Kerana ("Dorminhoca"; do tupi keranama [kera+anama], "sono pesado"NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil: vocabulário português-tupi, dicionário tupi-português, tupinismos no português do Brasil, etimologias de topônimos e antropônimos de origem tupi. São Paulo: Global, 2013. pp. 226 e 35.) é a personificação do sono na mitologia guarani.

No poema Ñande Ypykuéra (“Nuestros Antepasados”, 1922) do poeta paraguaio Narciso R. Colmán (“Rosicrán”) — uma teogonia guarani ficcional que se tornou tão popular que, para a maioria do público sul-americano não-indígena, incluindo o brasileiro, as narrativas nele contadas são consideradas como a autêntica mitologia dos povos guaranisROJAS, Rodrigo Nicolás Villalba (2022). Rosicrán y Su Poema Ñande Ĭpĭ Cuéra (1929). Boca de Sapo 33. Tierra. — Kerana é filha de Marangatu e neta de Rupavê e Sypavê (o casal original criado por Tupã) e esposa do espirito do mal, Taû.COLMÁN, Narciso R. Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra): El Arte", 1922.AMORIM FILHO, Carlos Alberto. A lenda dos filhos de Tau e Kerana. 2018. 50 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Artes Visuais) – Instituto de Artes, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2018.

Consorte e filhos Ainda segundo a teogonia ficcional de Rosicrán, Taû se viu apaixonado por Kerana. Ele se disfarçou de um belo jovem e a cortejou por sete dias antes de decidir sequestrá-la, mas sua trama foi frustrada por Angatupyry, o espírito do bem. Taû e Angatupyry lutaram entre si por sete dias e sete noites até que Angatupyry foi finalmente derrotado por Pytajovái, avô de Taû, corajoso deus que trazia em suas entranhas o fogo da destruição.

Taû, então, pôde ter para si a bela Kerana, e juntos tiveram sete filhos que foram amaldiçoados pela deusa Arasy, esposa de Tupã, nascendo como monstros (na autêntica mitologia guarani, porém, essas sete criaturas não têm relações diretas entre si). Os sete filhos eram reverenciados e temidos, cada um possuindo habilidades e características diferentes, essenciais para a tradição guarani.

Kerana morreu de tristeza na colina de Yaguarón ou Jaguarão, lar de seu filho mais velho, Teju Jagua (por isso também chamado "Jaguaru"), e onde, na Moñái kuare ("gruta de Monái"), todos os sete monstros foram mortos pelo sacrifício de Porãsy, bela e poderosa tia de Kerana, e suas almas, assim purificadas, subiram ao céu e foram transformadas nas Plêiades.

Os sete filhos (que Rosicrán não nomeia "sete monstros lendários", e nem os chama de "deuses", e sim de "espíritos", "protetores", "senhores" ou "fados") são, por ordem de nascimento:

Teju Jagua ("Lagarto Fera"): Também chamado Jaguaru ("Fera Grande" ou "Pai das Feras"), tem corpo de lagarto e sete cabeças de um animal semelhante a um cão, considerado senhor das cavernas, grutas e lagos e protetor das frutas. Mboi Tu'i ("Serpente Papagaio"): Uma cobra gigante com cabeça de papagaio, fado protetor dos cursos de água, das áreas úmidas, das criaturas aquáticas e das flores. Moñai ("Perseguidor", "O que faz correr"): Uma cobra gigante com chifres que se diz ser o senhor e protetor dos campos, do ar e dos pássaros, do roubo e das travessuras. Jasy Jatere ("Fragmento da Lua"): Também chamado Jasy Tere ou Jasy Atere, homenzinho de cabelos dourados, senhor da sesta, possuidor de uma varinha dourada que o torna invisível, protetor das florestas, da lendária erva feiticeira e das abelhas. Ele desvia as pessoas do caminho certo para levá-las até seu irmão Ao-Ao, que é antropófago. Kurupi ("Casca/Pele Rugosa"): Espírito da sexualidade, governante das selvas e dos animais silvestres, seu membro viril tem um comprimento descomunal, tão longo quanto um laço. Ao-Ao: Governante antropófago das colinas e montanhas, fado da fertilidade e da reprodução, parece-se com uma monstruosa ovelha, queixada ou o caititu. Quando suas vítimas, tentando escapar de seus numerosos filhos, sobe em uma árvore, eles a cercam gritando em coro: Ao-Ao! Ao-Ao! (como o latido dos cães) — donde o seu nome. Luison ("Lobisomem"): Também chamado Huicho, Juicho, Luvisón ou Lobisón, é o senhor da noite e companheiro inseparável da morte, com domínio sobre os cemitérios, um ser que se assemelha a um lobo ou a um homem com características caninas.

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