thumb|350px|Desembarque da Baía das Mós (gravura em cobre publicado em Cristóbal Mosquera de Figueroa, «Comentario en breve compendio de disciplina militar, en que se escriue la jornada de las islas de los Açores». Madrid, Luiz Sanchez, 1596. Desembarque da Baía da Mós ou batalha da ilha Terceira () foi uma operação militar levada a cabo nos dias 26 e 27 de julho de 1583 por uma força espanhola, comandada por D. Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz de Mudela, que pôs termo à resistência da ilha Terceira ao domínio de Filipe II de Espanha.Cristóbal Mosquera de Figueroa, Comentario en breve compendio de disciplina militar, en que se escriue la jornada de las islas de los Açores / por Christoual Mosquera de Figueroa. - En Madrid : por Luiz Sanchez, 1596.Relacion de la iornada, expugnacion, y conquista de la Isla Tercera, y las demas circunuezinas, que hizo don Aluaro de Baçan, Marques de Santacruz ... y del sitio y disposicion dela ciudad de Angra, y Villas y Lugares de su contorno ....Cesáreo Fernández Duro, La conquista de las Azores en 1583. Madrid, Est. Tipográfico Sucesores de Rivadeneyra, 1886. Enquadramento geo-político No contexto da crise de sucessão de 1580, os Açores declararam-se a favor de D. António, o Prior do Crato, e, sob a liderança do corregedor Ciprião de Figueiredo, prepararam-se para a resistência armada.
Aconselhada pelo capitão do donatário na ilha, Rui Gonçalves da Câmara, futuro 1.º conde de Vila Franca em prémio dos seus serviços a Castela, a aristocracia micaelense aderiu ao partido de Filipe II de Espanha, entregando a ilha voluntariamente.
Pelo contrário, na Terceira, a nobreza e o povo de Angra, sede do bispado açoriano e residência do corregedor, decidiu manter a sua adesão à causa antonina, tornando-se o principal centro de resistência à união com Castela.
Numa primeira tentativa de conciliação, Filipe II enviou emissários à ilha, com promessas de perdão pela rebeldia e generosas honrarias, as quais foram rejeitadas. Face ao insucesso da diplomacia, em Julho de 1581 enviou uma expedição militar para submissão da ilha, a qual acabou derrotada na batalha da Salga, sendo obrigada a retirar.
No Verão do ano seguinte, já quando o rei D. António I se encontrava nos Açores com uma armada francesa comandada por Filippo Strozzi, Filipe II enviou uma nova e mais poderosa armada às águas dos Açores. Tendo D. António retomado parcialmente o controlo da ilha de São Miguel, as armadas acabaram por dar batalha ao largo daquela ilha, num recontro que ficou conhecido como a Batalha Naval de Vila Franca, de que resultou o desbarato das forças luso-francesas. Perdida definitivamente a ilha de São Miguel, D. António refugiou-se na Terceira, de onde partiu novamente para o exílio em França.
Dada a importância geoestratégica do arquipélago, Filipe II resolveu preparar uma poderosa expedição, entregando o seu comando a D. Álvaro de Bazán, o seu mais experiente almirante. Foi essa armada que em Julho de 1583 partiu de Lisboa à conquista da Terceira.
A descrição que se segue é retirada dos Anais da Ilha Terceira, de Francisco Ferreira Drummond.
Partida da expedição A armada castelhana saiu de Lisboa a 26 de Junho de 1583, dois anos após a batalha da Salga.
A força naval constava de 12 galeras, 2 galeões e mais de 31 naus grossas, barcos e baixeis de menor grandeza, fretados a diferentes nações.
O comando da expedição, com o título de general de mar e terra, estava confiado ao marquês de Santa Cruz de Mudela, D. Álvaro de Bazán, o herói da batalha de Lepanto.
Embarcaram-se nesta poderosa armada 10 000 soldados veteranos espanhóis, 1 600 alemães, duas companhias de italianos e uma de portugueses. Serviam de mestres de campo D. Lopo de Figueroa, D. Francisco de Bobadilla e D. Juan de Sandoval y Borja, filho do marquês de Denia, que depois seria o 1.º marquês de Villamizar.
Ao regimento dos alemães comandava o conde Jerónimo de Lodron, aos italianos Luigi Pignatelli e Ludovico Afflicto e aos portugueses D. Félix de Aragão.
Chegada da Armada a São Miguel A 3 de Julho chegaram à vista da ilha de São Miguel, mas por serem os ventos escassos, como a esquadra se não podia aproximar da terra e não queria demorar-se, enviou o marquês um barco com ordem ao mestre de campo Agustín Iñiguez de Zárate, para que este, com os 2 000 espanhóis que no ano antecedente haviam ficado naquela ilha, se embarcasse nas galeras ancoradas no porto de Ponta Delgada.
Porém, fazendo o marquês força de vela, a 19 de Julho entrou em Vila Franca do Campo, a carregar artilharia, bestas, munições de guerra e outros bastimentos, passando logo depois àquele porto da cidade de Ponta Delgada, onde uma parte da armada tinha fundeado.
Mandou igualmente para bordo os cinco soldadas que tinham ido da Terceira àquela ilha saber notícias, os quais ele muito folgou achar, desenvolvendo o intento de os remeter com embaixada ao conde Manuel da Silva Coutinho que comandava as forças acantonadas na Terceira.
Dispostas ali do melhor modo as coisas, com tão poderosa armada e tanta gente de guerra, se animou o marquês a voltar sobre ilha Terceira, para a qual, em razão do vento noroeste, não pôde navegar antes do dia 22 de Julho . Chegada da armada à Terceira No dia 24 de Julho aproximou-se da ilha e foi visto pela parte do norte, de forma que às 9 horas do mesmo dia se achavam as galés sobre a praia da vila de São Sebastião, no lugar denominado o Porto Novo .
Tocou-se logo na vila da Praia a rebate, pondo-se em ordem de guerra toda a milícia; e o mesmo se fez em São Sebastião e na cidade de Angra, em cuja praça mandou o conde Manuel da Silva Coutinho ajuntar os carros de artilharia e a gente de cavalo, comandada pelo esforçado Gaspar de Goão. Nesse mesmo dia, passou revista à infantaria de toda aquela vasta capitania, e aos seus comandantes, estando presentes os cirurgiões e capelães do exército. Também foram ali reunidas as munições, bagagens e os necessários mantimentos para vários dias; o que tudo andava prevenido há muito tempo.
Em toda a costa mandou o conde pôr vigias. Contudo, já a pequena guarnição que se achava nos fortes de São Sebastião, Pesqueiro e São Francisco tinha feito sinal, batendo com muita e mui grossa artilharia as galés que se tinham aproximado daquele porto. Bloqueio do porto de Angra e reconhecimento das costas da ilha Chegando o marquês defronte de Angra, achou no seu porto ancorada a frota em que tinha vindo de Belle Isle as forças francesas comandadas por Aymar de Clermont de Chaste, o comendador de Chaste, e bem assim outros navios de mercadores; e indo dar fundo na enseada que chamam baía das Mós, começou a reconhecer a ilha; em consequência do que achou não estar ela menos fortificada do que lhe tinham informado.
Em todo aquele dia 24 de Julho, durante a noite, e no dia imediato, que era o do Apóstolo Santiago, se ocupou o marquês em reconhecer a situação e estado da ilha.
Os mestres de campo D. Francisco de Bobadilla, Agustín Iñiguez de Zárate, e outras capitães, cada um de per si, e algumas vezes juntos, se ocuparam deste exercício.
O próprio D. Álvaro de Bazán, com D. Cristóbal de Eraso, o seu lugar-tenente, guiados por Aleixo Pacheco de Lima, Melchior Veloso, Diogo Gonçalves Ferreira e Domingos Álvares, pessoas da governança da referida vila de São Sebastião, andou de noite sondando a baía e observando onde havia menos morrões acesos, procurando os lugares e pedras mais convenientes ao desembarque do exército.
E apesar dos diferentes pareceres a este respeito, achou ser melhor porto o denominado das Mós, abaixo da vila de São Sebastião, distante duas léguas de Angra e uma da vila da Praia. Mandou portanto o marquês bloquear o porto de Angra por quatro galeras a fim de que os navios não saíssem a perturbá-lo.
Começado no reconhecimento da ilha, logo as guarnições dos fortes lhe haviam atirado muitas descargas de artilharia, que lhe não fizeram dano algum; motivo por que ele disso não fez caso, antes mandou que a armada não tomasse vingança alguma do insulto que se lhe fazia.
Tentativa de solução negociada Querendo D. Álvaro de Bazán intentar todos os meios de pacificação, enviou um trombeta e um emissário a terra, convidando os seus moradores para aceitarem perdão de vidas e fazendas, navios para os estrangeiros se embarcarem e saírem com suas armas, bandeiras e tambores. Porém, os de terra, cruelmente, fizeram retroceder a embaixada, disparando-lhe muitos tiros de artilharia.
Esta resposta, assaz dura, desiludiu o marquês, pois ele estava persuadido de que à vista de poder tão formidável as defensores da Terceira abandonariam o projecto de a resistir.
Para que do perdão constasse em toda a ilha e restassem quaiaquer dúvidas sobre as suas intenções, furtivamente, de noite, lançou em terra dois daqueles soldados terceirenses que tomara na ilha de São Miguel e que desta ilha tinham ido saber notícias, entregando-lhes cartas para o conde Manuel da Silva Coutinho e mais pessoas da governança, com a cópia da amnistia geral, prometendo-lhe ainda, por esta última vez, outros partidos bem vantajosos a todos eles.
No entretanto os galeões e galés de armada tinham amanhecido entranhados na mencionada baía das Mós, esperando a resposta das cartas; e as outras embarcações estavam aproximadas à pedra em diferentes partes da costa do sul, tornando incerto o desembarque do inimigo.
Achava-se o conde neste dia ao portão de São Bento, extramuros de Angra, com a gente de cavalo, pois havia destacado a maior força para a Praia; e chegando ali os dois emissários, lhe entregaram a ele próprio, como lhes era determinado, as cartas do marquês, as quais ele aceitou, abriu, e leu em silêncio.
Acabando porém de as ler, voltou-se para a gente de guerra, nobres e magistradas da cidade, e lhes disse que naquela armada apenas vinham 7 000 homens, força que os não devia intimidar, e, dirigindo-se aos portadores das cartas, acrescentou que fossem dizer ao marquês que ele, confiado em Deus, esperava repelir as forças castelhanas e ver antes de um ano restaurado Portugal.
Com esta altiva e terminantíssima resposta despediu os dois enviados, que logo se recolheram à armada onde os esperava o marquês, o qual, vendo assim desprezada a sua proposta, decidiu tentar o desembarque por ali no dia seguinte, que era o da gloriosa Santa Ana, 26 de Julho de 1583, considerado, por muitas razões que bem o convenceram , ser mais conveniente pelejar contra a dificuldade da natureza que resultavam da aspereza da costa do que contra os reparos de artilharia dos fortes que protegiam o areal da Praia. O desembarque D. Álvaro de Bazán determinou portanto, que, sem perder tempo, as galeras, caravelas e outros navios pequenos, em diversas partes da costa do sul, acometessem a ilha com ataques falsos, inquietando e dividindo os defensores da ilha, especialmente a Praia, onde era de supor o desembarque, com o fim de que, marchando a defendê-la, o conde deixasse franca entrada ao exército na sobredita enseada das Mós.
O estratagema de D. Álvaro de Bazán surtiu efeito, porque achando-se ali cinco companhias, uma de franceses e quatro de portugueses, duas destas fez o conde marchar para o forte de Santa Catarina do Cabo da Praia, deixando ali apenas três, as quais não eram guarnição suficiente para este ponto caso fosse directamente atacado.
Perseverava o conde Manuel da Silva Coutinho em defender a ilha, repartindo a gente em seus postos, e contudo o comendador de Chaste não se agradava do plano estabelecido para a defesa. Parecia-lhe que havia pouca gente para defender tantos fortes afastados uns dos outros, de forma que o primeiro não podia socorrer o último, nem ainda o do meio, pela grande distância e aspereza dos caminhos. Propôs se formasse um esquadrão volante, para acudir aonde conviesse; mas não havia gente para isso, pelo muito que havia a defender .
Para remediar de alguma forma aquela falta, e se darem prontamente os avisos, puseram sobre as montanhas alguns sinos para com eles tocarem a rebate.