O yuracaré (também yurakaré, yuracare, yurakare, yuacare, yurakar, yuracar, yurujuré, yurujare, yurujarey, tabuybu, ta-buybu) é uma língua isolada da Bolívia e um de seus 37 idiomas oficiais. A lingua é falada pelo povo Yuracaré, nativo da Bolívia e localizado principalmente nos departamentos de Beni e Cochabamba, com um total, aproximadamente, de 2.675 falantes. É considerada uma língua ameaçada de extinção.

De um ponto de vista morfológico, o yuracaré é uma língua polissintética aglutinante, com um elevado uso de prefixos e sufixos.

Etimologia É provável que o nome yuracaré tenha origem na língua quíchua. O termo seria derivado do quíchua yurajqara, que significa "pele branca", uma possível referência à uma doença de pele comum entre os yuracaré que causa a perda de pigmentos. Há também a hipótese de que o nome seja uma combinação de yuraj e qari, quíchua para "branco" e "homem", respectivamente.

Entre os falantes de yuracaré, a língua é comumente referida pelo endônimo ta-buybu, literalmente "nossa palavra" ou "nosso idioma".

Há, ainda, o uso do nome yurujarey ou tabuybu yurujarey, relacionado a yurújare, nome nativo para o povo Yuracaré. Distribuição A população yuracaré está presente nos departamentos de Cochabamba (56%), Beni (41%), Santa Cruz (2%) e La Paz (0.8%), na Bolívia. As províncias com a maior concentração de yuracarés são Chapare (40%), Moxos (22%), Carrasco (19%) e Marbán (13%), com um total de 90% da população.

Atualmente, predomina nas comunidades yuracarés o bilinguismo yuracaré-castelhano, com o crescimento do monolinguismo em castelhano devido a uma queda da transmissão intergeracional da língua, já aparente principalmente em jovens e crianças, em um processo de castelhanização. Em 2007, de um total de 3.333 membros do povo Yuracaré, apenas 2.675 falavam a língua.

História Os estudos feitos sobre a história yuracaré têm como fontes principais relatos coloniais.

A primeira menção conhecida do povo data do século XVI (1584). Nela, o nome "yuracale" é utilizado para se referir a um grupo indígena que seria aliado dos guaranis (chiriguanos), além de outros povos indígenas. Entre eles, estão inclusos falantes da língua quíchua, o que, somado à condição da língua quíchua como língua franca durante parte do período pré e pós-Colombiano, intensificada com a expansão do Império Inca, seria uma possível explicação para a origem quíchua do nome "yuracaré".

O primeiro estudo dedicado à língua yuracaré foi feito em 1893 pelo padre franciscano La Cueva.

Classificação Há pequenas variações léxicas e fonológicas entre diferentes grupos yuracarés, mas não há um consenso se são suficientes para a classificação do idioma em dialetos distintos.

Apesar de ser possível traçar paralelos entre o yuracaré e outras línguas sul-americanas, como comparações lexicais com o mosetén-tsimane, não há evidências suficientes para a inclusão do yuracaré em um grupo linguístico, sendo ele considerado um idioma isolado ou não-classificado.

Comparações lexicais As semelhanças entre o yuracaré e o mosetén-tsimane são consideradas evidências de que populações falantes dessas línguas teriam participado de uma esfera de interação durante a pré-história: +Paralelos lexicais entre o Yuracaré, o Tsimané, o Mosetén e o Proto-Mosetén-TsimanéPortuguêsYuracaréTsimanéMoseténProto-Mosetén-Tsimanéágua/molhadosamːa ‘água’samaʔ-heʔ ‘molhar’samaʔ ‘molhado’amendoimsebːedabaʔdʲabaʔbeberenʧeitʲeihtʲe-kcarne/gordurasæhsæ ‘gordura’*ʃɨʃ ‘carne’casasibæʃipa ‘casa do pajé’homemʃunɲesoɲiʔ/sonʔsoɲiʔ ‘homem’línguaẽrume*nemmandiocaɲowːoʧowoʔ ‘mandioca dura’manhã/dialæhlæ ‘dia’*nohno ‘manhã’NEGniʃ-its- ‘não ser’olho/verbæh-ta/bæh-ma ‘ver’βeh, weh ‘olho’pênisulːiwdʲuʔdʲɨʔpimentawinːu*iːnohraiaisunaisinuʔisinɨʔtabacokorːe*kostamanduáaʃuʃuʧʰuʔʃustaquaratoɲotonʔ

Fonologia O yuracaré possui 7 fonemas vocálicos e 18 fonemas consonantais: +Fonemas vocálicos orais do yuracaréAnteriorCentralPosteriorFechadaSemifechadaQuase abertaAberta As vogais são pronunciadas de maneira mais curta quando em sílabas fechadas e de maneira mais longa quando em sílabas abertas. Além disso, o fonema é pronunciado como [] por alguns falantes. +Fonemas consonantais do yuracaréBilabialLabiovelarAlveolarPós-AoveolarPalatalVelarGlotalPlosiva ()Africada dʲNasalɲVibranteFricativa AproximanteLateral A plosiva glotal se encontra entre parênteses porque sua pronúncia não é obrigatória. Ela ocorre apenas entre duas vogais idênticas e não é representada na linguagem escrita.

Exemplos:

Possíveis pronúnciasyee (mulher)jeejeetoo (osso)tootoo

Tonicidade No yuracaré, a sílaba tônica é sempre a penúltima ou a antepenúltima sílaba de cada palavra. Como regra geral, da esquerda para a direita, a cada duas sílabas a segunda sílaba recebe ênfase, em um modelo iâmbico, com exceção da última sílaba, que nunca recebe ênfase. Quando duas ou mais sílabas recebem ênfase, a sílaba mais à direita recebe a ênfase principal.

Exemplos:

     po.jó.re →ti.pó.jo.re→ti.pò.jo.ré.ni    Canoa→Minha canoa→Para minha canoa

Certos prefixos sempre recebem ênfase, como os prefixos de posse no plural (ta-, pa- e ma-), o que pode fazer com que a alternância entre sílabas átonas e tônicas passe a ocorrer a partir da primeira sílaba da palavra.

Exemplos:

     ti.sí.bë →tá.si.bë    ti.pó.jo.re→tà.po.jó.re     Minha casa→Nossa casa    Minha canoa→Nossa canoa

Palavras com raízes monossilábicas, que são raras no yuracaré, têm sua vogal final duplicada em situações nas quais receberiam a ênfase principal. Com isso, passam a ser dissilábicas, recebendo ênfase em sua primeira sílaba. Como exemplo, há a palavra pa, que significa "irmão mais novo de um homem":

Exemplo:

     pá.a →ti.pá.a→tá.pa    Irmão mais novo→Meu irmão mais novo→Nosso irmão mais novo

Como exceção, há também o fato de que sílabas terminadas em consoantes, consideradas pesadas, sempre recebem ênfase (ex.: púy.da.ra, um ancestral do jaguar), além de que certas palavras não se comportam seguindo essas regras (ex: tá.li.pa, que significa "galinha"), entre outros casos específicos.

Na ortografia oficial do yuracaré, a sílaba tônica não é representada quando se encontra na penúltima sílaba, por se tratar do caso mais comum, enquanto o acento agudo (´) e o acento circunflexo (^) são utilizados para indicar a sílaba tônica em outras posições. O acento agudo é utilizado para indicar tonicidade em a, e, i, o e u, enquanto o acento circunflexo exerce essa função substituindo o trema em ë e ü.

Fonotática O yuracaré segue a estrutura (C)V(C) (C=consoante, V=vogal) para suas sílabas. Sendo assim, as sílabas podem ser do tipo V (como em a.si.bë, que significa "sua casa"), CV (ba.tay, "me vou"), VC (ti.ap.ta, "meu parente") ou CVC (mi.bash.ti, "sua esposa"). As consoantes t, k, ch, b, d, dy nunca se encontram nas posições finais de um sílaba, isto é, na posição coda.

Ortografia Diferentes propostas para a ortografia da língua yuracaré foram feitas ao longo da história de seus estudos, todas as quais utilizaram o alfabeto latino. Em um encontro feito em 2007, representantes do povo yuracaré estabeleceram um alfabeto oficial igual ao alfabeto proposto por Gijn em 2006. +Propostas de ortografia para as consoantes do yuracaréSímbolo IPALa Cueva (1893) e Lassinger (1915)Day (1980, 1981), Ribera et al. (1981)Gijn (2006)/Oficialppppt tttt͡ʃchchchkcc/qukbbbbdddddʲydydyssssʃs/zshshhjjjmmmmnnnnɲñññllllɹ̝rrrwv/uhu/uwjy/iy/iy ɲ (representado por ñ) é como o "nh" em manhã.

dʲ (atualmente representado por dy) é como o "d" no espanhol radio ou como o "d" em "incêndio" no português europeu.

t͡ʃ (representado por ch) é como o "tch" em "tchau".

ɹ̝ (representado por r) é como o "r" no inglês round em alguns dialetos urbanos da África do Sul apical, próximo ao "r" em "arara". +Propostas de ortografia para as vogais do yuracaréSímbolo IPALa Cueva (1893) e Lassinger (1915)Day (1980, 1981), Ribera et al. (1981)Gijn (2006)/Oficialiiiiɨuüüuuuueeeeooooæe/aëëaaaa ɨ (atualmente representado por ü) é como o "e" na palavra "pegar" em alguns dialetos do português europeu.

æ (atualmente representado por ë) é como o "al" em half no inglês americano, próximo ao "é" em "pé".

A proposta de Gijn teve como objetivo simplificar a ortografia do Yuracaré e distanciá-la de regras de grafia do castelhano. Enquanto /w/ era escrito como "v" no início de sílabas e como "u" no final de sílabas na proposta de La Cueva, e Day e Ribera et al. utilizavam "hu" e "u", respectivamente, para essas posições, Gijn utiliza o símbolo "w" para ambos os casos. As diferentes grafias para /k/, /j/, /ʃ/ e /æ/ são também substituídas por símbolos únicos.

Gramática

Pronomes No yuracaré, os pronomes podem ser classificados como pessoais ou demonstrativos, com exceção de ama, um pronome interrogativo.

Pronomes pessoais Há quatro pronomes pessoais no yuracaré: 1ª pessoa2ª pessoaSingularsëëmëëPluraltuwapaa Ao contrário da maioria dos substantivos e de outros pronomes do yuracaré, os pronomes pessoais têm limitações quanto ao processo de derivação. Além de serem os únicos nomes com um plural não cognato, em um caso de supletismo, apenas os afixos -jti (limitante) e -shku(ta) (adverbializante) podem ser utilizados.

Exemplo:

          më‐jti che‐cha‐m nish ti‐wështisë           Pronome.2ªPS‐limitante comer‐imperativo‐sujeito.2ªPS negação1ªPS‐fomepronome.1ªPS        Coma você sozinho.Eu não estou com fome

Em casos em que é possível inferir os pronomes pessoais, eles podem ser omitidos, no que é conhecido como anáfora zero, o que classifica a língua como pro-drop.

Exemplo:

          chërë-të-y        [Eu] me cocei

Não há pronomes referentes especificamente à terceira pessoa, mas esta pode ser indicada a partir de pronomes demonstrativos.

Pronomes demonstrativos O yuracaré possui 3 pronomes demonstrativos básicos: ana, naa e ati. Geralmente, ana é utilizado para se referir a objetos próximos ao emissor, como "isto", no português, ou objetos distantes quando indicados por gestos corporais; naa é utilizado para se referir a objetos distantes, principalmente quando não podem ser vistos pelos interlocutores; e ati indica objetos próximos ao receptor, além de outras distâncias. No entanto, na prática, há muitas situações em que esses pronomes são intercambiáveis.

Exemplos:

          layj tuwa ta‐tebe ana emme        Esta ía ser nossa carne.

          ama‐shku yupa‐shta‐ø naa=y=ri        Como é que ele vai entrar ali?

          aa a‐pojore ati        De quem é essa canoa?

Diversos processos de derivação se aplicam aos pronomes demonstrativos, com certos afixos específicos a um ou dois dos pronomes. Por exemplo, o prefixo l- pode ser adicionado a ana e a ati, o que restringe o sentido desses pronomes para uma anáfora ou catáfora do termo ou ideia que se encontram logo antes ou depois de sua posição. Para o pronome ana, junto a l- pode ser adicionado o sufixo -y, formando lani, que possui um sentido mais restritivo do que ani (semelhante à diferença entre "aqui" e "bem aqui").

Exemplo:

          l‐ani mu‐tütü‐n‐tu        Vamos ficar bem aqui com eles.

Ana, (l)ati e naa podem indicar sujeitos e objetos na terceira pessoa do singular, enquanto as formas (l)atiw, anaw, naaw, formadas com a adição do sufixo pluralizador =w , têm a mesma função para a terceira pessoa do plural.

Exemplo:

          l‐ati=w ma‐pu‐ø=ja ma‐ma‐n‐chiwa‐ø=ya too=w        Quando ele havia os levado, ele tentou os ossos. Pronome interrogativo ama Há apenas três palavras interrogativas simples no yuracaré: ama (equivalente a "qual" ou "quem"), ëshë ("por que" ou "por quê") e tëtë ("o que" ou "o quê"). Dentre elas, apenas ama comporta-se como um pronome, podendo formar outras palavras interrogativas a partir da adição de sufixos:

Exemplos: ama=ti (onde), am=chi (para onde), ama=jsha (de onde), am-ti (quanto ou quantos), ama=la (com o que, com o quê, por onde, por que ou por quê) e ama-sh(ku) (como).

Exemplos de uso: