A língua cadiuéu (AFI: /kadiwe'u/), também conhecido como cadiveu ou kadiwéu, é uma língua guaikuru falada pelo povo Kadiwéu, descendentes dos Mbayá, que vive ao norte do município de Porto Murtinho, no estado brasileiro de Mato Grosso do Sul.
Existe uma população de 2472 Kadiwéus e 891 falantes que representa cerca de 36% do total de indivíduos. Esse número é extremamente reduzido, ao ponto da língua ser classificada como "definitivamente ameaçada" pela UNESCO no Atlas Mundial das Línguas em Perigo. A perda de falantes se deve pela forte aculturação ao uso do português como língua principal. Desse modo, o nível de fluência da nova geração se reduziu, causando perda de características no idioma, como diferenciação de gênero, pronúncia e a escrita comum das palavras.
O kadiwéu possuí sintaxe com estrutura não configuracional e uma morfologia aglutinante. Os verbos são acompanhados de um prefixo da pessoa e são classificados entre intransitivos e transitivos. Alguns substantivos podem ser obrigatoriamente possuídos. Algumas palavras são adaptadas do português. O alfabeto é relativamente pequeno, que consiste em 4 vogais e 15 consoantes, sendo uma consoante o <g̶>, que também faz parte do alfabeto sami skolt. A fala é dividida em forma masculina e feminina, logo, além do sujeito, os próprios substantivos e verbos se diferenciam dependendo do gênero do falante.
Nos anos de 1964 a 1966, foram publicados, pelos etnolinguistas C.F e F.M Voegelin, escritos sobre as línguas do mundo, em que classificaram opaie e guaycuru (termo de origem tupi) como ramos de uma só família. Assim, classificando o kadiwéu como um subgrupo do guaycuru dentro do filo macro panoan, do macro-filo ge-pano-carib. Na mesma época, inspirado pelos estudos de Sara C. Gudschinky e Irvene Davis, concluiu então, Aryon D. Rodrigues, que a língua Opaie faria parte do tronco macro-jê e membro de família não-classificado. Logo, tornando o kadiwéu um membro de um tronco não-classificado. Consequentemente, ficou de responsabilidade para a próxima geração de linguistas ao estudo minucioso dessas línguas, assim, descobrindo finalmente o mistério da relação ou não relação entre as línguas kadiwéu e opaie, bem como a classificação apropriada do kadiwéu. Etimologia "Kadiwéu" é originado do etnônimo autodenominado cadiguegodi (Caduveo-Mbayá-Guaycurú), que significa “povo da região do rio Cadigigi", ou "os habitantes de lugares onde cresce a planta cadi”. Assim, o termo que originou o nome da língua deriva de um elemento da região em que sua tribo se instalou, por um certo período. Portanto, esse elemento, sendo tanto uma planta, chamada cadi, quanto um rio, chamado Cadigigi. Por outro lado, os seus descendentes, Mbayá (termo de origem provavelmente tupi), se autodenominavam eyiguayegi, que significa "gente da palmeira eyuguá". Esses significados são concluídos, já que outros subgrupos guaikuru também se autodenominavam de acordo com as características de seu habitat.
Na atualidade, os Kadiwéus se chamam de ejiwajegi, que muito provavelmente aconteceu por conta do etnônimo eyiguayegi, dos Mbayá. Mas, não há fontes que confirmem essa proposição. Distribuição miniaturadaimagem|Prefeitura Municipal de Porto Murtinho (2008) A Terra Indígena Kadiwéu compreende as aldeias Bodoquena, Alves de Barros, Córrego do Ouro, Campina, São João e Tomázia a leste do rio Paraguai, ficando a 60km da cidade mais próxima, Bodoquena. De acordo com os dados mais recentes da FUNAI (1999), o Posto Indígena Bodoquena (aldeias Bodoquena e Campina) possuía uma população de 1041 e o Posto Indígena São João (aldeias São João e Tomázia) possuía 551. Portanto, esses números abrangem 3 etnias, os índios Terena, Kinikináo e Kadiwéu. Em 1992, na aldeia Bodoquena havia 633 Kadiwéus, na aldeia Campina 39, na aldeia São João 170, na aldeia Tomázia 60, e em outras localidades 67, com um total de 929. Porém, não existem dados recentes que contenham o número estimado desse povo, ou de falantes, em cada aldeia.A taxa de alfabetização, no município onde está localizada a Reserva Kadiwéu, é de 67,46% (2024).
Dialetos Os dialetos do kadiwéu foram originados da forte estratificação social do povo, que começou em seus antepassados. Naquele tempo, se dividiram em: nobres, chefes, guereiros, vassalos e servos. Assim, nobres e chefes possuíam mais prestígio, enquanto vassalos e servos eram cativos de guerra e descendentes dos mesmos.
Existem 3 dialetos conhecidos:
Kadiwéu de mulheres nobres: falado por descendentes de mulheres nativas, já é conhecido a bastante tempo: "Se caracteriza por um padrão binário de acentuação, palavras com número ímpar de sílabas, em outros dialetos, podem sofrer reduplicação silábica para garantir um número par de sílabas". Kadiwéu de guerreiro: falado tanto por homens, quanto (supostamente) por mulheres não-nobres: "obedece um intervalo binário de acentuação". Kadiwéu de homens nobres: "obedece a um sistema ternário de acentuação" (recém-descoberto). miniaturadaimagem|285x285px|Mulher Kadiwéu (MS, Brasil, em 1892) + Comparação de dialetos da língua kadiwéuPalavra/FraseMulheres nobresHomens e mulheres não-nobres eu amo você akaami ǥademaaniee akaami ǥademaanivocêa-aamiakaami eu eeyoee homem aaginaǥaǥoneleegiwa sorte, ainda bem a-aapaǥalatoǥoapaǥalatoǥotrêsiniwatadaǥaniiniwatadiǥinimãe -iodo -iodiestá para ládeǥe-eeticogidiǥeticogimatar -e-eemadi -eloadinovoge-eelagela
Línguas relacionadas A teoria mais plausível é de que o kadiwéu vem da família Guaycuru, de um tronco desconhecido. Assim, também existem hipóteses de outras línguas que fazem ou faziam parte da mesma família. De acordo com Andrey Nikulin (2019), o Guaycuru está dividido entre "Guaycuru do Norte (Kadiwéu)" e "Guaycuru do Sul":
Guaycuru
Guaycuru do Norte Kadiwéu Guaycuru do Sul Abipón (ou abiponês, Kalyaga, Callaga) Toba Qom (ou Toba, Qom, Namqom, Chaco Sur) Mokoví (Moqoyt, Mokoví, Mbocobí) Pilagá (ou pilacá, extinta) Guaycuru do Leste (As vezes considerado) Guachi (ou Wachi, extinta) Payaguá (ou Payawá, extinta)
Grande parte dos estudiosos não concordam com essa classificação. Um dos maiores motivos é a pouca, ou nenhuma, similaridade entre as palavras de algumas dessas línguas, se comparado com a semelhança de outras famílias, como a Tupí-guaraní, a Jê, a Karib ou a Aruák. miniaturadaimagem|"Femme d'un chef Guaycuru; "Femme Guaycuru". Gravura contida na obra de Francis de la Porte Castelnau, intitulada "Expedition dans les parties centrales de l'Amerique du Sud, de Rio de Janeiro a Lima, et de Lima au Para: executée par ordre du gouvernement francais pendant les années 1843 a 1847", publicada em Paris entre 1850 e 1857. {| class="wikitable" style="text-align: center;" |+ Comparação do kadiwéu e toba !Palavra !Kadiwéu !Toba |- | cabeça | dakilo|qaik|- |cabelo |daamodi|hawe|- | orelha | napaaǥate|tela|- | nariz | diimiqo|mik|- | mão | baaǥadi|waq|- |pé |ǥonagi|pi'a|- |sangue |lawodi |tagoq |- |raiz |litodi |pa'a |- |pai |lataada |ta'a |- |sol |aligeǥe |la|}
História miniaturadaimagem|"índios cavaleiros" - Desenho: J. B. Debret, 1834 O interesse pelo estudo da língua e a transcrição do kadiwéu começou em 1968, logo não há registros sobre formas antigas de escrita, de fala do kadiwéu, ou da língua falada pelos Mbayá-Guaikuru.Referente a língua, existe apenas registro de algumas palavras antigas, devido á informações de alguns anciãos do povo. Porém, é concluído que as transformações linguísticas estão intimamente ligadas com a história dos falantes, então as seguintes subseções apresentaram seus antecedentes, mitos, mudanças de vocabulário e seu histórico de ensino.
Antecedentes miniaturadaimagem|Oscar Pereira da Silva - Combate de Bandeirantes de Mogi das Cruzes com Guaikurus, Acervo do Museu Paulista da USP. No século XVI, os Mbayás eram um povo nômade que fazia parte do grupo guaikuru que compreendia os Abipon, os Mocovi, os Toba, os Pilagá e os Payaguá. Apesar de serem distintos, eles mantinham a comunicação pela mesma língua. Entre os séculos XVI- XVII, os cavalos são introduzidos, por isso os Mbayá ficaram conhecidos por "índios cavaleiros". Devido a esse acontecimento, começaram a se encontrar com outros grupos indígenas, onde começaram a viver do saque e do tributo de seus vizinhos. Quando guerreavam, os Kadiwéus levavam capturados, principalmente, mulheres e crianças para viverem na sua sociedade como "cativos" ou gootagi (nossos cativos, em kadiwéu). Devido a isso, o kadiwéu, provavelmente, recebeu fortes influências dessas várias línguas que conviviam. Nos séculos XVII-XVIII, os nativos tiveram contato com os colonizadores, quando os militares portugueses e espanhóis se estabeleceram pelo curso do Rio Paraguai. Assim, por conta dos conflitos da colonização, os povos de língua Guaycuru foram diminuindo de número. Porém, houve uma forte resistência por parte dos Guaycurus, onde as fortificações coloniais eram constantes alvos de ataques. Até que a Coroa portuguesa e os Mbayá firmaram um Termo de Perpétua Paz e Amizade, em 1 de agosto de 1791, onde os nativos reconheciam a suserania dos reis portugueses, tinham suas terras reconhecidas e estabeleceram uma aliança para suas guerras. Devido a esse forte contato do povo Mbayá-Guaycuru com o espanhol e, principalmente, com o português ao longo dos anos, a língua kadiwéu sofreu algumas mudanças, como palavras emprestadas.
Mitos As tradições orais dos Kadiwéus são de natureza etiológica, onde procuram explicar fenômenos naturais de forma lúdica. A série de histórias geralmente falam sobre um "paraíso perdido", que se transforma quando certos heróis tomam uma decisão boa, ou ruim. Assim, a figura central da mitologia é o Gô-noêno-hôdi, o criador de todos os povos, mas descrito à imagem de um Kadiwéu simples e bom. A seguir, será abordada uma das histórias desse personagem:
"Gô-noêno-hôdi tem a inteção de criar um mundo bom, urna vida fácil para os homens e assim fez: - o algodoeiro já dava novelos prontos; o mel crescia em cabaças nas árvores, ao alcance da mão; as roupas, quando velhas, podiam ser renovadas com uma sacudida; a mandioca e as bananas produziam dois dias depois de plantadas. Mas Caracará não se agradou dessa ordem, fez ver a Gô-noêno-hôdi que não estava certo, porque, assim, não se poderia saber qual era a mulher trabalhadeira, qual o bom caçador, tudo estava feito. Gô-noêno-hôdi concordou com os argumentos do Caracará e transformou aquela ordem idílica na atual. Naquele tempo a morte não era definitiva, as pessoas morriam e voltavam a viver dias depois. O Caracará se insurge também contra esta disposição, convence Gô-noêno-hôdi dos seus inconvenientes, mostrando que o mundo estava cheio de gente e não cabia mais, que a morte devia ser definitiva. Assim fez o criador, porém logo depois morre a mãe do Caracará, que embalde se lamenta, pedindo sua ressurreição."(Ribeiro, 1980)