Das Interpretações (em grego Περὶ Ἑρμηνείας, em latim De Interpretatione, abrev. De Int.), é um texto do filósofo grego Aristóteles de Estagira. É composto por um único livro (16a–24b) e não existem dúvidas acerca da autenticidade da obra. É a segunda obra do Organon, sucedendo as Categorias e antecedendo os Analíticos anteriores, no Corpus aristotelicum.

O título original Peri Hermeneias pode sugerir uma associação com hermenêutica. Atualmente, entende-se por hermenêutica um ramo da filosofia preocupado com a interpretação crítica de textos. Em grego antigo, no entanto, ἑρμηνεία, hermeneia, tem como significado principal declarar, anunciar, explicar. Por esse motivo, a obra é eventualmente chamada De Enuntiatione (e por ser assim que se traduzia Peri Hermeneias da Isagoge, de Porfírio).

O tema abordado neste texto possui alguma conexão com a discussão platônica da verdade e falsidade exposta no diálogo Sofista. Aristóteles discute a relação entre as palavras escritas e as experiências mentais ou pensamentos, dos quais as palavras seriam símbolos. O principal problema filosófico que Aristóteles procura resolver nesta obra é o de elencar os tipos principais de juízo que se pode formar e os modos de expressá-los usando a linguagem. Os relacionamentos entre esses vários juízos possíveis são também explorados em detalhes.

Segundo o filósofo:

Em primeiro lugar cumpre definir o nome e o verbo, depois, a negação e a afirmação, a proposição e o juízo. As palavras faladas são símbolos das afeições da alma, e as palavras escritas símbolos das palavras faladas. E como a escrita não é igual em toda a parte, também as palavras faladas não são as mesmas em toda a parte, ainda que as afeições da alma de que as palavras são signos primeiros, sejam idênticas, tal como são idênticas as coisas de que as afeições referidas são imagens (De Int., 16a1–8).

Da interpretação versa sobre os futuros contingentes, sobre a significação natural e convencional, universais e particulares, frases declarativas e oposições entre frases declarativas (contrariedade e contraditoriedade). Além disso, é nesta obra que se encontra a primeira discussão sobre lógica modal, depois retomada nos Analíticos anteriores.

Conteúdo

Capítulo 1: Aristóteles define palavras como símbolos de 'paixões da alma' ou experiências mentais. Os símbolos falados e escritos diferem entre as línguas, mas as experiências mentais são as mesmas para todos (de modo que a palavra inglesa 'cat' e a palavra portugesa 'gato' são símbolos diferentes, mas a experiência mental que representam — o conceito de um gato — é a mesma para falantes de inglês e falantes de português). Substantivos e verbos, por si só, não envolvem verdade ou falsidade.

Capítulo 2: Um substantivo/nome indica o sujeito por convenção, mas sem referência ao tempo. Um nome indefinido, como "não-homem", é um nome que é definido por não ser algo, nesse exemplo, um homem.

Capítulo 3. Um verbo carrega consigo a noção de tempo, explicitando o momento referente a um acontecimento, e ao acontecimento em si. 'Ele estava saudável' e 'ele estará saudável' são tempos verbais, ou seja, um verbo -no sentido usual da palavra, mas não no sentido Aristotélico- que indica momentos não presentes. Um verbo indica o presente.

Capítulo 4. A sentença é uma expressão cujas partes têm significado. A palavra "gato" significa algo, mas não é uma sentença, uma vez que não possua partes. Sentenças podem ou não ser proposições.

Proposições são sentenças que possuem a capacidade de serem verdadeiras ou falsas.

Capítulo 5. Toda proposição simples contém um verbo. Uma proposição simples indica um único fato ou um conjunto de fatos ligados por conjuções. Uma proposição complexa é a junção de várias proposições sem junção conectiva.

Capítulo 6. Uma afirmação é uma declaração de algo em relação a alguma coisa, uma negação é uma declaração que nega algo em relação a outra coisa. (Por exemplo, 'um homem é um animal' afirma a relação de pertencimento de 'homem' na classe 'animal'. 'Uma pedra não é um animal' nega 'animal' em relação a 'pedra').

Capítulo 7. Sobre coisas/termos. Alguns termos são universais . Um termo universal é capaz de ser utilizado para se referir a vários sujeitos (por exemplo, cachorro, que se refere à espécie). Termos podem ser individuais: termos singulares não é predicado de mais de um indivíduo, como "Platão" se refere a apenas um, não podendo portanto predicar múltiplas pessoas.

É introduzida o quadrado das oposições Aristotélico.

Uma proposição afirmativa universal, como "Todo homem é mortal", e uma proposição negativa universal com o mesmo sujeito e predicado, como "Nenhum homem é mortal", são chamadas de contrárias . Uma proposição afirmativa universal ("Todo homem é mortal") e a negação não universal dessa proposição ("Alguns homens não são mortais") são chamadas de contraditórias. Das contraditórias, uma deve ser verdadeira e a outra falsa. As contrárias não podem ser ambas verdadeiras, embora ambas possam ser falsas ao mesmo tempo.

Por exemplo, tanto "Todo homem é honesto" quanto "Nenhum homem é honesto" são falsas. Suas contraditórias, "Alguns homens não são honestos" e "Alguns homens são honestos", são ambas verdadeiras.

Capítulo 8. Uma proposição é singular se expressa um único fato. Por exemplo, "todo homem é mortal". Entretanto, se uma palavra tem dois significados que não se combinam para constituir um único, por exemplo, se a palavra "vestimenta" significasse "homem" e também "cavalo", então "a vestimenta é branca" não seria uma afirmação singular, pois significaria "o homem e o cavalo são brancos", o que é equivalente às duas proposições simples "um homem é branco e um cavalo é branco".

Capítulo 9. De proposições contraditórias sobre o passado e o presente, uma deve ser verdadeira e a outra falsa. Mas quando o sujeito é individual e a proposição é futura, isso não ocorre. Pois, se assim fosse, nada aconteceria por acaso, e tudo por necessidade.

Quando existem duas afirmações contraditórias, uma deve ser verdadeira e a outra falsa, portanto qualquer afirmação deve ser verdadeira ou falsa inicialmente, ao menos.

Se podemos, tratando de uma afirmação, dizer que ela será, é impossível que ela não esteja na iminência de ser, e se ela não possui a capacidade de não acontecer, ela necessariamente deve acontecer.

Nesse caso temos que,

Ou a proposição futura -como "Uma batalha naval ocorrerá"- corresponde à realidade futura, ou sua negação, caso em que a batalha naval ocorrerá necessariamente; Ou não ocorrerá necessariamente.

Mas, na realidade, tal evento poderia tão facilmente não acontecer quanto acontecer; Tal dissonância entre o que seria esperado envolvendo os valores verdade das afirmações e a capacidade é problemática, e é conhecido como o problema dos contingentes futuros. Aristóteles não explicita realmente uma resposta a tal problema, apesar de fazer conjecturas que poderiam aludir a uma possível resposta.

Para começar a elaborar uma resposta, Aristóteles fala do conceito de potência, isso é "a possibilidade de ser e não ser", afirmando que, no momento em que uma afirmação é dita sobre o futuro, existe a possibilidade, da proposição ser correta ou não, porém, até o momento em que tal fato ocorre, ela não a é por necessidade, apenas o sendo após ser possível observar o fato ligado à proposição.

Capítulo 10. Aristóteles enumera as afirmações e negações que podem ser atribuídas quando termos 'indefinidos' como 'injusto' são incluídos. Ele faz uma distinção que se tornaria importante mais tarde, entre o uso do verbo 'ser' como uma mera cópula ou 'terceiro elemento', como na frase 'um homem é sábio', e como um predicado que significa existência, como em 'um homem é [isto é, existe]'.

Aristóteles também observa que, nas proposições indefinidas, a inversão entre sujeito e predicado (como 'homem é branco' → 'branco é homem') não acarreta mudança de significado. Essa equivalência, contudo, aplica-se estritamente aos casos indefinidos, visto que a introdução de quantificadores modifica o sentido da proposição, conforme demonstrado nos Analíticos Anteriores.

Capítulo 11. Algumas proposições parecem simples, mas na verdade são compostas. Em uma única proposição, os substantivos que se referem aos sujeitos se combinam para formar uma unidade. Assim, 'animal doméstico bípede' se aplica a um 'homem', e os três predicados se combinam para formar uma unidade. Mas no termo 'um homem branco andando', os três predicados não se combinam para formar uma unidade desse tipo.

É discutido em que formas é ou não possível combinar predicados:

É impossível quando os predicados são acidentes (caracteristicas de um sujeito que não são necessárias a ele, não fazem parte de sua essência): "O homem é músical e branco" por exemplo, pois ser músical não é necessário ao homem, tampouco ser branco; É possível quando os predicados são necessários: "Socrátes é um homem bipede". Em casos particulares, envolvendo um adjunto que torna o termo diferente do que ele seria usualmente, de forma contraditória, a combinação seria impossível: "Homem morto" iria de colisão com "Homem", por exemplo.

Capítulo 12. Este capítulo examina a relação mútua das proposições modais: afirmações e negações que afirmam ou negam possibilidade ou contingência, impossibilidade ou necessidade.

Capítulo 13. A relação entre tais proposições. Consequências lógicas decorrem dessa organização. Por exemplo, da proposição "é possível" segue-se que é contingente, que não é impossível, ou da proposição "não pode ser o caso" segue-se que "necessariamente não é o caso".

Para Aristóteles, a

Capítulo 14.

Para Aristóteles, a proposição "o que é bom não é bom" (negação direta) é mais contrária à afirmação "o que é bom é bom" do que a proposição "o que é bom é mau" (afirmação do oposto). Isso ocorre pois a primeira consiste na negação direta e essencial da própria qualidade, enquanto a segunda apenas atribui um predicado contrário (o mau), que ele afirma como acidente, uma vez que existe para ele como algo ser não bom e não mal ao mesmo tempo. Logo, a proposição que nega a outra de forma direta constitui a verdadeira oposição (a mais contrária), superando aquela que se limita a colocar o inverso como presente.

Além disso, estabelece-se que, se existe um juízo contraditório para uma afirmação, ou ele será o seu exato contrário, ou não haverá contrário algum.

Existe uma proposição afirmativa correspondente a cada negação? Por exemplo, a proposição "todo homem é injusto" é uma afirmação (já que parece afirmar a qualidade de ser injusto) ou é meramente uma negação (já que nega a justiça)? Quadrado das oposições

O quadrado lógico, também chamado quadrado das oposições ou quadrado de Apuleio, tem sua origem nas quatro sentenças marcadas a serem empregadas no raciocínio silogístico:

Todo homem é branco, a afirmativa universal; Nem todo homem é branco (ou Alguns homens não são brancos), que é a negação particular da afirmativa universal; Alguns homens são brancos, a afirmativa particular (Algum homem é branco) Nenhum homem é branco, a negação universal, que contrapõe a afirmativa particular.

Traduções

Existem, em língua portuguesa, as seguintes traduções de Da interpretação:

ARISTÓTELES. Órganon. Tradução do grego, textos adicionais e notas de Edson BINI. Bauru: Edipro, 2005. 608p. pp. 81-110: Da interpretação. ISBN 572833870.

___________. Órganon. Tradução do grego e notas de Pinharanda GOMES. Lisboa: Guimarães Editores, 1985. 174p. VOL. I. pp. 123-169: Periérmeneias.

Bibliografia recomendada KNEALE, W. e KNEALE, M. O desenvolvimento da lógica. Tradução de M. S. LOURENÇO. 3ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1991. 773p. ISBN 9723105322. J. L. Ackrill (ed.), Aristotle, Categories and De Interpretatione: Translated with Notes and Glossary. Oxford: Clarendon Press, 1963. Hans Arens (ed.), Aristotle's Theory of Language and Its Tradition. Texts from 500 to 1750, Amsterdam: Benjamins, 1984.