thumb|upright=1|Busto do imperador Cláudio A gente Cláudia (; pl. Claudii) era uma das mais proeminentes casas patrícias da Roma Antiga e sua origem remontava os primeiros dias da República Romana. O primeiro dos Cláudios a chegar ao consulado foi Ápio Cláudio Sabino Regilense, em , e, a partir daí, seus membros frequentemente ocuparam os postos mais altos da magistratura romana, tanto no período republicano como no imperial.Smith, Claudia gens, p. 762
Cláudios plebeus aparecem nos registros logo no início da história romana. Alguns eram descendentes de membros da família que passaram para a plebe enquanto que outros eram descendentes de libertos da gente e que passaram o nome aos seus descendentes. A variação Clódia (pl. Clodii) era frequentemente utilizada pelos Cláudios plebeus.
Em seu relato sobre a vida do imperador Tibério, o historiador Suetônio forneceu um sumário da história dos Cláudios e diz: "com o passar do tempo, ela [a gente] foi honrada com vinte e oito consulados, cinco ditaduras, sete censorados, seis triunfos e duas ovações". Escrevendo décadas depois da queda da dinastia júlio-claudiana, Suetônio também tratou de mencionar os maus feitos atribuídos aos membros da família.Suetônio, Vida dos Doze Césares, Vida de Tibério 1–3.
Os Cláudios patrícios eram notórios por seu orgulho e arrogância e pelo profundo ódio que nutriam pela plebe. Em sua "História de Roma", Niebuhr escreveu que:
Durante o período republicano, nenhum Cláudio patrício adotou um membro de outra gente e o imperador Cláudio foi o primeiro a romper com a tradição ao adotar Lúcio Domício Enobarbo, o infame imperador Nero.Suetônio, Vida dos Doze Césares, Vida de Cláudio 39.Tácito, Anais xii.
Origem dos Cláudios Segundo a lenda, o primeiro Cláudio foi um sabino chamado Átio Clauso (), que mudou-se para Roma com seus criados em , o sexto ano da República RomanaLívio, Ab Urbe Condita ii. 16. Nesta época, a frágil república estava em guerra contra os sabinos e conta-se que Clauso seria o líder da facção que visava a paz com os romanos. Quando seus esforços deram em nada, ele desertou levando consigo nada menos que 500 homens prontos para guerra segundo Dionísio de Halicarnasso.Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas v. 40.
Clauso, que trocou seu nome sabino pela forma latina "Ápio Cláudio" (), foi listado entre os patrícios e recebeu uma cadeira no Senado Romano, do qual se tornou rapidamente um dos mais influentes membrosSuetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Tibério 1.. Seus descendentes foram agraciados com um túmulo no sopé do monte Capitolino e seus seguidores receberam terras do outro lado do rio Aniene, os primeiros membros da futura tribo "Cláudia Antiga".
Conta-se que o imperador Cláudio teria feito referência a estas tradições num discurso perante o Senado no qual ele defendeu a admissão dos gauleses entre os senadores. "Meus ancestrais, o mais antigo dos quais foi imediatamente aceito como cidadão e nobre de Roma, me encorajam a governar pela mesma política de transferir para esta cidade todos os méritosos notáveis, onde quer que sejam encontrados".Tácito, Anais xi. 24. Já no período imperial, a influência dos Cláudios era tão grande que o poeta Virgílio os elogiou com um anacronismo proposital. Em sua Eneida, ele fez de Átio Clauso um contemporâneo de Eneias para cuja presença ele conclama uma horda de quirites ("lanceiros", um termo que depois passaria a designar os próprios romanos).Virgílio, Eneida VII, 706, 707.
Etimologia O nome Cláudio (Claudius), originalmente Clauso (Clausus), é geralmente tido como sendo uma derivação do adjetivo latino "claudus", que significa "manco" ou "coxo". Como cognome, Claudo (Claudus) é ocasionalmente encontrado em outras gentes. Porém, como não existe na tradição nenhuma história de um antigo Cláudio que fosse manco, é possível que o nome seja uma referência a um ancestral de Átio Clauso. É possível ainda que a referência seja metafórica ou irônica; não se pode descartar, ainda, a hipótese de que esta hipótese de derivação seja errônea. A metatese de "Clausus" em "Claudius" (e em sua forma plebeia "Clodius") envolve alternância de "o" e "au", o que era comum em palavras de origem sabina. A alternância de "s" e "d" ocorre em palavras emprestadas do grego: "rosa" em latim de "rhodos" em grego, por exemplo. Porém, neste caso, "clausus" ou "closus" é uma palavra sabina que se transformou em "clod-" em latina. O nome pode ter se originado de colonos gregos no Lácio, mas não há evidências que sustentem esta hipótese.Dictionnaire étymologique latin, p. 44.Dictionnaire étymologique de la langue latine, p. 126.
Prenomes (praenomina) thumb|upright=.8|Marco Cláudio Marcelo, um dos heróis da Segunda Guerra Púnica e o mais proeminente membro do ramo plebeu da gente Cláudia
Os primeiros Cláudios preferiam os prenomes Ápio (Appius), Caio (Gaius) e Públio (Publius) e estes foram utilizados pelos Cláudios patrícios por toda sua história. Tibério (Tiberius) foi utilizado pela família dos Cláudios Neros e Marco (Marcus), apesar de utilizado ocasionalmente pelos primeiros Cláudios patrícios, era muito usado pelos ramos plebeus da família.Smith, Claudius, pp. 765–775 Segundo Suetônio, a gente evitava o prenome Lúcio (Lucius) por que dois dos primeiros membros que o utilizaram trouxeram desonra para a família, um deles condenado por roubo e outro, por assassinato. Os Cláudios plebeus aparentemente utilizaram todos os prenomes dos Cláudios patrícios (apesar de menor preferência por "Ápio"), e também Quinto (Quintus), Sexto (Sextus) e, pelo menos ocasionalmente, Lúcio (Lucius).Smith, Claudius (plebeus), p. 775
O prenome Ápio é geralmente tido como exclusivo dos Cláudios e seria uma latinização do nome sabino Átio. Mas, na realidade, há outras figuras na história romana com o nome Ápio e, mais tarde, o prenome foi utilizado por gentes plebeias como os Júnios e os Ânios. Assim, parece ser mais correto afirmar que os Cláudios foram a única família patrícia de Roma a utilizar o prenome Ápio. O prenome sabino equivalente, Átio, tem sido alvo de debates. A forma "Attus" é mencionada por Valério Máximo, que o liga com o nome bucólico grego "Atys". Braasch o traduziu para o alemão como "väterchen" ("papaizinho", "pequeno pai") e conectou o termo com outros nomes infantis para os pais, como "atta", "tata" e "acca". Segundo ele, estes termos estão na origem do prenome "Tácio" (Tatius), também sabino, e "Atílio" (Atilius).Braasch, pp. 7-8.
No final do período republicano e começo do imperial, os Cláudios Neros, que se transformaram na família imperial, adotaram o prenome Décimo", raramente utilizado por famílias patrícias. Logo depois, a nova família imperial passou a substituir os prenomes tradicionais por nomes que entraram para a família como cognomes, como "Nero", "Druso" e "Germânico".
Ramificações e cognomes (cognomina) Os Cláudios patrícios tinham vários sobrenomes (cognomes), incluindo Cego (Caecus), Cáudice (Caudex), Centão (Centho), Crasso (Crassus), Nero, Pulcro (Pulcher), Regilense (Regillensis) e Sabino (Sabinus). Estes dois últimos, embora aplicáveis à toda gente, foram raramente utilizados depois que os principais cognomes se consolidaram. Poucos Cláudios patrícios foram mencionados sem um sobrenome. Os Cláudios plebeus usavam os sobrenomes Aselo (Asellus), Canina, Centúmalo (Centumalus), Cícero (Cicero), Flâmine (Flamen) e Marcelo (Marcellus).
A maioria dos que utilizaram a grafia Clódio (Clodius) eram descendentes de membros plebeus da gente, mas uma família que utilizou este sobrenome era um ramo cadete da família dos Cláudios Pulcros que voluntariamente passou para a plebe e passou a utilizar esta forma para se diferenciar de seus parentes patrícios.Smith, Claudius (40), p. 771
Cláudios Sabinos, Regilenses, Crassos e Cegos thumb|thumb|upright=.8|Imperador romano Nero
Os primeiros Cláudios tinham o sobrenome de "Sabino", um sobrenome comum a todos os descendentes de sabinos como era o caso do Cláudios. Ele só deixou de ser utilizado depois de ter sido substituído por "Crasso".
"Regilense", ocasionalmente encontrado na forma "Inregilense", era um sobrenome dos primeiros Cláudios e era uma referência à cidade de Regilo, um assentamento sabino onde vivia Átio Clauso com sua família e seguidores antes da migração para Roma. Sua localização exata é desconhecida, mas certamente ficava às margens do lago Regilo, onde algumas das mais importantes batalhas da história da República Romana foram travadas. O mesmo cognome era utilizado também pelos Postúmios, mas, no caso deles, o nome era uma referência à Batalha do Lago Regilo, na qual o general romano vitorioso foi o ditador Aulo Postúmio Albo.Lívio, Ab Urbe Condita xxx. 45.Niebuhr, vol. i. p. 556.
"Crasso", por vezes na forma diminutiva "Crassino", era um sobrenome comum geralmente traduzido como "grosso", "sólido" ou "monótono".Cassell's Latin and English Dictionary, "Crassus". Este sobrenome substituiu "Sabino" no ramo principal da gente Cláudia e foi utilizado do ao . As outras principais famílias dos Cláudios patrícios descendiam de Ápio Cláudio Cego, desta mesma estirpe. Seus filhos usavam os sobrenomes Crasso, Pulcro, Centão e Nero. Porém, foi nesta mesma geração que se extiguiram os Cláudios Crassos.
"Cego", o sobrenome de um dos Cláudios Crassos, é uma referência à sua cegueira, bem atestada nas fontes, embora ele só a tenha adquirido na velhice. Segundo uma lenda, Ápio Cláudio Cego foi cegado pelos deuses durante seu censorado depois de induzir a antiga família dos Potitos a ensinarem os ritos sagrados de Hércules a escravos públicos. Conta-se que os próprios Potitos teriam recebido um castigo pior e foram todos mortos. Porém, é importante ressaltar que Cláudio Cego era relativamente jovem na época de seu censorado, em , e foi eleito cônsul dezesseis anos depois, em .Lívio, Ab Urbe Condita ix. 29.</ref> O irmão de Cego, que compartilhava do mesmo prenome, foi destacado pelo sobrenome "Cáudice", que significa, literalmente, "tronco de árvore", mas foi utilizado neste caso de forma metafórica como um insulto e significa "estúpido". Contudo, segundo Sêneca, o Jovem, ele teria obtido este sobrenome por sua atenção aos assuntos navais da república.Sêneca, o Jovem, , De Brevitate Vitae, 13.
Membros Ápio Cláudio Sabino Inregilense, cônsul em . Nascido Átio Clauso, um sabino, levou sua família e seguidores para Roma em e foi admitido entre os patrícios Ápio Cláudio Sabino Regilense, cônsul em , foi enviado para lutar contra équos e volscos, mas seus próprios soldados se revoltaram e foram punidos com uma dizimação. Lutou ferozmente contra a lei agrária proposta por Espúrio Cássio e foi processado, mas se suicidou antes do julgamentoLívio, Ab Urbe Condita ii. 56-61.Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas ix. 43-45, 48-54.Niebuhr, vol. ii, pp. 186, 219-228. Caio Cláudio Sabino Regilense, cônsul em , ano da Revolta de Ápio Erdônio. Foi um tenaz oponente de várias leis e reformas favoráveis aos plebeus.Lívio, Ab Urbe Condita iii. 15-21, 35, 40, 58; iv. 6.Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas x. 9, 12-17, 30, 32; xi. 7-11, 49, 55, 56. Ápio Cláudio Crasso, cônsul em , o líder do colégio de decênviros, função que manteve até , quando foi preso num escândalo sobre a jovem Vergínia. Foi executado ou, possivelmente, se suicidou;Lívio, Ab Urbe Condita iii. 33, 35-58.Dionísio de Halicarnasso, Antiguidades Romanas x. 54–xi. 46.Fastos Capitolinos Ápio Cláudio Crasso, tribuno consular em . Segundo Lívio, foi um violento adversário dos plebeus e de seus tribunos.Lívio, Ab Urbe Condita iv. 35, 36. Públio Cláudio Crasso, filho mais novo do decênviro.Lívio, Ab Urbe Condita vi. 40. Ápio Cláudio Crasso, tribuno consular em , durante o Cerco de Veios. Propôs uma lei que permitia que um dos tribunos da plebe interrompesse os trabalhos de outro.Lívio, Ab Urbe Condita v. 1-6, 20.Niebuhr, vol. ii, p. 439, note 965.