Gungunhana, também Ngungunhane, Mdungazwe Ngungunyane Nxumalo, Nghunghunyani, N'gungunhana, ou Reinaldo Frederico Gungunhana (Império de Gaza, c. 1850 – Angra do Heroísmo, ilha Terceira, 23 de dezembro de 1906) foi o último imperador do Império de Gaza, no território que actualmente é Moçambique, e o último monarca da dinastia Jamine, de origem zulu. Cognominado o Leão de Gaza, o seu reinado estendeu-se de 1884 a 28 de dezembro de 1895, dia em que foi feito prisioneiro por Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque na aldeia fortificada de Chaimite. Já conhecido da imprensa europeia, a administração colonial portuguesa decidiu condená-lo ao exílio em vez de o mandar fuzilar. Foi transportado para Lisboa, acompanhado por um filho de nome Godide e por outros dignitários. Após uma breve permanência naquela cidade, foi desterrado para os Açores, onde viria a falecer onze anos mais tarde.Maria da Conceição Vilhena, Gungunhana, Grandeza e Decadência de um Império Africano, Edições Colibri, Lisboa, 1999

Biografia Mudungazi, ou Mundagaz, que, ao subir ao trono em 1884, viria a ser cognominado Gungunhana ou Leão de Gaza, nasceu por volta de 1850, segundo informações daqueles que o conheceram, no território de Gaza algures entre os rios Zambeze e Incomati, mas muito provavelmente nas margens do Limpopo, região onde o centro do poder angune então se situava. Era filho de Muzila, ou Mzila, que seria depois rei de Gaza de 1861 a 1884, e de Yosio, cujo nome, após a sua morte, foi substituído por Umpibekeçana. O pai era filho e sucessor de Manicusse que, à frente de um exército vindo da Zululândia, tinha fundado o Império de Gaza.

Os anos formativos (1850–1864) Mudungazi nasceu numa sociedade complexa e num período de grande instabilidade social e política. O seu avô, Soshangane ou Manicusse, era o rei (ou nkosi) de um povo de língua nguni, depois denominado pelos portugueses como angune ou vátua, líder incontestado de um poderoso exército que ao longo das década anteriores, na sequência do desencadear do Mfecane, migrara para o Norte a partir da Zululândia, submetendo ao longo da década de 1820 cerca de duas centenas de tribos, cujos chefes passaram a ser seus régulos vassalos.

Após terem partido das suas terras ancestrais no território da actual África do Sul, os guerreiros angunes liderados por Soshangane moveram-se incessantemente pelos territórios sitos entre os rios Maputo e Zambeze, esmagando os povos autóctones e no processo fundando um império a que deram o nome de Gaza, que na fase inicial ocupava cerca de 56 000 km².

Com esta chegada dos angunes, o relativo sossego em que tinham vivido os povos locais e os comerciantes portugueses estabelecidos ao longo da costa moçambicana foi rudemente quebrado com sucessivos massacres e a submissão forçada a um novo poder, criando-se um clima de insegurança e medo que permaneceria durante décadas.

Após um deambular de quase vinte anos, o centro do poder angune estabeleceu-se em torno do vale do rio Limpopo, região onde Soshangane, agora com o seu nome mudado para Manicusse, fundou a aldeia de Chaimite e aí fixou a sua capital.

Sendo uma das presenças europeias mais antigas naqueles territórios, Portugal resolveu enviar em Agosto de 1840 uma embaixada à corte de Manicusse. A delegação era chefiada pelo alferes Caetano dos Santos Pinto e tinha instruções para estabelecer um tratado de amizade, entregando uma espada e uma banda ao rei em troca de uma zagaia e de uma rodela (escudo). A embaixada foi recebida, mas Manicusse declarou que, no momento, ignorava a vantagem que lhe poderia advir de um tratado de amizade com o rei de Portugal, conforme consta do relatório, datado de 18 de Novembro de 1840, que foi apresentado pelo alferes Caetano dos Santos Pinto e registado pelo escrivão da Fazenda Nacional em Inhambane João Caetano Dias. Mesmo assim, a espada foi trocada pela zagaia, mas os ataques continuaram.

Foi pois nesta região, e neste enquadramento social e político, que cerca de 1850 nasceu Mundagaz, o futuro Gungunhana, um príncipe de sangue real, filho de Muzila, um dos putativos herdeiros de Manicusse. Educado para a vida de guerreiro, desde tenra idade participante nas grandes caminhadas que seu pai e avô empreendiam anualmente através dos seus vastos domínios, Ngunguhane foi formada para a luta, aprendendo as tácticas de guerra que seu avô, a par de Tchaca, tinham sido os introdutores.

Quando Manicusse morreu, em 1858, a disputa pelo trono travou-se entre dois contendores principais: Muzila, o pai de Mundagaz, e Mawewe, seu tio. Após uma breve contenda armada, saiu vitorioso Mawewe, que decidiu, em 1859, atacar os seus irmãos para ganhar mais poder. Apenas Muzila conseguiu fugir para o Transvaal, onde organizou um exército para atacar o irmão. Provavelmente Mundagaz terá seguido o seu pai para o exílio, escapando à tentativa de destruição da sua linhagem que se seguiu.

Com Mawewe, ou Maueva, como era designado pela administração colonial portuguesa, a revelar-se ainda mais agressivo que seu pai e predecessor, os portugueses, os bóeres e muitos dos líderes tribais que se sentiam ameaçados pela dominação angune uniram-se contra ele. Sentindo também a ameaça, o presidente da República Bóer do Orange oficiou a 29 de Abril de 1861 ao vice-cônsul de Portugal propondo uma aliança formal contra Mawewe, a qual foi aceite com relutância. Entretanto, estas reticências desaparecem quando Mawewe exigiu que a colónia de Lourenço Marques lhe passasse a pagar tributo sob a forma de calçado, incluindo mesmo uma cláusula que impunha que as mulheres grávidas pagassem um duplo tributo. E tudo isto sob a ameaça de, em caso de recusa, mover uma guerra de extermínio contra os interesses portugueses na região. Onofre Lourenço de Paiva de Andrade, então governador da praça de Lourenço Marques, respondeu enviando um cartucho e dizendo que aquela seria a forma de pagamento do tributo.

Estava declarada a guerra e, a 2 de Novembro de 1861, chegaram a Lourenço Marques enviados de Muzila, que aceitam o apoio português na contenda a troco de vassalagem. A partir daí, Muzila assumiu-se como rei e a guerra ganhou ímpeto.

A batalha decisiva travou-se em finais de Novembro de 1861, numa linha de quase quatro léguas entre as praias da Matola e as terras de Moamba. Apesar de ter menos homens, Muzila saiu vencedor e a 30 de Novembro apresentou-se no presídio de Lourenço Marques, sendo amigavelmente recebido pelo governador.

A 1 de Dezembro de 1861 foi celebrado um tratado em que Muzila se declarava súbdito português e feita uma acta, que depois de aprovada pelo governo português, seria publicada por portaria de 18 de Fevereiro de 1863 de José da Silva Mendes Leal, então Ministro da Marinha e Ultramar, e incluída no n.º 4 da publicação Termos de Vassalagem (1858–1889).

Uma nova e decisiva vitória de Muzila numa batalha travada a 16 de Dezembro de 1861, na região do Maputo, consolidou a aliança. No processo Portugal forneceu a Muzila 2000 espingardas, 50 000 cartuchos e 1200 pederneiras, além do apoio bóer e de intermediação com os líderes locais, que preferiam submeter-se à suserania distante do rei de Portugal do que hegemonia local de Mawewe.

Apesar de a guerra ter durado até 1864 e, entretanto, a capital do reino ter mudado do vale do rio Limpopo para Mossurize, a norte do rio Save, na actual província moçambicana de Manica, Muzila foi dominando progressivamente os angune e os povos seus vassalos e a partir de 1864 foi o líder incontestado do Império de Gaza. Com isso, Mundagaz passou a ser um dos príncipes seus potenciais sucessores, iniciando um percurso que o levaria ao poder.

O reinado de Muzila (1864–1884) Terminada a guerra, Muzila dedicou-se à consolidação do seu poder e à expansão do Império de Gaza. Manteve o estilo de governação do seu pai, governando com mão de ferro e mantendo a sua corte em constantes caminhadas, percorrendo incessantemente o território que dominava. A capital continuou em Mossurize, tendo a povoação de Chaimite passado a ser considerada a aldeia sagrada da linhagem e sítio de residência dos espíritos ancestrais.

Apesar do tratado assinado em 1861 e da efectiva aliança com os interesses portugueses que lhe permitira conquistar o trono, os guerreiros de Muzila devastaram por diversas vezes as colónias portuguesas instaladas em Sofala e Inhambane, mantendo-se um clima de tensão que em nada condizia com o formalmente acordado nem com as constantes manifestações de amizade.

Era crescente a pressão europeia sobre a região: portugueses, ingleses e bóeres digladiavam-se pelo controlo de cada vez mais território. Neste período aumentou rapidamente o número de expedições europeias para exploração da África. Eram também cada vez mais os missionários e os comerciantes europeus nas terras de Gaza. Em Lisboa já se começava a alimentar o sonho do controlo dos territórios de Angola à contra-costa, que culminaria no mapa cor-de-rosa alguns anos depois.

Neste ambiente de crescente pressão europeia, a posição de Muzila era cautelosa, traduzindo-se num distanciamento em relação aos europeus. Mantinha-se nominalmente como vassalo português, mas esquecia com frequência os termos do acordo de 1861: fazia a guerra quando entendia e não se coibia de atacar os interesses portugueses sempre que tal se lhe mostrava favorável e, apesar dos seus protestos de amizade e gratidão, os seus guerreiros por diversas vezes devastaram os distritos de Sofala e Inhambane, penetrando em territórios que eram reclamados como estando sob soberania portuguesa ou pertencentes a régulos que se reclamavam súbditos do rei de Portugal.

No início da década de 1880, quando o reinado de Muzila se aproximava do fim, a pressão europeia cresceu rapidamente. As expedições eram cada vez mais frequentes e penetravam cada vez mais profundamente no território de Gaza. As pressões para que fosse autorizada a exploração de recursos minerais também cresciam. Mantendo uma política de equilíbrio estratégico com os interesses portugueses, a 27 de Janeiro de 1882 Muzila, acompanhado por duas mangas das suas tropas, visitou Lourenço Marques, prestando vassalagem e justificando os conflitos registados em Inhambane. Foi recebido com todas as honras pelo governador, que lhe ofereceu bois, arroz e aguardente. Pouco depois, em meados daquele ano, pediu mesmo uma bandeira portuguesa para hastear no seu acampamento.

No ano seguinte, em 1883, Portugal decidiu nomear um embaixador junto da corte de Muzila. A escolha recaiu sobre António Maria Cardoso, um homem experiente na região, que se dirigiu de imediato para o local onde Muzila se encontrava, na região de Bulawayo, no actual território do Zimbabwe. Depois de uma longa espera para obter autorização para se aproximar do acampamento e para ser recebido em audiência, António Maria Cardoso conseguiu finalmente chegar à fala com Muzila e foi bem recebido. O mesmo aconteceu com o capitão de artilharia Joaquim Carlos Paiva de Andrada, que naquele ano se dirigiu a Manica e aí encontrou Muzila.

Contudo, apesar deste aparente bom relacionamento, as tensões subiam rapidamente, com as potências europeias a exigir um efectivo domínio do território como única forma de justificar a posse de territórios em África. Por esta altura, face ao crescente envolvimento de outras potências europeias em África, Portugal decide reforçar a sua presença naquele continente: foram organizadas as grandes expedições de exploração, com destaque para as de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo, com as quais pretendia demonstrar a efectiva ocupação do interior de África.

Sem que Muzila o soubesse, no último ano da sua vida, a milhares de quilómetros das suas terras preparava-se a Conferência de Berlim e, com ela, a partilha do continente africano entre as potências europeias. Quando morreu, em finais de Agosto de 1884, os europeus já estavam reunidos para fixar as regras que ditariam o futuro de Gaza.