Transnístria,Por vezes grafada Transdnístria, Transdniestre ou Transdniéstria oficialmente República Moldava Pridnestróvia (RMP) e localmente chamada Pridnestróvia ou Pridnestróvie, é um estado separatista sem litoral reconhecido internacionalmente como parte da Moldávia que controla a maior parte da estreita faixa de terra entre o rio Dniester e a fronteira entre a Moldávia e a Ucrânia, bem como algumas terras do outro lado da margem do rio. A sua capital e maior cidade é Tiraspol. A Transnístria é oficialmente designada pela República da Moldávia como a Unidade Administrativo-Territorial da Margem Esquerda do Dniester. (Romeno: Unitățile Administrativ-Teritoriale din stînga Nistrului) ou como Stînga Nistrului (“Margem (esquerda) do Dniester”).

As origens da região remontam à República Socialista Soviética Autônoma da Moldávia, que foi formada em 1924 dentro da RSS da Ucrânia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética tomou partes da ASSR da Moldávia, que foi dissolvida, e da Bessarábia do Reino da Romênia para formar a República Socialista Soviética da Moldávia em 1940. A história atual da região data de 1990, durante a dissolução da União Soviética, quando a República Socialista Soviética Moldava Peridniestriana foi estabelecida na esperança de permanecer na União Soviética caso a Moldávia buscasse a unificação com a Romênia ou a independência, essa última ocorrendo em agosto de 1991. Pouco tempo depois, um conflito militar entre as duas partes começou em março de 1992 e terminou com um cessar-fogo em julho daquele ano.

Como parte do acordo de cessar-fogo, foram criadas uma Comissão de Controle Conjunto de três partes (Moldávia, Rússia e Transnístria) e uma força de manutenção da paz trilateral subordinada à comissão para lidar com as violações do cessar-fogo. Embora o cessar-fogo tenha sido mantido, o status político do território continua sem solução: A Transnístria é uma república semipresidencialista não reconhecida, mas de facto independente, com seu próprio governo, parlamento, forças armadas, polícia, sistema postal, moeda e registro de veículos. Suas autoridades adotaram uma constituição, uma bandeira, um hino nacional e um brasão de armas. Após um acordo de 2005 entre a Moldávia e a Ucrânia, todas as empresas da Transnístria que desejam exportar mercadorias pela fronteira ucraniana devem ser registradas junto às autoridades moldavas. Esse acordo foi implementado depois que a Missão de Assistência Fronteiriça da União Europeia na Moldávia e na Ucrânia (EUBAM) entrou em vigor em 2005. Além da cidadania transnistriana não reconhecida, a maioria dos transnistrianos tem cidadania moldava, mas muitos também têm cidadania russa, romena ou ucraniana. Os principais grupos étnicos são russos, moldavos/romenos e ucranianos.

A Transnístria, juntamente com a Abecásia e a Ossétia do Sul, é uma zona de “conflito congelado” pós-soviética. Esses três estados parcialmente reconhecidos ou não reconhecidos mantêm relações amigáveis entre si e formam a Comunidade para a Democracia e os Direitos das Nações.

Em março de 2022, a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa adotou uma resolução que define o território como sob ocupação militar pela Rússia.

Em setembro de 2024, o Parlamento da República separatista aprovou lei que oficializou o uso do nome "Pridnestróvie" ou "Pridnestróvia", no lugar do antigo "Transnístria".

Topônimos A região é conhecida em português por vários nomes (Transdniéstria, Transnístria, Transdnístria, Trans-Dniestre), não estando ainda generalizada uma única forma gráfica. Etimologicamente, estas grafias estão ligadas ao nome coloquial em romeno (ou moldávio) Transnistria, com o significado de "para lá do rio Dniestre", que no entanto não tem uso oficial nem do lado das autoridades moldávias, nem do lado das transdniestrianas. O rio é designado por Nistru em romeno/moldávio, por Дністе́р (Dnister) em ucraniano e por Днестр (Dnestr) em russo. Em português, é normalmente dado ao rio o nome de Dniestre, sendo também possível as variantes Dniester e Danastro.

Os documentos oficiais do governo da Moldávia referem-se à região como Stînga Nistrului (na forma longa: Unitățile Administrativ-Teritoriale din Stînga Nistrului), com o significado de "Margem Esquerda do Dniestre" ("Unidade(s) administrativa(s)-territorial(ais) da Margem Esquerda do Dniestre").

No entanto, de acordo com as autoridades transdniestrianas, o nome da autoproclamada república em inglês é Pridnestrovian Moldavian Republic, que em português seria traduzível para "República Moldava Peridniestriana" (em russo: Приднестровская Молдавская Республика, transliterado: Pridnestrovskaya Moldavskaya Respublika; em moldávio cirílico: Република Молдовеняскэ Нистрянэ, transliterado: Republica Moldovenească Nistreană; em ucraniano: Придністровська Молдавська Республіка, transliterado: Prydnistrovs'ka Moldavs'ka Respublika). Os vários nomes são siglados nas três línguas ПМР, РМН e ПМР, siglas essas presentes no brasão de armas da república.

A forma curta proposta pelas autoridades da Transnístria em inglês é Pridnestrovie, transliteração oficial do russo Приднестровье, cuja transliteração internacional é, no entanto, Pridnestrovye (em moldávio cirílico: Нистрения, transliterado: Nistrenia; em ucraniano: Придністров'я, transliterado: Prydnistrovya).

A forma Pridnestrovie, que é o nome usado no dia-a-dia em russo, bem como a ucraniana Prydnistrovya, significam literalmente Peridniéstria, isto é, "perto/em torno do Dniestre". O prefixo "pri-" é equivalente ao prefixo português de origem grega "peri-", com o mesmo significado. O prefixo "trans-" significa "além/para lá", e o seu uso na maioria das línguas ocidentais (incluindo o português) reflete a posição geográfica romena e moldávia em relação ao rio Dniestre.

Por outro lado, a forma moldávia Nistrenia significa apenas Dniéstria ou "terra do Dniestre", evitando descrições quanto ao posicionamento geográfico.

Em português é costumeiro o uso das formas: Transnistria: forma gráfica romena/moldávia popularizada na região desde pelo 1924, e que foi divulgada internacionalmente principalmente durante a Segunda Guerra Mundial; Transnístria: adaptação da anterior ao português, com adição do acento; Transdniéstria: adaptação adicional do nome rio (Dniestre) por coerência com o nome usado em português (Dniestre), e mantendo o sufixo "-ia" ("terra do Transdniestre"); Transdniestre: grafia simplificada com referência apenas ao rio e sem referência/sufixo relativo à terra; Transdnístria: forma gráfica mista que usa tanto elementos romenos/moldávios ("nístria") como russos/ucranianos ("Dnister"/"Dnestr"); Trans-Nistria, Trans-Nístria, Trans-Dniéstria, Trans-Dniestre, Trans-Dnístria: formas desaconselhadas por o prefixo "trans-" não necessitar de hífen, nem haver uso do mesmo nas várias línguas locais; Pridnestróvie: grafia transliterada diretamente do russo; Pridnestróvia: adaptação gráfica da forma russa; Peridniéstria: possível adaptação etimológica da forma local em russo e ucraniano.

miniaturadaimagem|O rio Dniester em Bender. O rio dá nome ao país

História

A partir dos séculos X e XI, a história da Transnístria esteve sempre ligada à história da Ucrânia, tendo feito parte, inclusive, de um Estado poderoso e prestigioso na Europa, a Rússia de Quieve, que estabeleceu a base das identidades nacionais das nações eslavas orientais nos séculos subsequentes. A capital do principado era Quieve, hoje capital da Ucrânia. Esta relação fez com que o alfabeto utilizado pela maioria de seus habitantes fosse o cirílico, em vez do alfabeto latino utilizado na Romênia.

Após a extinção desse principado, em consequência das invasões mongóis no século XIII, o território passou por diversas mãos, até que, no final do século XVIII, foi incorporado ao Império Russo.

Com a Revolução Russa, a Transnístria foi incorporada à então criada (março de 1919) República Socialista Soviética da Ucrânia, que foi posteriormente anexada à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, quando da criação desta em dezembro de 1922.

Em 23 de agosto de 1939, a Alemanha Nazista e a União Soviética assinaram o Pacto Molotov-Ribbentrop que estipulava, entre outras coisas, o interesse soviético por territórios situados na Romênia. No período, verificam-se esforços para a "russificação" da Transnístria, inclusive com o estímulo ao assentamento de imigrantes de etnia e língua russa na região.

Administração romena e soviética

A Transnístria tornou-se uma entidade política autônoma em 1924, com a proclamação da RSSA da Moldávia, o que incluía a atual Transnístria (4 mil km²) e uma área adjacente (9 mil km²) ao redor da cidade de Balta, no entanto, ela não controlava nada da Bessarábia, que pertencia à Romênia. Uma das razões da criação da RSSA da Moldávia, foi o desejo da URSS de eventualmente incorporar a Bessarábia. A RSS da Moldávia, criada a partir duma decisão do Soviete Supremo da URSS em 02 de Agosto de 1940, era formada por parte da Bessarábia (que foi tomada da Romênia em 28 de Junho, após o Pacto Nazi-Soviético), e uma parte correspondente à atual Transnístria.

Em 1941, após as Potências do Eixo terem invadido a URSS durante a Segunda Grande Guerra, as tropas soviéticas foram derrotadas e a região ocupada. A Romênia controlou uma área que compreendia os rios Rio Dniestre e Bug, incluindo a cidade de Odessa, que foi transformada em capital regional. O território romeno, o Governo Geral da Transnístria, com uma área de 44 000 km² e uma população de 2,3 milhões de habitantes, foi dividido em 13 condados: Ananiev, Balta, Berzovca, Dubasari, Golta, Jugastru, Movilau, Oceacov, Odessa, Ovidiopol, Rîbnița, Tiraspol and Tulcin. Isso aumentou o número de falantes de moldavo-romeno em 200 000 na região. A administração romena da Transnístria tentou estabilizar a situação na área sob controle romeno, implementando um processo de romenização.

Durante a ocupação romena de 1941-44, entre 150 mil e 250 mil judeus ucranianos e romenos foram deportados para a Transnístria; a maioria foi executada ou morreu de outras causas em guetos e campos de concentração do Governo Geral. Depois que o Exército Vermelho reconquistou a área em 1944, as autoridades soviéticas executaram, exilaram ou prenderam centenas de habitantes da SSR da Moldávia nos meses seguintes, sob a acusação de colaboração com os "ocupantes germano-fascistas". Uma campanha posterior foi dirigida contra as famílias camponesas ricas, que foram deportadas para o Cazaquistão e a Sibéria. Ao longo dos dias 6 e 7 de julho de 1949, o plano denominado "Operação Sul" viu a deportação de mais de 11 342 famílias por ordem do Ministro da Segurança do Estado da Moldávia, Iosif Mordovets.

Secessão Na década de 1980, as políticas de perestroika e glasnost de Mikhail Gorbachev na União Soviética permitiram a liberalização política em nível regional. Isso levou à criação de vários movimentos informais em todo o país e ao aumento do nacionalismo na maioria das repúblicas soviéticas. Na República Socialista da Moldávia, em particular, houve um ressurgimento significativo do nacionalismo pró-romeno entre os moldavos étnicos. O mais proeminente desses movimentos foi a Frente Popular da Moldávia. Na primavera de 1988, a FPM exigiu que as autoridades soviéticas declarassem a língua estatal da Moldávia como a única e retornar ao uso do alfabeto latino e reconhecessem a identidade étnica compartilhada dos moldávios e romenos. As facções mais radicais da Frente Popular defendiam posições extremistas anti-minoritárias, etnocêntricas e chauvinistas, apelando para as populações minoritárias, particularmente os eslavos (principalmente russos e ucranianos) e osgagauzes, para partirem ou serem expulsos da Moldávia.