Os cimérios (, Kimmerioi) foram um antigo povo indo-europeu que viveu ao norte do Cáucaso e do mar de Azov por volta de 1300 a.C., até que foram expulsos para o sul, pelos citas, chegando à Anatólia por volta do século VIII a.C. Linguisticamente costumam ser classificados como iranianos, ou, possivelmente, trácios governados por uma classe dominante iraniana.

Após seu êxodo das estepes pônticas, os cimérios provavelmente saquearam Urartu, por volta de , porém em , após serem repelidos por Sargão II da Assíria, rumaram para a Anatólia, onde, entre 696 e 695, conquistaram a Frígia. Em 652 a.C., após conquistar Sárdis, capital da Lídia, onde atingiram o ápice de seu poder. Seguiu-se então um período de rápido declínio, até sua derrota final, entre 637 e 626, quando foram derrotados pelo rei lídio Alíates. Deixam então de ser mencionados pelas fontes históricas, porém provavelmente a esta altura já teriam se fixado na Capadócia.

História Origem

A origem dos cimérios é incerta. Supostamente teriam algum tipo de parentesco com povos que falavam línguas iranianas ou trácias, ou que ao menos teriam sido governados por uma elite iraniana...

De acordo com o historiador grego Heródoto, do século V a.C., os cimérios habitavam originalmente a região ao norte do Cáucaso e do Mar Negro, durante os séculos VIII e VII a.C., na atual Ucrânia e Rússia. A arqueóloga alemã Renate Rolle argumentou, no entanto, que ninguém ainda demonstrou com evidências arqueológicas a presença dos cimérios nas partes meridionais da Rússia..

Embora o artigo de 2006 da Encyclopædia Britannica corrobore Heródoto — ainda que afirmando que "[os cimérios] provavelmente habitavam a região ao norte do Mar Negro, porém as tentativas de se definir sua terra de origem de maneira mais precisa, através de métodos arqueológicos, ou de até mesmo se fixar com precisão a data de sua expulsão daquela região pelos citas, ainda não foram totalmente bem-sucedidas" — estudos acadêmicos recentes utilizaram-se de documentos que datam de séculos antes de Heródoto, tais como relatórios feitos a Sargão, para apontar que estas obras situavam os cimérios a sul, e não a norte do Mar Negro.

Acadêmicos dos séculos XIX e XX também se basearam nos relatos de Heródoto, porém as descobertas de Sir Henry Layard nos arquivos reais de Nínive e Cale permitiram o estudo de ainda mais material anterior (em muitos séculos) à obra do historiador grego.Deller, K. "Ausgewählte neuassyrische Briefe betreffend Urarṭu zur Zeit Sargons II.," in P.E. Pecorella e M. Salvini (ed.), Tra lo Zagros e l'Urmia. Ricerche storiche ed archeologiche nell'Azerbaigian Iraniano, Incunabula Graeca 78 (Roma, 1984) 97–122. O registro arqueológico assírio aponta que os cimérios, e a terra de Gamir, localizavam-se a pouca distância de Urartu (um reino da Idade do Ferro cujo epicentro era ao redor do lago de Vã, no Planalto Armênio), ao sul do Cáucaso. Relatórios de inteligência militar de Sargão II do século VIII a.C. descrevem como os cimérios ocupavam territórios ao sul do Mar Negro.

Primeira aparição histórica thumb|Invasões cimérias da Cólquida, Urartu e Assíria (715–713 a.C.). O primeiro registro histórico dos cimérios se dá nos anais assírios, no ano de 714 a.C.; eles descrevem como um povo denominado Gimirri ajudou as tropas de Sargão II a derrotar o reino de Urartu. Sua terra de origem, chamada no texto de Gamir ou Uishdish, parece ter se localizado dentro do "estado tampão" de Manas (Mannai ou Mannae). O geógrafo grego Ptolemeu, escrevendo nos séculos I-II d.C., situou a cidade ciméria de Gomara nesta região. Após as conquistas da Cólquida e da Ibéria, ocorridas no primeiro milênio a.C., os cimérios também passaram a ser conhecidos como Gimirri no idioma georgiano. De acordo com historiadores da Geórgia,Berdzenishvili, N., Dondua V., Dumbadze, M., Melikishvili G., Meskhia, Sh., Ratiani, P., History of Georgia (Vol. 1), Tbilisi, 1958, p. 34–36 os cimérios tiveram um papel de grande influência no desenvolvimento da cultura colca e ibérica. A palavra georgiana para "herói", გმირი, gmiri, vem do termo Gimirri, que se referia aos cimérios que habitaram a região após as primeiras conquistas.

Alguns autores modernos afirmam que entre os cimérios estavam mercenários, chamados pelos assírios de Khumri, que haviam sido despachados para aquela região por Sargão. Relatos gregos posteriores descrevem os cimérios tendo habitado anteriormente as estepes situadas entre os rios Tiras (atual Dniestre) e Tánais (atual Don). Fontes gregas e mesopotâmicas mencionam diversos reis cimérios, entre eles Tugdamme (Ligdamis, em grego; meados do século VII a.C.) e Sandakhshatra (final do século VII a.C.).

Um povo "mítico" também chamado de cimério é descrito nos livros XI e XIV da Odisseia, de Homero; eles habitariam além do Oceano, numa terra envolta em névoa e escuridão, na beira do mundo dos vivos, próximo à entrada do Hades. Provavelmente não tinham qualquer relação com os cimérios do Mar Negro.Liddell, Henry e Scott, Robert. "Cimmerians" (Κιμμέριοι), Project Perseus, Universidade Tufts.

De acordo com as Histórias, de Heródoto (c. 440 a.C.), os cimérios teriam sido expulsos das estepes pelos citas. Para se asseguraram de que seriam sepultados em sua terra ancestral, os homens da família real ciméria se dividiam em grupos e combatiam até à morte. Já os cimérios das classes populares eram enterrados ao longo do rio Tiras, enquanto fugiam do avanço cita, cruzando o Cáucaso e chegando à Anatólia.Heródoto, Histórias, livro IV, seções 11–12.

Os assírios registraram as migrações dos cimérios, já que seu antigo rei, Sargão II, havia sido morto em combate contra eles em 705 a.C. Registros posteriores indicam que os cimérios teriam conquistado a Frígia entre 696 e 695 a.C., o que fez com que o rei frígio Midas preferisse o suicídio, ingerindo veneno, do que ser capturado por eles. Em 679 a.C., durante o reinado de Assaradão da Assíria, eles atacaram a Cilícia e Tabal, então comandados por seu novo rei, Teushpa. Assaradão teria derrotado-os nos arredores de Hubushna.

Em 654 ou 652 a.C. – a data exata não é conhecida com exatidão – os cimérios teriam atacado o reino da Lídia, assassinando o rei lídio Giges, e destruindo a capital lídia de Sárdis. Dez anos mais tarde eles realizaram uma nova incursão na mesma cidade, durante o reinado do filho de Giges, Árdis II; desta vez conseguiram conquistar a cidade, com a exceção de sua cidadela. A queda de Sárdis representou um grande choque para as potências regionais da época; os poetas gregos Calino e Arquíloco registraram o temor que os cimérios inspiravam, à época, nas colônias gregas da Jônia, muitas das quais já haviam sido atacadas por saqueadores cimérios e treros.

A ocupação cimérica da Lídia, no entanto, teve curta duração, provavelmente devido a alguma epidemia. Entre 637 e 626 a.C. foram derrotados por Alíates II da Lídia; esta derrota marcou, na prática, o fim do poder cimério. O termo Gimirri foi usado um século depois, na Inscrição de Beistum (c. 515 a.C.) como um equivalente babilônio dos sacas (citas) mencionados pelos persas. Com a exceção desta menção, os cimérios desaparecem por completo dos relatos históricos, e seu destino se torna desconhecido; especula-se que tenham se fixado na Capadócia, conhecida em armênio como Գամիրք, Gamir-kʿ (mesmo nome dado à terra natal dos cimérios em Manas).

Possíveis descendentes Heródoto acreditava que os cimérios e os trácios eram parentes próximos, e que ambos habitavam originalmente a costa setentrional do Mar Negro, de onde teriam sido expulsos por volta de 700 a.C. por invasores vindos do Oriente. Enquanto os cimérios teriam então partido de sua terra natal para o leste e o sul, cruzando o Cáucaso, os trácios teriam migrado para o sudoeste, adentrando os Bálcãs, onde estabeleceram então uma cultura duradoura e bem-sucedida. Os tauros, habitantes originais da Crimeia, por vezes são identificados como tendo parentesco com os cimérios e, posteriormente, com os tauriscos.

Alguns historiadores pré-modernos afirmam que os cimérios seriam antepassados dos celtas ou dos povos germânicos, utilizando como argumento a semelhança do termo latino Cimmerii com cimbros (cimbri, antigo povo germânico) ou Cymry (nome do País de Gales em galês). É improvável, no entanto, que tanto o proto-celta quanto o proto-germânico tenham entrado na Europa Ocidental no final do século VII a.C.; a formação de ambos costuma estar associada às culturas Urnfield, da Idade do Bronze, e à Idade do Bronze Nórdica, respectivamente. Não é inconcebível, no entanto, que migração "traco-ciméria" de pequena escala (em termos populacionais) ocorrida no século VIII possa ter desencadeado mudanças culturais que contribuíram para que a cultura Urnfield se transformasse na cultura de Hallstatt C, trazendo consigo o advento da Idade do Ferro europeia. Posteriormente, estes grupos cimérios restantes poderiam ter se deslocado e atingido os países nórdicos e o rio Reno. Um exemplo seria justamente a tribo dos cimbros, cuja origem estaria na região de Himmerland (em dinamarquês antigo, Himber sysæl), no norte da Dinamarca.Jones, Gwyn. A History of the Vikings, Londres: Oxford University Press, 2001

A etimologia de Cymro "galês" (plural: Cymry), associada aos cimérios por celtistas do século XVII, é tida pelos linguistas que estudam os idiomas celtas atualmente como um derivado do termo britônico *kom-brogos,Geiriadur Prifysgol Cymru, vol. I, p. 770.Jones, J. Morris. Welsh Grammar: Historical and Comparative. Oxford: Clarendon Press, 1995.Russell, Paul. Introduction to the Celtic Languages. Londres: Longman, 1995.Delamarre, Xavier. Dictionnaire de la langue gauloise. Paris: Errance, 2001. que significa "compatriotas", (ou seja, outros britões, ao contrário de outros habitantes das ilhas Britânicas, como os anglo-saxões).

Menções na mitologia de outros povos Nas fontes surgidas a partir dos Anais Reais Frâncicos, os reis merovíngios dos francos tradicionalmente apontavam a origem de sua linhagem a uma tribo pré-frâncica conhecida como sicambros (Sicambri ou Sugambri, em latim), mitificadas como "cimérios" cuja origem seria a foz do Danúbio, mas que na realidade teriam vindo da região de Guéldria, nos atuais Países Baixos, cujo nome tem a mesma origem do rio Sieg.<ref>Geary, Patrick J. Before France and Germany: The Creation and Transformation of the Merovingian World. Nova York: Oxford University Press, 1988</ref> Ou que se teriam originado dos Cimbros com os nomes de seus chefes acabarem no mesmo sufixo -rix.