miniaturadaimagem|300px O conjunto dos movimentos de mulheres indígenas no Brasil é uma articulação nacional de movimentos sociais compostos por mulheres integrantes de povos originários do território brasileiro. Tais grupos atuam de forma organizada nos âmbitos local e regional desde a década de 1970, todavia a movimentação nacional tornou-se mais expressiva desde a década de 2010.; Veja-se também o Mapa das Organizações de mulheres indígenas do Brasil. São compostos por mulheres de quase duas centenas de etnias indígenas unificadas pela luta em defesa de seus territórios e culturas ancentrais, em prol da preservação da natureza, em torno de reivindicações dos direitos das mulheres e, ainda, por pautas alinhadas a ideais anticoloniais e anticapitalistas.Inácio de Oliveira, A. (2021). "As representações do protagonismo indígena feminino na longa duração: das crônicas quinhentistas aos manifestos de cura da Terra". Anais do 31º Simpósio Nacional de História: História, verdade e tecnologia (Simpósio temático Povos Indígenas, Gênero e Violências: histórias marginais).de Sousa Lima, Samanta. (2021). Racismo Ambiental e as comunidades indígenas: uma visão decolonial e histórica da luta indígena na atualidade. Trabalho de Conclusão de Curso, publicado em: RECIMA21 - Revista Científica Multidisciplinar - ISSN 2675-6218, 1(1), e25282.

Apesar de uma maior visibilidade no tempo presente, as mulheres indígenas se movimentam em defesa de suas culturas e territórios desde o século XVI.Garcia, Elisa Frühauf. 2020. "As mulheres indígenas na formação do Brasil: Historiografia, agências nativas e símbolos nacionais". In: Georgina Santos & Elisa Garcia (Orgs.) Mulheres do mundo Atlântico: gênero e condição feminina da época moderna à contemporaneidade. Belo Horizonte: Fino Traço.Sampaio, Paula Faustino. 2020. "Por uma história decolonial das mulheres indígenas". In: Natividad Gutiérrez & Losandro Antonio Tedeschi (Org.). Fronteras de género, subjetividades e interculturalidad. Ciudad de México: Universidad Nacional Autónoma de México, Instituto de Investigaciones Sociales; [Brasil] : Universidade Federal Da Grande Dourados. ISBN 9786599049705

História

miniaturadaimagem|300px|Tuíre Kayapó protesta contra a construção da Usina Belo Monte em Altamira durante o 1º Encontro de Povos Indígenas do Xingu em 1989 A organização nacional dos movimentos de mulheres indígenas está inserida em um contexto mais amplo de mobilização das populações originárias do Brasil em luta por seus direitos.Matos, Maria Helena Ortolan. (2012) "Mulheres no movimento indígena: do espaço de complementariedade ao lugar da especificidade." In: Ângela Sacchi & Márcia Maria Gramkow (Orgs.). Gênero e povos indígenas. Coletânea de textos produzidos para o "Fazendo Gênero 9" e para a "27a Reunião Brasileira de Antropologia". - Rio de Janeiro, Brasília: Museu do Índio/ GIZ / FUNAI, pp. 140-169. Estes povos mobilizaram-se em defesa de suas culturas desde o início da colonização do Brasil.

Ao longo de toda a história das mulheres indígenas, existe um número expressivo de episódios e processos de protagonismo histórico, resistência anticolonial e luta por direitos.

Desde a década de 1970, os movimentos indígenas organizam sua atuação política formalmente por meio de assembleias e articulações regionais, tanto em termos gerais (enquanto povos indígenas), quanto em espaços exclusivos de mulheres.

A organização nacional dos povos indígenas existe, pelo menos, desde a década de 1980; a articulação nacional específica das mulheres indígenas é mais recente, cujo amplo engajamento e relativa repercussão midiática são fenômenos característico da década de 2010.

Século XX Os povos indígenas tiveram notória atuação na Constituinte brasileira, de 1987, por meio da elaboração do capítulo sobre os direitos indígenas.Cunha, Manuela Carneiro da (2018). Índios na Constituição. Novos estudos CEBRAP, v. 37, p. 429-443.

Em torno disto, ocorreram episódios emblemáticos da história dos movimentos indígenas, como o o discurso de Ailton Krenak no Congresso Nacional, em 1987;Krenak, Ailton (2019). Discurso de Ailton Krenak, em 04/09/1987, na Assembleia Constituinte, Brasília, Brasil. GIS-Gesto, Imagem e Som-Revista de Antropologia, 4(1), 421-422. Consultado em 10 de setembro de 2021. e o protesto de Tuíre Kayapó, contra a construção da Usina de Belo Monte, em 1989.

Ainda na década de 1980, dois grupos importantes despontaram: a Rede GRUMIN de Mulheres Indígenas, fundada por Eliane Potiguara;Ferreira, Gláucia Cristina (2015). Mulheres indígenas nos blogs: discursos e identidades. Dissertação de Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), p. 65. Consultado em 05 de abril de 2021. e o Conselho Nacional de Mulheres Indígenas (CONAMI), criado no ano de 1985.Fonseca, Lívia Gimenes Dias da. (2016). Despatriarcalizar e decolonizar o estado brasileiro: um olhar pelas políticas públicas para mulheres indígenas. Tese de doutorado - Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília, p. 135. Consultado em 05 de abril de 2021.

Século XXI esquerda|miniaturadaimagem|1ª Marcha das Mulheres Indígenas Nas primeiras duas décadas do terceiro milênio, os movimentos de mulheres indígenas no Brasil atingiram alguns marcos importantes:

2005 - Fundação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil durante o Acampamento Terra Livre daquele ano com o objetivo de fortalecer a união dos povos indígenas das diferentes regiões e organizações do país, bem como, mobilizar estes grupos e sujeitos contra as ameaças de violências e em prol de seus direitos. 2017 - Expressiva participação feminina no Acampamento Terra Livre. Cerca de mil mulheres indígenas se reuniram em uma grande plenária para discutir a saúde da mulher indígena e a articulação nacional da luta das mulheres indígenas.Dutra, Juliana Cabral & Mayorga, Claudia (2019). Mulheres Indígenas em Movimentos: Possíveis Articulações entre Gênero e Política. Revista Psicologia: Ciência e Profissão 2019 v. 39 (n.spe), e221693, pp. 113-129. Consultado em 05 de abril de 2021. 2019 - Mais de 3 mil mulheres indígenas estiveram presentes na 1ª Marcha das Mulheres Indígenas no dia 13 de agosto de 2019. Com o tema "Território: nosso corpo, nosso espírito" o evento foi um dia histórico para a luta das mulheres indígenas. No dia seguinte a esta marcha, elas se somaram à tradicional Marcha das Margaridas.Almeida, Gabriela Maria Farias Falcão de. (2019). Agosto feminista em Brasília: Margaridas, indígenas e parlamentares afirmando direitos de mulheres. Revista O Público e o Privado, n. 34, jul/dez de 2019�, p. 290. Consultado em 05 de abril de 2021. 2020 - Por conta da pandemia de COVID-19, as mulheres indígenas organizaram-se em uma assembleia virtual nos dias 8 e 9 de agosto de 2020. Sob o tema “O sagrado da existência e a cura da terra”,Tiriba, Lia, Rodrigues, Maria Cristina Paulo, & Antunes, José Luiz Cordeiro (2020). Pandemias, Pandemônios e lutas entre capital e trabalho na Amazônia. Revista Trabalho Necessário, 18(37), p. 3. Consultado em 05 de abril de 2021. deram continuidade à afirmação da relação íntima entre "corpo-território"Schubert, A. M. P., Kayapo, A. N. L., & Ulrich, C. B. (2020). Mulheres indígenas-indígenas Mulheres: Corpos-territórios-devastados-interditados. Revista do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 4(7). Consultado em 05 de abril de 2021. lançando pela primeira vez a ideia de "Cura da Terra" que posteriormente foi adotada com tema central do 1º Encontro Global das Mulheres Indígenas, ocorrido no dia 5 de setembro do mesmo ano.Pereira, Joselaine Raquel da Silva (2020). Mulheres da Terra: Um panorama antropológico sobre as diversidades de relações e conexões entre a terra e as mulheres em Abya Yala. Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharel em Antropologia - Instituto Latino-americano de Arte, Cultura e História da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Consultado em 05 de abril de 2021. 2021 - A 2ª Marcha das Mulheres Indígenas ocorreu no dia 10 de setembro de 2021, sob o tema " na ocasião da votação do Marco Temporal.

É expressivo o número de mulheres indígenas que adentraram as universidades nestas primeiras duas décadas do século XXI. Muitas ativistas são advogadas, médicas, cientistas e pós-graduadas.Faustino, Rosângela Célia; Maria Simone Jacomini Novak & Isabel Cristina Rodrigues. (2020)."O acesso de mulheres indígenas à universidade: trajetórias de lutas, estudos e conquistas." Revista Tempo e Argumento 12.29 (2020): 01-30.Alves, Lidiane da Conceição. (2019). Mulheres indígenas na pós-graduação: trajetórias e r-existências. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social)—Universidade de Brasília, Brasília. Além disso, os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas sempre estiveram representados pelas cacicas, pajés, parteiras, mães e militantes indígenas das diferentes organizações.

Em menor medida, mulheres indígenas adetraram também a política eleitoral brasileira, vide o exemplo de Joênia Wapichana, primeira mulher indígena eleita deputada federal no Brasil ou Nara Baré, a primeira mulher a assumir a liderança da Coordenação Executiva das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Organizações Em fevereiro de 2020, o Instituto Socioambiental mapeou 92 organizações de mulheres indígenas, presentes em 21 estados do Brasil. Tais organizações articulam-se nos âmbitos nacional, regional e local. A maioria destas são das regiões Norte e Centro-Oeste do país, sendo Amazonas, Mato Grosso, Pará e Mato Grosso do Sul os estados com um maior número de organizações. Dentre elas:

Nacional ANMIGA - Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade.

Regionais União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), fundada duas décadas depois da COIAB - Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Nordeste de Rondônia Associação das Mulheres Indígenas do Médio Solimões e Afluentes Departamento de Mulheres da APOINME - Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo Departamento de Mulheres da CITA - Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns

Locais Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia. Kunague Aty Guasu e Associação de Mulheres Indígenas Terena Urbana - Mato Grosso do Sul. Associação de Yumurikumã das Mulheres Xinguanas - Mato Grosso Associação de Mulheres Indígenas da Bahia. Articulação de Mulheres Indígenas do Maranhão. Conselho de Mulheres Indígenas Potiguara da Paraíba.

Atuação política e cultural Autorrepresentação digital

Os atos políticos e documentos históricos dos movimentos de mulheres indígenas sofrem uma invisibilização dupla: midiática e acadêmica.Sampaio, Paula Faustino (2015). "Silêncios e palavras na rede de significados sobre as mulheres indígenas no Brasil." XXVIII Simpósio Nacional de História: lugares dos historiadores, novos e velhos desafios, Florianópolis A escassa representatividade das mulheres indígenas nessas instâncias reverbera em outros âmbitos de transmissão de informação.Silva, Flávia Campos (2018). Mulheres indígenas e os espaços midiáticos: uma reflexão sobre silenciamento, memória e resistência. Revista Latinoamericana de Estudios del Discurso, 18(2), pp. 23-41. Consultado em 05 de abril de 2021. Essa escassez é criticada pelas próprias mulheres indígenas, que se movimentam para mudar esta realidade.

Uma característica dos movimentos de mulheres indígenas do tempo presente é a capacidade de autorrepresentação; isto é, em termos tanto de uma representatividade política ou ações autônomas, quanto de produção de conhecimento e cobertura dos eventos e fatos sobre si mesmas, principalmente por meio da internet e de mídias independentes.