O caapor, também denominado como urubu (nome considerado pejorativo), kaapor, ka'apór, kaaporté ou urubu-kaapor, é uma língua indígena brasileira adotada somente pelos caapores, apesar de outros grupos étnicos a falarem como segunda língua. Ela possui cerca de 1500 falantes e é classificada como estável.

Por cerca de 300 anos, os caapores viveram no Pará, entre os rios Tocantins e Xingu. Atualmente, eles habitam a Terra Indígena Alto Turiaçu, demarcada em 1982 e localizada na Amazônia Legal.

Pertencente à família linguística tupi-guarani do ramo setentrional, o caapor não se assemelha às demais línguas tupi-guaranis de sua região geográfica, como a teneteara. Ele possui maior relação com o oiampi, falado do outro lado do Rio Amazonas numa distância de 900km.

Em razão de uma elevada taxa de surdez em sua população, os caapores desenvolveram uma língua de sinais própria, a língua de sinais caapor brasileira, a qual é utilizada por ambos surdos e parte dos não-surdos da comunidade.

Etimologia O nome endônimo da língua é homônimo ao de seu povo, ka’apor. Seu significado aparenta ser derivado de ka’a-pypor (“pegadas na [ou da] mata”), de ka’porté (“os verdadeiros moradores da mata”) ou expressar “moradores da mata”, sendo ka'a o termo para "mata" em caapor. Entretanto, essa última expressão é melhor representada por ka’apehar, o qual é utilizado pelos caapores para se referir aos seus vizinhos Guajá.

A denominação urubu é um exônimo criado por portugueses e brasileiros no século XIX. Ele traça um paralelo entre um costume desse povo e do animal urubu: os caapores comem uma caça reunidos até que restem somente os ossos, o que se assemelharia a um grupo de urubus. Há também a defesa de que esse título é oriundo dos Tembé, os quais podem ter usado ao se referirem aos Ka’apor como urubu tapii (“abutre bárbaro”), e que foi assimilado com o tempo pelos regionais.

thumb|Urubu-rei voando, Brasil

Esse nome perdurou hegemonicamente até provavelmente o contato mais direto desse grupo com os caraí (“não-índios”, em caapor). Na concepção dos caapores, o paralelo com a ave urubu-rei aponta para um símbolo de prestígio e força, uma vez que esse pássaro voa mais alto do que demais urubus e em sua mitologia é um ser valorizado . Todavia, ao perceberem o sentido depreciativo configurado à figura desse animal em outras culturas, sobretudo a brasileira, houve o declínio do emprego desse termo.

Quanto às designações hifenizadas Urubu-Kaápor e Urubu-Caápor, elas foram introduzidas por indigenistas brasileiros na década de 50 numa tentativa de padronizar a grafia dos nomes de grupos nativos na etnologia. Atualmenta, a tendência é simplesmente utilizar o termo ka’apor em razão da conotação negativa de urubu.

Distribuição Distribuição geográfica Atualmente, os caapores estão distribuídos em 12 aldeias ao longo de 5.301km2, majoritariamente no norte do Maranhão e em menor ocorrência no Pará. alt=Caapores na Festa da Nominação (1951)|miniaturadaimagem|Caapores na Festa da Nominação (1951)

Nas aldeias Xié Pyhún Rená, Waxingí Rená e Parakuy Rená, o caapor ainda é a primeira língua. Enquanto os mais velhos permanecem majoritariamente monolíngues, o português tem maior difusão entre os jovens, sobretudo quando esses estão fora das aldeias. A aldeia Sítio Novo, localizada à margem do Rio Gurupi, começou a substituir gradativamente o caapor pelo português.

Eles estão concentrados na Terra Indígena Alto Turiaçu, encontrada na divisa entre esses estados, de modo a vivenciarem constantes alterações de jurisdição: ora estão sobre o setor administrativo da FUNAI maranhense, ora, paranaense. Os limites territorias da Terra Indígena Alto Turiaçu são o rio Gurupi (ao norte), os afluentes meridionais do rio Turiaçu (ao sul), o Igarapé do Milho (a oeste) e a linha no sentide noroeste-sudeste quase paralela à rodovia BR-316 (a leste).

Contudo, seus antepassados remontam a um centro amazônico Tupi-Guarani, localizado entre o baixo Tocantins e o Xingu por pelo menos 300 anos, cujos habitantes nativos eram conhecidos na época como os Pacajás. Os oiampi, que se deslocaram depois para o norte, e os amanaiés são outros grupos oriundos desse centro. Devido a conflitos com colonizadores luso-brasileiros e outros povos indígenas, os caapores deslocaram-se para sua localização atual, no final do século XIX, via o rio Gurupi.

Línguas relacionadas A migração do povo não gerou fortes divergências na língua dos grupos originários das aldeias da bacia do Turiaçu e os da bacia do Gurupi. Somente pequenas diferenças léxicas e livres variações podem ser notadas entre suas falas. Embora, segundo alguns acadêmcios, os dialetos da língua sejam minimamente desenvolvidos, existem variações fonéticas que marcam falantes específicos de determinadas aldeias.

Essa distinção representa um empencilho na organização de materiais didáticos na língua devido à ausência de um acordo ortográfico de vocábulos do kaapor. Por exemplo, há aqueles que empregam a variedade renda ("lugar") e os que possuem a variedade rena. Em certos termos existe também a preferência pelo uso das vogais nasais para determinadas aldeias, enquanto outras optam pelas orais.

Alguns estudiosos afirmam que o caapor não se aproxima das demais línguas Tupi-Guarani utilizadas por grupos de localização próxima, Tembé e Guajá. Em contraposição, outros acadêmicos defendem que há uma associação lexical e fonética com o Guajá.

Considerando a possível origem comum de ambos, é provável que o kaapor possua maiores relações históricas com a língua oiampi, falada no outro lado do rio Amazonas numa distância de 900 km. Entretanto, nos últimos 300 anos, elas foram fortemente influenciadas por outras línguas - como a língua geral amazônica para os caapores e as línguas carib setentrionais para os oiampi -e são mutuamente incompreensíveis atualmente. Uma distinção notável entre elas, por exemplo, é a tonicidade: as palavras do caapor são predominantemente oxítonas, do oiampi, paroxítonas.

Além disso, há afinidades com a língua zoé, do norte do Pará. Entre elas, destacam-se a palatalização forte dos reflexos do Proto-Tupo // quando precedidos de , a queda da marca da terceira pessoa na maioria das formas verbais com mais de duas sílabas e a marca dos relacionais de não-contiguidade nesses contextos.

Os caapores utilizam também a Língua de sinais caapor brasileira. Ela foi criada por esse povo sem influência externa e somente eles a usam.

História Diversos encontros entre os caapores e a sociedade luso-brasileira foram documentados ao longo da história, sendo a maioria deles de caráter violento. Em 1911, quando as autoridades brasileiras tentaram "pacificá-los" pela primeira vez, eles eram considerados um dos povos nativos mais hostis no país. Antes de 1820, eles podem ter tido relações pacíficas irregulares com os caraí, visto seu folclore e a forte influência da Língua Geral Amazônica, que era falada por missionários e por vários do Pará nos séculos XVIII e XIX.

Em 1928, os conflitos entre os grupos encerraram-se e passou a ser ter um convívio maior com modos ocidentais. Atualmente, a maioria dos caapores habita áreas mais próximas de centros urbanos e tem contatos constantes com as cidades de Paragominas (PA) e de São Luís (MA). A língua é ainda a predominante na comunidade, porém o português tem ganhado destaque, sobretudo com os mais jovens.

Fonologia A maioria dos estudiosos dessa língua identifica 15 fonemas consonantais e 11 fonemas vocálicos, dentre os quais seis são orais e cinco, nasais. Consoantes +Fonemas consonantal em caapor Labial Alveolar Palatal Velar Glotal Oclusiva <center> <center> <center> kw <center> Fricativa Nasal ŋw Tepe Aproximante Vogais Existe uma inconsistência entre as análises fonológicas do caapor, sobretudo quanto os fonemas vocálicos.

Os acadêmicos que apontam para 11 fonemas vocálicos os organizam da seguinte forma: +Fonemas vocálicos orais em caaporAnteriorCentralPosteriorAltaMédia-AltaBaixa

+Fonemas vocálicos nasais em caaporAnteriorCentralPosteriorAltaMédia-AltaBaixa

Aqueles que descrevem 12 fonemas vocálicos os categorizam na seguinte tabela:

+Fonemas vocálicos orais e nasais em caaporAnteriorCentralPosterior+ Alta/i/ /ĩ//ũ/ /u/- Alta/e/ /ẽ//ɨ/ /ɨ~//o/ /õ/Baixa/a/ /ã/

Os estudiosos que defendem a existência de 13 vogais, sendo 7 orais e 5 nasais, usam o quadro a seguir:

+Fonemas vocálicos orais e nasais em caaporAnteriorCentralPosteriorAltai ĩɨu ũMédia-Altae ẽɨo õMédia-BaixaɛɔBaixaa ã Laringalização vocálica: Todas as vogais têm variantes laringalizadas quando precedidas ou seguidas de oclusiva glotal. Exemplo: [kɔʔ'ʔõʔ] ("latejar") /ko'ʔõ/. Nasalização vocálica: Todas as vogais orais podem ocorrer nasalizadas, com maior ou menor grau de nasalidade, quando em contexto nasal. Exemplo: [pĩ'nim]~[pi'nim] ("pintado") /pi'nim/.

Intonação A língua caapor apresenta uma predominância da ocorrência de maior intensidade expiratória na última sílba da palavra quando se tem duas ou mais sílabas. Há poucas palavras cuja intensidade expiratória recai na penúltima sílaba.

Ortografia O alfabeto latino é utilizado para codificar as línguas tupi, pois elas não apresentavam um sistema de escrita até a chegada dos europeus. Assim, ele não é uma boa representação dos fonemas dessas línguas. No caso do caapor, há a dificuldade de não haver um consenso dos fonemas existentes e um acordo ortográfico. Assim, os dicionários disponíveis e usuários da ortografia caapor apresentam inconsistências significativas em certas palavras, que são exemplificadas na tabela a seguir:

+Variação na escrita das vogais nasais Português Escrita 1 Escrita 2 Escrita 3 Escrita 4 Escrita 5 Dicionário (1988) Transcrição fonética Caranguejo tamẽ tame tame [ta'mɛ] Eu lhẽ lhen lhe ilhẽ [i'hɛ] Preto pi'hũ pihum pihu pihún pihú pihun [pi'hũ] Cobra mói moi boi mo-i moy mbói [mɔj ~ mbɔj] Jabuti jaxi iaxi

Um dos motivos para a variação é o contexto da coleta de dados para os estudos existentes, como quais aldeias participaram e quem foram os informantes. Em 2011, uma assembleia com caapores de várias aldeias vizinhas expôs a pesquisadores que sua linguagem e sua escrita são diferentes daquilo oficializado em artigos acadêmicos, que foram obtidos pela análise de poucas aldeias. Há a defesa da necessidade de uma revisão ortográfica para que ela contemple a realidade fonológica da língua e facilite a criação de materiais didáticos para a língua. Gramática Os prefixos relacionais e os prefixos pessoais são os únicos morfemas flexionais da língua. Dentre as classes abertas em caapor, verbos, substantivos e adjetivos, somente o primeiro grupo pode ser determinado por meio de critério morfológico, no caso, os prefixos pessoais. A distinção entre substantivos, posposições e adjetivos não pode ser dada pelos relacionais, que estão presentes em todas essas classes. A morfologia flexional do caapor é o único critério para distinguir verbos das demais classes flexionáveis. Pronomes Pronomes pessoais No caapor, os pronomes de primeira, de segunda e de terceira pessoa são divididos em dois grupos: os pronomes de pessoa, que contêm a primeira e segunda pessoa, e os pronomes de não-pessoa formado pela terceira pessoa.

Pronomes de pessoa Pronomes de não-pessoa ihẽ - "eu" aʔɛ - "ele/ela" nɛ - "tu" aʔɛ ta - "eles/elas" janɛ - "nós" ŋã - "o pessoal" pehẽ - "vós" O primeiro grupo é caracterizado por pertencer à locução “eu” e “tu”, que é sempre dêitica (seu referente só pode ser determinado em relação à situação dos interlocutores). Em comparação, o outro tipo não faz parte da relação enunciativa “eu-tu” e, geralmente, sua função é anafórica (seu referente depende de uma outra expressão mencionada no texto).

Essa separação é justificada pelos contextos gramaticais dos pronomes de não-pessoa: