O assassinato de Samuel Luiz é um caso de assassinato por espancamento em grupo e abandono de Samuel Luiz Muñiz, um jovem espanhol, de origem brasileira, de 24 anos, ocorrido na cidade da Corunha, na Galiza, na madrugada de 2 de julho de 2021, em contexto de presumível homofobia. O crime, ocorrido em plena semana do Orgulho LGBT, motivou reações de muitas figuras públicas e líderes de movimentos LGBT+, sendo organizadas manifestações em dezenas de cidades de Espanha, levando à rua milhares de pessoas em protesto contra o assassinato de Samuel e outros recentes ataques a pessoas LGBT com motivação homofóbica. A 6 de julho, haviam sido detidos três suspeitos relacionados com este crime.
Antecedentes Samuel Luiz, conhecido entre os amigos por "Samu", nasceu no Brasil, filho de Maxsoud Luiz, chegando à Espanha com os pais quando contava um ano de idade. Pelos 18 anos iniciou os estudos no CIFP Ánxel Casal da Corunha, onde se formou como auxiliar de enfermagem, começando a trabalhar aos 20 anos no lar de idosos Fundação Padre Rubinos, na Corunha. Em 2021, morava na Corunha, no bairro de Meicende (Arteixo), sendo conhecido pelo seu temperamento calmo e personalidade pacífica. Era membro da Congregação Cristã, igreja cristã pentecostal onde atuava como músico e auxiliar de jovens e crianças na comunidade situada na cidade. Também colaborava com a Cruz Vermelha espanhola. Então com 24 anos, estudava para conseguir o grau de técnico dentário, dedicando muito do seu tempo e energia à carreira universitária. Devido ao seu trabalho na Fundação Padre Rubinos, Samuel era um dos profissionais de saúde que há mais de um ano enfrentava a pandemia de Covid-19 na linha da frente, com impacto especialmente forte em Espanha e nas instituições de acolhimento e tratamento de idosos. Segundo os colegas de trabalho, era muito querido pelos utentes da instituição, pela alegria que a todos transmitia. Em 2021 morava Quando a Galiza reabriu os estabelecimentos de diversão noturna, na quinta-feira, 1 de julho de 2021, após um fecho de 10 meses e meio causado pela pandemia, Samuel aproveitou a abertura para sair com um grupo de amigos chegados no Andén, um dos pubs da moda do passeio marítimo da praia de Riazor, na Corunha.
Tendo a primeira noite superado as expetativas, Samuel voltou a repetir no dia seguinte, noite de sexta-feira, 2 de julho, com outro grupo de amigos - Lina, colega de estudos, e de trabalho, no mesmo lar de idosos onde trabalhava Samuel, Diego e Andrea. Combinaram às 22:00 em casa de Diego, para irem juntos de carro até à praia de Riazor, e daí ao Andén, onde estiveram até perto das 3:00 da manhã, hora limite de abertura decretada pelas autoridades nas recém-adotadas medidas contra a Covid-19. Pelas 2:50, Lina e Samuel saíram do pub para fumar e fazer uma videochamada com Vanesa, companheira de Lina, afastando-se apenas uns metros, nas imediações da avenida de Buenos Aires, deixando as outras duas amigas no interior do estabelecimento.
Crime esquerda|miniaturadaimagem|291x291px|Passeio marítimo e praia de Riazor. À esquerda, o pub Andén. Ao centro, perto das árvores, o local onde Samuel Luiz foi espancado, vindo a morrer pouco depois Segundo o relato de Vanesa, Samuel estava muito divertido, e tão animado com a possibilidade de poderem novamente sair à noite que tentou convencê-la a se juntar a ele, e saírem novamente na noite seguinte, um sábado. A conversa decorreu animadamente, com Lina e Samuel relatando a Vanesa episódios divertidos que haviam sucedido durante a noite, até que decidiram mostrar a Vanesa onde se encontravam, girando o telemóvel em sua volta. Nesse momento passou por eles um casal, rapaz e rapariga, de idades aproximadas à de Samuel, que lhes gritaram que deixassem de os gravar. Segundo uma das versões, o equívoco teria ocorrido por pensarem que Samuel gravava as raparigas que acompanhavam o grupo onde se encontrava esse casal. miniaturadaimagem|475x475px|Esquema do assassinato de Samuel Luiz na zona de Riazor, A Corunha Samuel e Lina imediatamente explicaram ao jovem que se tratava de um mal entendido, e que estavam somente fazendo uma videochamada, com a colaboração de Vanesa, que continuava em linha. Sem atentar nas explicações, o rapaz dirigiu-se exclusivamente a Samuel, dizendo-lhe: "O paras de grabar o te mato, maricón". Segundo o relato de Vanesa, que coincide com o de Lina, Samuel, que nunca havia escondido nem se envergonhado da sua orientação sexual LGBT, apenas teve tempo de responder "Maricón de qué?" levando imediatamente um soco muito forte do rapaz. Lina começou a gritar. O vídeo da videochamada bloqueou, mas o som continuou funcionando, permitindo Vanesa escutar os ruidos de golpes e agressões, e os gritos de Lina '¡déjalo, es mi amigo, por favor, déjalo!'". Segundo Lina, a rapariga que acompanhava o rapaz tentou separá-los num primeiro momento, mas quando Lina interveio, mandou-a afastar-se, agressivamente. Nesse momento, um jovem que se encontrava nas imediações da discoteca meteu-se na briga, conseguindo resgatar Samuel do agressor, tendo aquele se afastado num primeiro momento.
Samuel, golpeado e com contusões visíveis na cara, suplicou a Lina que tentasse encontrar o telemóvel, que caíra enquanto era agredido. Tentando acalmá-lo, Lina começou a procurar o aparelho, deixando Samuel com o rapaz que o havia ajudado a se livrar do agressor. Enquanto procurava o telemóvel, no espaço de cinco minutos, o agressor retornou, desta vez acompanhado de outras 12 pessoas, que aproveitaram a ocasião para encurralá-lo e espancá-lo até ficar inconsciente. Quando Lina viu aquela quantidade de gente movendo-se rapidamente na direção de Samuel, com gritos de '¡maricón de mierda!', correu para o local pedindo ajuda gritando que o matavam. Segundo a investigação policial, após as agressões iniciais, um grupo de pelo menos quatro pessoas continuou pontapeando Samuel no chão, até este deixar de se mover. Outra versão refere que os agressores seriam sete. Quando Lina logrou chegar junto de Samuel, o jovem jazia no chão, do outro lado da rua, para onde tinha tentado fugir, inconsciente, a cerca de 260 metros do locald a primeira agressão, na berma da avenida de Buenos Aires. Vendo a vítima sem reação, os agressores colocaram-se em fuga, correndo.
Samuel apresentava muitas contusões, sobretudo na cabeça e tórax. Foi inicialmente socorrido no local, tendo a patrulha da Polícia Local chamado a Polícia Nacional e uma ambulância. Os paramédicos tentaram reanimar no local o jovem, que apresentava lesões graves, durante quase duas horas, sem sucesso. Samuel foi então transladado de ambulância ao Complejo Hospitalario Universitario de A Coruña (CHUAC), vindo a morrer durante o transporte, segundo algumas fontes, ou logo que chegou ao hospital, segundo outras. A morte foi confirmada à chegada àquela unidade hospitalar, na madrugada de 3 de julho de 2021.
Investigação Embora a investigação fosse imediatamente colocada pelas autoridades sob segredo, a 4 de julho de 2021, fontes próximas à investigação informaram que algusn testemunhos haviam permitido a identificação dos supostos autores das agressões. A Polícia Nacional analisou vídeos capturados por pessoas que se encontravam no local, assim como de câmaras urbanas de vigilância daquela zona central da capital provincial. Para a identificação dos suspeitos foram fundamentais as declarações de uma testemunha, que minutos após a agressão fatal chamou o número 092 e contou que havia visto um grupo de pessoas escapar-se da cena do crime, deixando Samuel moribundo no chão. O testemunho introduziu também as primeiras pistas sobre a identidade dos agressores, uma vez que o denunciante declarou à polícia que estes eram do bairro de Elviña, na Corunha, dando detalhes particulares sobre um deles, incluindo o apelido pelo qual é conhecido nessa zona. Adicionalmente, uma das raparigas que acompanhava a vítima conseguiu identificar a pessoa que iniciou a agressão, ao visualizar um dos vídeos. As medidas decretadas pelo governo galego para facilitar o rastreio em caso de surto de Covid-19, exigindo a identificação de todas as pessoas que entrem num local de diversão, facilitaram a tarefa aos agentes, uma vez que tanto a vítima como os presumíveis autores da sua morte haviam estado na conhecida discoteca Andén, ali deixando os dados dos deus Documentos Nacionais de Identificação.
O Julgado de Instrução 8 da Corunha, de plantão naquele fim de semana, conseguiu então estreitar o cerco sobre o grupo de agressores, sendo tomadas pelo comissariado de polícia declarações de 15 pessoas, assinaladas pela investigação como autores do espancamento e abandono de Samuel no passeio marítimo de Riazor, resultando na sua morte. Alguns dos suspeitos serão menores de idade, e vários deles terão vindo depor voluntariamente, segundo declarações da Delegação do Governo da Galiza.
Apesar de relatos iniciais darem conta, já a 4 de julho, da detenção de 13 suspeitos, a 5 de julho, o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande Marlaska, que classificou o crime como um assassinato, declarou não existirem ainda detidos.
A 6 de julho, a polícia confirmou a detenção de três presumíveis autores do crime. Os detidos são três jovens, dois homens e uma mulher, com idades entre os 20 e os 25 anos, todos moradores na Corunha.
Segundo fontes da Delegação do Governo, o caráter homofóbico do crime foi inicialmente descartado, relacionando-se o ocorrido com uma discussão em torno de um mal entendido sobre um telemóvel. Segundo essa versão, Samuel estaria fazendo uma videochamada com amigos, tendo os agressores pensado que ele os estaria gravando, resultando no espancamento e morte do jovem. Segundo a fonte governamental, apenas depois de serem feitas detenções haverá possibilidade de de concretizar o móbil do crime.
A investigação centra-se em concreto sobre três casais, e uma sétima pessoa, que estará diretamente relacionada com a agressão e posterior abandono de Samuel. Segundo fontes policiais, a investigação parece determinar que a brutal agressão começou quando Samuel acudiu em auxílio de uma das jovens que acompanhava, após esta ter sido interpelada agressivamente pelos agressores, que pensaram que os estava gravando em vídeo, quando tudo indica que estavam somente realizando uma videochamada pouco antes das 3 da manhã de sábado. Um deles agrediu Samuel com um soco, e o resto do grupo juntou-se-lhe. Com Samuel já no chão, pontapearam-no pelo corpo todo. O jovem morreu pouco depois, enquanto era transportado na ambulância, após esforços dos paramédicos em estabilizá-lo no local da agressão.
A 8 de janeiro de 2025, o tribunal de La Coruña condenou quatro pessoas a penas de 10 a 24 anos de prisão pelo assassinato brutal de um jovem gay brasileiro e absolveu a namorada de uma das pessoas.
Reações miniaturadaimagem|303x303px|Homenagens a Samuel Luiz no local onde foi assassinado, na avenida de Buenos Aires, na Corunha O pai de Samuel, Maxsoud Luiz, deixou no local onde o filho foi assassinado uma longa carta, na qual agradeceu o esforço feito pelos serviços de saúde na tentativa de salvar o filho, expressando a sua dor e de toda a família com as palavras “levaram embora a única luz que iluminou a nossa vida. Sabemos que ainda teremos um longo caminho a percorrer; seremos apoiados pela nossa família, amigos e colegas que nos ajudarão a sair deste caminho tenebroso”.
No lar de idosos Fundação Padre Rubiños, onde Samuel trabalhava, a consternação foi geral. Segundo Eduardo Aceña, presidente da instituição, os idosos de quem cuidava queriam-lhe tanto bem, pelo bom tratamento que dele recebiam e pela alegria que lhes transmitia, que os funcionários preferiram esconder a verdade sobre o fim de Samuel a alguns dos idosos que perguntam por ele, devido ao estado de saúde debilitado.