A língua japhug rgyalrong é uma língua Sino-Tibetana falada por cerca de 3 mil habitantesJacques, Guillaume (2010). The inverse in Japhug Rgyalrong. nas cidades de Barkam e Aba, que se localizam no noroeste da província de Sichuan, na região central da China.Jacques, Guillaume (2004). Phonologie et morphologie du Japhug (rGyalrong).
Origem
O nome ‘Japhug’ é de origem tibetana, sendo Ja-phug (em Japhug: tɕɤpʰɯ) o nome dado a um rio que passa por gSar-rdzong e Da-tshang.
A língua, se divide em dois principais dialetos, o kɤmɲɯ (em Mandarim: Ganmuniao, 干木鸟), falado em gDong-brgyad, e o ɬɤjaʁ (em Mandarim: Heierya, 黑爾丫), falado em gSar-rdzong.
Dentre as línguas rgyalrongicas encontramos o Zbu, o Tshosbun e o Rgyalrong Oriental, sendo este último encontrado em maior região. Todas essas, assim como o Japhug, são faladas na região de Sichuan e possuem fortes relações a respeito das estruturas linguisticas.
O Tibetano, apesar de distante das línguas rgyalrongicas na família Sino-Tibetana, exerceu forte influência sobre o vocabulário e a morfologia destas. Encontra-se poucos cognatos entre Japhug e Tibetano (menos de 150 palavras), entretanto, o Japhug possui quase 1000 palavras como empréstimo linguístico tibetanos. Observa-se nos quadros as diferenças entre os cognatos e os empréstimos linguísticos.Jacques, Guillaume (2019). Verbal Valency and Japhug/Tibetan Language Contact.
+ Cognatos Japhug-Tibetano Tibetano Japhug Tradução ɴdonndɯn ler (em voz alta) btsugsftsɯɣ estabelecer bsduβzdɯ coletar + Empréstimos Linguísticos Japhug-Tibetano Tibetano Japhug Tradução ɕiŋ.tɕʰaɕoŋtɕa madeira (para construção) dgraʁgra inimigo tsʰostsʰwi pintar, tingir
A família das línguas rgyalrongicas se destacam dentre as Sino-Tibetanas porque, diferente da maioria das línguas desta família , as rgyalrongicas apresentam ordem SOV e não possuem diferenciação de casos pessoais inclusivos ou exclusivos. Apesar das diferenças citadas, percebe-se que, assim como todas as outras línguas Qiangicas, o Japhug, além de manter a ordem SOV, geralmente apresenta o sujeito da frase transitiva antes do objeto da mesma.Jacques, Guillaume (2013). Harmonization and disharmonization of affix ordering and basic word order.
Fonética e Fonologia
Consoantes Em Japhug identifica-se a presença de 49 fonemas consonantais, uma quantidade muito maior que os 19 presentes na língua portuguesa. Estes fonemas estão apresentados na tabela a seguir. +Consoantes em JaphugLabiaisApicaisDorsaisDentaisPalato-alveolaresRetroflexasPalataisVelaresUvularesPlosivas desvozeadasptckqPlosivas desvozeadas aspiradaspʰtʰcʰkʰqʰPlosivas vozeadasbdɟgPlosivas pré-nasalizadasmbndɲɟŋgɴɢAfricadas desvozeadaststɕtʂAfricadas aspiradastsʰtɕʰtʂʰAfricadas sonorasdzdʑdʐAfricadas pré-nasalizadasndzndʑndʐPlosivas nasalizadasmnɲŋFricativas desvozeadassɕʂxχFricativas sonoraszʑɣʁSoantes não-nasaiswlrjLaterais aspiradasɬ
Rimas O conjunto da vogal e da consoante final de cada sílaba é conhecido por ‘rima’. Em Japhug, observa-se a presença das seguintes rimas. +Rimas em Japhug (Vogais X Consoantes)LabiaisApicaisLaminaisDorsais-p-β-m-t-n-s-l-r-j-ɣ-ʁ-ŋNão-arredondadas-ɑ- -ɑβ -ɑm -ɑt -ɑn -ɑs(-ɑl) -ɑr(-ɑɣ) -ɑʁ -ɑŋ-e-(-et)-ɤ- -ɤβ -ɤm-ɤt-ɤn-ɤs-ɤl-ɤr-ɤj-ɤɣ-i-(-it)(-in)(-is)(-il)(-ij)-ɯ-(-ɯp) -ɯβ -ɯm -ɯt -ɯn -ɯs -ɯl -ɯr -ɯɣ -ɯŋArredondadas-o--om -ot -on -os(-ol) -or(-oj) -oʁ -oŋ-u- -um(-ut)(-un)(-us) -ur(-uj)(-uɣ)
Tons Apesar da maioria das línguas rgyalrongicas apresentarem a acentos tonais, como constata-se em zbu as rimas glotalizadas ou em tons agudos nos exemplos tə-ɣbeʔ (em português: jogar) e rgɐ́m (em português: caixa), o Japhug não apresenta quaisquer variações neste campo, tampouco vestígios das mesmas.
Reduplicação Parcial e Estrutura Silábica A reduplicação parcial é um fenômeno morfofonológico que permite distinguir as distintas consoantes nos grupos iniciais. Este ocorre na primeira sílaba verbal (nos casos de funcionamento flexional) ou na primeira sílaba da raiz verbal (nos casos de função derivacional).
Durante esse fenômeno, há a transformação de uma única sílaba em duas, contudo, esta nova, não recebe a vogal e a consoante que a sucede, e é facultativo a presença da consoante que a antecede, caso haja mais de uma, sendo estes fonemas substituídos por -ɯ.
Gramaticalmente, a reduplicação parcial permite a identificação da posição medial, assim como é mostrado nos exemplos abaixo.
A) CCCVC -> CCɯ-CCMVC zgroʁ -> zgɯ-zgroʁ (kɤ-zgroʁ; em português: anexar)
B) CCCVC -> CCCɯ-CCCVC
fstɯn -> fstɯ-fstɯn (kɤ-fstɯn; em português: servir)
Mediais são consoantes que antecedem a vogal e não estão presentes na duplicação da sílaba, consequentemente, o exemplo B não apresenta uma consoante medial, visto que, todos os fonemas consonantais que antecedem o vocálico [ɯ] estão presentes em [fstɯ].
Em Japhug, por sílaba, aceita-se no máximo três consoantes iniciais e uma final, e permite-se apenas uma vogal. Portanto, resume-se a estrutura como:
(C) (C) C (C) V (C)
Desta forma, entende-se pela estrutura silábica máxima aquela formada, respectivamente, por:
Consoante Ante Pré-Inicial - Consoante Pré-Inicial - Consoante Inicial, Consoante Medial - Vogal - Consoante Final
As consoantes ante pré-iniciais são raras e frutos de empréstimos gramaticais tradicionais tibetanos e fonológicos históricos chineses.
Ortografia Dentre as línguas rgyalronicas apenas o rgyalrong oriental apresentou textos escritos, utilizando-se do alfabeto tibetano. Como o Japhug não tem uma tradição escrita, nos artigos acadêmicos fazem uso do IPA para representar os sons da língua.
Nomes
Pronomes Pessoais Os pronomes em Japhug, assim como ocorre em português, não apresentam distinção de 1ª pessoa inclusiva e exclusiva. Ressalta-se, também, a ausência de variação de gênero dos pronomes pessoais. Pessoas do Discurso e Flexão em NúmeroPronomes em Japhug1ª pessoa do singulara-ʑo1ª pessoa do dualtɕɯ-ʑo1ª pessoa do plurali-ʑo2ª pessoa do singularnɤ-ʑo2ª pessoa do dualndʑɯ-ʑo2ª pessoa do pluralnɯ-ʑo3ª pessoa do singularɯ-ʑo3ª pessoa do dualʑɤ-ni3ª pessoa do pluralʑa-ra
Relações de Posse Os nomes em Japhug podem ser substantivos possessivos inalienáveis, os quais necessitam de um prefixo possessivo, ou substantivos possessivos não-inalienáveis, em que o uso desses afixos pode ser descartado. Tem-se o uso desses morfemas em ‘nɤ-rpɯ’ (seu tio) e em ‘a-ŋga’ (minhas roupas). Segue tabela com os prefixos possessivos.Jacques, Guillaume (2017). The origin of comitative adverbs in Japhug. +Prefixos PossessivosPessoaPrefixo1ª pessoa do singulara-1ª pessoa do dualtɕi-1ª pessoa do plurali-2ª pessoa do singularnɤ-2ª pessoa do dualndʑi-2ª pessoa do pluralnɯ-3ª pessoa do singularɯ-3ª pessoa do dualndʑi-3ª pessoa do pluralnɯ-Indefinidotɯ- tɤ-Genéricotɯ-
Afixos Nominais
Derivação Comitativa
A formação de advérbios comitativos do tipo “tendo X” ou “ juntamente a Y” a partir de um substantivo se dá pela reduplicação da última sílaba e o acréscimo do prefixo kɤ́– ou do kɤɣɯ–, não havendo alteração semântica entre estes afixos.
C) tɤ-sno kɤ́-jɯ~jaʁ nɯ lu-ta-nɯ (em português: então, eles colocaram a sela com as suas mãos)
tɯ-jaʁ: mão
kɤ́-jɯ~jaʁ: comitativo 'com as mãos'
Derivação Denominal
Para a formação de verbos denominais em Japhug, acrescenta-se o prefixo aɣɯ–. Esses novos verbos são intransitivos e de estado e designam ações como “tendo X”, produzindo muito(s) Y” ou “tendo o mesmo Z”. Segue alguns exemplos. +O Prefixo Denominal aɣɯ-Substantivo PrimitivoSignificadoVerbo DenominalSignificadotɤ-luLeiteaɤɯ-luProduzindo muito leiteɯ-mdoʁCoraɤɯ-mdoʁTendo a mesma corsmɤnRemédioaɤɯ-smɤnTendo um efeito medicinal
Verbos
As línguas podem apresentar diversos tempos, aspectos e modos verbais que não necessariamente mantém uma correlação interlinguística. Assim, para definir os aspectos verbais do Japhug deve-se analisar as seguintes situações:
Estados: situações estáticas em um período determinado;
Processos: situações homogêneas de alternância de fases;
Eventos: situações em que uma nova ação prossegue subitamente uma ação anterior.
Os verbos em Japhug podem pertencer a dois aspectos distintos: o imperfeito, que descreve estados e processos, e o perfectivo, que representa apenas eventos. Ocorre, também, o fato de algumas categorias verbais se restringirem a um tempo específico, como o passado imperfeito, o presente e o não-passado, e outras se caracterizarem mais a relações aspectuais do que temporais, como aorista, imperfeito e mediativo. Em Japhug, considera-se uma categoria verbal como imperfeita quando esta descreve estados e processos, e classifica-se como perfectiva quando trata-se apenas de eventos. Bem como, uma categoria é dita como contínua quando faz-se uso dos prefixos asɯ- / ɤsɯ-, indicando a perduração de certa ação verbal. Já o mediativo indireto é aplicado ao relatar fatos que o falante não testemunhou. As categorias verbais do Japhug são:
No tempo pretérito:
- Aorista ou Pretérito Perfectivo
- Pretérito Mediativo Indireto
- Pretérito Imperfeito
- Pretérito Mediativo Indireto Imperfeito
- Pretérito Imperfeito Contínuo
- Pretérito Mediativo Indireto Imperfeito Contínuo
Pontua-se, também, que no Japhug, para indicar ações em que há mudança de estado utiliza-se o Mediativo Indireto, mesmo que o orador testemunhe o ocorrido, e faz-se uso de Aorista apenas quando o mesmo presencia a ação por completo.
Os verbos intransitivos não aceitam os prefixos asɯ- / ɤsɯ-, não podendo formar, portanto, verbos em categorias contínuas. Alguns verbos transitivos não possuem forma Pretérita Mediativa Indireta, fato que ocorre por incompatibilidade semântica ou por possuir, nessa categoria, a mesma estrutura que em Aorista. Verbos estáticos, que correspondem aos adjetivos portugueses, ao serem usados em Aorista ou no Pretérito Mediativo Indireto, recebem o sentido de surgir uma nova ação, intervenção. Exemplo:
D) tɤ-xti (em português: ele cresceu (ele ainda pode ser alto))
tɤ: prefixo indicador de Aorista
xti: verbo estático
Nos tempos não pretéritos:
- Presente
- Imperfeito
- Mediativo Direto
- Não Pretérito
- Não Pretérito Contínuo
- Imperfeito Contínuo
- Mediativo Direto Contínuo
- Presente Contínuo
O Presente indica estados ou processos que estão em andamento. Verbos com prefixo direcional é kɯ- / ku- possuem o mesmo termo para representar tanto o Presente, quanto o Imperfeito. O Mediativo Direto é utilizado para representar ações que alguem testemunhou, fazendo uso dos prefixos direcionais nɯ- / ɲɯ-. Em contrapartida, o Imperfeito pode expressar eventos, estados ou processos e é capaz de trazer o impessoal para os verbos intransitivos. O Não Pretérito é usado para expressar estados e processos no presente (situações genéricas, usuais ou presentes) ou no futuro (seja próximo ou distante).
Sintaxe
A ordem básica das frases em Japhug é no formato SOV (Sujeito-Objeto-Verbo). Para línguas SOV, denota-se como construção harmônica aquelas que apresentam o uso morfológico verbal de sufixos, e, como desarmônica, por ser demasiadamente incomum em línguas com ordem frasal rígida, o uso de prefixos.Jacques, Guillaume (Janeiro 2017). Subjects, objects and relativization in Japhug.
Em Japhug, tem-se como morfologia principal a prefixal, ou seja, a construção desarmônica, pois esta é utilizada em orações coordenadas, com um verbo de ação e um verbo lexical resultando em um único predicado. Contudo, há também casos de harmonia, em que orações subordinadas, com um verbo lexical e um de ação não resultam em um único predicado.