direita|miniaturadaimagem|325x325px|A história de Tristão e Isolda foi um importante protótipo literário do amor na Europa Amor romântico é, nos sentidos mais amplos, uma forma relacional de amor que, podendo envolver sexualidade física ou não, atrela-se mais a uma idealização e atração intensa à pessoa do outro, abrangendo aspectos como confiança profunda, paixão, pensamento obsessivo, sentimento de união e desejo de manter-se um relacionamento duradouro. Em sentidos mais estritos, costuma levantar problemas de definição e polissemia, por exemplo entre historiadores que utilizam o termo para se referir a expressões associadas a desenvolvimentos culturais específicos, como o amor cortês, ou mais em particular às concepções modernas do amor derivadas do contexto do romantismo,, . cujos expoentes declaravam mais conscientemente e enfaticamente as suas características distintas, como a idealização da mulher, a realização subjetiva com um outro e a valorização do amor como fim em si, frente a todos os outros aspectos da vida., , .

O amor romântico é considerado atualmente por antropólogos, sociólogos, biólogos e pesquisadores literários como um universal transcultural, , , , , ou biossocial. Por muito tempo na historiografia, o amor romântico era visto como tendo sido uma invenção exclusiva da Europa medieval do século XII, originando-se no amor cortês, ou como uma criação moderna capitalista a partir do romantismo; porém, isso se tornou refutado com novos estudos., , , . De todo modo, cada período e local definem a expressão do amor romântico com características culturais diferentes,, , . em algumas sociedades sendo ele mais presente e valorizado em suas relações, instituições e literatura, enquanto em outros contextos pode ser suprimido., , .

Na biologia, utiliza-se o nome “amor romântico” geralmente para os estágios iniciais de relacionamentos românticos, durando cerca de 2 a 3 anos, até ser estabelecido o vínculo de par e substituir-se pelo amor companheiro menos intenso; mas também há a descrição do amor romântico de longo prazo. O amor romântico é distinto da definição biológica de apego, e as evidências atuais corroboram a hipótese de que ele teria surgido a partir de uma cooptação evolutiva do cuidado materno-filial. Na psicologia, algumas vezes é referido também como “amor apaixonado”. Na teoria psicológica evolucionista do amor, o amor romântico é um complexo de adaptações que motiva os pais a investirem à sua prole, reforçando emocionalmente o vínculo entre os parceiros., . Em grande parte dos estudos de psicologia, associa-se ao desejo sexual, porém não necessariamente, conforme recentemente surgem estudos que delineiam as categorias da assexualidade e da romanticidade, em que as evidências mostram que atração romântica e atração sexual são distintas, apesar de poderem se interrelacionar.

Antes da modernidade, encontram-se elementos românticos, como os de idealização, simetria de tratamento, exaltação do amor e do desejo individual, mesmo em conflito com as normas sociais, na literatura árabe, persa, chinesa, japonesa, bem como na Antiga Grécia, Roma e Índia Clássica, dentre outras culturas., .

Delimitação conceitual O termo “amor romântico” é utilizado no mundo inteiro, porém de forma elástica e polissêmica, referindo-se a diversos tipos de relacionamentos, estados emocionais e crenças. Suas origens são também variadamente apontadas: como tendo surgido em contextos específicos, ou presente em todos locais e tempos históricos. O que se pode definir é que a combinação lexical “amor romântico” é uma invenção recente, independente de sua conotação.

Diversas experiências subjetivas se agrupam em torno do termo “amor romântico”, a maior parte delas se constituindo de sentimentos que fundamentam a etapa inicial de um apaixonamento. Apesar das diferenças individuais, pode ser caracterizado por um conjunto relativamente fixo de estados biopsicológicos e modos emocionais. Na maior parte da literatura contemporânea sobre amor romântico, um dos critérios necessários é a consideração de que a pessoa amada é insubstituível e idealizada positivamente como alguém único, junto a outras características como: paixão, pensamento intrusivo, dependência afetiva, intimidade, empatia e sensação de relacionamento perene. Ele envolve características biológicas, psicológicas e socioculturais, e é o fator mais saliente promotor de vínculo em relações reprodutivas diádicas.

Uma síntese apresentada por Helen Harris para as características do amor romântico são: desejo pela união ou fusão (física e emocional); idealização do amado; exclusividade do amado; pensamento intrusivo sobre o amado; dependência emocional; intensa empatia pelo amado; reordenamento das prioridades motivacionais e de vida. Conforme os padrões identificados em pesquisa por Dorothy Tennov e destacados por Helen Fisher, inclui ainda dotar a pessoa amada e suas particularidades de um "significado especial", que pode surgir como uma nova camada acima do afeto por uma antiga amizade, após esta se converter em um afeto romântico: as evidências neurocientíficas apontam que o amor romântico apresenta respostas cerebrais mais ativadas para além daquelas de um amor de amizade ou por algum familiar. Há ainda a "cristalização", em que, para além da idealização, os atributos verdadeiros da outra pessoa são realçados e também as fraquezas e defeitos do outro passam a ser considerados, porém aceitos e até vistos como charmosos; a energia intensa (hipomania); fortes emoções involuntárias (como timidez, medo de rejeição, sensação de impotência); e desejo pelo outro que transcende luxúria.

Para Victor Karandashev, esse tipo de amor caracteriza-se por um conjunto de crenças românticas, a principal delas sendo a idealização das qualidades únicas do amado e considerar o relacionamento com ele como sendo excepcional. Comum também é a noção de absorção, fusão e união de duas partes, e em diversos idiomas e por vários séculos os amantes foram comparados a pares de animais devotos, como pombos. Expectativas sobre a durabilidade do amor são características comumente reconhecidas do amor romântico, incluindo as ideias de compromisso e exclusividade da pessoa amada, e se envolvem também crenças sobre um arranjo perfeito com um parceiro predestinado, em um “amor verdadeiro”. Esses traços são presentes em diversos contextos culturais, como da Grécia Clássica e de sociedades do Leste Asiático.

Na noção moderna do amor, três discursos românticos são pervasivos na sociedade: o mito da exclusividade (crença de que o amor romântico com mais de uma pessoa é impossível); o mito do casal (crença de que o relacionamento diádico é natural e inerente aos humanos); e o mito de fidelidade (crença de que quem ama verdadeiramente deve ser fiel ao amado).

Primeiras ocorrências Friedrich Bouterwek foi talvez o primeiro especialista literário a descrever e reconhecer a existência da escola romântica moderna. Anteriormente nos primeiros anos do século XIX, ele já utilizava o termo “romântico” para se referir à literatura medieval e da Renascença. Assim também, empregou o termo “amor romântico” (romantischen Liebe) para se referir ao amor cortês da Idade Média quando afirmou que “a nova poesia é uma filha do amor romântico", em sua resenha aos Schriften de Novalis. Nela, também afirmou:“a convicção da simples verdade de que a alma é mais valiosa que o corpo... que o reino espiritual está sujeito a outras leis além do reino da natureza, e que este último... deve obedecer ao primeiro... [produziu uma] nova paixão humana, amor sentimental.”Bouterwek era também estudioso da literatura portuguesa, e afirmou que “aquele tom prevalecente do amor romântico, que caracterizou a poesia dos espanhóis e portugueses, até a imitação do estilo italiano ter sido amplamente adotada, originou-se em Portugal”. Em 1803, escreveu “Ideias, notas e documentos para uma história do amor romântico” (Ideen, Notizen und Documente zu einer Geschichte der romantischen Liebe), afirmando que “a história do amor romântico merece um relato mais detalhado. Há bastante material para isso, e alguns historiadores do coração humano já o utilizaram de forma inteligente.”“Qualquer pessoa que queira contar a história do amor romântico de forma pragmática deve, é claro, ter clareza sobre os limites da majestade e do entusiasmo em seus próprios termos. Ele deve ser capaz de utilizar os conceitos acadêmicos de sensualidade e razão no contexto da natureza, e de unir a realidade com a idealidade, mesmo nas sutilezas. Que tipo de amor deveria ser chamado de romântico? é então a questão. Pois nem todo entusiasmo no amor é romântico. O amor sem entusiasmo é apenas amizade ou apenas um instinto natural.”Ele associa três expressões do amor romântico, relacionadas ao amor da cavalaria; ao amor bucólico do arcadismo, que projetava o romance ao mundo pastoral clássico; e ao amor com inspirações filosóficas e espirituais, derivado de ideais religiosos e platônicos, por exemplo de Dante ou da Academia Florentina:“O amor romântico desenvolveu-se em três variações. A primeira foi a marcial, a segunda a arcadiana, a terceira a variação metafísica. Em obras posteriores o metafísico tornou-se o moral, através do qual finalmente se aproximou do equilíbrio da idealidade com a realidade sem negar a natureza. Mas essas variações baseavam-se numa profunda crença na excelência moral do sexo feminino."Ele acentua como essencial na definição do amor romântico a idealização e exaltação da mulher:“Uma profunda crença na excelência moral do sexo feminino é o elemento mais puro do amor romântico. Através deste elemento, juntamente com a nova forma de pensar, a poesia mais recente também difere essencialmente da poesia grega e romana. Na Grécia e na Roma antigas, as mulheres eram homenageadas quando mereciam; mas não honraram o sexo feminino. A reverência ao sexo feminino é um sentimento germânico. Os grosseiros alemães transferiram a maneira de pensar que trouxeram de suas florestas para a Itália, Espanha e França. Aí assumiu o caráter poético que depois se espalhou a partir destes países por toda a Europa. Damas antes dos cavalheiros passou a ser o lema da vida social.”“O amor é perfeito quando une dois amantes tão completamente que ambos deixam de se ver como seres independentes. Nós amamos! diz na gramática do amor; mas não: eu amo, você ama. (...) O amor ciumento está muito longe dessa dádiva.”Herder anteriormente afirmara que a característica do “romântico” literário era uma “doçura”, a qual ele associava ao amor da cavalaria ou de casais shakespereanos como Romeu e Julieta, em contraste com o “amor marital, não romântico” que era evitado por Shakespeare. Assim, em 1771 ele caracterizou o afeto com esse adjetivo: 'Não é este amor verdadeiro, puro, terno e romântico (Romantisch) o suficiente? Mas não um amor conjugal e pouco romântico (Unromantische Liebe)?"

O termo “romântico” (romantique) foi introduzido na França mais tardiamente do que na Alemanha, sendo difundida inicialmente a forma romanesque, principalmente por Jean-Baptiste de La Curne de Sainte-Palaye, que se refere em 1774 ao amor de cavalaria medieval como “amour romanesque”.

Na Rússia, o uso do termo “amantes românticos” (romaničeskix ljubovnikov) foi feito entre 1791 e 1792 por Nikolai Karamzin, em sua análise de Júlia, ou A Nova Heloísa de Rousseau, e ele depois utilizou o termo “amor romântico” (ljubvi romaničeskoj) em 1802.