miniaturadaimagem|320px|Figura 1 - Esquema com os Cinturões Orogênicos formando o Supercontinente Gondwana. A Faixa Paraguai, que antes era denominada Cinturão Paraguai - Araguaia, foi formada durante os eventos colisionais datados da Era Neoproterozoica (~ 1000 Ma.- 600 Ma [milhões de anos]) que fazem parte do evento brasiliano ou da porção oeste do supercontinente Gondwana que durante sua formação a partir de colisões entre os Crátons Amazônico, Rio de La Plana e São Francisco, formou cinturões orogênicos que, estruturalmente, hospedam a maior parte da porção litosférica que sofreu convergência, tanto pela subducção da litosfera oceânica nas fases pré-colisionais quanto pelas dobras e movimentos compressivos ao longo das antigas margens continentais. Referente a esse período geocronológico, cientistas identificaram três cinturões orogênicos, chamados de Paraguai, Araguaia e Brasília, que juntos, bordejam a Província Tocantins.

A localização da Faixa Paraguai paira a sudeste do Cráton Amazônico, ou seja, em relação à Província Tocantins, situa-se no segmento ocidental com cerca de 1000 km de extensão em forma de arco com concavidade avessada a SE do cráton e tendo suas principais demarcações estratigráficas preenchidas por rochas sedimentares das bacias do Parecis, Pantanal e Paraná. Devido à complexidade relacionada a evolução estratigráfica desse cinturão orogênico, condicionado da deposição de mais de um preenchimento sedimentar e através de estudos realizados na Província Tocantins, subdividiram em três segmentos segundo às diferenças encontradas, sendo elas a porção Sul (Meridional), Norte (Setentrional) e leste (Oriental).

A porção Meridional aflora na região da Serra da Bodoquena e no vale do rio Miranda no estado do Mato Grosso do Sul e assim como a sequência norte, apresenta granitos tarde a pós-tectônicos datados através do método U - Pb em Zircão com cerca de 540 Ma. O segmento Setentrional aflora na área referente a Província Serrana, Baixada Cuiabana e Vale do Araguaia no estado de Mato Grosso com idade aproximada de 504 Ma. Estes maciços graníticos foram identificados como Intrusivas Ácidas Cambro-ordovicianas, e os dacitos, riodacitos e riólitos foram correlacionados e classificados como Vulcânicas de Mimoso. Os corpos graníticos nas porções mais deformadas da faixa foram indicados como sendo de metamorfismo de contato nas fácies albita e hornblenda. A leste da Serra da Bodoquena são identificados alguns corpos metabásicos, que são rochas constituídas por uma associação mineral metamórfica com actinolita, hornblenda, albita, epidoto, titanita, quartzo, apatita e opacos, além de clinopiroxênio e hornblenda castanha representantes da mineralogia ígnea parcialmente preservada. Segundo a maioria dos autores, uma melhor classificação em relação ao contato com rocha sedimentar parcialmente metamorfizada, também denominado metassedimentos, se faz necessária devido a falta de bons afloramentos. Em compensação, as coberturas cratônicas, sequências metassedimentares da porção norte, estão pouco deformadas. Essa faixa foi caracterizada por linearidades de dobramento e deslocamento em sentido N - S com vergência para W da área cratônica, é uma faixa dobrada caracterizada por metamorfismo regional na fácies do xisto verde, biotita, características de um típico fold-and trhust belt , identificados três fases de dobramentos sobrepostos e coaxiais associadas a sistemas de falhas de empurrão. A porção Oriental, aflora na região de Nova Xavantina e é muito importante principalmente em relação aos recursos minerais que ali ocorrem, destaque para o ouro. Alguns autores também consideram a região de Corumbá e o interior da Bolívia, segmento NW - SE em relação à Província Tocantins, como um aulacógeno, denominado Cinturão Tucavaca.

Evolução Geológica e estratigráfica da Faixa Paraguai

Em relação à evolução geológica da Faixa Paraguai, estudos indicam a formação de um cinturão de dobramentos estruturais tardios no que diz respeito a evolução no ciclo brasiliano, segmento tectônico formado principalmente por rochas metassedimentares localizadas no chamado Grupo Cuiabá (~720 Ma.) e provindas de bacias marinhas profundas em margens passivas na condição de fragmentação extensival do supercontinente Rodínia (~1.0 Ga.([Bilhões de anos])). Devido às forças as quais a orogenia brasiliana foi submetida, estas bacias foram classificadas como de inversão tectônica e promovendo deformações e metamorfismo regional.

Posteriormente a este evento, ocorreu o soerguimento deste orógeno, que, devido a ações de intemperismo e forças extensionistas, evolui em bacias intra-cratônicas onde hoje, podem ser observados sequências sedimentares correlacionadas com o Criogeniano (~720 a 635 Ma.) ao Ediacarano (~ 635 a 541 Ma.), período do Neoproterozoico conhecido por bruscas mudanças climáticas e pela presença de importantes sequências de rochas glaciogênicas (diamictitos) e carbonáticas (dolomito).

As sequências sedimentares foram divididas em Formação Puga, Grupo Araras, Formação Raizama e Formação Diamantino, sendo a formação Puga a mais antiga (~635 Ma.) e os depósitos da formação Diamantino os jovens (~541±7 Ma.). As rochas sedimentares que preenchem essas bacias vêm sendo classificadas como de Foreland, devido principalmente ao seu ambiente de formação plataformal moderadamente profundo a raso, com influência de tempestades, ambiente transicional com influência de marés e lacustre com migração de lobos deltaicos respectivamente.

A subdivisão estratigráfica da Faixa Paraguai apresenta diferenças entre as porções norte e sul segundo Boggiani & Alvarenga (2004), Alvarenga et al. (2009) e Campanha et al. (2011) e também afirmam que a evolução estratigráfica não ocorreu com um único preenchimento sedimentar, apresentando diferenças entre suas unidades, principalmente entre as de origem carbonática (grupos Corumbá e Araras), também implicando em evoluções metalogenéticas diferentes, sendo assim, adotaram a seguinte subdivisão: Faixa Paraguai Meridional, Faixa Paraguai Setentrional e Faixa Paraguai Oriental.

Faixa Paraguai Meridional Estudos indicam que a evolução da Faixa Paraguai Meridional vem sendo classificada como um típico fold-and trhust belt, que são uma série de suportes montanhosos adjacentes a um cinturão orogênico, formados devido a tectônica contracional e tendo início através de rifteamento no final do Criogeniano e avançando na escala geocronológica, mais precisamente até o final do Ediacarano, esses rifts evoluem para mar restrito e transgressão marinha extensiva. O início do Cambriano registra o final do desenvolvimento das colisões e registros de magmatismo pós-colisionais são datados do Cambriano Superior.

Estratigraficamente, a Faixa Meridional é composta, principalmente, pelo Grupo Corumbá e foi subdividida em cinco formações (da base para o topo: Cadiueus, Cerradinho, Bocaina, Tamengo e Guaicurus) tendo a Formação Puga correlata a suas formações basais (Cadiueus e Cerradinho). No entanto, a semelhança em relação à continuidade dessa formação na Faixa Setentrional, os diamictitos, são bem diferentes entre eles, sendo que nos da porção Norte, foram identificados seixos estriados e facetados e os diamictitos registrados ao Sul, não possuem a mesma configuração, o que indica que na porção Meridional, mais especificadamente no Morro do Puga, os diamictitos não demonstrem registros glaciais, consequentemente são correlacionados a depósitos por fluxos gravitacionais associados a abertura do rift.

Na Formação Puga, pesquisadores verificaram em alguns núcleos de anticlinais (Anhumas) ou em lascas de empurrão, conglomerados polimíticos (diamictitos, diamictitos ferruginosos), clastos (quartzo, quartzitos, gnaisses, granitos, anfibolitos e menos recorrentes filitos e calcários). Esses sedimentos possuem característica de serem retrabalhados devido aos fluxos gravitacionais antes de serem depositados e consequentemente não possuem seixos facetados e estriados que indicam depósitos glaciogênicos como os que foram identificados na Faixa Setentrional.

A Formação Cadiueus foi litologicamente classificada em conglomerados e arenitos que preenchem depressões do paleo - relevo e pequenos grábens sotopostos a Formação Cercadinho com ocorrência restrita na borda W da Serra da Bodoquena e a NW de Morraria do Sul..A Formação Cercadinho é constituida por arenitos, arcósios, dolomitos e pelitos localizados na região de Morraria do Sul, com espessuras em torno de 150 m.

A Formação Bocaina compõe dominantemente por dolomitos silicosos, por vezes oolíticos com estruturas sedimentares de águas rasas (às vezes identificado a presença de estromatólitos e fosforitos no topo), ocorrência na região serrana a W de Bonito. Na passagem da Formação Bocaina para Tamengo foi observado um contato brusco, também lateral composta por brechas basais com matriz calcária (inclusões de dolomitos silicoso) e eventualmente fosforito.

Na Formação Tamengo foram identificados calcários escuros por vezes sulfetados e pelitos carbornosos de águas mais profundas, sugerindo um ambiente de transgressão marinha recobrindo diretamente os embasamentos mais antigos a oeste, como as Formações Puga, Cerradinho e Bocaina, possuem espessura de cerca 550 m. Uma importante descoberta em termos geocronológicos, em relação à Formação Tamengo, foram encontradas camadas centimétricas de tufos vulcânicos muito alterados, intercalados aos calcários com Cloudina. Estudos realizados com zircões extraídos desses tufos forneceram uma idade média de cristalização (238 U/206 Pb – SHRIMP - Método utilizado para datação geocronológica) da ordem de 543 ± 3 Ma, interpretada como da deposição dos calcários. A datação realizada somado à ocorrência de Cloudina, fóssil índice do final do Ediacarano, permitiram a identificação e posicionamento ao fim da sedimentação do Grupo Corumbá próximo ao limite do Pré-Cambriano com o Cambriano.

Da Formação Tamengo para a Guaicurus, foi classificado como um ambiente de transição gradativa, sendo que a Formação Guaicurus corresponde a estratos predominantemente pelíticos com uma coloração cinza-esverdeado que afloram na região serrana, principalmente nos núcleos dos sinclinais e com espessuras com cerca de 250 m aproximadamente.

O Grupo Jacadigo representa uma unidade estratigráfica de compartilhamento limitado ao Maciço de Urucum (Corumbá), com extensões na Bolívia, no Maciço de Mutum, onde é classificado como Grupo Boqui. Vem estruturalmente classificado como um Graben onde as conhecidas jazidas de manganês e ferro, em constante atividade de lavra. A base é caracterizada por arcóseos e conglomerados (Formação Urucum), com unidade transicional de arcóseos ferruginosos (Formação Córrego das Pedras), os quais passam para pacotes com predomínio de sedimentos químicos e bioquímicos, com camadas de manganês e, para o topo, de formações ferríferas, com até 220 m de espessura, da Formação Banda Alta, também conhecida como Formação Santa Cruz.

Faixa Paraguai Setentrional

A definição a respeito da unidade estratigráfica do Grupo Cuiabá tem sido motivo de debates em relação à Faixa Paraguai. O modelo mais difundido e aceito seria o de Alvarenga & Trompette de 1993, que considera uma variação lateral referente a Formação Puga, essas rochas metassedimentares seriam porções distais (turbiditos) de leques subaquosos da sedimentação glaciomarinha. Através de datações radiométricas feitas a partir do método K/Ar em muscovitas finas recristalizadas em xisto e em contato com pegmatito, Hasui e Almeida identificaram na região de Duque Estrada em meado dos anos setenta o que deve refletir o metamorfismo relacionados a esses metassedimentos do Grupo Cuiabá com idades aproximadas de 549 a ± 17 Ma.