ecônomo ou director, que estava sujeito a um director geral, pertencente à sede principal. Todos os produtos nascidos do trabalho dos monges ficava ao seu encargo, e eram por ele expedidos para Alexandria. O dinheiro ganho era gasto no armazenamento de víveres para a comunidade — o excedente era oferecido em caridade. Duas vezes por ano, os superiores dos vários cenóbios reuniam-se no mosteiro principal, sob a presidência de um arquimandrita ("chefe da congregação de fiéis," de miandra, que significa "curral do rebanho"), e na última reunião prestavam contas da sua administração anual. Os cenóbios da Síria pertenciam também à instituição pacomiana. Conhecem-se atualmente muitos detalhes em relação às comunidades vizinhas de Antioquia a partir dos escritos de São João Crisóstomo. Os monges viviam em cabanas individuais, separadas, kalbbia, formando um pequeno vilarejo nas abas de uma montanha. Estavam sujeitos a um abade, observando uma regra comum. (Não tinham refeitório, mas comiam a sua refeição em comum, composta apenas de pão e água, quando o dia de trabalho terminava, deitando-se em camas de palha, muitas vezes ao relento). Reuniam-se quatro vezes por dia para orações e recitação de salmos.
O mais antigo mosteiro cristão conhecido a deixar marcas que permitam vislumbrar o seu plano arquitetônico situava-se em Tébessa, na Numídia, atual Argélia, que aí foi destruído pelos muçulmanos em 535, reconstruído e, depois, de novo destruído em 683, também pelos árabes. Seu traçado original ficou um pouco mais esclarecido após escavações levadas a cabo no final do .
O monasticismo cristão europeu viria a nascer deste gérmen, depois da divulgação deste modo de vida por religiosos ocidentais como São Basílio de Cesareia, São Jerónimo e João Cassiano, após terem visitado os Padres do Deserto. São Martinho de Tours fundava, entretanto, os mosteiros de Ligugé e Marmoutier. Na Irlanda, São Columba e São Patrício seriam os grandes impulsionadores do monasticismo celta.
De início ainda existiram mosteiros duplos, em que homens e mulheres conviviam sob a direção de um abade comum. Tais instituições foram primeiramente abolidas no Oriente, por Justiniano, preocupado com os abusos que daí podiam advir. No Ocidente, contudo, mosteiros deste género continuaram a existir em Inglaterra, França e Espanha onde se estabeleciam regras severas que não permitiam grande contacto entre as duas comunidades de sexo oposto, como acontecia nos conventos da Ordem de São Gilberto de Sempringham, em Inglaterra, ou nos mosteiros franceses de Faremoutiers, Chelles, Remiremont, etc.