Gilberto Tumscitz Braga (Rio de Janeiro, 1 de novembro de 1945 — Rio de Janeiro, 26 de outubro de 2021) foi um autor brasileiro de telenovelas e minisséries, considerado um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira.

Sua telenovela de 2007, Paraíso Tropical, foi indicada em 2008 ao Emmy na categoria de melhor novela. A maioria de suas novelas tem um assassinato misterioso, que é revelado nos capítulos finais.

Biografia Início da carreira e adaptação de romances famosos Gilberto Braga cursou a faculdade de Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), depois foi professor de francês na Aliança Francesa e em seguida ingressou no jornal O Globo como crítico de teatro e cinema. Estreou como autor televisivo em 1972, quando assinou um episódio de Caso Especial: Dama das Camélias 72 (versão atualizada de A Dama das Camélias, protagonizada por Glória Menezes e Cláudio Cavalcanti). Durante o ano de 1973, produziu mais especiais, como As Praias Desertas e Feliz na Ilusão. Sua desenvoltura e rapidez na escrita dos episódios chamaram a atenção do diretor Daniel Filho, então chefe das novelas na emissora, que o convidou para assinar, junto com Lauro César Muniz, a autoria da novela das sete Corrida do Ouro (1974), trabalho do qual Muniz se afastaria para estrear na faixa das oito. Por ainda não estar habituado ao ritmo de escrita para a televisão, Gilberto chegou a desistir de escrever a trama, sendo impedido por Daniel Filho, que comentou a situação com Janete Clair. A veterana – admiradora dos diálogos de Braga –, então, se ofereceu para supervisioná-lo.

Gilberto Braga foi o primeiro autor brasileiro formado exclusivamente para a televisão - jamais escreveu para teatro. Ele foi responsável por outras adaptações: O Preço de Cada Um (modernização de Misantropo) e Mulher (versão moderna de Casa das Mulheres).

Ele também se notabilizou pelas adaptações de clássicas obras literárias para a televisão. Em 1975, foi responsável pelas adaptações dos romances Helena, de Machado de Assis (que seria adaptada novamente em 1987 pela extinta TV Manchete) – responsável por reinagurar a faixa das seis – e Senhora de José de Alencar. Mas o primeiro grande sucesso da carreira de Gilberto foi Escrava Isaura (1976), baseada no romance homônimo de Bernardo Guimarães, cujo êxito foi enorme – durante muito tempo, foi a novela mais vendida de todos os tempos e consagrou mundialmente a atriz Lucélia Santos, que iniciava a carreira. Com a novela, foi considerado o responsável por levar a teledramaturgia brasileira para o mundo, sendo vendida para países como Cuba, China, Alemanha, Rússia e outros.

Ainda em 1975, Gilberto Braga colaborou com Janete Clair na autoria da novela Bravo! e a substituiu quando ela teve que preparar outra trama para o lugar de Roque Santeiro, de Dias Gomes, cuja exibição fora proibida pela censura militar no dia da estreia. Com a proibição, ela escreveu então aquele que se tornaria um dos maiores sucessos, a novela Pecado Capital.

Telenovelas contemporâneas e suspense Em 1977, esgotado das tramas de época, Gilberto Braga escreveu o primeiro folhetim contemporâneo do horário das seis: uma adaptação da peça teatral Dona Xepa, original de Pedro Bloch. O sucesso desta novela motivou a promoção de Braga para a faixa das oito, na qual ele estreou com Dancin' Days (1978), escrita a partir do argumento inicial A Prisioneira, de sua mestra Janete Clair, de quem era pupilo, sendo primeira trama sua sem ser uma adaptação de romance consagrado. A trilha sonora internacional, basicamente com canções de discotecas foi um sucesso de vendagem - mais de um milhão e meio de cópias - assim como a nacional - um milhão de cópias - , estimulando o crescimento de novas casas do gênero e lançou diversos modismos, como voos de asa delta e meias de lurex usadas com sandália. A novela foi reexibida em 1980 no "Festival 15 Anos", com apresentação de Glória Pires e numa versão compacta (entre outubro e novembro de 1982). Alguns anos depois a novela foi adaptada para romance na coleção Campeões de Audiência - Telenovelas (lançada pela Editora Globo entre 1987 e 1988), assim como Água Viva e Pecado Capital. O livro Água Viva foi lançado por Leonor Bassères baseado nas três mil e duzentas laudas que Gilberto escrevera para a novela.

Seguiram-se outras novelas de sucesso no horário nobre: Água Viva (1980) abordou o cotidiano da classe média alta no litoral e o windsurfe, causou polêmica por conta do topless e mostrou, pela primeira vez, o uso de maconha na televisão brasileira. Prosseguiu com a novela Brilhante (1981), que discutiu a homossexualidade masculina e romance entre pessoas de diferentes idades. Brilhante foi acusada de plágio de livros e filmes norte-americanos e enfrentou problemas com a audiência e a Censura Federal, que o obrigaram a promover muitas alterações ao longo da história. O tema de abertura da novela era Luiza, composta por Tom Jobim especialmente para a trama, e cuja letra menciona o cabelo loiro e comprido da protagonista, Vera Fischer. Quando ela apareceu de cabelo curto, o compositor foi o primeiro a protestar. Este polêmico fato foi bastante criticado, e a figurinista Marília Carneiro deu a ideia de usar uma bandana no pescoço, acessório este que virou febre entre o público feminino. Nessa fase também escreveu Louco Amor (1983), que teve a estreia antecipada devido ao término repentino - causado pela morte do protagonista, Jardel Filho, de Sol de Verão (1982), de Manoel Carlos que colaborou, a pedido do próprio Gilberto, na redação do texto de Água Viva - e Corpo a Corpo (1984), inspirada no mito de Fausto, que causou polêmica por debater o racismo, um tema que não foi aceito pelo grande público.

O maior sucesso foi quando ele parou o Brasil com o mistério em torno de quem matou Odete Roitman? (Beatriz Segall), personagem da novela Vale Tudo (1988). O último capítulo da referida telenovela obteve a maior audiência já conquistada, com 86% dos televisores ligados. O final da trama revelou Leila (Cássia Kiss) como a assassina. A expectativa foi tamanha que a marca de caldos de galinha Maggi, fez um concurso em que premiava quem acertasse o nome do assassino. O vencedor recebeu cinco mil cruzeiros, equivalente a três mil e duzentos dólares. Vale Tudo também ganhou um remake em espanhol: Vale Todo (2002), com o elenco formado de atores de língua hispânica e foi exibida em parceria com a rede Telemundo, cadeia de emissoras abertas mais voltada para o público latino.

O mistério sobre a identidade de um assassino que só vem a ser revelado no último capítulo fora um recurso já utilizado pelo autor antes mesmo de Vale Tudo: em 1980, sua trama Água Viva, utilizou o bordão quem matou Miguel Fragonard? (Raul Cortez). Em 1986, sua minissérie Anos Dourados, que retratava o Rio de Janeiro dos anos 1950, contou com vinte capítulos, e, faltando quatro para o fim, Olivério (Arthur Costa Filho), dono de uma boate em Copacabana, aparece morto - o autor do crime, revelado no último capítulo, fora Carneiro (Cláudio Corrêa e Castro). Em 1991, os personagens de sua novela O Dono do Mundo passam, na reta final, a serem perseguidos por um sujeito desconhecido, e o autor introduz um outro suspense: "quem é o homem misterioso?". No fim dos anos 1990, Braga voltou a utilizar o quem matou?, primeiro através de sua minissérie policial Labirinto (1998) que, ao longo de seus vinte capítulos, mobilizou o público com a pergunta "quem matou Otacílio Martins Fraga?" (Paulo José) e em seguida, através de sua telenovela de época Força de um Desejo (1999) que, no capítulo 155, introduziu a pergunta "quem matou o Barão Henrique Sobral?" (Reginaldo Faria). O mistério durou até o capítulo 226, o último da trama. Além de Sobral, diversos outros personagens morreram misteriosamente ao longo da trama: a baronesa Helena (Sônia Braga), o Dr. Xavier (Nelson Dantas) e o padre Olinto (Abrahão Farc), todos vítimas da mesmo assassino em série. Quatro anos mais tarde, Celebridade (2003) perguntava "quem matou Lineu Vasconcelos?" (Hugo Carvana), tendo sido a vilã Laura (Cláudia Abreu) a assassina. Em 2007, o mistério foi na novela Paraíso Tropical, com o bordão "quem matou Taís Grimaldi?" (Alessandra Negrini). Em 2011, foi a vez da novela Insensato Coração usar o bordão "quem matou Norma Pimentel?" (Glória Pires). Em 2015, Babilônia traz ao público a pergunta "quem matou Murilo?" (Bruno Gagliasso).

Substituição e trilogia entre 1988 e 1994 Gilberto Braga substituiu informalmente Sílvio de Abreu em alguns capítulos, na autoria da novela Rainha da Sucata (1990), quando este precisou se afastar durante algumas semanas por problemas pessoais. Em 1992 Gilberto substituiu Glória Perez na condução da novela De Corpo e Alma em parceria com a fiel colaboradora Leonor Bassères. Glória se afastou da trama por algumas semanas devido ao assassinato da atriz Daniela Perez, sua filha, que atuava na trama.

O primeiro título sugerido para Vale Tudo (1988) foi Pátria Amada, o que se tornou inviável por já existir um filme (da cineasta Tizuka Yamazaki) com este nome. Além de refletir sobre os problemas do alcoolismo e de mostrar, pela primeira vez de maneira explícita, o relacionamento homoafetivo entre duas mulheres, a novela iniciava uma trilogia onde eram abordadas temas sobre e corrupção. O segundo trabalho nesse caminho foi O Dono do Mundo (1991), que teve o objetivo de recuperar a audiência perdida com a antecessora no horário, Meu Bem, Meu Mal, de Cassiano Gabus Mendes. A novela sofreu reformulações pois a trama inicial não entusiasmara o público e houve uma migração significativa da audiência para a novela infantil mexicana Carrossel (do SBT) que, entretanto, jamais chegou a superá-la no confronto. Desta vez, quem colaborou na condução da história foi Sílvio de Abreu, que deu maior agilidade, o que fez com que a trama fosse recuperando gradativamente a audiência. O Dono do Mundo teve média geral de quarenta e três pontos, índice considerado baixíssimo para uma novela do horário nobre na época. O maior destaque da novela foi a elogiadíssima abertura, que mostrou imagens de Charles Chaplin no filme O Grande Ditador (1940). A última obra da trilogia foi Pátria Minha (1994). A novela, que teve o título extraído do poema homônimo de Vinícius de Moraes, enfocou conflitos ideológicos como as questões da moradia, racismo, adultério, virgindade - já abordada em O Dono do Mundo - e primeira experiência sexual, uso de preservativos e diálogo familiar (pais e filhos). Pátria Minha teve média geral de quarenta e seis pontos, dez a menos que a antecessora, Fera Ferida, de Aguinaldo Silva, apesar dos percalços que a produção teve que enfrentar com os atores Vera Fischer e Felipe Camargo, então casados, que foram afastados do elenco.

Minisséries, supervisão de texto e retorno às produções de época A primeira minissérie escrita foi um dos trabalhos mais elogiados e bem-sucedidos: Anos Dourados (1986), dirigida por Roberto Talma. A trama, que foi posta no ar às pressas visando concorrer com o estrondoso sucesso Dona Beija da extinta Rede Manchete, também marcou o retorno às produções ambientadas nos anos 1950, realçado principalmente pela trilha sonora que trouxe diversas canções consagradas da época (escolhidos pessoalmente pelo autor, que pela primeira vez atuou também como produtor musical). Anos Dourados foi reprisada em 1988 e 1990 com cortes - alguns duramente criticados, inclusive na narração do encerramento, que não conta o destino dos personagens principais. A minissérie foi lançada em DVD em 2003, numa versão condensada porém mais completa que a versão apresentada em 1990. Como parte das comemorações dos quarenta anos da Rede Globo, em 2005 o canal pago Multishow apresentou parte da série, também com cortes, sendo relançada em DVD em 2006 com dois volumes pela Editora Globo.