Tuiuca (tuyuka) é uma das muitas pertencentes à família linguística tucano (Yepê-masa), sendo marcada por fenômenos interessantes como tom e nasalização na área fonética, evidencialidade dos verbos, aglutinação de palavras e classificadores nominais. Nessa perspectiva, na área em que é articulada, há a ocorrência do multilinguismo, haja vista o intenso contato com diversas línguas, bem como a tendência de tucanização do tuiuca, pois trata-se da substituição por um sistema mais prático e disseminado, sobretudo pelo fato do Tucano estar sendo mais utilizado e ensinado. Desse modo, a língua se encontra ativa, porém passiva de desaparecimento.

Língua e sociedade

Localização É falada pelos comunidades indígenas que habitam o noroeste do estado brasileiro do Amazonas, na fronteira entre Brasil e Colômbia, mais precisamente nas áreas do Alto Rio Negro, Médio Rio Negro I, Médio Rio Negro II, Pari Cachoeira I, Pari Cachoeira II, Pari Cachoeira III, Yauareté I e Yauareté II, além dos territórios colombianos. No ponto de vista hidrográfico, a região ocupada pelos tuiucas se estende do trecho alto do rio Tiquié – onde ocorre o interflúvio dos rios Tiquié e Papuri, sendo drenada pelos afluentes Abiu e Inambu – até uma outra área de encontro dos cursos hídricos do Tiquié com o igarapé Machado (Komeya em tuiuca). Nesse contexto, ocorre uma divisão sociogeográfica, sobretudo por motivos histórico-culturais, entre esse povo, sendo o grupo do Tiquié e do Inambu.

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Aspectos populacionais Consoante à revisão realizada em 2008 (CABALZAR, 2009), levando em conta as fontes mais confiáveis, os tuiucas estava distribuído em 19 grupos locais, sendo que a população de cada um variava entre 7 e 149 pessoas. Assim, o levantamento apontou para a somatória de 988 pessoas entre dezoito desses subgrupos, porém estima-se que esse número ultrapassaria 1200, tendo em vista as regiões do baixo Tiquié e adjacentes, sem contar os que vivem em meio urbano, 71 tuiucas (LASMAR et al., 2005). Atualmente, no entanto, com a falta de políticas governamentais para o recenseamento, bem como o descaso com preservação de tais povos, é próvavel que haja uma dispersão populacional para outras áreas.

borda|esquerda|semmoldura|306x306px Etimologia do nome Os tuiucas se autodenominam Dokapuara, Utapinõmakãphõná, Umerekopinõ ou Utapinoponã, esse último significando "filhos da cobra de pedra”. Na filosofia da comunidade indígena, compreende-se a mentalidade de que são gente da transformação, pois tem origem da Cobra da Transformação. Única no início da viagem ancestral, a cobra tem o poder de se reproduzir em várias outras, ao alcançar o alto curso do rio Negro. Assim, traçando caminhos diferentes, os répteis seguem pelos afluentes do rio Negro e Uaupés e seus filhos seriam os tuiucas que através do tempo foram se distinguindo sem perder sua essência.

Fonética e fonologia Segundo Barnes & Malone (2000) e Barnes & Takagi (1976), conta com um inventário fonológico, de acordo com o Alfabeto Fonético Internacional, de 17 fonemas: onze consoantes /p t k b d ɡ s r w j h/ e seis vogais /i ɨ u e a o/.

Vogais Quanto as vogais, há duas anteriores /i, e/ e quatro posteriores: arredondadas /u o/, a não arredondada central /a/ e uma vogal alta /ɨ/. As vogais /e/ e /o/ seriam consideradas médias, pois quando são pronunciadas a língua não "toca" o céu da boca (vogal alta) e nem se encontra menos elevada (vogal baixa). Contudo, conforme decisão proposta por Nelsy Lorena (2014), elas foram agrupadas como baixas para usar um número menor de traços ao se diferenciar cada vogal. Assim, vale ressaltar que essa abstração não equivale totalmente ao valor fonético dos referidos sons. Ademais, é essencial a compreensão de que as vogais podem ser anteriores, centrais ou posteriores, que se relaciona aos diferentes níveis de avanço da língua; e também podem ser arredondadas ou não, dizendo respeito ao arredondamento dos lábios na pronúncia. Desse modo, os processos descritos podem ser observados na tabela abaixo: +Tabela 1. Quadro de vogais do tuiucaAnteriorCentralPosteriorAltaiɨuBaixaeao

Pares mínimos vocálicos Sendo um par de palavras que demonstra o contraste fonêmico, o par mínimo vocálico constitui uma importante ferramenta para entender os processos fonológicos da língua. No português, por exemplo, as palavras "caça" e "casa" são pares mínimos, no caso consonantais, mas que expressam significados diferentes apenas com a distinção entre os fonemas /s/ e /z/. O mesmo ocorre em dois casos extraídos da língua tuiuca: /atí/ e /até/, cujo contraste é percebido pelos fonemas /i/ e /e/, e cujos significados são, respectivamente, ‘este' e ‘estes'; além do par /até/ e /oté/, tendo fonemas vocálicos /a/ e /o/, de forma a denotar o verbo 'plantar' e o pronome demonstrativo 'esta'.

Alofones vocálicos Segundo Nelsy Lorena (2014), as vogais do tuiuca têm alofones nasalizados quando estão em morfemas nasais ou quando estão em morfemas não especificados para nasalidade, mas que assimilam o traço de morfemas vizinhos.

- A vogal /e/ tem o alofone [e] que ocorre antes de /ɡ, m, n, j, w/ e o alofone [ɛ] acontece nos demais contextos;

- A vogal /o/ apresenta um espectro de realização que vai [u] até [ɣ].

Encontros vocálicos No tuiuca também ocorre encontros vocálicos diferentes VaVb e iguais VaVa. Os encontros de vogais diferentes são analisados como pertencentes a diferentes estruturas silábicas (Va.Vb).

- realização de vogais nasalizadas quando seguidas de consoantes também nasalizadas;

- realização de /e/ como [ɛ] em todos os contextos, incluindo as consoantes /ɡ, m, n, j, w/;

- a vogal /o/ tem alofones [o] e [ɔ] sem condicionamento aparente. Os dois sons podem acontecer em qualquer contexto e acompanhadas de qualquer consoante. +Tabela 2. Encontros vocálicos do tuiucaVogais diferentesVogais iguaisueaaaiiiiaɨɨoaeeuaoeeaɨoui Os exemplos abaixo mostram a ocorrência de alguns dos encontros vocálicos apresentados na tabela acima. Na transcrição fonológica dos dados o tom baixo não é marcado.

bué [bùˈɛ́] ‘enguia’ waípudã [wàˈífùnà̃] ‘sardinha’ juásó [d͡ ʒùàˈsɔ́] ‘lagarto’ biaɡá ['bìà-̍ɡá] ‘pimenta’ páátu [ˈfáátù] ~ [ˈpáátù] ‘pó de coca’ hoedí [hɔ̀ɛ̀ˈɾí] ‘sujo’ jɨń [d͡ ʒǹn] ‘eu’

Consoantes Quanto ao sistema de consoantes, elas podem ser subdivididas em duas séries de oclusivas, vozeadas (à direita) e desvozeadas (à esquerda) nos pontos de articulação bilabial, alveolar e velar; uma fricativa alveolar desvozeada e uma fricativa glotal desvozeada; uma vibrante simples e duas aproximantes, uma labiovelar e outra palatal.

+Tabela 3. Quadro de consoantes do tuiucaBilabialAlveolarPalatalVelarGlotalOclusivap bt dk gFricativashVibranterAproximantewj Símbolos utilizados por Barnes & Malone (2000)

Pares mínimos consonantais Assim como ocorre nas vogais, os pares mínimos distinguem seus significados apenas por um fonema, que nesse caso, correlaciona-se com o ponto de articulação das consonantes. Desse modo, teremos os seguintes exemplos:

Bilabial /b/ /w/ /bapá/ 'prato' /wapá/ 'pagamento’ Alveolar /s/ /r/ /bosé/ 'festa' /boré/ 'deixar branco alguma coisa' Velar /k/ /g/ /bɨkó/ 'tamanduá' /bɨɡó/ 'tia' Palatal/glotal /j/ /h/ /joó/ 'fio' /hoó/ 'banana da terra'

Alofones consonantais As consoantes vozeadas do tuiuca /b, d, ɡ, r, w, j/ apresentam alofones nasais no mesmo ponto de articulação que ocorrem em morfemas nasais ou quando há assimilação do traço nasal. A realização de alofones pré-nasalizados de /b, d, g/ depois de vogais nasais e antes de vogais orais também é registrado na língua.

Outras realizações alofônicas de consoantes registradas são:

- /ɾ/ tem as variantes [ɾ]̃; [l] e [ɾ]. A nasalizada ocorre antes de vogais nasais; a lateral ocorre depois de vogais centrais e posteriores e a variante oral ocorre depois de vogais anteriores;

- /j/ tem um alofone [d͡ ʒ] que ocorre em variação livre com [j];

- /h/ tem uma variante nasalizada [h̃] que ocorre antes de vogais nasais.

Também observa-se as seguintes variações alofônicas nos fonemas consonantais:

- O fonema /p/ apresenta variação livre entre [p] e [f]. Os exemplos abaixo mostram a variação na ocorrência daqueles sons.

pitó [fìˈnɔ́] ~ [pìˈnɔ́] ‘jibóia’ páátu [ˈfáátù] ~ [ˈpáátù] ‘pó de coca’ patáre [fàˈtá-ɾɛ̀] ~ [pàˈtá-ɾɛ̀] ‘cortar’

- Em limite de morfema o fonema /ɡ/ apresenta variação alofônicas com [ɣ̞ ]. Exemplos da tabela 4 ilustram a ocorrência de tais variantes. +Tabela 4. Variações alofônicas do fonema /g/upí-ɡa[ùˈfí- ɣ̞ à] ~ [ùˈpí- ɣ̞ à]dentepihká-ɡa[fii̥ ˈká-ɣ̞ à]anón ( espécie de fruta)kía-ɡa[ˈkíà-ɣ̞ à]piolho - Encontra-se um caso no que o fonema /b/ é realizado [ß̞ ] em contexto intervocálico;

~wetabé [wɛ̀nàˈ̃ ß̞ ̃ɛ́] 'sábalo (espécie de peixe)'.

- Diferentemente do observado por Barnes & Takagi (1976), o fonema /j/ pode ser realizado como [d͡ ʒ] em todos os contextos conforme a tabela 5. +Tabela 5. Realização do fonema /j/jaiɡá[d͡ ʒàìˈɡá]cigarrajehsé[d͡ ʒɛ̀ˈhsɛ́]porcoejú[ɛ̀ˈd͡ ʒú]cipójoáro[d͡ ʒɔ̀ˈáɾɔ̀]longeũtṹ-ɡá[ù̃ˈnɲṹ-ɡá]abacate

Distribuição fonética e estrutura silábica Uma sílaba é qualquer unidade que pode assumir tom e possuir um núcleo vocálico, independentemente de ter ou não uma consoante antes dela.

Restrições /ɡ/ e /r/ não ocorrem no início de palavras;

/ɡu/ e /wu/ não ocorrem;

Nenhuma disposição VV começa com /u/ ;

Ocorrem disposições VVV multissilábicas, mas nem todas as combinações de vogais são atestadas. // é sempre o último nessas formas;

(C) V pode ser opcionalmente pronunciado com aspiração, com a mesma qualidade da vogal precedente, quando a sílaba é átona e antes das sílabas com inícios desvozeados.

Fenômenos suprassegmentais

O tom O tuiuca conta com dois tons fonológicos: alto e baixo. O tom baixo apresenta duas realizações: um tom médio que ocorre no interior de palavras de três ou mais sílabas em que alguma sílaba contenha a vogal /i/ e siga uma sílaba com tom alto, e um tom baixo que ocorre em todos os outros contextos. Tom alto e acento são concomitantes. Palavras com duas sílabas (C)V.CV normalmente ocorrem com tom alto na última sílaba. Exceções a esta regra ocorrem quando a palavra é empréstimo de outra língua. Em palavras de mais de três sílabas o tom alto (e o acento) ocorre em qualquer sílaba.

O tom é contrastivo quando há a formação C(VV);

/díi/ 'sangue'

/dií/ 'lama'

Palavras VCV, exceto para empréstimos, têm o tom na segunda sílaba;

/eté/ 'periquito'

/b̃ésa/ 'mesa' (← português 'mesa')

A nasalização A nasalização é fonêmica e opera no nível da raiz:

/sĩã/ 'matar'

/sia/ 'para amarrar'

Variantes pré-nasais de /b, d, ɡ / ocorrem após as vogais nasais e antes das vogais orais:

/kĩĩbai/ [kʰĩĩmbaii̥] .

Assimilação nasal As consoantes vozeadas /b, d, ɡ, w, j/ têm variantes nasais no mesmo lugar de articulação: [m, n, ŋ, w̃, j̃]

O /j/ também pode surgir como ɲ antes de vogais nasais altas;

O /h/ também tem uma variante nasalizada que ocorre antes das vogais nasais.

Harmonia nasal Os segmentos de uma palavra são todos nasais ou orais.

/waa/ 'para ir'

/w̃ãã/ 'iluminar' (o /w/ é nasal)

Observe que os segmentos desvozeados não nasalizam:

/ãkã/ 'engasgar com um osso'

/w̃ãtĩ/ 'demônio'

De acordo com o estudo de Nelsy Lorena (2014), denominado "Fenômenos de glotalização-laringalização em três línguas Tukano Oriental, fronteira Colômbia-Brasil: Tuyuka, Tukano e Makuna" enuncia-se os seguintes processos fonético-fonológicos:

A laringalização Em tuiuca há dois fenômenos de laringalização: pós-aspiração e vogais desvozeadas. A pós-aspiração ocorre com valores maiores de duração nas consoantes /t/ e /k/ quando precedidas de vogais altas. Para /p/ são encontrados altos valores de duração de pós-aspiração em todos os contextos. Este fato, junto com a variação fonética que este fonema apresenta entre [p] e [f], fazem especular sobre a ocorrência de um possível processo de mudança em curso, sustentada pela coleta e análise de dados conforme o estudo.