miniaturadaimagem|275x275px|Vaqueiros sertanejos em uma vaquejada na Bahia, 2022. miniaturadaimagem|Localização da Caatinga, bioma em que habitam os sertanejos. Sertanejos formam uma população, no Brasil, que habita a Caatinga, bioma no interior da Região Nordeste do Brasil, tradicionalmente em moradias situadas em campos de roça e ligados à pecuária e agricultura. Estima-se que sua população seja de aproximadamente 28 milhões de pessoas.
O surgimento remonta ao século XVI na Bahia com os vaqueiros, impulsionados pelo avanço da pecuária em direção ao interior semiárido.
O povo sertanejo foi formado, sobretudo, pela miscigenação entre portugueses e indígenas falantes de línguas macro-jê, com participação também do negro, majoritariamente na condição de livre.
O sertanejo é considerado, por muitos, o estereótipo do homem nordestino, sendo comparável ao caipira ou ao gaúcho. Também recebe outras nomenclaturas, como sertanejo nordestino ou caatingueiro. Sua estética representativa vem dos vaqueiros (que também influenciaram os cangaceiros).
Etimologia O termo sertanejo deriva da palavra "sertão”, a qual, durante o período colonial, era um termo genérico para se referir a todos os territórios portugueses nas Américas que não eram litorâneos. Como resultado, outras regiões do Brasil, além do Nordeste, também adotaram a palavra "sertanejo" para se referir a coisas como os estilos musicais e o modo de falar dos habitantes do campo, originando os nomes "música sertaneja" de São Paulo e "dialeto sertanejo" do Centro-Oeste brasileiro, ambos sem relação com o povo sertanejo. Durante os séculos XIX e XX, o uso do termo "sertão" como sinônimo de todas as terras consideradas isoladas caiu em desuso, à medida que o termo passou a ser associado cada vez mais especificamente à sub-região do sertão no Nordeste brasileiro.
História
Origem e expansão
O gado bovino foi introduzido na Zona da Mata nordestina na administração de Tomé de Sousa (1549-1553) e inicialmente eram diretamente ligados ao ciclo do açúcar, pois esses animais serviam de tração animal para os canaviais e alimento. Com o passar das décadas, os rebanhos bovinos se multiplicaram e trouxeram transtornos às plantações de cana. Esse fator, somado às invasões holandesas, nas quais muitos pastos de engenhos de açúcar foram destruídos e muitos opositores ao domínio holandês tiveram que se refugiar no interior, e à rigidez social do ciclo do açúcar, que exigia apenas alguns trabalhadores livres, fez com que brancos, mamelucos, mulatos e negros dos núcleos litorâneos da Bahia e de Pernambuco se dirigissem para a Caatinga, junto com o gado, como vaqueiros e ajudantes.
A colonização do semiárido nordestino ocorreu principalmente durante o ciclo do gado entre os séculos XVI e XVIII e seguiu o curso dos seus rios, como o São Francisco, Parnaíba, Itapicuru, Vaza-Barris, Apodi, Piranhas-Açu, Jaguaribe, Acaraú e Gurgueia, em cujas margens se formaram muitas fazendas de gado. Os vaqueiros e ajudantes entraram em conflito com os indígenas, apesar de haver uma miscigenação contínua com os indígenas nas Caatingas e ameríndios terem se tornado vaqueiros.
O ciclo do gado começa na Bahia no século XVI, cuja primeira menção ao vaqueiro já ocorre ainda nesse mesmo século.BRAGA, Renato. Introdução da semente pecuária. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1964. Havia dois grandes latifúndios que dominavam o Sertão nordestino: a Casa da Torre (localizada no recôncavo baiano) da família Garcia d'Ávila, e a Casa da Ponte, da família Guedes de Brito (do sertão baiano). Estes latifúndios eram divididos em fazendas menores, as quais eram alugadas para os vaqueiros.
A pecuária na Caatinga era uma atividade que demandava pouca mão-de-obra, a qual era predominantemente livre, embora algumas regiões, como o Piauí, tenham usado a mão-de-obra do africano escravizado em larga escala. O gado era criado solto e criava-se também cavalos, para a locomoção dos vaqueiros.
No final do século XVII, os cariris do sertão da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará iniciaram uma guerra de resistência contra a invasão e a colonização de seu território. Essa guerra ficou conhecida como Guerra dos Bárbaros e durou três décadas. Eventualmente, as forças coloniais portuguesas conseguiram derrotar os indígenas.
A região do Alto Sertão Baiano e grande parte da Chapada Diamantina teve uma formação histórica e social diferentes do restante do Sertão. Foram ocupadas nos séculos XVIII e XIX não só por causa da pecuária, mas também por causa da extração de pedras preciosas e atividades atreladas, utilizando-se da mão-de-obra do africano escravizado em larga escala. Apesar disso, esses sertanejos baianos possuem um forte caráter rural.
A vida dos sertanejos era difícil, o que se deve muito às secas. Havia abundância apenas de leite e carne e utilizavam-se do leite coalhado e do queijo apenas para o próprio consumo. Possuíam roçados, nos quais, nas épocas úmidas, plantavam alimentos como milho, mandioca e feijão. A farinha de mandioca juntou-se à carne, originando a paçoca, um prato típico sertanejo. Do couro dos bois produzia-se diversos artefatos cotidianos do sertanejo, como cabanas, cantis, mochilas, leitos e vestimentas.
Darcy Ribeiro comparou os vaqueiros e lavradores sertanejos aos camponeses em servidão na Europa Feudal, visto que ambos nasciam e viviam na região de seus pais e avós, ficavam presos a uma terra que não lhes pertencia e tinham que pagar altos impostos ao proprietário das terras que utilizavam, o qual, grande parte das vezes, residia no litoral.Os contatos entre sertão e litoral eram esporádicos, ocorrendo apenas em determinadas épocas do ano, por meio de feiras em que se reuniam criadores e comerciantes, muitas das quais deram origem a núcleos de povoamento, embriões de cidades atuais como Feira de Santana (BA), Campina Grande (PB), Pastos Bons (MA), Serra Talhada (PE) e Oeiras (PI).
As secas miniaturadaimagem|Vítimas da Grande Seca no Ceará. O semiárido brasileiro é propenso a secas e regimes de chuvas irregulares, especialmente no sertão, onde a estação chuvosa ocorre entre janeiro e maio e depende das imprevisíveis tempestades de verão. No agreste, porém, o clima é mais regular e a estação chuvosa ocorre entre maio e agosto, quando frentes frias vindas do Atlântico Sul atingem a América do Sul e formam nuvens de chuva, tornando os eventos de seca mais raros e menos severos.
Devido a essas características, as terras em que habitam o sertanejo sofreram muitos episódios de fome provocados por períodos prolongados de seca ao longo da sua história, com um total de 84 ocorrências anormais de períodos de seca prolongados desde o início do século XVIII, podendo haver muitas mais durante os séculos XVII e XVI, quando o registo de dados por parte das autoridades coloniais portuguesas era escasso.
Nos anos de 1877 e 1878, o fenômeno do El Niño mais poderoso da história levou à Grande Seca, um período de seca especialmente severa que afetou o semiárido nordestino. A falta de chuvas sazonais causou a morte de animais de rebanho e impossibilitou o cultivo de safras sazonais, resultando na morte de 400 a 500 mil sertanejos, ou cerca de 20 a 25% de sua população total.
Essa seca também provocou o primeiro evento de emigração interna em massa do povo sertanejo, que se tornaria, dentre os grupos etnoculturais brasileiros, aquele com a maior diáspora interna. Centenas de milhares de sertanejos emigraram para terras menos propensas à seca no litoral nordestino, na Amazônia e no sudeste do Brasil. Entre as décadas de 1890 e 1910, um grande número de reservatórios, lagos e açudes artificiais foram escavados nas terras sertanejas, principalmente no Ceará e no Rio Grande do Norte. Como resultado, a severidade das secas subsequentes foi atenuada, evitando uma tragédia das proporções da Grande Seca.
O cacto palma (Opuntia cochenillifera), comestível, era frequentemente consumido pelos sertanejos como alimento de subsistência durante as secas, seja puro ou bastante temperado com sal e vinagre, pois o sabor forte desses condimentos amenizava o gosto "herbáceo" do cacto. Esse cacto é preparado removendo-se cuidadosamente a camada externa para eliminar os espinhos e, em seguida, fervido em água para tornar o consumo seguro. Atualmente, a palma ainda é cultivada pelos sertanejos durante a estação seca, mas seu consumo humano é bastante raro; em vez disso, ela é utilizada para alimentar o gado bovino e caprino. Curiosamente, a planta não é nativa do Brasil, tendo sido introduzida na região a partir do México no século XIX.
Guerra e repressão governamental miniaturadaimagem|268x268px|Sobreviventes da Guerra de Canudos e do massacre no conflito, 1897. Durante o final do século XIX e início do século XX, o governo federal brasileiro, por vezes com o apoio de oligarcas e figuras políticas locais, liderou múltiplos massacres contra os sertanejos, uma população de baixa renda, nos estados da Bahia, Pernambuco e Ceará. O maior e mais notório desses massacres ocorreu durante a Guerra de Canudos, quando camponeses do sertão baiano, liderados pelo pregador católico Antônio Conselheiro, construíram um assentamento comunal e sem distinção de classes, com 30 mil habitantes, no meio do semiárido, chamado "Belo Monte". Latifundiários e autoridades locais temiam a influência que isso exerceria na região e pressionaram o governo federal a tomar medidas militares contra os camponeses, alegando que os moradores eram simpatizantes da monarquia e planejavam derrubar a recém-instaurada Primeira República Brasileira. Entre 1896 e 1897, a cidade foi sitiada pelo exército brasileiro em quatro expedições distintas, resultando na morte de 20 mil civis. Outros massacres contra sertanejos no período incluem Pau de Colher na região de Casa Nova (BA) e o Caldeirão de Santa Cruz do Deserto no Ceará.
Cangaço miniaturadaimagem|267x267px|Lampião e seu bando em Limoeiro do Norte (CE) em 1927. A agitação social, a pobreza generalizada e a introdução de armas britânicas e estadunidenses mais baratas e fáceis de adquirir, como rifles, pistolas e munições, fizeram com que semiárido nordestino fosse assolado pelo banditismo e pela criminalidade entre as décadas de 1840 e 1930, atingindo o seu auge na década de 1920. Este fenómeno ficou conhecido como Cangaço, e os perpetradores como cangaceiros. Os grupos cangaceiros geralmente se formavam a partir de bandos familiares, muitas vezes devido a disputas entre famílias e ciclos de vingança. Os envolvidos em assassinatos tornavam-se fugitivos da lei, o que os obrigava a deixar suas cidades e vilarejos para evitar a prisão e, em vez disso, adotavam um estilo de vida nômade, frequentemente roubando fazendas e gado para se sustentar. Eventualmente, outras pessoas de diferentes famílias e lugares, que também tentavam escapar da perseguição judicial, juntavam-se a outros bandos, formando grupos maiores que podiam ter dezenas ou até centenas de integrantes, o que dificultava a repressão por parte das forças policiais locais.
Antes da Era Vargas, a polícia brasileira atuava de forma independente em cada estado do país, não podendo se deslocar livremente para um estado vizinho sem a permissão do governo local. O pequeno tamanho e o formato horizontal dos territórios dos estados do Nordeste brasileiro tornavam essa brecha legal facilmente explorável pelos cangaceiros, que podiam ir de um estado para outro no mesmo dia a cavalo, dificultando a perseguição policial. Na década de 1930, mudanças na legislação, a intervenção do governo federal e a utilização do exército e outras forças militares em substituição à polícia levaram ao fim do cangaço, com a morte do bando mais famoso e poderoso, liderado por Lampião, durante uma emboscada em Poço Redondo, sertão de Sergipe, no ano de 1938. Outros cangaceiros importantes incluem Antônio Silvino, Zé Baiano, Corisco, Maria Bonita, Adolfo Meia-Noite, Sinhô Pereira e Anésia Cauaçu.
História recente