Beatriz Vieira Nunes (Barreiro, 1988) é uma cantora, compositora, professora e investigadora portuguesa. Foi vocalista dos Madredeus entre 2011 e 2015, período em que gravou Essência (2012) e Capricho Sentimental (2015), e desenvolveu posteriormente carreira em nome próprio, com trabalhos como Canto Primeiro (2018) e Livro de Horas (2023).

Formada em jazz, na variante voz, pela Escola Superior de Música de Lisboa, é também mestre em Ensino de Música e doutoranda em etnomusicologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A sua investigação concentra-se nas relações entre jazz, género e performance.

Biografia

Beatriz Nunes nasceu em 1988, no Barreiro. Começou os estudos musicais aos nove anos, no Coro da Academia dos Amadores de Música de Lisboa, onde também estudou guitarra clássica. Entre 2004 e 2011 frequentou o curso de canto da Escola de Música do Conservatório Nacional.

Entre 2006 e 2010 frequentou também a licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, sem a concluir. Em 2014 concluiu a licenciatura em Música, variante Jazz–Voz, na Escola Superior de Música de Lisboa. Nesse mesmo ano recebeu uma bolsa para frequentar o New York Voices Summer Camp, nos Estados Unidos, onde estudou jazz vocal.

Paralelamente à formação em jazz, participou em projetos de música coral e erudita. Integrou o Coro de Câmara Lisboa Cantat e participou em produções do Sintra Estúdio de Ópera. Em 2014 interpretou Eliabo numa apresentação de Il Trionfo di Davidde; em 2015 foi soprano solista em Magnificat em Talha Dourada, de Eurico Carrapatoso; e, em 2018, reforçou o Coro Gulbenkian numa interpretação de Os Planetas, de Gustav Holst.

Em novembro de 2011 tornou-se vocalista dos Madredeus. Com o grupo gravou Essência (2012) e Capricho Sentimental (2015), além de participar numa digressão internacional entre 2012 e 2014. A sua atividade como vocalista do grupo terminou em maio de 2015.

A partir da segunda metade da década de 2010 passou a concentrar a atividade artística em projetos próprios e em colaborações ligadas ao jazz, à música portuguesa e à música improvisada. Em 2018 lançou o seu primeiro álbum em nome próprio, Canto Primeiro, e recebeu o prémio Rosto do Ano, na área da música, atribuído no Barreiro.

Obras

Essência

Em 2012, gravou com os Madredeus o álbum Essência, que marcou o regresso do grupo e reuniu novas interpretações de temas do seu repertório com novos arranjos. Editado pela Sony Music, o disco é composto por treze temas.

A entrada de Nunes ocorreu numa nova configuração do grupo, na qual a voz se juntava a guitarra clássica, sintetizadores, violinos e violoncelo. A substituição de Teresa Salgueiro, que deixara os Madredeus em 2007, levou a comparações entre as duas vocalistas. Nunes afirmou na época considerar a comparação legítima, mas procurava interpretar o repertório sem se sentir condicionada pela herança da antiga vocalista.

Na digressão de Essência, os Madredeus apresentaram-se em vários países. Em 2012, por exemplo, participaram no festival AVO Session, em Basileia, na Suíça.

Capricho Sentimental

Após a digressão de Essência, os Madredeus editaram, em 30 de outubro de 2015, Capricho Sentimental, primeiro álbum do grupo composto para a voz de Beatriz Nunes. O disco, constituído por catorze temas inéditos, foi gravado por Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade, Ana Isabel Dias, Luís Clode e Beatriz Nunes.

As composições retomavam referências à música e à língua portuguesas, embora Pedro Ayres Magalhães tenha descrito o álbum como uma fase em que o próprio percurso musical dos Madredeus se tornara uma das fontes de inspiração do grupo. Fernando Sobral, do Jornal de Negócios, destacou a interpretação de Nunes e descreveu o álbum como uma continuação da identidade musical dos Madredeus.

Canto Primeiro

Em 2018, com Luís Barrigas no piano, Mário Franco no contrabaixo e Jorge Moniz na bateria, gravou o seu primeiro álbum em nome próprio, Canto Primeiro. O disco combina influências da música portuguesa, do jazz, da música erudita e da tradição dos cantautores. O repertório inclui composições próprias, poemas portugueses contemporâneos e uma interpretação de «A canção da paciência», de José Afonso.

Nunes descreveu o trabalho como uma síntese do percurso que realizara entre música erudita, jazz e música portuguesa, procurando nele desenvolver uma identidade artística própria.

Canto Primeiro foi selecionado pelo crítico Henning Bolte para a Europe Jazz Media Chart de setembro de 2018. No mesmo ano, Nunes participou na conferência On the Edge, realizada em Lisboa pela European Jazz Network.

O projeto circulou também fora de Portugal, com apresentações em Nova Iorque, Montevideu e Potsdam.

À Espera do Futuro

Em abril de 2021, lançou com a pianista Paula Sousa e o contrabaixista André Rosinha o álbum À Espera do Futuro, primeiro trabalho do trio formado pelos três músicos.

O álbum foi composto durante o período de restrições sociais provocado pela pandemia de COVID-19 e reúne composições dos três músicos. O projeto aproxima jazz, música erudita e elementos da tradição musical portuguesa.

Livro de Horas

Em 2023 lançou Livro de Horas, álbum inspirado nos livros de horas medievais, obras devocionais destinadas a organizar orações e outros rituais ao longo do dia.

No trabalho, Nunes prosseguiu a aproximação entre jazz, música erudita e tradição oral portuguesa. Segundo a cantora, o conceito partiu do interesse pelo objeto medieval e foi utilizado para organizar musicalmente temas e preocupações que considerava significativos.

O álbum foi gravado com Mateja Dolsak no saxofone, Luís Barrigas no piano, Mário Franco no contrabaixo e Jorge Moniz na bateria, contando ainda com participações de Edvânia Moreno e Femme Falafel. O repertório inclui composições próprias e música de tradição oral, além da utilização de textos e materiais de outros autores.

A Céu Aberto

Em 2025, Beatriz Nunes, Paula Sousa e André Rosinha editaram A Céu Aberto, segundo álbum do trio. O trabalho mantém a aproximação entre jazz, música erudita e tradição musical portuguesa e atribui à improvisação um papel central.

O álbum reúne oito temas e foi editado pela Timbuktu Records em novembro de 2025.

Outras colaborações

Nunes participou ao longo da carreira em projetos de músicos ligados ao jazz e à música improvisada. Entre os primeiros trabalhos encontram-se Mau Sangue, de José Ferreira e Nuno Moura, Terra Concreta, de Afonso Pais, Coro das Vontades, de Tiago Sousa, e Getting All the Evil of the Piston Collar, do The Rite of Trio.

Em 2018 participou em Histórias do Céu e da Terra, de Isabel Rato, e em Monte, de André Viamonte. Entre 2019 e 2020 integrou o projeto In Igma, de Pedro Melo Alves, ao lado de músicos como Eve Risser, Mark Dresser, Aubrey Johnson, Mariana Dionísio e Abdul Moimême.

Participou ainda em projetos com o saxofonista norte-americano Chad LB e com o músico basco Kepa Junkera. Nos anos seguintes passou também a integrar o ensemble vocal LEIDA, dirigido por Mariana Dionísio, dedicado à composição e à improvisação vocal. Em 2025, o ensemble abriu o Festival Jovens Músicos no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ensino e investigação

Entre 2017 e 2020, Nunes realizou o mestrado em Ensino de Música na Escola Superior de Música de Lisboa. A dissertação, intitulada O impacto do género na aprendizagem de improvisação jazz: estudo sobre confiança e ansiedade em três escolas do ensino intermédio, analisou diferenças de confiança e ansiedade entre estudantes de jazz durante a aprendizagem da improvisação.

O estudo baseou-se em questionários aplicados a 96 estudantes de três escolas portuguesas e identificou, na amostra analisada, diferenças relacionadas com género na confiança, ansiedade e perceção de autoeficácia durante a aprendizagem da improvisação.

Em 2021 iniciou um doutoramento em Etnomusicologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O projeto, intitulado Partir a loiça: jazz, género e performance num Conservatório, é orientado por Salwa El-Shawan Castelo-Branco e baseia-se em trabalho etnográfico realizado no curso profissional de jazz do Conservatório de Música de Coimbra.

A investigação analisa a forma como construções de género se relacionam com as escolhas, práticas musicais e desenvolvimento performativo dos estudantes de jazz, assim como a divisão entre canto e prática instrumental observada naquele contexto.

Em 2021 publicou, com José Dias, o artigo «Festa do Jazz: A Case Study on Gender (Im)balance in Portuguese Jazz», no Jazz Research Journal, dedicado à representação de mulheres no jazz português.

No ano seguinte, publicou com Leonor Arnaut o capítulo «Victims No More: How Women and Non-Binary Musicians Are Collaborating for Gender Justice in Jazz», no The Routledge Companion to Jazz and Gender.

Em 2025 publicou «Out of Place: The Importance of Female Role Models in Jazz Education», no volume Women and Jazz, e «If Girls Don't Want to Study Jazz, We Can't Force Them», no Journal of Jazz Studies.

Em 2026 publicou no Jazz Research Journal «From Silence to Resonance», estudo sobre relações de poder, assédio sexual e responsabilidade institucional no ensino do jazz, a partir de testemunhos surgidos na comunidade jazzística portuguesa em 2024.

Paralelamente à investigação, lecionou voz e jazz em diversas instituições, entre as quais a Escola de Jazz do Barreiro, a ETIC, a Escola de Jazz Luiz Villas-Boas do Hot Clube de Portugal e a Universidade de Évora, onde lecionou Voz Jazz em 2020 e 2021.

Participou também na organização do ciclo de conferências do Festival Theia, dedicado à produção artística de mulheres no jazz e na música contemporânea, nas edições de 2022 e 2023. Em 2025 continuou ligada ao festival, orientando uma oficina e moderando uma mesa-redonda sobre mulheres na música de intervenção portuguesa.

Discografia

Em nome próprio Canto Primeiro (2018) Livro de Horas (2023)

Com Madredeus Essência (2012) Capricho Sentimental (2015)

Com Paula Sousa e André Rosinha À Espera do Futuro (2021) A Céu Aberto (2025)

Outras colaborações Mau Sangue (2012), com José Ferreira e Nuno Moura Terra Concreta (2013), com Afonso Pais Coro das Vontades (2014), com Tiago Sousa Getting All the Evil of the Piston Collar (2015), com The Rite of Trio Monte (2018), com André Viamonte Histórias do Céu e da Terra (2018), com Isabel Rato In Igma (2020), com Pedro Melo Alves

Bibliografia

Ligações externas Sítio oficial Perfil no INET-md

Categoria:Naturais do Barreiro Categoria:Nascidos em 1988 Categoria:Sopranos de Portugal Categoria:Membros de Madredeus Categoria:Cantores do distrito de Setúbal Categoria:Cantoras de Portugal Categoria:Cantoras do século XXI