Invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, denominada pelo governo russo como "Operação Militar Especial na Ucrânia", é uma invasão militar em larga escala lançada pela Rússia contra a Ucrânia, um de seus países vizinhos, a sudoeste, marcando uma escalada acentuada para um conflito que começou em 2014. Vários analistas chamaram a invasão de o maior confronto militar na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. A guerra gerou uma enorme onda migratória da Ucrânia e da Rússia, além de uma crise alimentar global, aumento no preço dos combustíveis e inflação.

Após a Revolução da Dignidade na Ucrânia em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, enquanto as forças separatistas apoiadas pelo governo russo tomaram parte da região do Donbas no sudeste da Ucrânia. Desde o início de 2021, um acúmulo de presença militar russa ocorreu ao longo da fronteira Rússia-Ucrânia. Os Estados Unidos e outros países acusaram a Rússia de planejar uma invasão da Ucrânia, embora as autoridades russas repetidamente negassem que tivessem essa intenção. Durante a crise, o presidente russo Vladimir Putin descreveu a ampliação da OTAN pós-1997 como uma "ameaça à segurança" de seu país, uma afirmação que a OTAN rejeita, e exigiu que a Ucrânia fosse permanentemente impedida de ingressar na OTAN. Putin também expressou opiniões irredentistas russas e questionou o direito de existir da Ucrânia. Antes da invasão, tentando fornecer casus belli, Putin acusou a Ucrânia de cometer "genocídio" contra seus cidadãos que falam russo, o que foi amplamente descrito como falso e infundado.

Em 21 de fevereiro de 2022, Putin reconheceu a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, duas regiões autoproclamadas como Estados, controladas por separatistas pró-Rússia em Donbas. No dia seguinte, o Conselho da Federação da Rússia autorizou por unanimidade o uso da força militar e as tropas russas entraram em ambos os territórios. Em 24 de fevereiro, Putin anunciou uma "operação militar especial", supostamente para "desmilitarizar" e "desnazificar" a Ucrânia. Minutos depois, mísseis atingiram locais em todo o território ucraniano, incluindo Kiev, a capital. A Guarda Fronteira Ucraniana relatou ataques a postos fronteiriços com a Rússia e a Bielorrússia. Pouco depois, as forças terrestres russas adentraram na Ucrânia. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky promulgou a lei marcial e clamou por uma mobilização geral no país.

A invasão recebeu ampla condenação da comunidade internacional, incluindo novas sanções impostas à Rússia, o que começou a desencadear uma crise financeira no país. Segundo as estimativas do Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, até 1º de maio de 2022 mais de 5,5 milhões de ucranianos fugiram do seu país devido à guerra, e mais de 7 milhões foram obrigados a se deslocar internamente."Ukraine emergency". UNHCR - The United Nations Refugee Agency, 01/05/2022 Protestos globais ocorreram contra a invasão, enquanto os protestos que aconteceram na Rússia foram respondidos com prisões em massa e o governo russo aumentou significativamente a repressão à mídia independente. Inúmeras empresas iniciaram um boicote à Rússia e à Bielorrússia, e vários Estados forneceram ajuda humanitária e militar à Ucrânia. Em resposta à ajuda militar, Putin colocou as forças nucleares da Rússia em alerta máximo, aumentando as tensões com o ocidente, enquanto levantava a possibilidade de uma escalada para uma guerra nuclear.

O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos relatou que a Rússia está cometendo graves violações dos direitos humanos na Ucrânia ocupada de forma desenfreada, incluindo sequestro de crianças ucranianas, saques, estupros, execução de prisioneiros e outras atrocidades. Os ataques da Rússia contra civis, bem como suas políticas nos territórios ocupados, levaram a alegações de genocídio contra o povo ucraniano. O custo direto da guerra para a Rússia foi estimado em mais de US$ 450 bilhões, enquanto o Grupo Banco Mundial estima o custo da reconstrução na Ucrânia em US$ 588 bilhões. Em 2026, a guerra já havia deixado quase dois milhões de pessoas mortas, feridas ou desaparecidas (entre combatentes e civis).

Antecedentes

Contexto pós-soviético

Após a dissolução da União Soviética em 1991, a Ucrânia e a Rússia continuaram a manter laços estreitos. Em 1994, a Ucrânia concordou em abandonar seu arsenal nuclear e assinou o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, sob a condição de que a Rússia, o Reino Unido e os Estados Unidos enviassem uma garantia contra ameaças ou uso de força contra a integridade territorial, ou independência política de Ucrânia. Cinco anos depois, a Rússia foi um dos signatários da Carta para a Segurança Europeia, onde "reafirmou o direito inerente de cada Estado participante de ser livre para escolher ou alterar seus arranjos de segurança, incluindo tratados de aliança, à medida que evoluem".

Apesar de ser um país independente reconhecido desde 1991, como ex-república soviética, a Ucrânia era vista pela elite russa como parte de sua esfera de influência. Em 2008, o presidente russo Vladimir Putin se manifestou contra a adesão da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em 2009, o analista romeno Lulian Chifu e seus coautores opinaram que em relação à Ucrânia, a Rússia buscou uma versão atualizada da Doutrina Brezhnev, que dita que a soberania da Ucrânia não pode ser maior que a dos Estados-membros do Pacto de Varsóvia antes do colapso da esfera de influência soviética durante o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Esta visão baseia-se na premissa de que as ações da Rússia para aplacar o Ocidente no início da década de 1990 deveriam ter sido recebidas com reciprocidade pelo ocidente, sem a expansão da OTAN ao longo da fronteira da Rússia.Remarks concerning Ukraine, Vladimir Putin, , RT, 21 de fevereiro de 2022

Revolução Ucraniana de 2014, anexação da Crimeia e Guerra em Donbass

thumb|esquerda|Protestos Euromaidan em Kiev em 2013

Após semanas de protestos como parte do movimento Euromaidan (2013–2014), o presidente ucraniano pró-russo Viktor Yanukovych e os líderes da oposição parlamentar ucraniana assinaram um acordo, em 21 de fevereiro de 2014, que pedia eleições antecipadas. No dia seguinte, Yanukovych fugiu de Kiev antes de uma votação de impeachment que o destituiu de seus poderes como presidente. Líderes das regiões orientais de língua russa da Ucrânia declararam lealdade contínua a Yanukovych, causando os protestos pró-Rússia de 2014 na Ucrânia. A agitação foi seguida pela anexação da Crimeia pela Rússia em março de 2014 e pela Guerra em Donbas, que começou em abril de 2014, com a criação dos quase-estados apoiados pela Rússia das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk.

Após 2014, um dos principais vetores da política externa da Ucrânia foi a adesão acelerada do país à UE e à OTAN; as disposições relevantes foram incluídas na constituição da Ucrânia, em 2019. Ao mesmo tempo, a Rússia se opõe categoricamente à entrada da Ucrânia na OTAN, afirmando que isso representa uma ameaça para ela.

Em 14 de setembro de 2020, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky aprovou a nova Estratégia de Segurança Nacional da Ucrânia, "que prevê o desenvolvimento de uma parceria distinta com a OTAN, visando ser membro da OTAN". Em 24 de março de 2021, Zelensky assinou o Decreto n.º 117/2021 que aprova a “estratégia de desocupação e reintegração do território temporariamente ocupado da República Autônoma da Crimeia e da cidade de Sebastopol”.

Em julho de 2021, Putin publicou um ensaio intitulado Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos, no qual reafirmou sua visão de que russos e ucranianos eram “um só povo”. O historiador estadunidense Timothy Snyder descreveu as ideias de Putin como "imperialismo". O jornalista britânico Edward Lucas descreveu-o como "revisionismo histórico". Outros observadores notaram que a liderança russa tem uma visão distorcida da Ucrânia moderna e da sua história.

A Rússia afirmou que uma possível adesão da Ucrânia à OTAN e a ampliação da OTAN, em geral, ameaçam sua segurança nacional. Por sua vez, a Ucrânia e outros países europeus vizinhos da Rússia acusaram Putin de tentar restaurar o Império Russo/União Soviética e de perseguir políticas militaristas agressivas.

Prelúdio da invasão

O conflito começou com uma grande movimentação militar de tropas russas na fronteira Rússia-Ucrânia, inicialmente de março a abril de 2021 e após outubro de 2021 a fevereiro de 2022. Durante a segunda escalada militar, a Rússia emitiu exigências aos Estados Unidos e à OTAN, avançando dois projetos de tratados que continham solicitações para o que chamou de "garantias de segurança", incluindo uma promessa juridicamente vinculativa de que a Ucrânia não ingressaria na OTAN, bem como uma redução em tropas da OTAN e equipamentos militares estacionados na Europa Oriental e ameaçou uma resposta militar não especificada se a OTAN continuasse a seguir uma "linha agressiva".

Alegações russas Acusações de genocídio Em 9 de dezembro de 2021, o presidente russo Vladimir Putin falou de discriminação contra falantes de russo fora da Rússia, dizendo: "Devo dizer que a russofobia é um primeiro passo para o genocídio. Você e eu sabemos o que está acontecendo em Donbass. Certamente parece muito com genocídio". Em 15 de fevereiro de 2022, Putin repetiu à imprensa: "O que está acontecendo no Donbass é exatamente genocídio". Os meios de comunicação observaram que, apesar desta acusação, o próprio presidente ucraniano Volodymyr Zelensky é um falante nativo de russo.

Várias organizações internacionais, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a Missão Especial de Monitoramento da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) para a Ucrânia e o Conselho da Europa, não encontraram evidências que apoiassem as alegações russas de "genocídio", que também foram rejeitadas pela Comissão Europeia, como desinformação russa.

A embaixada dos Estados Unidos na Ucrânia descreveu a alegação de genocídio russo como "falsidade repreensível", enquanto o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, disse que Moscou estava fazendo tais alegações como uma desculpa para invadir a Ucrânia. Em 18 de fevereiro, o embaixador russo nos Estados Unidos, Anatoly Antonov, respondeu a uma pergunta sobre funcionários dos EUA, que duvidavam do fato do genocídio de russos em Donbass, postando uma declaração na página da Embaixada no Facebook que dizia: "Os americanos preferem não apenas ignorar as tentativas de assimilação forçada dos russos na Ucrânia, mas também as apoiam política e militarmente".

Acusação de nazismo Uma das várias justificativas apresentadas por Vladimir Putin para a invasão da Ucrânia foi "acabar com o nazismo no vizinho", apesar do país ter um governo democrático e um governante judeu, filho de sobreviventes do Holocausto e um ministro da defesa muçulmano. Essa alegação é tratada por jornalistas e especialistas como mito e desinformação.

Analistas internacionais indicaram as acusações de um nazismo dominante na Ucrânia como uma das 10 principais mentiras espalhadas pela propaganda Russa. O candidato da extrema-direita recebeu apenas 1,6% dos votos nas eleições presidenciais do país.

Visando combater a desinformação, a União Europeia expôs 12 das principais informações falsas espalhadas por propagandistas pró-Rússia, dentre elas a ideia da Ucrânia como um país nazista e de que forças neonazistas possuiriam grande poder político no país.