Ana Luiza dos Anjos Garcez (São Paulo, 8 de outubro de 1962) é uma corredora brasileira. Abandonada pela mãe quando ainda era um bebê, cresceu na Creche Baroneza de Limeira. Aos 16 anos, foi obrigada a deixar o local por conta da idade e passou a morar em uma casa de família. Quase seis meses depois, Garcez roubou o que conseguiu da casa e foi morar nas ruas. Sem dinheiro para se sustentar, começou a usar drogas para lidar com a dura realidade das ruas de São Paulo.
Em 2000, Ana Luiza passou a morar no Ginásio Geraldo José de Almeida, mais conhecido como Ginásio do Ibirapuera, a convite do governo do estado de São Paulo. Em troca disso, treinaria com o preparador físico Wanderlei Oliveira. Hoje, mais conhecida como Animal - apelido que adquiriu quando vivia nas ruas -, é uma das maiores corredoras do Brasil e acumula centenas de prêmios. Seu reconhecimento na corrida ultrapassa as fronteiras: as mais de 500 medalhas demonstram essa relevância dentro e fora do país.
Vida pessoal
Infância Desde o início da sua vida, Ana Luiza Garcez enfrentou várias dificuldades. Assim que nasceu, foi abandonada por sua mãe. Em uma caixa de sapato, Ana Luiza e sua irmã gêmea, Ana Maria, foram deixadas na rua. Segundo conta, foram resgatadas e levadas para a Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação CASA) - antes conhecida como Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem), onde teria morado até os 16 anos.
No entanto, na Fundação Casa não há registros de Ana Luiza ou de Ana Maria. Segundo informações disponíveis, as gêmeas foram deixadas na portaria da Creche Baroneza de Limeira, uma instituição filantrópica localizada em frente ao Aeroporto de Congonhas, que hoje atua em convênio com a Prefeitura Municipal de São Paulo e atende 800 crianças.
Em entrevistaEntrevista concedida ao projeto WikiAfro em 11 de setembro de 2021. ao projeto WikiAfro, Ana Luiza contou que a estadia no local não foi fácil. Sofreu e apanhou durante anos. Estudou na primeira série por dez anos, dos 6 aos 16, e ouviu da professora que não sabia nada, que era burra.
Um exame médico feito no Serviço de Saúde Escolar da Secretaria de Estado dos Negócios da Educação quando ela tinha 13 anos, constatou que Ana Luiza tinha uma deficiência mental. Seu QI era 55 e sua idade mental era de 7 anos e 2 meses. O laudo finalizava informando que Ana necessitava de ensino especializado, o que nunca recebeu.
Aos 11 anos, aprendeu a cuidar de crianças, mas não teve a oportunidade de ser cuidada por alguém. Conforme relevou em entrevistas, apanhou no rosto, sofreu com beliscões, recebeu chineladas e urinou na cama até os 16. Quando ganhava algum presente, como uma boneca, devolvia sua dura realidade ao objeto: arrancava os cabelos e os braços.
O domingo era o pior dia da semana, pois as meninas podiam receber visitas. Garcez não sabia o porquê de as outras terem visitas e ela não. Para ela, domingo não era o dia de visita, mas, sim, o dia de isolar-se e ficar perambulando pelos cantos. Da época de criança, só guardou a tristeza.
Adolescência Na década de 1970, o responsável dos Juizados da Infância e Juventude levou a mãe das gêmeas para um encontro, no entanto, as filhas não reconheceram a mulher e alertaram que não queriam ter contato com ela.
Assim que completou 16 anos, Ana precisou deixar a Creche, por ter atingido a idade máxima permitida no local. Logo em seguida, perdeu contato com sua irmã gêmea, não quis se aproximar de sua mãe - mesmo com as tentativas da genitora. Mesmo depois de quarenta anos, Ana Luiza não tentou encontrar Ana Maria. Se tivesse uma condição financeira melhor, ela confirma que a procuraria e arranjaria um bom lugar para morarem juntas.
Quando saiu da Creche Baroneza, em 1980, arrumaram-lhe um emprego como doméstica em uma casa de família localizada em um em um bairro nobre da capital paulista. Ana Luiza fazia a limpeza da casa, lavava e passava as roupas, além de preparar as refeições. Apesar de tantas tarefas, não recebia salário – trabalhava em troca de comida e abrigo.
Após seis meses e acreditando que ganhava muito pouco pelo seu esforço e dedicação, Garcez decidiu roubar a família. Um dia, depois que a dona da casa saiu para trabalhar, ela revirou o imóvel à procura de dinheiro e, não encontrando, encheu três malas de viagem com tudo o que achava ter valor.
Um funcionário do Corpo de Bombeiros que havia próximo à casa acreditou que Ana Luiza estava indo viajar e lhe ofereceu ajuda para entrar com as malas em um ônibus com destino à Praça da República, no centro da cidade de São Paulo. Lá chegando, compartilhou os itens roubados com moradores de ruas, fazendo o mesmo ao chegar à Praça da Sé.
Conforme relata, ficou apenas com cobertores, temendo o frio das noites paulistanas. Com a filantropia, Garcez conquistou a simpatia dos meninos da rua e passou a ser líder de uma gangue.
Relacionamentos Além de não ter vínculos com nenhum membro de sua família, Ana Luiza também nunca se relacionou amorosamente com ninguém. A corredora afirma não sentir falta de uma companhia romântica. E vai além: não deixa ninguém chegar perto, correndo o risco da pessoa “levar um chute”.
Ana Luiza não gosta de falar sobre relacionamentos e logo desconversa. Ela, que diz já ter sofrido muito, se considera uma pessoa livre, sem espaço para assuntos do coração.
Vida nas ruas Ana Luiza viveu em situação de rua por 20 anos. Fez de sua casa lugares como a Praça da Sé, o Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, a Praça da República e até os bancos do Parque Ibirapuera.
Os primeiros meses morando na rua não foram fáceis. O medo e a insegurança foram estopim para Ana Luiza entrar no mundo das drogas: cheirou cola, benzina, cocaína, éter e creolina. Fumou maconha, injetou heroína nas veias, experimentou crack, mas deste último afirma não ter gostado. Para se aquecer e esquecer a fome, Garcez colocava a droga sob os olhos, a fim de que o efeito fosse mais rápido.
Conhecida nas ruas como Tia Punk, a futura atleta era a líder de uma gangue de meninos que, sob o seu comando, roubavam, assaltavam e traficavam drogas. Durante muitos anos, fez do Chafariz do Complexo Nove de Julho sua fonte de água para banho, lavagem das roupas e preparo de refeições. Fornecia alimento para os meninos que, para devolver o favor, roubavam o que ela queria. A relação não era como a de um chefe e seus empregados, assemelhando-se mais à de uma mãe que protege e cuida dos filhos.
Com a gangue, Ana Luiza ia para o bairro do Morumbi escolher casas grandes e aparentemente vazias para “fazer varal”: depois de bater palmas duas vezes e constatar que não havia ninguém no imóvel, usavam uma chave micha para entrar, tomavam banho, roubavam as roupas do varal, substituindo as roupas sujas que usavam. A prática acontecia com frequência.
Nessa época, Ana Luiza portava um revólver e o utilizava para assaltar pessoas na região da República. Aplicando um “gogó” – a vítima era surpreendida por trás, tinha seu pescoço envolvido como em um estrangulamento e o revólver tocava suas costas – anunciava o assalto. Às vezes, ela repetia a ação sem a arma, usando o dedo como se fosse o instrumento.
Por um breve período, Ana Luiza saiu das ruas. Uma travesti, dona de uma boate no centro onde ela fazia limpeza e também podia se alimentar, ofereceu abrigo em sua casa, no município de Santo André, na região do grande ABC. Depois da morte da hóspede, voltou a morar nas ruas.
Tentativas de estupro O universo das ruas torna-se mais difícil ao anoitecer. Por ser a única mulher no meio de tantos garotos, Ana Luiza era alvo constante dos predadores sexuais. Por três vezes sofreu tentativas de estupro, uma delas, segundo relata, de um policial civil.
Em uma primeira ocasião, enquanto dormia próximo ao Edifício Gazeta, na Avenida Paulista, um homem notou a presença de Ana Luiza entre os meninos, identificando-a como mulher pelas tranças que tinha feito nos cabelos. Era uma noite quente e ela não estava usando um cobertor. De repente, sentiu que o homem passava o pênis em sua pele. Logo, acordou os meninos da gangue que, junto da líder, lincharam o homem.
Ana Luiza revela ter sofrido a segunda tentativa de estupro por um membro da Polícia Civil, que a pressionou para confessar um roubo. Tentando escapar da situação e afirmando não ter dinheiro com ela, Garcez conta que o policial queria forçá-la a manter relações sexuais. Com a negativa, recebeu socos que quebraram dentes e deixaram cicatrizes. Ela não denunciou o caso às autoridades competentes.
A terceira vez ocorreu na Estação da Luz. Sozinha, Ana Luiza foi abordada por três homens enquanto dormia. Os homens falavam que iam estuprá-la, mas um a reconheceu e convenceu os demais a não fazerem nada com ela. Até hoje, Animal acredita que se não fosse aquele homem, o resultado poderia ter sido diferente.
Após essas experiências, Ana Luiza deixou as tranças de lado, raspou os cabelos e trocou os vestidos e minissaias por roupas masculinas. Decidiu andar como homem para não ser molestada por ninguém.
Drogas e seus efeitos As drogas causaram em Ana Luiza efeitos colaterais intensos e quase fatais. Certa vez, em um delírio provocado pelas drogas, ela subiu no Viaduto do Chá, no Vale do Anhangabaú, e quase se jogou. Em sua alucinação, viu um ser extraterrestre, que a convidava para voar junto dele. Garcez foi salva por um homem que a puxou, colocando-a em segurança.
Por causa das drogas, Ana Luiza costumava ouvir vozes que a chamavam, às vezes a visão era de policiais, o que a amedrontava. Sempre que olhava para um espelho, o quebrava com socos, porque acreditava que era alguém que estava lhe observando. Em resultado, constantemente estava com as mãos machucadas.
Em outro momento, as drogas quase cobraram o preço máximo de Ana Luiza: a sua vida. Ela conta que, certo dia, sentiu uma intensa dor na cabeça e em um dos ouvidos, seu braço e sua perna esquerda estavam paralisados. Então, pediu socorro à Tia Help, uma assistente social que prestava ajuda aos moradores da rua.
Levada ao hospital, onde ficou um tempo fazendo exames e se recuperando, ouviu dos médicos que se não parasse com as drogas, morreria. Aquele momento deu a força que ela precisaria ter em breve, para largar definitivamente as drogas.
Começo da mudança No início dos anos 1990, Ana Luiza estava sentada em frente a uma loja na rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, enrolada em um cobertor e cheirando cola. Através da vitrine do estabelecimento, assistia à programação da televisão. De repente, por volta das 15h, viu uma cena do filme “Carruagens de Fogo” (1981), em que atletas corriam na praia. Aquelas imagens não saíram da cabeça de Garcez e mudariam a sua vida para sempre.
Carreira
Início na corrida Ana Animal não queria mais aquela vida nas ruas permeada por drogas, e o filme “Carruagens de Fogo” (1981) foi decisivo para a transformação de sua realidade. À noite, após se hospedar em um hotel barato - pago com dinheiro que roubou -, a cena da corrida do longa-metragem voltava à sua cabeça. Já que corria sempre da polícia, Garcez pensou que poderia se tornar uma corredora.
Pouco depois do episódio, em 1996, viu uma propaganda sobre uma maratona que aconteceria em São Paulo. Como sempre falava sobre a sua vontade de correr, os meninos da gangue a desafiaram a participar de tal maratona. Determinada a realizar a corrida, Animal pediu aos garotos que roubassem shorts, camisa, meias, um tênis tamanho 35/36 e dinheiro, para que ela pudesse se inscrever na competição.
Apesar de o tênis ficar apertado, causando muita dor durante toda a corrida, Garcez correu uma maratona cuja distância ela sequer sabia. O que a motivava era o desafio que os meninos lhe fizeram. Não suportava que alguém duvidasse do seu potencial.