Katukina-Kanamari, também conhecida como Catuquina, Canamari, Katukina, Kanamari, Djapá, Kanamaré, Tâkâna e Tüküná é uma língua indígena da família Katukina que conta com cerca de 4.668 falantes na Amazônia brasileira. Apresenta dois dialetos conhecidos, Katukina do Biá e Kanamari, empregados por grupos étnicos homônimos que também se autodenominam Tüküna, termo que significa “gente, ser humano”.
As línguas da família Katukina (Katukina-Kanamari e a possivelmente extinta Katawixi) compartilham muitos pontos linguísticos em comum com os idiomas das famílias Haramkbet e Arawá, o que motiva a proposta de agrupamento das famílias no tronco Arawá-Katukína-Haramkbet.
A língua Katukina-Kanamari é fortemente isolante e apresenta alinhamento ergativo-absolutivo. A ordem das palavras é altamente flexível, tendo apenas um elemento de ordem fixa. A língua possui um sistema análogo ao de classificadores, que divide certos nomes em classes semânticas, em processo de gramaticalização. Katukina-Kanamari não faz uso considerável da distinção t-v ou honoríficos. Trata-se de uma língua originalmente ágrafa, mas o sistema de escrita transposto do Português é comumente aplicado desde as décadas de 1980 e 1990.
Em 2023, foi declarada língua oficial do Amazonas, juntamente com outras 15 línguas indígenas.
Língua e sociedade
Falantes A língua Katukina-Kanamari é falada por cerca de 4668 indivíduos, dos quais 38 são falantes da variedade Tyohon Dyapa, 628 do dialeto Katukina do Biá e 4002 do Kanamari.
De acordo com a UNESCO, trata-se de uma língua vulnerável. A plataforma Ethnologue, no entanto, considera-a uma língua estável de uso vigoroso, haja vista que, apesar de não contar com sustentação institucional, o idioma é utilizado como norma por todas as gerações de sua comunidade e é ensinado às crianças. Sua classificação de acordo com a escala EGIDS seria, então, 6a.
Distribuição geográfica { "type": "FeatureCollection", "features": [
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -67.76312500000002, -4.97273407690904 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -65.30273437500001, -6.402648405963884 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -71.6044531250001, -5.972249801113899 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -59.31074218750001, -3.4424616128059 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -65.8453125, -1.8859229627200191 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -70.32099609375, -6.647170736919708 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -65.46125, -1.633220446198833 ]
},
"type": "Feature", "properties": {}, "geometry": { "type": "Point", "coordinates": [ -69.0042285156250001, -6.92057282352971569 ]
] }As comunidades Katukina do Biá situam-se nos cursos dos rios Jutaí, Biá (afluente do rio Jutaí) e Ipixuna (tributário do rio Biá), na área correspondente à Terra Indígena Rio Biá, nos municípios amazonenses de Carauari e Jutaí.
Os povos Kanamari habitam as margens dos rios Juruá, Curaçá, Javari, Japurá, Xeruã, Itaquaí, Jutaí e Jandiatuba. Há também um pequeno grupo Kanamari em Umariaçu, no alto Solimões. Finalmente, identificam-se duas comunidades compostas por aproximadamente cem indígenas no alto rio Jutaí e uma próxima à cidade de Carauari. Suas comunidades são compreendidas pelas Terras Indígenas Kanamari do Rio Juruá, Maraã/Urubaxi, Mawetek, Paraná do Paricá, Patauá e Vale do Javari.
Finalmente, os povos Tyohon Dyapa habitam exclusivamente a Terra Indígena Vale do Javari..
Família, dialetos e variações miniaturadaimagem|283x283px|Gráfico das principais variantes de Katukina-Kanamari Katukina-Kanamari pertence à família linguística Katukina, bem como a possivelmente extinta língua Katawixi. O idioma possui dois dialetos mutuamente inteligíveis: Kanamari e Katukina do Biá, falados por dois povos que, apesar de compartilharem a língua e muitos aspectos culturais, diferem consideravelmente em suas formas de organização social, rituais e crenças. O dialeto Kanamari apresenta ainda a variante Tyohon dyapa, empregada por um grupo que presta serviços aos Kanamari.
Em função do uso indiscriminado do exônimo “katukina” (ver etimologia), é comum a confusão com o idioma Katukina Pano, que pertence a outra família linguística.
Comparação entre os dialetos Os dialetos Kanamari e Katukina do Biá diferem na fonologia, na morfossintaxe e no léxico. A principal diferença fonológica é a ditongação de vogais longas e a amplitude da variação da abertura vocálica de um modo geral, que são verificadas somente no dialeto Katukina (ver fonética e fonologia). Já no campo da morfossintaxe, observa-se que a nominalização de participantes e eventos é realizada a partir do sufixo -nin no dialeto Katukina, enquanto, no Kanamari, o sufixo é o -nom, que não se aplica aos eventos. Finalmente, no campo do léxico, observa-se, para além das diferenças vocabulares apresentadas no quadro, uma dissonância nas formas pronominais livres (ver pronomes pessoais). +Principais diferenças entre os dialetosKatukina do BiáKanamariFonologiaHá variação livre dos ditongos fonéticos [ai], [oi], [ei], [au] e [ou] com as vogais longas altas /i:/ e /u:/Não há variação. Há apenas vogais altasMorfossintaxeNominalização com o sufixo nominalizador -nin na nominalização de participantes e eventosNominalização com a forma dêitica -nom na nominalização de participantesLéxicoTerceira pessoa singular e plural, respectivamente: ityian e atyian.Terceira pessoa singular e plural, respectivamente: anyan e anyan hinuk +Algumas diferenças lexicais entre os dialetosKatukina do BiáKanamariglosabu:lubatajuritipayupamapainayuɲamamãepayu ki:daKpai'kuavônayu ki:daKwaavóduŋ idʒai'kuŋtraíraa'ka a'kaamunamacaco acarialawilitʃuluisardinhauwamoKubatʃawaesposawɯ:dʒŋitakilakuŋlontraupalaniŋpaladʒiamanhecerkidʒukuŋkiwadʒupassarinho
História da língua e de seu ensino
Separação entre Katukina e Kanamari No começo do século XX, os indígenas Katukina do Biá e os Kanamari habitavam juntos a região do rio do Biá. O assassinato de um indígena Katukina por um Kanamari e a consequente desavença entre os grupos desencadeou sua separação e os Kanamari passaram a viver nas margens do rio Jutaí. Desde então, os dois grupos vivem em relativo isolamento. Entretanto, não é possível afirmar com certeza se foi essa a origem dos dois dialetos.
Ensino do dialeto Katukina Os Katukina são, em geral, falantes monolíngues, em especial as mulheres e crianças. A predominância do monolinguismo tem, no entanto, sido modificada desde meados dos anos 90 em função do aumento do contato com a comunidade lusófona. Alguns homens, sobretudo os chefes de aldeia e aqueles cujo trabalho envolve intercâmbio frequente com os não-indígenas, têm como segunda língua o português.
Tradicionalmente, as comunidades do Biá são ágrafas e seus conhecimentos são passados oralmente. Em 2003, no entanto, foram inseridas no plano de expansão escolar do município de Jutaí. O projeto previa que professores de outras etnias, auxiliados por representantes Katukina, ensinariam os jovens Katukina com o auxílio de livros didáticos, mesas e cadeiras utilizadas nas escolas municipais. Constatou-se logo a ineficácia do sistema, visto que ele se baseava em um sistema educacional cuja realidade difere gravemente da dos indígenas Katukina. A organização não-governamental OPAN (Operação Amazônia Nativa), que trabalha tanto com os Katukina quanto com os Kanamari desde 1980, promoveu, em 2006, a primeira etapa de discussão sobre alfabetização e ortografia para as comunidades Katukina do Biá. Adotou-se, então, uma grafia elaborada pelos indígenas e assessores linguísticos da OPAN: Zoraide dos Anjos e Francisco Queixalós. Atualmente, em algumas comunidades, o professor antes monolíngue em português e pertencente a outra etnia foi substituído por seu auxiliar Katukina, que ministra aulas para adultos e crianças na língua materna.
Ensino do dialeto Kanamari O uso da língua materna é muito valorizado e difundido nas comunidades Kanamari, nas quais o monolinguismo é frequente. Nas aldeias mais próximas a cidades, sobretudo a Eirunepé, o contato com a comunidade não-indígena é mais intenso, o que estimula o bilinguismo.
Para além da transmissão oral dos conhecimentos, os Kanamari empregam também a educação bilíngue com o sistema ortográfico proposto pela organização Missão Novas Tribos do Brasil, que trabalhou com os Kanamari entre 1980 e 1990.
Etimologia O termo “katukina” é um etnônimo comumente aplicado às diversas comunidades indígenas da região dos rios Juruá, Jutaí e Purús, tradicionalmente conhecida por suas “dificuldades etnológicas”. Nota-se que os povos aos quais se atribuiu a denominação “katukina” não necessariamente partilham das mesmas filiações linguísticas e sociais.
Teoriza-se que a palavra “katukina” seja derivada da formação “ka-tukanɨ” (tukanɨ=linguagem), traduzida como “falante, alguém que fala uma língua”, de origem Arauaque/Purus. O contato do termo com a comunidade não-indígena, no entanto, teria causado uma transformação semântica na palavra, que passou a denominar os “falantes de línguas indígenas”, em oposição aos falantes de Português ou Espanhol. A natureza exonímica do termo foi notada primeiramente por Paul Rivet e é reforçada pela rejeição do termo pelos Shanenawa e pelo entendimento dos povos dos rios Gregório e Campinas de que o nome foi “dado pelo governo”.COFFACI DE LIMA, E. Quem são os Noke Kuin? Acerca das transformações dos Katukina (Pano). In COFFACI DE LIMA, E.; CÓRDOBA, L. (Eds.). Os Outros dos Outros: relações de alteridade na etnologia Sul-Americana. Curitiba: Ed. UFPR, 2011.
Fonética e fonologia
Inventário fonético
Consoantes Há doze fonemas e dezessete fones consonantais em Katukina-Kanamari. Os fones consonantais sem fonema correspondente são [ʔ k̚ w ŋ]. O fone glotal oclusivo [ʔ] ocorre entre sequências de vogais breves idênticas e heterossilábicas (diferenciando-se assim de um núcleo vocálico longo) ou no início de sílabas sem ataque. O fone velar não explodido [k̚] ocorre apenas em posição de coda, bem como o nasal velar [ŋ] e o aproximante labiovelar [w], o qual substitui a vogal alta periférica /u/. +Fonemas consonantaisLabialAlveolarPalatalVelarGlotalPlosivavozeadapttʃkdesvozeadabddʒNasalmnɲFricativahAproximantel +Fones consonantaisLabialLabiovelarAlveolarRetroflexoPalatalVelarGlotalPlosivavozeadapttʃk k̚desvozeadabddʒʔNasalmnɲŋFricativahLateralɭAproximantewl
Vogais A língua apresenta oito fonemas vocálicos básicos que podem ser realizados dentro de um amplo leque de variação de abertura (ver Núcleo )
As vogais longas, representadas por :, têm a duração de aproximadamente duas vogais curtas. +Fonemas vocálicosAnteriorCentralPosteriornão arredondadaarredondadaFechadai iːɯ ɯːu uːAbertaa aː +Fones vocálicosAnteriorCentralPosteriornão arredondadaarredondadaFechadaii:ɯ ɯːuu:SemifechadaeiouSemiabertaɛɛiɔɔuAbertaaia aːɑu Estrutura silábica A estrutura silábica em Katukina-Kanamari pode ser representada pela fórmula geral (C1) V1 (V2) (C2), na qual (V1)/(V1V2)= núcleo, (C1)= consoante de ataque, (C2)= consoante de coda. Isso significa que as sílabas devem ser compostas necessariamente por pelo menos uma vogal, mas também podem contar com outra vogal adjacente e consoantes iniciais e/ou finais.
Os padrões silábicos de que se tem registro são:
V /ikau/ [i' . kao] ''chorar"
/puaku/ [po. a. 'ko] ''remo'' VV /i:ku/ [i: . 'ko] ''olho''
/u:ba/ [u: . 'ba] ''tabaco'' CV /matuli/ [ma. to. 'ɭi] ''louro preto''
/kamudʒa/ [ka. mu. 'dʒa] ''macaco barrigudo'' CVV /taukala/ [tao. ka. 'ɭa] ''galinha''
/ki:dai/ [ki. 'dai] ''cabelo'' VC