thumb|400px|Maquete do Campo de Marte em cerca de No alto estão a Ilha Tiberina e o Teatro de Marcelo, já no sopé do Capitolino. Mais abaixo, o Teatro de Balbo. No centro está o Teatro de Pompeu e, embaixo, o Odeão de Domiciano
Campo de Marte (; ) era uma área pública da Roma Antiga com aproximadamente 2 km de área. Na Idade Média, era a região mais populosa de Roma. O moderno rione IV de Roma, Campo Marzio ("Campo de Marte"), cobre uma área menor do que a antiga região histórica, mas tem o mesmo nome em italiano, o que pode provocar alguma confusão.
História Antiguidade De acordo com o mito da fundação de Roma, antes da cidade existir, Reia Sílvia, a mãe de Rômulo e Remo atirou seus filhos gêmeos no rio Tibre, que corria na fronteira ocidental do que depois seria o Campo de Marte. Encalhando na margem mais adiante rio abaixo, os irmãos retornariam décadas depois para fundar uma nova cidade. Rômulo, que se tornou o único rei depois de matar Remo, governou por muitos anos até algum momento do . Quando já estava perto do final de sua vida, uma nuvem de tempestade cobriu o centro de um campo aberto fora do pomério da cidade para levar o idoso rei para o céu.Jacobs II, P., & Conlin, D. (2015). Campus Martius: The Field of Mars in the Life of Ancient Rome. New York City, New York: Cambridge University Press. 3
Esta terra, "entre a cidade e o Tibre", tornou-se propriedade do último rei etrusco de Roma, Tarquínio Soberbo. Depois de sua derrota e exílio, a planície toda foi dedicada ao deus romano Marte.Lívio. Livros I e II. Cambridge. Cambridge, Mass., Harvard University Press; London, William Heinemann, Ltd. 1919. 2.5.2 Os homens romanos se reuniam ali toda primavera antes de partirem para a guerra contra as tribos rivais que viviam à volta de Roma e os cidadãos se encontravam ali para celebrar os mais importantes festivais religiosos. Com exceção de um pequeno altar dedicado a Marte perto do centro do campo, só foi a partir do que mudanças visíveis foram feitas no campo.
Em , a Vila Pública foi fundada numa clareira de 300 metros especialmente preparada. A área tinha por objetivo servir de ponto de encontro para os cidadãos à cada cinco anos, que seriam então contados (censo). Livre de qualquer estrutura permanente, nenhuma outra construção seria feita no Campo de Marte pelos dois séculos seguintes.Livy. Books III and IV With An English Translation. Cambridge. Cambridge, Mass., Harvard University Press; London, William Heinemann, Ltd. 1919. 4.22.7
thumb|esquerda|300px|Gravura de Piranesi () do Campo de Marte, na qual se vêem as fronteiras da região: o Capitolino está acima (sul). À direita está o Tibre (oeste), os montes Quirinal e Píncio à esquerda (leste) e uma estreita faixa de terra entre o Píncio e o Tibre abaixo (norte)
Com o advento das Guerras Púnicas em meados do , a expansão militar romana passou a ocorrer fora da península Itálica, o que reduziu a quantidade de gente para se reunir no campo nas primaveras. O número de guerras estrangeiras, por outro lado, aumentou muito a quantidade de riquezas que fluía de volta para a cidade. Generais que haviam jurado construir templos a variados deuses em caso de vitória passaram a utilizar estas riquezas para financiar novas construções. Além de templos e mercados de madeira, eram comuns também estruturas de lazer, também de caráter temporário.
Começando no período de Sula, lotes para construção foram vendidos ou concedidos a influentes cidadãos e ínsulas (blocos de apartamentos) e villas passaram a ocupar terras públicas. A região depois passou a abrigar a assembleia das centúrias, encontros cívicos de cidadãos armados da milícia da cidade. Em , Pompeu Magno construiu ali um teatro permanente de pedra, o primeiro de Roma, conhecido como Teatro de Pompeu. Quando a Cúria Hostília pegou fogo, em , era ali que se realizavam alguns encontros do senado romano. A área era utilizada também como ponto de encontro para eleições. Júlio César planejou sua Septa (edifícios onde elas se realizariam) ali e ela foi finalmente completada pelo seu herdeiro Augusto (Otaviano). Em , Otaviano dedicou o Pórtico de Otávia com os espólios da Guerra Dálmata.
Durante o período augustano do Império Romano, o Campo de Marte passou oficialmente a fazer parte da cidade, que foi dividida em quatorze regiões, dividido entre a Região VII - Via Lata, para o leste, e a Região IX - Circo Flamínio, perto do rio. O Senado mandou construir perto da margem do Tibre o Altar da Paz () para celebrar a paz conquistada por Augusto e seus esforços para estabilizar o novo império. Marco Agripa transformou o terreno pantanoso original do local em um parque no qual piscinas e termas estavam rodeados por bosques e templos, o (Laconicum Sudatorium) ou Termas de Agripa. Ele também construiu o Pórtico dos Argonautas (Porticus Argonautarum) e o Panteão, que seria depois reconstruído por Adriano, quando passou a ter a aparência atual. Em , Agripa concluiu a Água Virgem, trazendo para o Campo de Marte a água necessária para as novas termas e piscinas.
Na região norte, despovoada na época, ficava o enorme Mausoléu de Augusto. Outros edifícios construídos na época foram o Teatro de Marcelo, o Templo de Ísis (na época de Calígula), as termas e a ponte de Nero, além do próprio Teatro de Pompeu, em cujas escadarias Júlio César foi assassinado por Bruto e seus aliados. Depois do grande incêndio (64), Domiciano reconstruiu os monumentos incendiados e acrescentou o Estádio de Domiciano (onde está hoje a Piazza Navona) e um odeão (um pequeno teatro). Em 119, reforçando os temas da divindade imperial e da apoteose, estabelecidos por Augusto, Adriano e os antoninos seguintes construíram ali templos para a sogra de Adriano, a divina Matídia, e para o próprio divino Adriano, este por Antonino Pio.Platner, Samuel Ball, and Thomas Ashby. A Topographical Dictionary of Ancient Rome. London: Oxford UP, H. Milford, 1929. Print. 331
Como já havia sido caso com os dois primeiros imperadores flavianos e antoninos, os severianos não queriam despender muitos recursos em obras no já lotado Campo de Marte. Seus interesses maiores eram reformas e a construção de novas estruturas em outras regiões da capitalJacobs II, P., & Conlin, D. (2015). Campus Martius: The Field of Mars in the Life of Ancient Rome. New York City, New York: Cambridge University Press. 162 e foi somente na época de Aureliano que novas obras ocorreram no Campo de Marte.
Os cidadãos de Roma tinham grande orgulho de saber que Roma não precisava de fortificações pois a estabilidade proporcionada pela Pax Romana, mantida pelo exército romano. Em 270, porém, tribos bárbaras invadiram pela fronteira germânica e alcançaram o norte da Itália, com o exército lutando para tentar barrá-los. Para mitigar a vulnerabilidade da cidade, o imperador Aureliano ordenou a construção de uma muralha de tijolos com 19 quilômetros de extensão, de seis a oito metros de altura, fortificada com torres e batizada de Muralha Aureliana. Ele não viveu para ver sua obra completada por seu sucessor, Probo, em 276. Com o término da muralha, o Campo de Marte foi finalmente incorporado ao resto da cidade.Platner, Samuel Ball, and Thomas Ashby. A Topographical Dictionary of Ancient Rome. London: Oxford UP, H. Milford, 1929. Print. 348-350
No meio do , quando o imperador visitou Roma, que não era mais a capital, muitos dos templos pagãos já estavam fechados e edifícios dedicados ao cristianismo passaram a ocupá-los. Alguns foram reduzidos a pouco mais do que a estrutura interna, outros foram demolidos e muitos foram re-dedicados, caso do Panteão. Em 663, suas telhas de bronze foram removidas e substituídas por chumbo, um ato que, nas palavras de , foi resultado de "avareza excessiva e cobiça excessiva por ouro".Gregorius, Magister. 1987. Narracio de mirabilibus urbis Romae. Trad. John Osborne in The Marvels of Rome. Toronto: Pontifical Institute of Medieval Studies. 29 No , Roma foi queimada e saqueada duas vezes: pelos visigodos em 410 e novamente pelos vândalos em 455. Três terremotos sacudiram a cidade entre 408 e 508 e duas enchentes inundaram as zonas baixas da cidade em 398 e 411. Muito do mármore que revestia os templos e as colunas foi atirado em fornos para fazer cal.Manacorda, Daniele, 2000. Crypta Balbi: Museo nazionale romano. Milan: Electa. 20
Escrevendo no ou XIII, Mestre Gregório ficou maravilhado com os edifícios do Campo de Marte, cuja antiguidade era clara, mas cujos nomes ninguém sabia ao certo.Gregorius, Magister. 1987. Narracio de mirabilibus urbis Romae. Translated by John Osborne in The Marvels of Rome. Toronto: Pontifical Institute of Medieval Studies. 10-15 Vislumbrando a região a partir de uma das colinas de Roma, ele registrou que as grandes estruturas havia sido substituídas por "uma floresta de torres [medievais]".Gregorius, Magister. 1987. Narracio de mirabilibus urbis Romae. Translated by John Osborne in The Marvels of Rome. Toronto: Pontifical Institute of Medieval Studies. 18 Em 1581, o ensaísta francês Michel de Montaigne viajou para Roma e notou que "bem em cima dos destroços dos antigos edifícios, conforme se arruinavam, construtores lançavam despreocupadamente as fundações de novas casas, como estes fragmentos fossem apenas grandes massas de pedra, firmes e confiáveis. É evidente que muitas das antigas ruas estão a mais de dez metros abaixo do nível da rua atual".Montaigne, Michel de. 1983. Montaigne’s Travel Journal. Trad. de Donald Murdoch Frame. San Francisco: North Point Press. 100
Idade Média
Depois que as invasões bárbaras interromperam os aquedutos de Roma, a população, que reduzia rapidamente, abandonou todas as zonas altas das colinas e se concentrou no Campo de Marte, onde era fácil conseguir água diretamente do Tibre, mas onde havia também muitas enchentes. A região era também perto do Vaticano, o centro religioso da cidade. O comércio se realizava principalmente pelo rio e o dinheiro fluía para a cidade trazido pelo interminável fluxo de peregrinos.
A via principal de ligação de Roma com o resto da Europa era a Via Cássia, que entrava na cidade pela Porta del Popolo, no norte do Campo de Marte, ligando a cidade a Viterbo, Siena e Florença.
Outra importante via da cidade, a Via Aurélia, era muito insalubre na época por causa da malária, que infestava os pântanos e mangues perto dos lagos costeiros nas planícies de Marema, e por que esta via, próxima do mar, era vulnerável aos ataques de piratas. As cidades costeiras no trajeto da Via Aurélia também sofriam com o rapto de mulheres e saques realizados por piratas sarracenos.
Por causa da crescente importância da região, diversos papas decidiram melhorar suas condições de vida. Entre 1513 e 1521, o papa Leão X construiu uma via ligando a Porta del Popolo ao Vaticano, chamada primeiro de Via Leonina e que se transformou depois na famosa Via di Ripetta, uma referência ao Porto de Ripetta. Os aquedutos que levavam água à região também foram restaurados nesta época.
Conforme a população crescia, o Campo de Marte tornou-se um local apinhado e multicultural, residência para muitos estrangeiros. Em 1555, o papa Paulo IV determinou que a porção sul do Campo de Marte seria o Gueto de Roma (Ghetto), onde seria confinada a comunidade judaica da cidade, a região do moderno Rione XI - Sant'Angelo de Roma.
Roma moderna
Depois do Renascimento, como todo o resto de Roma, o Campo de Marte não mudou muito; não houve mais grandes projetos de construção e a população diminuiu, uma tendência que se reverteu depois da unificação da Itália (1870), quando Roma tornou-se a capital do novo Reino da Itália.
thumb|200px|esquerda|Brasão do Rione IV - Campo Marzio, uma região administrativa moderna de Roma que, apesar do nome, corresponde a apenas uma fração do antigo Campo de Marte thumb|200px|esquerda|Templo de Apolo Sosiano