Maria I (nome completo: Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança; Lisboa, – Rio de Janeiro, ), chamada "a Piedosa" e "a Louca", foi Rainha de Portugal e Algarves de 1777 até 1815, e também Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves de 1815 a 1816.

De 1792 até sua morte, seu filho mais novo João atuou como regente do reino em seu nome devido à doença mental da rainha. Era a filha mais velha do rei José I e sua esposa, a infanta Mariana Vitória da Espanha. É considerada a primeira rainha reinante de Portugal e Algarves, tendo sido o seu marido e tio Dom Pedro III o primeiro Rei Consorte de Portugal.

Biografia

Nascimento Dona Maria (apelidada de "a Piedosa" e de "a Louca") nasceu a no Paço da Ribeira, na cidade portuguesa de Lisboa (Portugal). Seu nome completo era Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança. Foi a primeira filha de D. José de Bragança, então Príncipe do Brasil, e sua esposa Mariana Vitória de Bourbon, Infanta de Espanha.

Maria tinha conexões familiares com várias das famílias reais da Europa. Além de ser Bragança por pai e Bourbon pela mãe, também tinha laços sanguíneos com a Casa de Habsburgo pela avó paterna, Wittelsbach-Neuburgo pela bisavó e Farnésio pela avó materna, Isabel.

Quando o seu pai subiu ao trono em 1750 como D. José I, D. Maria tornou-se sua herdeira presuntiva e recebeu os títulos tradicionais de Princesa do Brasil e Duquesa de Bragança. Antes disso, era Princesa da Beira.

Casamento A continuidade dinástica da Casa de Bragança ficou assegurada com o seu casamento com o tio Pedro de Bragança, que subiria ao trono como Pedro III de Portugal. O casamento foi realizado na Real Barraca da Ajuda a 6 de junho de 1760.Lusitania Sacra - 2a Série - Tomo 5 (1993) - Página 179 Anteriormente, pensara-se em casá-la com o seu outro tio, o Infante Luís de Espanha, e com José II, Imperador do Sacro Império Romano.

Além da continuidade dinástica, o casamento também veio a calhar para a monarquia portuguesa no contexto de Maria ser a primeira monarca mulher a reinar no seu próprio direito hereditário. Dessa forma, o casamento e a aclamação de Pedro III ajudaram a diminuir preocupações misóginas sobre a capacidade de D. Maria de reinar, com a crença de que Maria e seu tio partilhariam o poder.

Apesar deste não ser o caso e D. Pedro III não ser de muita utilidade nos assuntos de governo, ele era um conselheiro íntimo da rainha e portanto oferecia sustentação emocional a ela. Conforme a doença de D. Pedro avançou e finalmente o matou em 21 de Maio de 1786, ela ficou bastante abalada, piorando o seu estado mental.

Reinado miniaturadaimagem|Academia de Ciências, criada no reinado de Maria I em 1779 O reinado de Maria teve início em um contexto de dificuldades para o Império Português, sendo que a independência dos Estados Unidos um ano antes arriscava animar ânimos de rebelião nas suas colónias, enquanto que Portugal se via com rendas cada vez menores da mineração de ouro no Brasil. A aclamação de Dona Maria teve de ser adiada, pois ela e vários outros membros da família real haviam sido acometidos de sarampo, excetuando apenas o marido e tio e o seu segundo filho, o futuro D. João VI.

Seu primeiro acto como rainha, iniciando um período que ficou conhecido como a Viradeira, foi a demissão e exílio da corte do marquês de Pombal, a quem nunca perdoara a forma brutal como tratou a família Távora durante o Processo dos Távoras. Apesar disso, manteve vários funcionários do governo Pombalino em sua corte, como Pina Manique, Aires de Sá e Melo e Martinho de Melo e Castro.

Esse último, após a morte de D. Pedro III, ficou cada vez mais influente, se tornando uma das figuras mais relevante do governo de D. Maria e acumulando tanto a secretaria da Marinha e Domínios Ultramarinos quanto a de Negócios Estrangeiros e da Guerra em 1786. Permaneceu na primeira posição até sua morte em 1795.

Rainha amante da paz, dedicada a obras sociais, concedeu asilo a numerosos aristocratas franceses fugidos ao Terror da Revolução Francesa (1789-1799). Era, no entanto, dada a melancolia e fervor religioso de natureza tão impressionável que quando ladrões entraram em uma igreja e espalharam hóstias pelo chão, decretou nove dias de luto, adiou os negócios públicos e acompanhou a pé, com uma vela, a procissão de penitência que percorreu Lisboa. De fato, a sua devoção religiosa era um traço marcante de D. Maria, percebido por aqueles ao seu redor, como o embaixador inglês Robert Walpole, sobrinho do Primeiro-Ministro de mesmo nome. Para além de uma característica pessoal, porém, D. Maria também se utilizava do catolicismo para amparar sua imagem enquanto rainha e "mãe do reino".

O seu reinado foi de grande atividade legislativa, comercial e diplomática, na qual se pode destacar o tratado de comércio que assinou com a Prússia em 1789. Desenvolveu a cultura e as ciências, com o envio de missões científicas a Angola, Brasil, Cabo Verde e Moçambique, como as de Francisco José de Lacerda e Almeida. Também fundou várias instituições, entre elas a Academia Real das Ciências de Lisboa e a Real Biblioteca Pública da Corte. No âmbito da assistência, fundou a Casa Pia de Lisboa. Fundou, ainda, a Academia Real de Marinha para formação de oficiais da Armada.

A 5 de janeiro de 1785 promulgou um alvará impondo pesadas restriçõesAlvará de D. Maria I sobre a indústria no Brasil à atividade industrial no Brasil, proibindo a fabricação de tecidos e outros produtos. Nessa lógica, a medida de Dona Maria ajudava a sustentar o exclusivo colonial.

Também, durante seu reinado, ocorreu o processo, condenação e execução do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Alguns anos antes, em 1787, havia acontecido o pior ano de arrecadação dos quintos (imposto) de ouro do Brasil.

A busca por aumentar as declinantes receitas do Estado Português, em um momento de aperto fiscal, levou o secretário de estado do Ultramar, Martinho de Melo e Castro -- preconceituoso contra os mineiros, em particular, e brasileiros, em geral -- a tomar medidas severas na cobrança de dívidas e impostos, como a derrama, que deveria ser instaurada, de imediato, pelo novo governador de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena. Tão severo foi o seu prognóstico de ação que D. Maria I questionou essas medidas, amenizando-as, para contemplar a possibilidade de não cobrar o imposto excepcional.

Regência do filho Mentalmente instável, desde 10 de fevereiro de 1792 foi obrigada a aceitar que o filho tomasse conta dos assuntos de Estado. Obcecada com as penas eternas que o pai estaria sofrendo no inferno, por ter permitido a Pombal perseguir os jesuítas, o via como "um monte de carvão calcinado".

Para tratá-la veio de Londres o Dr. Willis, psiquiatra e médico real de Jorge III (enlouquecido em 1788) mas de nada adiantaram seus "remédios evacuantes". Sua instabilidade mental se agravou com os lutos pelo seu marido Pedro III (1786) e do seu filho, o príncipe herdeiro José, Duque de Bragança, Príncipe da Beira, Príncipe do Brasil (falecido em 1788, de varíola, aos 27 anos), com a marcha da Revolução Francesa, e com a execução do Rei Luís XVI de França na guilhotina. Por isso, João, seu segundo filho e herdeiro, que futuramente se tornaria João VI de Portugal, eventualmente assumiu a regência em 1799.

Ida para o Brasil

miniaturadaimagem|Identificação simbólica do reinado de D. Maria I com o culto ao Sagrado Coração de Jesus que a soberana quis celebrar com a construção da Basílica da Estrela. O grupo da direita retrata a Família Real Portuguesa. Na primeira fila, da esquerda para a direita, o Príncipe Regente D. João, a Rainha D. Maria I, a Princesa Carlota Joaquina e o Infante Pedro Carlos. Na última fila, a Infanta Maria Ana (à esquerda) e a Princesa Maria Benedita (à direita). A cabeça ao lado do Príncipe Regente é do Ministro José de Seabra da Silva, e ao lado direito da Rainha e atrás das Infantas encontra-se o rosto de Pina Manique A Família Real Portuguesa transfere-se para o Brasil devido ao receio de ser deposta, à semelhança do que ocorrera nos países recentemente invadidos pelas tropas francesas: Napoleão acumula o título de rei de Itália, dando o título de rei de Nápoles ao seu irmão José Bonaparte, a quem posteriormente situou no trono da Espanha; nos Países Baixos a coroa é dada a seu irmão Luís Bonaparte (Luís I da Holanda).

Em 1801, o primeiro-ministro de Espanha Manuel Godoy, apoiado por Napoleão, invadiu Portugal por breves meses. No subsequente Tratado de Badajoz, Olivença passou para a coroa de Espanha e mais tarde também foi ocupada pelos franceses.

Portugal continuou a fazer frente à França e, ao recusar-se a cumprir o bloqueio naval às Ilhas Britânicas, foi iniciada a Primeira invasão francesa de Portugal, pela coligação franco-espanhola liderada pelo francês Marechal Junot. A família real transfere-se para o Brasil a 29 de Novembro de 1807 deixando Portugal a mercê do invasor. Junot invadiu Lisboa e foi nomeado governador de Portugal.

A 1 de Agosto de 1808, o Duque de Wellington desembarca em Portugal e tem início a Guerra Peninsular. Entre 1809 e 1810, o exército luso-britânico lutou contra as forças invasoras de Napoleão, nomeadamente na Batalha do Buçaco. Quando Napoleão foi derrotado em 1815, Maria e a família real encontravam-se ainda no Brasil. Dos membros da realeza, porém, foi a que se manteve mais calma, chegando a declarar: Não corram tanto, vão pensar que estamos a fugir.

Vida no Brasil miniaturadaimagem|250x250px|Na parte superior, a atual Praça XV, do lado esquerdo o Paço Imperial (sede do governo Colonial, Real e Imperial) ao fundo o Convento e Igreja do Carmo (onde D. Pedro I e D. Pedro II foram coroados) e o Chafariz do Mestre Valentim, na frente. Na parte inferior um panorama da cidade com destaque o Corcovado. De Jean-Baptiste Debret, em 1830 Ao chegar ao Rio de Janeiro, a Rainha fora instalada no Convento do Carmo, ao lado do então Paço dos Vice-Reis - que foi convertido a Paço Real. Para facilitar o contato com a soberana, foi construído um passadiço ligando o Paço ao Convento.esquerda|miniaturadaimagem|186x186px|Aparência atual do Convento do CarmoNo Rio de Janeiro, a Rainha passeava de carruagem todas as tardes, e chegou a passar algumas temporadas em uma casa no atual bairro de Laranjeiras, próximo a uma bica, no Cosme Velho, cujas águas tinham fama de curar doenças. A Princesa do Brasil, Dona Carlota Joaquina, frequentava a bica, e por vezes levava a sogra, acompanhada de suas damas de companhia, daí se originando a expressão popular “Maria vai com as outras”. miniaturadaimagem|Bica da Rainha, no Cosme Velho Acordando todos os dias por volta das oito horas, Sua Majestade fazia o desjejum e se sentava em um canapé, aguardando pela visita de seus familiares. O Príncipe Regente se ajoelhava para beijar a mão de sua mãe, seguido da Princesa do Brasil; em seguida, punham-se a conversar, e, quando a sós, o Príncipe Regente se aconselhava com a Soberana acerca dos assuntos de Estado.

Depois, as netas vinham cumprimentar a avó, as mais velhas conduzindo as mais novas. Quando via as meninas entrarem, Sua Majestade exclamava: “Que vem aqui fazer estes cupidinhos?” ou “Para que trazem cá estas pequenas?”. Por fim, entravam os netos, o Príncipe da Beira, Dom Pedro de Alcântara, e o Infante Dom Miguel. Quando o neto mais velho vinha lhe beijar a mão, a Rainha coçava a cabeça do menino e lhe afagava os cabelos, dizendo à dama de companhia, Dona Joana Rita de Lacerda (futura Baronesa, e depois Viscondessa, do Real Agrado): “Para este há de ser a minha coroa.”

Era muito grande o afeto que a Soberana nutria por aquele neto, no qual, naturalmente, via, após seu filho, a continuidade de sua Dinastia, a Sereníssima Casa de Bragança, reinante em Portugal desde 1640, e que agora vinha influenciar de modo tão direto os destinos do Brasil.