A Campanha de Maryland, também conhecida como Campanha de Antietam, foi uma série de batalhas travadas no estado de Maryland, que ocorreu de 4 a 20 de setembro de 1862, no Teatro Oriental durante a Guerra Civil Americana. O General Confederado Robert E. Lee conduziu seu Exército da Virgínia do Norte ao território da União, sendo repelido pelo Exército do Potomac sob o comando do General George B. McClellan, que deslocou suas tropas para interceptar Lee e seu Exército. As duas forças acabaram se enfrentando perto de Sharpsburg, Maryland. A subsequente Batalha de Antietam foi o confronto armado de um único dia mais sangrento da história estadunidense.
Após seu êxito na campanha do norte da Virgínia, Lee moveu seu Exército (composto por 55 mil homens) para o norte através do Vale do Shenandoah a partir de 4 de setembro de 1862. Seu objetivo era reabastecer seu exército fora do teatro da Virgínia devastado pela guerra e prejudicar o moral do Norte antes das eleições intercalares, que ocorreriam em novembro. Ele empreendeu a manobra arriscada de dividir seu exército para que pudesse continuar avançando no norte de Maryland enquanto capturava simultaneamente a guarnição federal e o arsenal em Harpers Ferry. McClellan acidentalmente encontrou uma cópia das ordens de Lee para seus subordinados, e planejou derrotar o dividido Exército da Virgínia do Norte, isolando suas partes do comando central.
Enquanto o General Confederado Thomas J. "Stonewall" Jackson cercava, bombardeava e capturava Harpers Ferry, entre 12 e 15 de Setembro, o exército de McClellan constituído por 102 mil homens tentou mover-se rapidamente pelas passagens da South Mountain que o separavam das forças de Lee. A Batalha de South Mountain em 14 de setembro atrasou o avanço de McClellan e deu a Lee tempo suficiente para concentrar a maior parte de seu exército em Sharpsburg. A Batalha de Antietam (ou Sharpsburg) que ocorreu em 17 de setembro foi a batalha mais sangrenta da história militar americana, com mais de 22 mil baixas. Em menor número, Lee moveu suas forças defensivas para aparar cada golpe ofensivo, mas McClellan nunca implantou todas as reservas de seu exército para capitalizar em sucessos localizados e destruir os confederados. Em 18 de setembro, Lee ordenou uma retirada através do rio Potomac, e nos dias 19 e 20 de setembro, o restante da retaguarda de Lee encerrou a campanha em Shepherdstown.
Embora o resultado de Antietam fosse um empate tático, isso significava que a estratégia por trás da campanha de Lee em Maryland havia falhado. O presidente Abraham Lincoln usou essa vitória como justificativa para anunciar sua Proclamação de Emancipação, que efetivamente pôs fim a qualquer ameaça de apoio europeu à Confederação .
Contexto O ano de 1862 começou bem para as forças da União no Teatro Oriental. O Exército do Potomac de George B. McClellan invadiu a Península da Virgínia durante a Campanha da Península e em junho estava a apenas alguns quilômetros da capital confederada situada em Richmond. Entretanto, quando Robert E. Lee assumiu o comando do Exército da Virgínia do Norte em 1 de junho, a situação mudou. Lee confrontou McClellan agressivamente nas Batalhas dos Sete Dias; McClellan perdeu a coragem e seu exército foi obrigado a sair da Península. Após essa vitória, Lee conduziu suas forças na campanha do norte da Virgínia, na qual ele derrotou o major-general John Pope e seu exército da Virgínia na Segunda Batalha de Bull Run. A campanha de Lee em Maryland pode ser considerada a parte final de uma ofensiva de verão contra as forças da União localizadas no Teatro Oriental do conflito.
Os confederados sofreram perdas significativas após as campanhas de verão. Mesmo assim, Lee decidiu que seu exército estava pronto para um grande desafio: uma invasão do Norte. Seu objetivo era alcançar os estados de Maryland e Pensilvânia, e cortar a parte da Ferrovia Baltimore & Ohio que abastecia a capital estadunidense Washington, D.C. Seus movimentos ameaçariam Washington e Baltimore, a fim de "irritar e hostilizar o inimigo".
A decisão de Lee de invadir o Norte procedeu inúmeros motivos. Primeiro, movendo a guerra para o Norte aliviaria a pressão sobre a Virgínia, e ele precisava abastecer seu exército e sabia que as fazendas do Norte não haviam sido afetadas pela guerra (ao contrário das da Virgínia). Em segundo lugar, estava a questão do moral do Norte. Lee sabia que a Confederação não precisava vencer a guerra derrotando o Norte militarmente; precisava apenas fazer com que a população e o governo do Norte não quisessem continuar o conflito. Com as eleições para o Congresso de 1862 se aproximando em novembro, Lee acreditava que um exército invasor causando estragos no Norte poderia inclinar a balança do Congresso para o Partido Democrata, o que forçaria Abraham Lincoln a negociar o fim da guerra. Ele disse ao presidente confederado Jefferson Davis em uma carta de 3 de setembro que o inimigo estava "muito enfraquecido e desmoralizado."
Também havia razões secundárias. A invasão confederada poderia ser capaz de incitar um levante em Maryland, especialmente porque era um estado escravista e muitos de seus cidadãos mantinham uma postura simpática em relação ao Sul. Alguns políticos confederados, incluindo Jefferson Davis, acreditavam que a perspectiva de reconhecimento estrangeiro para a Confederação seria fortalecida por uma vitória militar no Norte, mas não há evidências de que Lee pensava que o Sul deveria basear seus planos militares nesta possibilidade. No entanto, a notícia da vitória na Segunda Batalha de Bull Run e do início da invasão de Lee causou considerável atividade diplomática entre os Estados Confederados e potências europeias como a França e o Reino Unido.McPherson, pp. 91–94; Eicher, p. 337.
Após a derrota de Pope na Segunda Batalha de Bull Run, o presidente Lincoln relutantemente chamou George B. McClellan. Ele sabia que McClellan era um excelente organizador e um habilidoso treinador de tropas, capaz de recombinar as unidades do exército de Pope com o Exército do Potomac mais rápido do que qualquer um. Em 2 de setembro, Lincoln nomeou McClellan para comandar "as fortificações de Washington e todas as tropas para a defesa da capital". A nomeação foi polêmica no Gabinete, a maioria do qual assinou uma petição declarando ao presidente "nossa opinião deliberada de que, neste momento, não é seguro confiar ao General McClellan o comando de qualquer Exército dos Estados Unidos". O presidente admitiu que era como "curar a mordida com o pelo de cachorro". Mas Lincoln disse a seu secretário, John Hay: "Devemos usar todas as ferramentas que dispomos. Não há homem no Exército que possa guarnecer essas fortificações e transformar nossas tropas como ele. Se ele não puder lutar por si, ele se destaca em preparar outros para lutar". miniaturadaimagem|373x373px|Virgínia do Norte, Maryland e Pensilvânia (1861-1865)
Planos e movimentos iniciais Em 3 de setembro, apenas dois dias após a Batalha de Chantilly, Lee escreveu ao presidente Davis que havia decidido cruzar para Maryland. No mesmo dia, Lee começou a mover seu exército para o norte e oeste de Chantilly, em direção a Leesburg, Virgínia. Em 4 de setembro, unidades avançadas do Exército da Virgínia do Norte saíram de Loudon entraram em Maryland. Em 7 de Setembro, o corpo principal do exército avançou para Frederick, Maryland. O exército de 55 mil homens havia sido reforçado por tropas que defendiam Richmond - as divisões dos majores-generais D. H. Hill e Lafayette McLaws e duas brigadas comandadas pelo brigadeiro-general John G. Walker - mas estes reforços meramente compensaram os 9 mil homens perdidos em Bull Run e Chantilly. miniaturadaimagem|373x373px|Virgínia do Sul, (1861-1865) A invasão de Lee coincidiu com outra ofensiva estratégica da Confederação. Os generais Braxton Bragg e Edmund Kirby Smith lançaram invasões simultâneas ao Kentucky. Jefferson Davis enviou aos três generais um rascunho de proclamação pública, com espaços em branco disponíveis para que eles inserissem o nome de qualquer estado que suas forças invasoras pudessem alcançar. Davis escreveu para explicar ao público (e, indiretamente, às potências europeias) por que o Sul parecia estar mudando sua estratégia. Até então, a Confederação alegava ter sido vítima de agressão e estava apenas se defendendo da "invasão estrangeira". Davis explicou que a Confederação ainda estava travando uma guerra de autodefesa. Ele escreveu que não havia "nenhum propósito de conquista" e que as invasões eram apenas um esforço agressivo para forçar o governo de Lincoln a deixar o Sul ir em paz".
O rascunho da proclamação de Davis não chegou a seus generais até que eles emitissem suas próprias proclamações. Eles enfatizaram que tinham vindo como libertadores, não conquistadores, a esses estados fronteiriços, mas não abordaram a questão mais ampla da mudança de estratégia dos Confederados como Davis desejava. A proclamação de Lee anunciou ao povo de Maryland que seu exército viera "com a mais profunda simpatia pelos erros que foram infligidos aos cidadãos da comunidade aliada aos Estados do Sul pelos laços sociais, políticos e comerciais mais fortes...".McPherson, p. 91; Sears, Landscape, pp. 68–69.
Divisão do Exército de Lee Lee dividiu seu exército em quatro partes conforme ele se movia para Maryland. Depois de receber informações sobre a atividade da milícia em Chambersburg, Pensilvânia, Lee enviou o major-general James Longstreet para Boonsboro e depois para Hagerstown (a inteligência exagerou a ameaça, já que apenas 20 milicianos estavam em Chambersburg na época).Eicher, p. 339 O major-general Thomas J. "Stonewall" Jackson, que comandava quatro divisões, recebeu ordens de confiscar o arsenal da União em Harpers Ferry. Essas medidas deixaram a somente a cavalaria escassamente espalhada do major-general J.E.B. Stuart e a divisão do major-general D.H. Hill para proteger a retaguarda do exército em South Mountain.Bailey, p. 38.
A razão específica pela qual Lee escolheu essa estratégia arriscada de dividir seu exército para capturar Harpers Ferry não é conhecida. Uma possibilidade é que ele sabia que comandava suas linhas de abastecimento através do Vale Shenandoah. Antes de entrar em Maryland, ele presumiu que as guarnições federais em Winchester, Martinsburg e Harpers Ferry seriam isoladas e abandonadas sem disparar um tiro (e, de fato, Winchester e Martinsburg foram evacuadas).Sears, Landscape, p. 83. Outra possibilidade é que era simplesmente um alvo tentador com muitos suprimentos fundamentais, mas iminentemente indefensável.Eicher, p. 339. McClellan solicitou permissão de Washington para esvaziar Harpers Ferry e anexar sua guarnição ao seu exército, mas o pedido foi recusado.Rafuse, pp. 285–86. esquerda|miniaturadaimagem|258x258px|Tropas confederadas marchando para o sul na N Market Street, Frederick, Maryland, durante a Guerra Civil
Reações à invasão A invasão de Lee foi repleta de dificuldades desde o início. A força do Exército Confederado sofreu com inúmeras deserções; no início da invasão, as forças confederadas totalizavam 55 mil homens, em 10 dias esse número diminuiu para 45 mil.McPherson, p. 100. Algumas tropas se recusaram a cruzar o rio Potomac, dado que uma invasão do território da União violava suas crenças de que estavam lutando apenas para defender seus estados da agressão vinda do Norte. Inúmeros soldados ficaram doentes com diarreia depois de comer milho verde imaturo dos campos de Maryland. Muitos também caíram porque seus pés descalços ficaram ensanguentados durante a jornada nas duras estradas do Norte. Lee ordenou que seus comandantes tratassem bruscamente os retardatários e desertores, que ele considerava covardes "que abandonam seus camaradas em perigo", e, portanto, eram "membros indignos de um exército que se imortalizou" em suas campanhas recentes.Glatthaar, p. 167; Esposito, map 65; McPherson, p. 100.