Éramos Seis é o segundo romance da escritora paulista Maria José Dupré (1905–1984), publicado em 1943 pela Companhia Editora Nacional. Posteriormente, passou a ser editado pela Editora Brasiliense (de 1944 a 1954), e depois pela Saraiva (de 1957 a 1969), inclusive na popular Coleção Saraiva (de 1960), em dois volumes. Houve outras editoras, como Círculo do Livro (em 1975 e em 1998) e Clube do Livro (em 1985), até chegar à Editora Ática, primeiramente na coleção "Bom Livro", e depois na famosa coleção da Série Vaga-Lume (de 1973 até 2012). A editora Ática lançou em 2013 e 2014 uma edição do livro em uma nova capa.
Na época em que a editora EBAL publicava a revista Edição Maravilhosa (que adaptava em quadrinhos clássicos da literatura brasileira e mundial), Éramos Seis recebeu sua adaptação na edição n. 128, em julho de 1956, com capa e ilustrações desenhadas pelo haitiano André LeBlanc.
Em 1944, a obra recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Raul Pompeia. in
O livro foi adaptado na dramaturgia pela primeira vez em julho de 1945 como radionovela na Rádio Tupi, e no mesmo ano foi lançado o filme argentino de mesmo título (que permanece sendo a única adaptação cinematográfica da obra). Na televisão ganhou cinco versões em formato de telenovela, sendo a primeira delas em 1958, pela Record, e uma adaptação regional na década de 1960, pela TV Itacolomi (de Minas Gerais).
Uma sequência do livro foi escrita pela autora Maria José Dupré e publicada pela primeira vez em 1949, com o título Dona Lola. Nesta nova obra, a autora continua com a história de sua protagonista-narradora, utilizando-se de parte dos personagens de Éramos Seis e acrescentando outros inéditos. Em 2020, a obra foi relançada pela Editora Ática, após décadas da última edição.
Enredo Éramos Seis conta a história de uma família paulistana de classe média baixa, conduzida por Dona Lola, esposa de Júlio Abílio de Lemos, e seus quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. A obra cobre um período de vinte e oito anos, iniciando em 1914, no início da Primeira Guerra Mundial (mencionada inclusive pela personagem Tia Emília), e terminando em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, no final do Estado Novo.
O drama é narrado em primeira pessoa pela protagonista Lola (cujo nome verdadeiro é Eleonora), e se desenrola tendo duas cidades como cenário: São Paulo (cenário principal) e Itapetininga.
O período de grandes transformações sociais e comportamentais da sociedade paulista serve como pano de fundo ao romance e, por vezes, tais mudanças influenciam diretamente as ações dos personagens. Acontecimentos como a gripe espanhola de 1918, a Revolução Paulista de 1924 e a Revolução Constitucionalista de 1932 são vivenciados pela família Lemos sob o olhar de Dona Lola. No capítulo final, também se fala brevemente sobre a Segunda Guerra Mundial (através de uma carta de Alfredo).
A vida de Dona Lola é narrada desde a infância das crianças, quando Júlio trabalha em uma loja de tecidos e ambos se sacrificam para pagar as prestações da casa onde moram, na avenida Angélica, em São Paulo (nas proximidades do parque Buenos Aires, no local onde mais tarde se ergueu o Edifício São Clemente), passando pela chegada dos filhos à fase adulta e de Dona Lola à velhice. Quando a história começa (em 1914), é o primeiro ano em que Dona Lola e a família residem na casa da Avenida Angélica; antes, o casal residira em uma pequena casa alugada no bairro do Bom Retiro desde o casamento. Na reta final do livro (já em 1934), Dona Lola vende a casa da Avenida Angélica (onde viveu por dezenove anos) e se muda para uma casa menor que aluga no bairro da Barra Funda, junto com Carlos, o último filho que ainda mora com a mãe. A história dá um salto de oito anos para o capítulo final, quando Dona Lola já reside em um quarto alugado em uma pensão de freiras.
No início da história, em fins de 1914, Isabel tem três anos, Julinho tem cinco, Alfredo tem sete, e Carlos tem nove. Eles estudam na escola particular de Dona Benedita.
Ao longo dos anos, a vida de Dona Lola muda com os acontecimentos: a morte de Júlio por uma doença estomacal; a partida de Julinho para trabalhar no Rio de Janeiro (e sua posterior ascensão social ao se casar com uma moça de uma família da alta sociedade carioca, Maria Laura); o sumiço de Alfredo pelo mundo, para não ser preso; a união de Isabel com um homem desquitado, Felício (que não é aceita por Lola devido às convenções morais da época); e, por fim, a inesperada morte de Carlos, o primogênito e o filho mais devotado à mãe, também vitimado por uma doença estomacal. Júlio morre em 1926 e Carlos em 1934, o que faz com que a família de Lola se desfaça em um período de oito anos.
O título do romance vem da situação de Dona Lola ao fim da vida, sozinha num quartinho alugado em uma confortável pensão de freiras, dirigida pelas Irmãs Esperança, na Rua da Consolação, em São Paulo. Eram seis e agora só resta ela.
Um dos elementos mais ricos do romance é a forma como a autora faz com que a evolução da história da família Lemos case de modo umbilical com as transformações sociais do país (um elemento da narrativa que nem sempre foi usado nas adaptações televisivas do livro).
Personagens Núcleo principal (Os "Seis") Dona Lola (Eleonora Abílio de Lemos): personagem principal e narradora da história, é a matriarca da família Lemos. É uma bondosa e batalhadora mulher que faz de tudo pela felicidade de sua família. Paulista do interior do Estado de São Paulo (nascida na cidade de Itapetininga), Lola é esposa de Júlio Abílio de Lemos, com quem tem quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. Filha de uma doceira e de um professor, é a irmã do meio de uma família de apenas três irmãs. Após o casamento com Júlio vai morar na cidade de São Paulo em uma casa alugada no bairro do Bom Retiro. Quando já deu à luz os quatro filhos, Lola e a família se mudam para a casa da Avenida Angélica, onde ela vive por dezenove anos. Enquanto reside neste novo endereço, Lola constrói uma amizade sólida e verdadeira com sua vizinha Dona Genu, que permanece mesmo após Lola se mudar da Avenida Angélica para o bairro da Barra Funda. Ela também visita frequentemente sua tia Emília na Rua Guaianases, e passa as férias escolares dos filhos, nos finais de ano, na casa da mãe em Itapetininga. Para auxiliar nas despesas da casa, Lola faz roupinhas e sapatinhos de tricô. Lola fica casada com Júlio por cerca de vinte anos, já que, no ano de falecimento do marido, o primeiro filho do casal, Carlos, tem 18 anos. Após a morte do marido, ela assume a liderança da família, e auxiliada por sua irmã Clotilde, se torna doceira assim como a mãe, para sobreviver com os filhos e terminar de pagar a última prestação da casa. Mas todo o seu esforço não impede que os filhos, um por um, sigam caminhos que os distanciem dela.
Júlio Abílio de Lemos: patriarca da família Lemos, é um marido e pai com um lado rude, e ao mesmo tempo afeiçoado a sua família. Entre seus filhos, não esconde a predileção por Isabel, a única menina. Aparentemente, Júlio é mineiro, já que sua mãe e sua irmã Maria residem em Belo Horizonte (Minas Gerais), mas em nenhum momento fica explícito qual o seu Estado natal. Quando solteiro, passava suas férias na casa de seu tio Inácio em Itapetininga, o que o levou a conhecer Lola, que vivia na cidade com os pais e irmãs desde que nascera. Eles se mudam para São Paulo, onde Júlio inicialmente aluga uma casa no bairro do Bom Retiro, onde ficam por cerca de dez anos, até Júlio comprar a casa da Avenida Angélica, pagando em várias prestações anualmente ao proprietário. Trabalha como vendedor na loja de tecidos do Sr. Barbosa, mais tarde como gerente, e em seguida passa a trabalhar no escritório da loja. Júlio se sacrifica no trabalho, mesmo com a saúde ficando cada vez mais debilitada, principalmente para pagar as prestações anuais da casa da Avenida Angélica. Ele acaba morrendo em 1926, devido à uma úlcera, quando falta apenas a última prestação da casa a ser paga, e sua morte altera completamente a vida de sua esposa e filhos.
Carlos Abílio de Lemos: o primogênito da família, nascido em 1908, é o mais próximo de Dona Lola. Sonha em ser médico, mas também canta em um programa de rádio e toca violão. Com o falecimento do pai, vai trabalhar em um banco por intermédio de sua tia-avó Emília, e assume uma postura de responsável pela família, causando sérios atritos com os irmãos Alfredo e Isabel. Extremamente moralista e severo com os irmãos, mas também atencioso e cuidadoso com a mãe. Na Revolução Constitucionalista de 1932, parte para a luta armada e acaba ferido em combate, mas sobrevive. É o último a permanecer morando com a mãe, mas acaba falecendo devido a uma doença estomacal no final de setembro de 1934, aos 26 anos de idade.
Alfredo Abílio de Lemos: o segundo filho de Lola e Júlio, é considerado o rebelde da família. Ao mesmo tempo em que causa conflitos na família, é o mais amoroso e carinhoso com a mãe. Quando criança, não gostava de estudar e acabava sendo reprovado na escola; às vezes era espancado pelo pai por esse motivo. Tinha amigos na rua que eram mal vistos pela família, como Raio Negro e Vira Mundo. Ao ficar adulto, não costuma ficar por muito tempo nos empregos que arruma, e ao mesmo tempo leva uma vida de bon vivant, sempre em festas e passeios com os amigos, o que provoca inúmeros atritos com Carlos. Mais tarde, passa a frequentar reuniões comunistas com amigos em Santos, o que novamente o coloca em conflito com Carlos, que tem visões opostas às do irmão. Uma batida policial no local das reuniões causa uma confusão, que resulta em um policial morto; com isso, Alfredo decide fugir (contando inclusive com a ajuda de Dona Genu e sua filha Lili) e parte para os Estados Unidos em um navio-cargueiro, no ano de 1931. Ele se alista na marinha norte-americana, e volta para visitar a mãe somente após dois anos, retornando em seguida para os Estados Unidos, pouco antes da mãe vender a casa da Avenida Angélica. No final, Lola recebe uma carta do filho, em 1942, onde ele conta estar no Pacífico Sul, lutando contra os japoneses na Segunda Guerra Mundial.
Julinho Abílio de Lemos: é o terceiro filho da família. Desde criança mostrava habilidade para lidar com dinheiro; Julio já percebia que o filho seria um negociante no futuro. Com o falecimento do pai, Julinho vai trabalhar na mesma loja onde Julio era empregado. Após quase três anos da morte do pai, Julinho é convidado pelo patrão para trabalhar na filial da loja no Rio de Janeiro, como chefe da seção de perfumaria. Com muita relutância, Dona Lola dá o seu consentimento para que o filho vá morar no Rio de Janeiro. Ele parte para o Rio de Janeiro alguns dias após o Natal de 1929, e demora dois anos para visitar a família pela primeira vez, no Natal de 1931, mas mantém correspondência regularmente com a mãe. Julinho constrói sua vida profissional e afetiva no Rio de Janeiro. Morando em uma pensão, ele janta todas as noites na casa do seu novo patrão e de sua esposa Dona Júlia, ficando amigo dos filhos do casal. Ele então conhece a única filha moça da família: Maria Laura.