Olmecas é a designação do povo e da civilização que estiveram na origem da antiga cultura pré-colombiana da Mesoamérica e que se desenvolveram nas regiões tropicais do centro-sul do atual México durante o pré-clássico, próximo de onde hoje estão localizados os estados mexicanos de Veracruz e Tabasco, no Istmo de Tehuantepec, numa zona designada área nuclear olmeca.

A cultura olmeca floresceu nesta região aproximadamente entre 1500 e 400 a.C.Diehl, p.24 e crê-se que tenha sido a civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas que se desenvolveram posteriormente. No entanto, desconhece-se a sua exata filiação étnica, ainda que existam numerosas hipóteses colocadas para tentar resolver esta questão. O etnónimo olmeca foi cunhado pelos arqueólogos do século XX, e não devem confundir-se com os muito posteriores olmecas-xicalancas que ocuparam vários locais do México central, como Cacaxtla.O termo Olmeca-Huixtotin era utilizado pelos astecas para designar os povos seus contemporâneos que então habitavam a área nuclear olmeca. Apesar de não existir qualquer ligação entre estes e os seus predecessores do período formativo, o termo olmeca foi aplicado pelos arqueólogos a estes últimos. Diehl, p.14

Apesar de ser considerada há muito a civilização-mãe de todas as culturas mesoamericanas que lhe são posteriores, não está ainda claro qual foi o processo que deu origem ao estilo artístico nem se os seus traços culturais característicos foram inicialmente desenvolvidos na Área Nuclear Olmeca (Área Olmeca). Sabe-se que pelo menos alguns desses traços podem ter aparecido inicialmente em Chiapas ou nos Vales Centrais de Oaxaca. Uma das questões que se mantém em aberto é porquê da existência de numerosos sítios olmecas na região da depressão do Balsas, em Guerreiro.

Contudo, qualquer que tenha sido a origem da cultura olmeca, a rede de trocas comerciais por ela estabelecida com várias regiões da Mesoamérica fez com que a sua influência cultural se tenha estendido muito além da Área Olmeca, como indicam trabalhos de arte olmeca encontrados em Chiapas, Guerrero, Oaxaca, Vale do México e até no atual El Salvador. Entre os vestígios culturais desta influência encontram-se o culto das montanhas e das cavernas, o culto da Serpente Emplumada como deidade associada à agricultura, o simbolismo religioso do jade, além do próprio estilo artístico reelaborado nos séculos que se seguiram ao declínio dos principais centros urbanos olmecas.

Etimologia O nome "olmeca" significa "povo de borracha" em náuatle, a língua dos astecas, e era o nome asteca para o povo que vivia na zona da área nuclear olmeca nos séculos XV e XVI, cerca de 2000 anos após o desaparecimento do que conhecemos como cultura olmeca. O termo "povo de borracha" remete para a antiga prática, utilizada desde os olmecas até aos astecas, de extrair látex da Castilla elastica, uma árvore da borracha da região. A seiva de uma trepadeira local (Ipomoea alba), era então adicionada ao látex para formar borracha pelo menos desde o século XVI a.C.. Rubber Processing, MIT. Não se sabe como se autodenominavam os olmecas; alguns relatos mesoamericanas posteriores parecem referir-se aos antigos olmecas como "Tamoanchan".Coe (2002) refere um antigo poema náuatle citado por Miguel Leon-Portilla e que faz referência a uma terra chamada "Tamoanchan" (p. 61). Outro termo às vezes utilizado para descrever a cultura olmeca é tenocelome, que significa "boca do jaguar".

História A área nuclear olmeca é a região nas planícies do Golfo do México onde se expandiu após o desenvolvimento inicial em Soconusco, Veracruz. Esta área é caracterizada por planícies pantanosas pontuadas por colinas baixas, cristas e vulcões. A Sierra de los Tuxtlas se eleva acentuadamente no norte, ao longo da Baía de Campeche, no Golfo do México. Aqui, os olmecas construíram complexos de cidade-templo permanentes em San Lorenzo Tenochtitlán, La Venta, Tres Zapotes e Laguna de los Cerros. Nesta região, a primeira civilização mesoamericana emergiu e reinou a partir de c. 1400-400 a.C..Diehl, p. 10

Origens

thumb|esquerda|Área nuclear olmeca thumb|esquerda|Uma máscara de pedra olmeca

Os primórdios da civilização olmeca foram tradicionalmente situados entre 1400 e 1200 a.C.. Descobertas anteriores de vestígios olmecas depositados ritualmente no santuário El Manatí perto dos sítios arqueológicos triplos conhecidos coletivamente como San Lorenzo Tenochtitlán moveram isso de volta para "pelo menos" entre 1600 a.C.-1500 a.C..Richard A Diehl, 2004, The Olmecs – America's First Civilization London: Thames & Hudson, pp. 25, 27. Parece que os olmecas tiveram suas raízes nas primeiras culturas agrícolas de Tabasco, que começaram entre 5100 a.C. e 4600 a.C.. Estes compartilhavam os mesmos cultivos alimentares básicos e tecnologias da civilização olmeca posterior.Diehl, 2004: pp. 23–24.

O que hoje é chamado de olmeca apareceu pela primeira vez totalmente em San Lorenzo Tenochtitlán, onde características olmecas distintas ocorreram por volta de 1400 a.C.. O surgimento da civilização foi auxiliado pela ecologia local de solos aluviais bem irrigados, bem como pela rede de transporte fornecida pela bacia do rio Coatzacoalcos. Esse ambiente pode ser comparado ao de outros centros antigos da civilização: os vales do Nilo, do Indo e dos rios Amarelo e da Mesopotâmia. Este ambiente altamente produtivo encorajou uma população densamente concentrada, o que por sua vez desencadeou o surgimento de uma elite, que criou a demanda pela produção de artefatos de luxo simbólicos e sofisticados que definem a cultura olmeca.Pool, pp. 26–27 Muitos desses artefatos eram feitos de materiais como jade, obsidiana e magnetita, que vinham de locais distantes e sugerem que as primeiras elites olmecas tinham acesso a uma extensa rede de comércio na Mesoamérica. A fonte do jade mais valorizado foi o vale do rio Motagua no leste da GuatemalaPool, p. 151. e a obsidiana olmeca foi rastreada até as fontes nas montanhas da Guatemala, como El Chayal e San Martín Jilotepeque, ou em Puebla,Diehl, p. 132, or Pool, p. 150. distâncias que variam de 200 a 400 km (120–250 milhas) de distância, respectivamente.Pool, p. 103.

O estado de Guerrero e, em particular, sua cultura mezcala, parecem ter desempenhado um papel importante na história inicial da cultura olmeca. Artefatos de estilo olmeca tendem a aparecer mais cedo em algumas partes de Guerrero do que na área de Veracruz-Tabasco. Em particular, os objetos relevantes do sítio arqueológico de Amuco-Abelino em Guerrero revelam datações de 1530 a.C..

La Venta

thumb|Grande pirâmide de La Venta O primeiro centro olmeca, San Lorenzo, foi abandonado quase totalmente por volta de 900 a.C., praticamente ao mesmo tempo que ocorreu o florescimento de La Venta. Mudanças ambientais poderão ter estado na origem desta mudança, como a alteração dos cursos de alguns rios importantes que ocorreu por esta altura. A destruição quase total de muitos dos monumentos de San Lorenzo, ocorreu também neste período, cerca de 950 a.C., o que pode indicar uma sublevação interna, ou menos provavelmente, uma invasão.Coe (1967), p. 72. Em alternativa, a mutilação destes monumentos pode não ter qualquer relação com o abandono e declínio de San Lorenzo. Alguns investigadores crêem que esta mutilação possuía aspectos rituais, sobretudo porque a maioria dos monumentos mutilados foram novamente enterrados em fila. Após o declínio de San Lorenzo, La Venta tornou-se o principal centro olmeca, desde 900 a.C. até ao seu abandono por volta de 400 a.C.. Durante este período foram ali erigidos vários complexos cerimoniais, entre os quais a Grande Pirâmide.Diehl, p. 72-74.

Declínio Não se sabe com clareza o que provocou a eventual extinção da cultura olmeca. Sabe-se que entre 400 e 350 a.C., a população da porção oriental da Área Nuclear Olmeca decresceu fortemente, e esta área manter-se-ia pouco habitada até ao século XIX.Diehl, p. 82. Porém, Nagy, p. 270, é mais comedido, afirmando que no delta do rio Grijalva, na orla oriental da Área Nuclear, "a população local tinha diminuído significativamente em termos da densidade populacional aparente(...) Pode ter ocorrido uma ocupação de baixa densidade no pré-clássico tardio ou no Clássico inicial (...) porém, permanece invisível." Esta perda de população parece ter sido originada por fatores ambientais: talvez resultado de mudanças nos cursos de rios importantes, ou do seu assoreamento devido às práticas de cultivo.Diehl, p. 82.

Qualquer que tenha sido a causa, poucos séculos após o abandono das últimas cidades olmecas, haviam-se estabelecido firmente culturas sucessoras. O sítio de Tres Zapotes, na orla ocidental da Área Nuclear, continuaria a ser ocupado bem para além de 400 a.C., mas sem os traços típicos da cultura olmeca. Esta cultura pós-olmeca, frequentemente designada epiolmeca, tem características semelhantes às encontradas em Izapa.Coe (2002), p. 88.

Sociedade Como a primeira das civilizações da Mesoamérica, os olmecas são creditados, ou especulativamente creditados, com muitas criações, incluindo o jogo de bola mesoamericano, sangria sacrificial e talvez sacrifícios humanos, escrita e epigrafia, e as invenções do zero e do calendário mesoamericano. A sua organização política baseada em reinos de cidades-estado fortemente hierarquizados foi imitada por praticamente todas as civilizações mexicanas e centroamericanas que se lhes seguiram. Alguns, como o historiador de arte Miguel Covarrubias, postulam mesmo que os olmecas terão criado os antecessores de muitas das divindades mesoamericanas mais tardias.Covarrubias, p. 27.

Influência regional thumb|esquerda|upright|Relevo de um rei olmeca em La Venta Artefactos, desenhos, figuras, monumentos e iconografia de estilo olmeca foram encontrados nos registos arqueológicos de locais situados a centenas de quilómetros da área nuclear olmeca. Entre eles incluem-se: Tlatilco e Tlapacoya, principais centros da cultura de Tlatilco no vale do México, onde os artefactos incluem figuras ocas do tipo cara-de-bebé e cerâmica com desenhos olmecas; Chalcatzingo, no vale de Morelos, com arte rupestre e monumental bem como figuras de estilo olmeca; Teopantecuanitlan, em Guerrero, com arte monumental e desenho urbano com características distintamente olmecas. Outros sítios mostrando possível influência olmeca incluem Abaj Takalik na Guatemala e Zazacatla em Morelos. As pinturas nas cavernas de Juxtlahuaca e Oxtotitlan são atribuídas pela maioria dos investigadores aos olmecas.Por exemplo, Diehl, p. 170.

Têm sido avançadas muitas teorias para explicar a ocorrência de influências olmecas muito para lá da sua área nuclear, incluindo o comércio de longa distância por mercadores olmecas, a colonização olmeca de outras regiões, viagens de artesãos olmecas a outras cidades, imitação consciente dos estilos artísticos olmecas por povoados em desenvolvimento - existe até quem defenda que os olmecas dominavam militarmente os territórios em redor da área nuclear ou ainda que a iconografia olmeca ter-se-á desenvolvido fora da área nuclear.Flannery et al. (2005) dão a entender que a iconografia olmeca foi inicialmente desenvolvida pela cultura de Tlatilco. A interpretação geralmente aceite, mas de forma alguma unânime, é a de que os artefatos de estilo olmeca, de qualquer tamanho, tornaram-se associados com o estatuto de elite e foram adoptados por caciques não-olmecas numa tentativa de consolidarem as suas lideranças.Ver por exemplo, Reilly; Stevens (2007); Rose (2007).

Escrita thumb|upright|A face traseira da estela C de Tres Zapotes, a segunda data mais antiga escrita segundo a contagem longa que se conhece. Os glifos em redor da data são o que se julga ser um dos poucos exemplares sobreviventes de escrita epiolmeca.