Meteor (em português: Meteoro) é um míssil ar-ar guiado por radar ativo além do alcance visual desenvolvido e fabricado pela MBDA System, de origem europeia, que se encontra em operação desde 2016.
História
Requisitos operacionais O desenvolvimento do míssil Meteor teve início em resposta ao Requisito Operacional da Força Aérea Real Britânica (Air) 1239 (SR(A)1239), que estipulava a necessidade de um Futuro Míssil Ar-Ar de Médio Alcance (FMRAAM) para substituir os mísseis Skyflash em serviço na RAF. Como armamento ar-ar principal do caça Eurofighter Typhoon, o vetor deveria ser capaz de engajar uma ampla variedade de alvos de asa fixa e rotativa, incluindo aeronaves remotamente pilotadas (drones) e mísseis de cruzeiro.
Embora os parâmetros de desempenho detalhados tenham sido mantidos sob sigilo militar, o requerimento estipulava que a probabilidade de acerto e a zona de não fuga deveriam ser aproximadamente o dobro das proporcionadas pelo míssil de médio alcance de referência no Ocidente à época, o AIM-120 AMRAAM."No-Escape Zone", Flight International, 16–22 de março de 1994. As dimensões e a geometria externa do míssil deveriam ser compatíveis com os pontos de fixação semi-embutidos sob a fuselagem do Eurofighter, originalmente projetados para o AMRAAM. Entre os requisitos operacionais essenciais constavam: «lançamento furtivo, cinemática aprimorada capaz de fornecer ao míssil energia suficiente para perseguir e destruir alvos de grande agilidade e capacidade de manobra, desempenho robusto contra contramedidas eletrônicas e a capacidade de a aeronave lançadora disparar e romper o engajamento o mais rápido possível, aumentando a sobrevivência do caça». A formulação desses requisitos foi diretamente influenciada pela evolução das versões avançadas do caça russo Sukhoi Su-27 armadas com variantes do míssil R-77 impulsionadas por estatorreator (ramjet).
Concorrência Em fevereiro de 1994, o Ministério da Defesa britânico emitiu um Pedido de Informações (RFI) para o desenvolvimento de um míssil ar-ar de médio alcance avançado. Quatro propostas conceituais foram apresentadas pela indústria, todas empregando propulsão integrada de motor-foguete/estatorreator: O míssil S225XR, apresentado pela British Aerospace (BAe), Alenia Difesa, GEC-Marconi e Saab Dynamics. Uma variante do míssil MICA proposta pela Matra. O míssil Advanced Air-to-Air Missile (A3M), concebido pela Daimler-Benz Aerospace e pela Bayern-Chemie. Uma variante de alcance estendido do AMRAAM desenvolvida pela Hughes."Seeing double", Flight International, 15 de março de 1995.
A concorrência formal teve início em junho de 1995, em meio a negociações entre o Reino Unido, a França e a Alemanha para harmonizar os requisitos técnicos e formar um consórcio industrial comum."British court Germany and France on FMRAAM project", Flight International, 14–20 de junho de 1995. Desde o início, a disputa caracterizou-se pelo confronto entre uma solução europeia integrada e uma proposta de origem norte-americana.
O governo dos Estados Unidos autorizou a transferência de tecnologia de propulsão avançada para apoiar a oferta da Hughes."USA offers ramjet sweetener", Flight International, 4–10 de outubro de 1995. A proposta inicial da Hughes utilizava um foguete canalizado de fluxo variável (VFDR) desenvolvido em parceria pela Atlantic Research Corporation (ARC) e pela Alliant Techsystems, embora a Força Aérea dos EUA não planejasse financiar uma versão de longo alcance do AMRAAM para não comprometer os recursos do programa do caça furtivo F-22 Raptor. A ARC também manteve entendimentos com a britânica Royal Ordnance, a única empresa no Reino Unido com capacitação técnica no setor após a decisão da Rolls-Royce de encerrar suas pesquisas com estatorreatores.
O Ministério da Defesa britânico publicou o Convite à Apresentação de Propostas (ITT) em dezembro de 1995, estipulando junho de 1996 como prazo final para a disputa de um contrato avaliado em 800 milhões de libras. Em fevereiro de 1996, a equipe liderada pelos norte-americanos já estava consolidada, enquanto a indústria europeia permanecia fragmentada.
Proposta europeia A Matra e a divisão de mísseis da DASA (LFK) planejavam apresentar uma proposta conjunta baseada no projeto MICA-Rustique (dotado de estatorreator a combustível sólido autorregulado), arranjo ao qual a BAe e a Alenia também avaliaram aderir."Matra/DASA poised to make joint RAF missile bid", Flight International, 21–27 de fevereiro de 1996. Em 1996, as divisões de mísseis da Matra e da BAe fundiram-se, originando a Matra BAe Dynamics (MBD). O consórcio industrial europeu — congregando BAe Dynamics, Matra Défense, Alenia Difesa, GEC-Marconi, Saab Dynamics, LFK e Bayern-Chemie — foi formalizado a seis semanas do encerramento do prazo de 11 de junho de 1996.. A BAe assumiu a liderança executiva do consórcio,. unificando os esforços industriais europeus.
O projeto S225XR original da BAe previa uma fuselagem sem aletas intermediárias. Contudo, as discussões técnicas demonstraram que a proposta alemã A3M, equipada com aletas, apresentava desempenho equivalente e oferecia maior amortecimento aerodinâmico em manobras de rolamento diante das tomadas de ar assimétricas do motor estatorreator. Assim, a configuração do A3M foi adotada para a proposta europeia unificada, denominada Meteor.
Proposta da Hughes A Hughes estruturou uma coligação industrial que incluía a Aérospatiale (propulsão), a Short Brothers (integração e montagem final), a Thomson-Thorn Missile Electronics (TTME), a Fokker Special Projects (atuadores de aletas) e a Diehl BGT Defence (ogiva). A adoção da designação comercial FMRAAM pela Hughes levou o Ministério da Defesa britânico a renomear o programa oficial SR(A)1239 para BVRAAM.. A Hughes ficaria encarregada da cabeça de busca ativa, com a eletrônica produzida por sua subsidiária escocesa Hughes Micro Electronics Europa. As modificações em relação ao AMRAAM incluíam um dispositivo eletrônico de segurança e armação baseado no sistema do míssil IRIS-T, uma espoleta de proximidade micro-ondas conformada e atuadores traseiros compactos.
A participação industrial europeia na oferta da Hughes foi reforçada pela substituição do motor VFDR por um estatorreator a combustível líquido da Aérospatiale-Celerg integrado a um acelerador inicial interno sem bocal da ARC.. O sistema utilizava uma bexiga elastomérica pressurizada no interior do tanque para dosar a injeção de combustível, reduzindo custos em relação a bombas centrífugas convencionais.. Cerca de 80% do desenvolvimento e produção do FMRAAM seria executado na Europa (sendo 72% no Reino Unido)..
Redução de riscos operacionais Após o recebimento das propostas em 1996, o Ministério da Defesa britânico concluiu que os riscos tecnológicos eram elevados para uma contratação direta. A Agência de Aquisições de Defesa do Reino Unido (DPA) e a Administração de Material de Defesa da Suécia (FMV) iniciaram conjuntamente um programa de Definição de Projeto e Redução de Riscos (PDRR) em 1997, concedendo doze meses para os consórcios aprimorarem suas propostas. A entrada em serviço (ISD) do míssil foi postergada para 2007..
Em julho de 1997, representantes do Reino Unido, Itália, Alemanha e Suécia reuniram-se para debater uma aquisição cooperativa.. Diante de exigências adicionais da Força Aérea Alemã,. a DASA/LFK propôs uma variante aperfeiçoada chamada Euraam, equipada com cabeça de busca ativa em banda K da DASA Ulm, receptor passivo e estatorreator reprojetado da Bayern-Chemie.
As propostas revisadas para o BVRAAM foram submetidas em 28 de maio de 1998. O Secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, enviou garantias formais ao homólogo britânico assegurando que a escolha da Raytheon (que havia adquirido a divisão de mísseis da Hughes) não sujeitaria o caça Eurofighter a restrições norte-americanas de exportação (ITAR).. Em julho de 1998, os governos do Reino Unido, Alemanha, Itália, Suécia e Espanha assinaram uma declaração formal de intenções concordando em adotar o Meteor caso este fosse selecionado pelo governo britânico.
Para mitigar custos imediatos, a Raytheon propôs uma estratégia de aquisição escalonada: fornecimento do míssil provisório ERAAM (equipado com motor de duplo pulso sólido e a eletrônica do FMRAAM) para equipar o Eurofighter a partir de 2004, com evolução posterior para o FMRAAM com estatorreator.. A equipe do Meteor avaliou uma solução provisória similar, mas optou por manter uma proposta integral baseada exclusivamente em propulsão por estatorreator desde o primeiro lote.
No Salão Aeronáutico de Le Bourget de 1999, o governo francês manifestou interesse formal no Meteor e ofereceu cobrir até 20% dos custos de desenvolvimento caso o consórcio vencesse a disputa britânica,.. integrando formalmente o projeto em setembro de 1999. Embora a Suécia tenha congelado temporariamente seus repasses orçamentários em julho de 1999,. manteve sua participação após reorganização financeira interna.
A pressão diplomática intensificou-se em agosto de 1999 e fevereiro de 2000 com cartas pessoais do presidente dos EUA, Bill Clinton, ao primeiro-ministro britânico, Tony Blair, defendendo a integração transatlântica por meio da escolha da Raytheon... Paralelamente, os chefes de governo da França, Alemanha e Espanha realizaram intensa campanha em prol do projeto europeu. A Raytheon contra-atacou com a proposta ERAAM+, integrando os requisitos do Departamento de Defesa dos EUA e oferecendo 62% de participação industrial ao Reino Unido no programa AMRAAM global."Missile market milestones", Jane's International Defense Review, vol. 33, julho de 2000. Para contrapor a oferta norte-americana, a Boeing juntou-se ao consórcio do Meteor para colaborar na integração de sistemas e no acesso a mercados externos.
Decisão Em maio de 2000, o Secretário de Estado da Defesa britânico, Geoff Hoon, anunciou oficialmente a vitória do consórcio Meteor para atender ao programa SR(A)1239. Fabrice Brégier, então diretor-executivo da Matra BAe Dynamics, declarou: «Esta decisão representa um marco histórico na consolidação de uma capacidade de defesa europeia autônoma. Pela primeira vez, a Europa equipará seus caças de combate com um míssil ar-ar europeu, gerando interoperabilidade e independência para exportação»."UK selects Meteor for Eurofighter", Jane's Missiles & Rockets, 24 de maio de 2000.
O Comitê de Defesa da Câmara dos Comuns resumiu as justificativas da escolha em seu 10.º Relatório:
Para equipar os primeiros esquadrões operacionais do Eurofighter antes da conclusão do desenvolvimento do Meteor, a RAF adquiriu um lote inicial de mísseis AIM-120 AMRAAM norte-americanos como armamento provisório.
Fase pré-contratual Em 2001, a Matra BAe Dynamics, a Aerospatiale Matra Missiles (da EADS) e a divisão de mísseis da Alenia Marconi Systems fundiram-se para criar a MBDA, consolidando a segunda maior fabricante mundial de mísseis.
Durante o Salão Aeronáutico de Paris de 2001, os ministros da Defesa do Reino Unido, França e Suécia assinaram o Memorando de entendimento operacional do programa."Three nations sign Meteor go-ahead", Jane's Missiles & Rockets, 18 de julho de 2001. A Itália formalizou sua adesão em 26 de setembro de 2001,"Italian air force signs up to join Meteor development", Flight International, 11 de setembro de 2001. seguida pela Espanha em 11 de dezembro de 2001.