miniaturadaimagem|Carros de combate M41 Walker Bulldog em frente ao Palácio Duque de Caxias O Golpe de 1964 no Rio de Janeiro refere-se aos eventos relativos ao Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil, na medida em que foi o alvo principal do golpe de Estado no Brasil em 1964, mas não seu ponto de partida. O controle do governo sobre a poderosa guarnição do I Exército (sediado no Rio de Janeiro), como parte de seu "dispositivo militar", era maior, exigindo que fosse dispersa para o interior para enfrentar forças do Exército Brasileiro rebeladas vindas de outros estados. Entre os inimigos de João Goulart na cidade estavam Carlos Lacerda, governador da Guanabara, e os generais Castelo Branco e Costa e Silva, sem comando de tropas. As forças do governo estavam sob o comandante do I Exército, o general Armando de Moraes Âncora, e do Corpo de Fuzileiros Navais, almirante Cândido Aragão. Os revoltosos não conseguiram sublevar o grosso da guarnição, mas a saída do Presidente depois do meio-dia de 1º de abril, causada pela deterioração de sua posição dentro e fora da cidade, fez desmoronar a posição dos legalistas e o I Exército cessou a resistência. No dia seguinte o "Destacamento Tiradentes", advindo de Minas Gerais, entrou na cidade.

O domínio inicial do governo federal na Guanabara era o esperado pelos golpistas e se materializou no almirante Aragão, "senhor absoluto do Rio durante quase dois dias". Entretanto seus fuzileiros, apesar de vários falsos alertas da noite de 31 de março e no dia seguinte, não atacaram Carlos Lacerda, que aguardava entrincheirado no Palácio Guanabara com policiais e voluntários. Com uma exceção não impediram sua Polícia Militar de neutralizar os sindicalistas. Houve greve, mas ela prejudicou o governo. Os legalistas também perderam a oportunidade de aprisionar Castelo Branco; ele e Costa e Silva estiveram no Palácio Duque de Caxias, sede do Ministério da Guerra, e saíram na tarde do dia 31, rumando a aparelhos. Castelo Branco terminou na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), que tornou a Urca um enclave da rebelião; na manhã do dia seguinte o Forte de Copacabana emergiu como outro.

No dia 1, o almirantado conseguiu neutralizar Aragão. Após a saída do Presidente, seus guardas abandonaram sua residência, o Palácio Laranjeiras, notoriamente um pelotão de carros de combate que seguiu às linhas de Lacerda. Pouco antes oficiais da ECEME invadiram o QG de Artilharia da Costa, em Copacabana, com grande repercussão. Por fim, à medida que o governo Goulart desaparecia, a repressão desceu sobre seus partidários. Costa e Silva tomou para si o Ministério da Guerra. A partir do dia 2 surgiram rumores de uma contraofensiva janguista, que não se verificaram. Os oposicionistas, triunfantes, realizaram a "Marcha da Vitória".

Contexto no interior

miniaturadaimagem|Situação militar ao redor do meio-dia de 1.º de abril, com operações nos eixos Rio-Minas e Rio-São Paulo Contra o Rio de Janeiro convergiam as forças da 4ª Divisão de Infantaria, de Minas Gerais, e do II Exército, de São Paulo, respectivamente dos generais Olímpio Mourão Filho e Amaury Kruel. Mourão Filho formou o "Destacamento Tiradentes" e delegou seu comando ao general Murici, cuja força já estava na ponte sobre o rio Paraibuna, na fronteira estadual, às 17h00 do dia 31. Kruel só aderiu ao golpe ao redor da meia-noite. Na frente mineira, o 1º Batalhão de Caçadores de Petrópolis montou uma defesa ainda no dia 31, mas à noite recuou. Depois das 05h00 do dia seguinte a próxima força legalista, o 1º Regimento de Infantaria (1º RI), aderiu. Depois das 11h00 e meio-dia a próxima linha defensiva legalista, sob o general Cunha Melo, era o 2º RI, que defrontou o Destacamento Tiradentes na região de Areal. Na frente paulista a Academia Militar das Agulhas Negras, antes mesmo da chegada das forças que desciam o Vale do Paraíba, aderiu a Kruel e montou uma defesa na região de Resende e Barra Mansa contra o Grupamento de Unidades-Escola, a força legalista enviada contra São Paulo. Eram essas as posições no interior antes da decisão de Âncora de negociar com Kruel na tarde do dia 1, após a saída de Goulart do Rio de Janeiro, levando ao fim das hostilidades, que no interior não chegaram a ser violentas.

Palácio Guanabara No dia 19 de março o governador Lacerda ouviu que o general Argemiro de Assis Brasil mandaria prendê-lo antes da convenção da União Democrática Nacional, no dia 11 de abril. Estava informado que o golpe começaria no dia 2 de abril. Sabia ainda que, deflagrado, o inimigo federal tomaria com força seu Estado e o Rio Grande do Sul. Aconselhado a fugir a São Paulo ou Minas Gerais, sua decisão era outra — entrincheirar-se. Mandou a família para longe e no dia 27 ou 29 passou a dormir no Palácio, que na noite de domingo já era uma "praça de guerra". O plano de segurança meticulosamente preparado desde o segundo semestre de 1963 entrou em ação.

Com a notícia da deflagração em Minas Gerais, chegando por Armando Falcão na madrugada do dia 31, passou à ocupação das vias vizinhas pela Polícia Militar, como presenciado pelo general Murici depois das 09h00. Os policiais foram reforçados por centenas de voluntários, civis e militares reformados, trajando lenços azuis e brancos. Eram tantos os que se apresentavam para defender o Palácio que a durabilidade do estoque de víveres foi ameaçada. As medidas defensivas eram várias, como a “Operação Overhaul”, na qual falsas notícias de movimentos de tropas e ações dos conspiradores foram disseminadas para dispersar as forças legalistas.

Dispositivo de segurança do Palácio GuanabaraLiderança e organizaçãoSecretário de Serviços Públicos, General Salvador Gonçalves Mandin Secretário de Segurança, Coronel Aviador Gustavo Eugênio de Oliveira Borges

Chefe da Casa Militar, Coronel Fontanelle

Deputado Federal Coronel José Costa Cavalcanti

Coronel PM Edson de Moura FreitasInvestimentos antecipadosRádios, viaturas do tipo "choque" e metralhadoras.Preparativos logísticos2 grupos de geradores, serviços de intendência, víveres, contingente médico e bombeiros.ReconhecimentoRadiopatrulhas monitoravam pontos estratégicos da cidade.Linhas de defesaComposiçãoLocalizaçãoAcionadaTonéis de petróleo vazios na Praia do Botafogo, por onde os Fuzileiros Navais poderiam invadir.1ªA Polícia Civil, à paisana, para fazer ataques de inquietação; 5 batalhões da PM.Arco do Hotel Glória a uma posição ao norte do palácio.Apenas parcialmente.2ªMilitares e civis voluntários com armas automáticas, antitanque, coquetéis molotov e dinamiteVias de acesso e apartamentos cedidos por moradores, especialmente do 4º ao 6º andares.Tarde do dia 31.3ª2º Batalhão da PM (quartel da rua São Clemente).Linhas de caminhões de lixo.Manhã do dia 31.4ªVoluntários "especiais" com armas antitanque mais pesadas, incluindo bazucas acionadas por relay e montadas em jipes.Em reserva, para quando se recuasse aos quatro acessos à rua Pinheiro Machado.5ª1ª Companhia Independente da PM e choques da Polícia de Vigilância.Própria sede do governo.Mil litros de óleo derramados no Morro Novo Mundo, impedindo a subida de artilharia até o alto, que ameaça a retaguarda do Palácio; policiais nos morros.Meio de fugaTrocando espaço por tempo, uma retirada pelo maciço do Sumaré, com o governador escapando por lanchas do Corpo Marítimo de Salvamento deixadas na praia.

Às 16h00 as radiopatrulhas avistaram o deslocamento de carros de combate do 1º Regimento de Reconhecimento Mecanizado (1º R Rec Mec), mas embora a 3ª e 4ª linhas tenham sido colocadas em alerta, não se acreditava que fossem sozinhos atacar o palácio. De fato, o movimento era apenas ao Laranjeiras e ao Ministério da Guerra. A defesa seria posta à prova às 21–22h00, com rumores de um iminente ataque dos fuzileiros navais de Aragão. O deslocamento era real: quatro caminhões e um carro de assalto, com tropa pesadamente armada, partiram da guarnição. Pairava grande tensão. O comboio seguiu o itinerário: Cinelândia, Glória e entrada da rua Farani. Regrediram à praia do Flamengo e dali à Praça José de Alencar, Largo do Machado e Palácio Laranjeiras. Não houve ataque: apenas reforçaram a segurança do Presidente.

miniaturadaimagem|A defesa do Palácio Guanabara

Os fuzileiros apenas tinham sido chamados a defender o Palácio Laranjeiras em virtude da presença adversária da Polícia Militar e do Exército não fornecer reforços. Ás 01h30–02h30 veio uma agressão concreta ao Guanabara: a partir das 01h00 cortaram-se as linhas telefônicas. Porém na secretaria de Imprensa uma ou duas linhas novas foram esquecidas e um radioamador retransmitia a Rádio Guanabara aos outros estados. Cortou-se em seguida a luz. Os geradores foram ativados, e para não sobrecarregá-los, o ar-condicionado foi desligado, contribuindo para o clima de tensão. Mais um movimento de fuzileiros navais apenas seguia ao Laranjeiras.

Às 02:00 do dia 1º Âncora garantiu que os fuzileiros não atacariam o Guanabara, e às 03:30, camuflados como enfermeiros, dois investigadores enviados pelo Guanabara fizeram reconhecimento no Arsenal da Marinha. Entraram vestidos de enfermeiros, num "rabecão, cheio de pedaços de corpo humano", a pretexto de buscar um cadáver, constatando que os fuzileiros do Batalhão Riachuelo dormiam.

Entretanto os boatos de invasão voltaram pela manhã, às 04h00 e 08h00. Antes das 10h00 da Rua Farani avistaram-se soldados nas encostas do morro e se imaginava um ataque de morteiros. Era uma incursão breve ou uma confusão entre os uniformes dos policiais e dos fuzileiros, parecidos. Dos alto-falantes do palácio, Lacerda desafiava:

O governador chegou a especular que as repetidas "invasões" que não se concretizavam fossem tática psicológica para baixar sua guarda, mas Aragão não deu ordem de ataque. Queria sim, prender o governador, o que, consideravam os legalistas, interromperia o golpe ou deteria as adesões de comandos militares. Avaliava que seria perfeitamente possível, e de fato, do outro lado o General Mandin notou sua imensa inferioridade do poder de fogo: o Guanabara não resistiria mais que duas horas. Entretanto Aragão ficou à espera da aprovação do Presidente, que nunca veio. O então Secretário de Segurança narra que os fuzileiros vinham para atacar de fato, mas Âncora telefonou a Aragão e ameaçou deslocar o 1º R Rec Mec estacionado no Ministério da Guerra para interrompê-lo. Fernando Gabeira era da opinião de que os oficiais sabotariam uma ordem de ataque.

Os objetivos da defesa do Guanabara eram, além da simples defesa do governador, o valor simbólico da permanência do governo estadual e a proclamação ao país da agressão sofrida. Lacerda era da opinião de que influenciou a adesão de São Paulo ao golpe, pois a Guanabara era até então considerada "favas contadas".

PM, Aeronáutica e Fuzileiros Navais miniaturadaimagem|A ocupação da Rádio Jornal do Brasil|esquerda À noite do dia 31 Francisco Teixeira, comandante da III Zona Aérea e ligado à base militar comunista ouviu de Luís Carlos Prestes, líder do Partido, que deveria acionar a Base Aérea de Santa Cruz e bombardear o Palácio Guanabara. Respondeu que seus tenentes já estavam do lado golpista. Em outra ocasião, respondeu ao mesmo pedido que só daria a ordem se mandado pelo Presidente da República. Um bombardeio aos jardins do palácio seria "mais um ato terrorista do que uma ação militar".