O Castelo de Paderne é um monumento militar na freguesia de Paderne, pertencente ao Município de Albufeira, na região do Algarve, em Portugal. O primeiro edifício militar naquele sítio terá sido um castro lusitano, conquistado depois pelos romanos, mas o castelo em si só foi construído nos séculos XI ou XII, durante o período muçulmano. A fortaleza foi tomada em 1248, como parte da Reconquista cristã do Algarve. Ficou num estado de semi-abandono após a povoação de Paderne ter mudado para um novo local no século XVI. Foi gravemente danificado durante o Sismo de 1755, embora só tenha sido oficialmente encerrado em 1858. Foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1971. É considerado um dos símbolos do município, e um dos mais importantes exemplares da arquitetura militar islâmica na Península Ibérica. No interior destaca-se uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Assunção.
thumb|left|Pormenor de uma muralha no canto Sudoeste do castelo, em 2007 Descrição Importância e conservação O Castelo de Paderne é considerado como um dos monumentos mais importantes no Algarve, tanto devido ao seu simbolismo como ao seu valor patrimonial. Com efeito, é um ex-libris do município de Albufeira, e um vestígio do seu passado remoto, além de ser um dos melhores exemplos de edifícios em taipa militar, tanto na região ao Sul do Tejo como em toda a Península Ibérica. Também é considerado um exemplar único em Portugal de um hisn almóada.
O monumento foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 516/71, publicado no Diário do Governo, n.º 274, Série I, de 22 de Novembro de 1971, enquanto que a Zona de Especial Protecção foi definida pela Portaria n.º 978/99, publicada no Diário do Governo n.º 215, Série II, de 14 de Setembro de 1999. Foi colocado sob a responsabilidade da Direcção Regional de Cultura do Algarve pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República n.º 163, Série II, de 24 de Agosto de 2009, sendo em 2018 a sua gestão partilhada entre aquele organismo e a Câmara Municipal de Albufeira.
O castelo encontra-se numa área da Rede Natura 2000, estando integrado num dos percursos pedestres do Instituto de Conservação da Natureza.
Segundo a tradição, é um dos sete castelos que figuram na Bandeira de Portugal, que foram adicionados pelo rei D. Afonso.
thumb|left|Castelo de Paderne, visto a partir das imediações da povoação do Malhão, em 2017
Composição e situação geográfica O edifício situa-se num cabeço a cerca de 100 m de altitude, numa península no traçado da Ribeira de Quarteira e por diversos vales. Está localizado a cerca de 2 km a Sul da moderna vila de Paderne, numa zona que era considerada estratégica, não só devido à sua forte produção agrícola, mas também como ponto de divisão entre as zonas da costa e do barrocal e as regiões de Loulé e Silves. Também servia para vigiar a antiga via romana, que passava a Ribeira de Quarteira numa ponte, situada a Sudoeste do castelo.
O castelo era originalmente um hisn, um tipo de fortificação do período almóada, construído numa zona rural, e que combinava as funções de núcleo habitacional e de posto de defesa. O complexo do castelo é composto principalmente pelo conjunto dos panos de muralha e o torreão junto da entrada, tendo no seu interior as ruínas de uma ermida e de duas cisternas. O espaço no interior tem uma área de 3.250 m². O edifício está orientado a Nordeste, de forma a melhor se adaptar à morfologia do terreno, e apresenta uma planta irregular com dez faces, de configuração aproximadamente trapezoidal. Destaca-se principalmente devido ao uso de taipa como principal material de construção, e pela sua forma, sem quaisquer torres nas esquinas ou pontos intermédios das muralhas, possuindo apenas uma torre, conhecida como albarrã. Esta última característica deve-se provavelmente às reduzidas dimensões do castelo, e à sua localização geográfica, que facilitava as condições de defesa em três lados. A torre albarrã foi construída no lado Nordeste, onde se situa o único acesso ao castelo, feito através de uma porta virada para Sudeste, formando uma entrada em cotovelo.
Tanto o castelo em si como os edifícios residenciais no seu interior apresentam traços típicos de meados do século XII, durante o período almóada. As estruturas defensivas do castelo são principalmente compostas por taipa, com as bases em pedra calcária em degraus, de forma a melhor se adaptar ao declive do terreno. Nalguns pontos, este embasamento mais de um metro de altura, enquanto que as muralhas em si têm 1,9 a 2,1 m de grossura.
A taipa é método construtivo que permite a construção de paredes resistentes a baixo custo, tendo sido utilizado em larga escala desde a antiguidade na região do Mar Mediterrâneo, particularmente no Norte de África e na Península Ibérica. No século XXI, ganhou significado não só do ponto de vista cultural, como método tradicional de construção, mas também como material com potencialidades no campo da arquitectura bioclimática. A taipa é uma mistura de certos tipos de terras, cal e uma massa de granulados, sendo a proporção de cada elemento alterada dependendo do tipo de estrutura em que o material iria ser aplicado. Esta flexibilidade permitia a sua utilização num vasto leque de edifícios, desde simples residências até muralhas, sendo neste último caso conhecido como taipa militar, em que a proporção de cal é maior, e a mistura mais refinada e espessa. Devido ao maior conteúdo em cal, as paredes podiam ser mais espessas, e portanto mais resistentes. Os componentes da terra devem incluir argila, de forma a melhorar a aderência, e areia, que serviria para suportar internamente o muro, sendo considerada uma boa mistura aquela que tivesse uma proporção de argila e limos inferior a 30%, de gravilha entre os 10 e 10%, e de areia superior a 30%. A massa é depois levemente humedecida, e colocada dentro de aparelhos em madeira denominados de taipais, onde é compactada através do uso de ferramentas. Estes aparelhos eram segurados por agulhas, elementos de madeira colocados na parede em intervalos, que serviam igualmente para neutralizar os esforços horizontais durante o processo de compactação. Depois de um módulo ou camada estar concluído, é retirado o aparelho de madeira, ficando na parede os orifícios onde estiveram posicionadas as agulhas.
thumb|Vestígios de uma antiga cisterna, em 2012
Área residencial e cisternas O espaço urbano dentro do castelo, durante o período islâmico, foi planeado de forma a apresentar um plano ortogonal, com quarteirões divididos por ruas estreitas. As casas, de planta quadrangular, eram formadas por vários compartimentos em redor de um pátio central descoberto (Sahn), ao qual tinham acesso. Esta organização das casas em redor de um pátio era comum nos ambientes urbanos do período islâmico, tendo sido por exemplo descoberta em Mértola.
Um destes conjuntos apresenta grandes dimensões, com 11,3 por 8,2 m, sendo formado por oito divisões em redor do pátio. As paredes dos edifícios seriam em adobe ou taipa, nalguns casos encostadas às muralhas. Também foram encontrados vestígios de um sistema de esgotos, que escoavam as águas residuais para fora do castelo. Após a ocupação cristã, o interior foi profundamente modificado, tendo sido alterada a organização dos edifícios residenciais, que passaram a ser totalmente em pedra, e foram afastados das muralhas.
thumb|left|Torre albarrã do castelo, em 2007
Torre albarrã A única torre no castelo encontra-se no seu exterior, sendo este tipo de torres, destacadas em relação às muralhas, conhecidas como albarrãs. Este tipo de torre foi muito utilizado durante o domínio islâmico, na região Sudoeste da Península Ibérica, podendo ser encontrado igualmente nos castelos de Alcácer do Sal, Silves, Salir e Badajoz.
Consiste numa estrutura maciça de um corpo, de base quadrada, com cerca de 5,85 m de lado e 9,3 m de altura. A forma como a torre foi planeada e construída apresenta semelhanças com o côvado típico almóada, com 0,418 m, tendo a altura de caixas dois côvados, enquanto que a largura da base tem catorze côvados. Está situada do lado de fora do castelo, a cerca de um metro de distância das muralhas. No topo possui um terraço, cujo acesso é feito através de um pequeno passadiço, ligado ao topo das muralhas, e suportado por um arco em pedra de volta perfeita, que foi reconstruído na década de 1980. O terraço foi muito danificado, tendo sido encontrados indícios de seteiras nos lados Sudeste e Noroeste, mas não sobreviveram quaisquer vestígios de possíveis ameias. O terraço estava dividido ao meio por um muro, e foram encontrados indícios de uma estrutura de madeira, e de concavidades no solo, que poderiam ser utilizados para guardar munições ou apetrechos.
As paredes da torre são constituídas por onze camadas ou módulos em taipa, dos quais nove fazem parte do corpo, enquanto que os dois de cima funcionam parapeito do terraço. A torre assenta sobre uma base compactada, em argila, que tem na parte superior uma camada de taipa, com uma maior mistura de cal e aglomerado grosso.
No interior do castelo existiam duas cisternas, que são um testemunho dos dois períodos de ocupação da fortaleza, antes e depois da reconquista. Uma destas cisternas está situada junto da ermida, coberta por uma abóbada, tendo cerca de 6,25 por 2,7 m no interior e 5,35 por 3,7 a 4,5 m no exterior.
thumb|Interior do castelo em 2010, vendo-se à direita as ruínas da Ermida Ermida de Nossa Senhora da Assunção Junto à entrada do castelo, no seu interior, estão as ruínas da Ermida de Nossa Senhora da Assunção, igualmente conhecida como Ermida da Senhora do Castelo. Esta ermida chegou a ser a sede da Pároquia de Paderne, mas tal como sucedeu com o castelo, também foi abandonada e entrou num profundo processo de degradação, tendo sobrevivido apenas as paredes mestras. Durante o seu funcionamento foi alvo de duas romarias anuais, realizadas em 15 de Agosto, data da padroeira, e em 25 de Março, Dia da Anunciação. A ermida é utilizada como espaço para exposições, tendo por exemplo albergado em 2003 a instalação escultórica Andar a pé no fundo do mar, de Jorge Cabrita Matias.
O edifício da ermida apresenta uma planta rectangular, de reduzidas dimensões. O altar estava orientado no sentido Nordeste, e tendo a curta distância duas zonas destinadas a necrópole, estando dividido da nave por um arco com aduelas. A nave tinha uma cobertura em madeira, enquanto que a capela-mor possuía uma abóbada.Vilas e Aldeias do Algarve Rural, 2003:62-63 Contava com três altares, e ostentava no seu altar-mor uma imagem de Nossa Senhora.
Foram encontrados vestígios de uma estrutura anterior por debaixo da ermida, que provavelmente teria sido uma igreja construída no século XIII, como forma de adaptar para o culto cristão um antigo templo islâmico.
Espólio Nas escavações arqueológicas foi encontrado um vasto e variado espólio, principalmente enquadrado em dois períodos, o primeiro dos séculos XII e XIII, e o segundo dos séculos XVI e XVII. Do primeiro período foi recolhido um grande número de cerâmicas islâmicas, principalmente loiça de cozinha, e várias peças de produção nazari.
thumb|left|Detalhe de três blocos de taipa, que iriam ser utilizados durante as obras de restauro, em 2018
História Antecedentes Fundado nos finais do Neolítico ou nos princípios do Calcolítico, o local terá sido ocupado inicialmente por um castro dos povos lusitanos. Foi conquistado pelos exércitos romanos em meados do século II a.C., que o converteram num posto militar e num núcleo administrativo e político, denominado de Paderne ou Paderna.
Período medieval