José Wasth Rodrigues (São Paulo, 19 de março de 1891 - Rio de Janeiro, 21 de abril de 1957) foi um pintor, desenhista, ilustrador, ceramista, professor e historiador brasileiro. Era tio do também ilustrador Ivan Wasth Rodrigues.
Wasth Rodrigues foi importante figura para a história da cidade de São Paulo, sendo responsável pelo desenvolvimento de brasões de vários municípios brasileiros, como o brasão da Cidade de São Paulo, o brasão de Mogi das Cruzes e o Brasão de São Sebastião. Também viria, posteriormente, a desenhar o brasão do Estado de São Paulo. Destaca-se ainda por seu trabalho como historiador, deixando várias publicações voltadas à documentação arquitetônica da construção civil e religiosa e obras sobre mobiliário antigo, indumentária, insígnias e armas militares.
José Wasth Rodrigues foi pioneiro em demonstrar preocupação em relação às demolições e descaracterizações sofridas por exemplares do patrimônio cultural brasileiro, sugerindo, em inquérito do jornal O Estado de São Paulo sobre Arquitetura Colonial, que "a fundação de uma Sociedade ou Comissão de Arquitetos com plenos poderes junto aos governos e às Cúrias para embargar as demolições e impedir que as restaurações sejam feitas com o sacrifício da “fisionomia característica” do edifício.O ESTADO DE SÃO PAULO. Arquitetura Colonial – I-IX. São Paulo, edições publicadas nos dias 13-17, 21, 29 e 30 de abril de 1926, p.4.
Biografia thumb|200px|right|Largo e Mosteiro de São Bento. José Wasth Rodrigues, natural de São Paulo, realizou estudos durante dois anos com Oscar Pereira da Silva. Não somente pintor, foi também historiador e especialista em mobiliário, armaria e heráldica. Destacou-se, ainda jovem, na produção de artes plásticas. Em 1910, recebeu do governo do Estado de São Paulo, após seus estudos de 1908 a 1909, uma viagem à Europa.LIMA, Solange F.D. & CARVALHO, Vânia C. de. São Paulo antigo, uma encomenda da modernidade: as fotografias de Militão nas pinturas do Museu Paulista, Anais do Museu Paulista, 1993
Na França, frequentou em Paris a Académie Julien e a École des Beaux-Arts, tendo por mestres Jean Paul Laurens, Nandi e Lucien Simon. Em 1914, expôs no Salão de Paris, e antes do início da I Guerra Mundial, voltou ao Brasil. Dois anos depois (1916) fundou em São Paulo um curso de desenho e pintura. thumb|200px|right|Páteo da Sé. Retorna a São Paulo em 1914, participando ativamente da vida artística da cidade. Em 1916, em conjunto com George Fischer Elpons e William Zadig, inaugura um curso de pintura e desenho. Wasth Rodrigues cria muitos brasões, como por exemplo o da cidade de São Paulo, em 1917, com o auxílio do poeta Guilherme de Almeida (1890 - 1969), e também o do Estado de São Paulo, em 1932.
Recebeu sua primeira medalha de ouro no Salão Paulista de 1933, e seu primeiro prêmio de pintura em 1934. Em suas viagens por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro registrou em óleos, aquarelas e desenhos, principalmente bicos de pena, velhos solares, igrejas e monumentos da região. Prestou importante colaboração ao Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, participando do Conselho consultivo e executando obras artísticas históricas.
Quando recém-chegado de uma temporada europeia, Wasth Rodrigues, além de prestar serviços aos estudos de Ricardo Severo, dedicava-se também a ilustrar os livros de Monteiro Lobato e artigos da Revista do Brasil.(Chiarelli, 1995) Na sua primeira fase (entre 1916 e 1925), Wasth Rodrigues contava com a colaboração da parcela mais importante da intelectualidade brasileira, para a defesa e difusão do nacionalismo, conquistando um espaço privilegiado pela qualidade editorial e pela disposição em romper com a superficialidade que caracterizava as revistas nascidas sob o signo da virada do século. Nascida de articulações promovidas pelos proprietários do O Estado de São Paulo, a Revista do Brasil, embora de repercussão nacional, trazia a marca das elites paulistanas na sua diretoria, formada por Júlio de Mesquita, Alfredo Pujol e Luís Pereira Barreto; e, principalmente, na lista de 66 membros da sociedade anônima (presidida por Ricardo Severo) que viabilizou financeiramente o projeto.(De Luca, 1999: 35)
thumb|200px|left|Soldado da Legião Paulista na Cisplatina e Gaúcho. A questão do "nacional" estava na ordem do dia, manifestando-se em todos os setores da vida intelectual do país, e de forma particular em São Paulo. A guerra europeia se encarregara de ferir de morte o espírito da Belle Epoqe e, embora as reações não se limitassem à busca nativista pelas raízes brasileiras, por algum tempo "modernidade" e "nacionalismo" foram quase sinônimos. A vertente paulista desse movimento se manifestou no interesse pelos temas históricos e folclóricos do passado: bandeirantes, caipiras, genealogia, relatos de viajantes.Kessel, Carlos. Vanguarda efêmera: arquitetura neocolonial na Semana de Arte Moderna de 1922. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nO 30,2002, p. 110-128.
Por volta de 1918, Wasth Rodrigues passa a dedica-se ao estudo de história colonial, e tornou-se um dos pioneiros no registros das atividades artísticas do período. José Wasth Rodrigues foi pioneiro em demonstrar preocupação em relação às demolições e descaracterizações sofridas por exemplares do patrimônio cultural brasileiro. Sugeriu, então, em inquérito do jornal O Estado de São Paulo sobre Arquitetura Colonial, que "a fundação de uma Sociedade ou Comissão de Arquitetos com plenos poderes junto aos governos e às Cúrias para embargar as demolições e impedir que as restaurações sejam feitas com o sacrifício da “fisionomia característica” do edifício.
Este interesse pela arquitetura do passado, que se estende até a defesa de preservação, é pouco comum no período, e não era manifestada nem mesmo por Ricardo Severo, que jamais externou qualquer preocupação a respeito. Outro importante protagonista do período que também parece ter sido fortemente impressionado pelas ideias de Severo é Mário de Andrade, cujos primeiros artigos sobre arquitetura - a série de artigos sob o título “A Arte religiosa no Brasil”, publicados em 1920 na Revista do Brasil - bem como as viagens que empreendeu para escrevê-los, parecem claramente motivados por elas. Tal como Wasth Rodrigues, Mário está certamente entre os primeiros artistas e intelectuais do período a conhecer in loco antigas cidades brasileiras. Excelente desenhista, ficou famoso por seus trabalhos em bico de pena, nos quais abordava a paisagem urbana e detalhava a arquitetura e o mobiliário coloniais brasileiros.Banco Comparativo de Imagens, Unicamp
José Wasth Rodrigues foi o responsável por reintroduzir a tradição de pintura em azulejos nos obras de arte públicas de São Paulo. Executou painéis decorativos para os quatro monumentos da Calçada do Lorena e da estrada velha de Santos. Na capital paulista, decorou em azulejos da Ladeira da Memória. Como pintor, destacou-se por seus trabalhos históricos, destacando-se pelo capricho no retrato dos detalhes dos acontecimentos retratados.
thumb|200px|right|Brasão com Armas de Jaú. Em 1932, passa a integrar a Sociedade Pró-Arte Moderna. Ilustrou num estilo bastante realista diversos livros (Urupês, de Monteiro Lobato; Uniformes do Exército Brasileiro, de Gustavo Barroso; Brasões e Bandeiras do Brasil, de Clóvis Ribeiro; Vida e Morte do Bandeirante, de Alcântara Machado, etc.). Entre 1935 e 1936, concebe o projeto de restauração de itens da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto.(Santos, 1997: 100)
Na abertura do XVIII Salão Anual da ENBA, a 12 de agosto de 1921, foram expostos os dez projetos concorrentes, e, depois de uma demorada deliberação, a comissão julgadora do IBA anunciou os vencedores. O primeiro prêmio foi concebido a Nereu de Sampaio e Gabriel Fernandes, mas José Wasth Rodrigues, que se aventurava pela arquitetura, foi considerado forte concorrente. O neocolonial chegava ao Rio de Janeiro como um desafio lançado ao conservadorismo acadêmico: a ENBA representava para a arquitetura e as artes plásticas o que a Academia Brasileira de Letras representava para a literatura. Através da sedução exercida pelos concursos promovidos por José Marianno e pelas ideias propagandeadas por Ricardo Severo, os alunos e profissionais recém formados desenvolvem nos anos seguintes centenas de projetos em estilo neocolonial, e José Wasth Rodrigues de destacava.
Obra thumb|right|200px|Batalha de Ituzaingó. José Wasth Rodrigues publicou as seguintes obras: Documentário arquitetônico relativo à antiga construção civil no Brasil , em oito volumes, amplamente ilustrados; Móveis antigos de Minas Gerais; A casa da moradia do Brasil antigo. Produziu também desenhos e aquarelas do livro Uniformes do Exército Brasileiro.
Em 1895 Wasth Rodrigues já participava de exposições na Casa Garraux e, em 1901, expôs" Rinha de Galos" e, em 1908, o esboço da pintura histórica "A Convenção de Itu, 1873", cujo quadro a óleo pertence ao acervo deste Museu e encontra-se exposto no Museu Republicano "Convenção de Itu", na cidade de Itu (SP). Nesse mesmo ano de 1908, recebeu medalha de Ouro na exposição da Escola Nacional de Belas Artes. Em 1902, realizou uma exposição individual com trinta obras autorais, na Galeria Castelões. Foi convidado por Affonso de Taunay a executar retratos convencionais de Itu e vistas da cidade de São Paulo. Seus trabalhos abordaram a paisagem, pintura de gênero, costumes e retratos. Em razão de seu falecimento, teve suas obras expostas na sede da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo, à rua São Bento.
Seguindo a metodologia - se é que podemos chamá-la assim - de Severo,GONÇALVES, Ana Maria do Carmo Rossi. A obra de Ricardo Severo. Trabalho de Graduação Interdisciplinar, FAU-USP, São Paulo, 1977, p.12 e p.31SANTOS, Paulo. Presença de Lúcio Costa na Arquitetura Contemporânea do Brasil. Rio de Janeiro: datilografado, 1960, nota 34SAIA, Luís. Arquitetura Paulista. In: GFAU, Depoimentos 1, São Paulo, 1960, pp. 113-24. p.115 Wasth Rodrigues realizou inúmeras viagens pelo Brasil desde 1918, reunindo documentação que viria a tornar-se o livro “Documentário Arquitetônico”, publicado originalmente em fascículos na década de 1940. Severo financiou inúmeras excursões para Wasth Rodrigues, com objetivo de pesquisa dos vestígios da arte e da arquitetura coloniais.Kessel, Carlos. Estilo, discurso, poder: Arquitetura neocolonial no Brasil. pág 7 Ele encomendava o registro, em desenhos a bico de pena, fotografias e aquarelas, de detalhes construtivos e ornamentais de que pudessem se constituir também em material didático, destinado a normalizar as manifestações dos arquitetos que pretendessem seguir o seu apelo em prol do que chamava de "arte tradicional".
thumb|200px|left|Casas Velhas de Santos. À maneira de Severo, a documentação coletada por Wasth Rodrigues reproduz elementos construtivos e decorativos isoladamente, ainda que alguns edifícios importantes tenham sido levantados em planta e elevação. O material mostra claramente a intenção para a qual foi coletado, e está explícita na introdução de Wasth Rodrigues: uma espécie de “livro de modelos” a inspirar a produção neocolonial daqueles anos. Apesar disso,em razão de sua publicação tardia, a obra acabou não cumprindo tal papel - que parece ter ficado para o álbum “Estilo colonial brasileiro: composições arquitetônicas de motivos originais”, de 1927, concebido pelo desenhista italiano Felisberto Ranzini.PINHEIRO, Maria Lucia Bressan. A História da Arquitetura Brasileira e a Preservação do Patrimônio Cultural. São Paulo, 2006, p. 54