Cão (nome científico: Canis lupus familiaris),T., Dewey e S., Bhagat. 2002. "Canis lupus familiaris", Animal Diversity Web. Página acessada em 6 de janeiro de 2009 no Brasil também chamado de cachorro, é um mamífero carnívoro da família dos canídeos, subespécie do lobo, e talvez o mais antigo animal domesticado pelo ser humano. Teorias postulam que surgiu do lobo cinzento no continente asiático há mais de anos. Ao longo dos séculos, através da domesticação, o ser humano realizou uma seleção artificial dos cães por suas aptidões, características físicas ou tipos de comportamento. O resultado foi uma grande diversidade de raças caninas, as quais variam em pelagem e tamanho dentro de suas próprias raças, atualmente classificadas em diferentes grupos ou categorias. As designações vira-lata (no Brasil) ou rafeiro (em Portugal) são dadas aos cães sem raça definida ou mestiços descendentes.
Com expectativa de vida que varia entre dez e vinte anos, o cão é um animal social que, na maioria das vezes, aceita o seu dono como o "chefe da matilha" e possui várias características que o tornam de grande utilidade para o homem. Possui excelente olfato e audição, é bom caçador e corredor vigoroso, relativamente dócil e leal, inteligente e com boa capacidade de aprendizagem. Deste modo, o cão pode ser adestrado para executar um grande número de tarefas úteis, como um cão de caça, de guarda ou pastor de rebanhos, por exemplo. Assim como o ser humano, também é vítima de doenças como o resfriado, a depressão e o mal de Alzheimer, bem como das características do envelhecimento, como problemas de visão e audição, artrite e mudanças de humor.
A afeição e a companhia deste animal são alguns dos motivos da famosa frase: "O cão é o melhor amigo do homem", já que não há registro de amizade tão forte e duradoura entre espécies distintas quanto a de humano e cão. Esta relação figura em filmes, livros e revistas, que citam, inclusive, diferentes relatos reais de diferentes épocas e em várias nações. Entre os cães mais famosos que viveram e marcaram sociedades estão Balto, Laika e Hachiko. Na mitologia, o Cérbero é dito um dos mais assustadores seres. No cinema, Lassie é um dos mais difundidos nomes e, na animação, Pluto, Snoopy e Scooby-Doo há décadas fazem parte da infância de várias gerações.
Etimologia e significado Segundo o Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa, na variante brasileira, cão significa mamífero canídeo, domesticado pelo homem desde tempos remotos, que atende pelo plural de cães e tem como forma feminina, cadela. Cachorro, por sua vez, entendido como sinônimo, tem cachorra como feminino e cachorros como forma plural, designa sim um cão novo, uma cria de lobo ou ainda qualquer cão. Em sentido pejorativo, o cachorro é sinônimo de canalha e aparece ainda em formas cristalizadas da gíria e de expressões populares, como "matar cachorro a grito" e "quem não tem cão, caça com gato".Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio: O dicionário da língua portuguesa. Ed. Positivo, Curitiba 2007. ISBN 978-857-472-650-2 Segundo o dicionário online Priberam, na variante europeia, cão possui um significado denotativo mais amplo, além dos conhecidos na variante sul-americana, com sete significados conotativos e três denotativos. O mesmo se aplica a cachorro, que possui uma maior variação de significados em Portugal.
O vocábulo cachorro, proveniente do basco, indicava qualquer tipo de filhote, e, por um processo de restrição de significado linguístico, passou a indicar filhote de cão e o próprio cão. Essa explicação justifica o sinônimo entre as duas palavras e a adoção comum das pessoas, apesar dos significados constantes nos dicionários da língua portuguesa.
Taxonomia e nomenclatura
thumb|Esqueleto de um cão-lobo (híbrido Canis lupus + Canis familiaris) exposto no Museu Nacional de História Natural (França)
O cão foi descrito por Lineu em 1758 como Canis familiaris, e considerado como uma espécie distinta do lobo, descrito também por Lineu no mesmo ano como Canis lupus. Outros nomes foram descritos por Lineu, Johann Friedrich Gmelin e Charles Hamilton Smith para a mesma espécie, sendo considerados sinônimos. A ancestralidade canina vem sendo discutida e estudada desde há muitos anos. Teorias antigas sugerem uma origem proveniente do chacal-douradoLorenz, K. 1954. Man meets dog. Methuen, London ou então uma origem híbrida entre várias espécies.Darwin, C. 1875. The variation of animals and plants under domestication. 2nd. ed. Vol. 1. John Murray, London.Brisbin, I. L. Jr. 1997. Primitive dogs, their ecology and behavior: Unique opportunities to study the early development of the human-canine bond. Journal American Veterinary Medical Association 210 (8): 1122-1126. Um levantamento das sequências da região de controle do DNA mitocondrial em 140 cães e 162 lobos demonstrou que o lobo é o único ancestral dos cães. Esta conclusão foi confirmada em outro estudo envolvendo 654 cães e 38 lobos da Eurásia. Enquanto há uma aceitação do lobo como único progenitor do cão, a questão taxonômica envolvendo o reconhecimento de uma ou duas espécies distintas ainda não está resolvida.Nowak, R.M. Wolf Evolution and Taxonomy. p.257 In: Mech, L.D.; Boitani, L. (eds.) Wolves: behavior, ecology, and conservation. The University of Chicago Press, 2003. pp.448. Baseado na consistência genética, Wayne considerou que o cão, apesar da diversidade em tamanho e proporção, nada mais é do que um lobo.Wayne, R. K. 1986. Cranial morphology of domestic and wild canids: the influence of development on morphological change. Journal of Morphology 187: 301-319. Em contraste, análises estatísticas de crânios têm repetidamente demonstrado uma separação total entre lobo e cão.Lawrence e Bossert67; Nowak79;94
O conceito ecológico de espécie proposto por Van Valen foi aplicado por alguns pesquisadores para demonstrar características adaptativas específicas nos cães por viverem em um nicho antropogênico. Esta hipótese suporta o reconhecimento do Canis familiaris como uma espécie distinta do Canis lupus, apesar de uma idade de separação não superior a a anos atrás. Apesar de certos pesquisadores continuarem a reconhecer duas espécies distintas,Coppinger, R. and L. Coppinger. 2001. Dogs: a startling new understanding of canine origin, behavior and evolution. Scribner, NY. existe uma tendência recente em seguir a classificação proposta por Wozencraft (1993; 2005) que inclui o C. familiaris como uma subespécie de C. lupus. Pela lei da prioridade estipulada pelo Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, o nome C. familiaris, descrito na página 38, tem prioridade sobre C. lupus, descrito na página 39 do Systema Naturae por Linnaeus. Por questões de usabilidade e estabilidade, foi requisitado à Comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica a conservação de dezessete nomes específicos baseados em espécies selvagens, entre eles o Canis lupus.Gentry, A.; Clutton-Brock, J.; Groves, C.P. (1996). Case 3010. Proposed conservation of usage 15 mammal specific names based on wild species which are antedated by or contemporary with those based on domestic animals. Bulletin of Zoological Nomenclature 53: 28-37.ICZN. (2003). Opinion 2027 (Case 3010). Usage of 17 specific names based on wild species, which are pre-dated by or contemporary with those based on domestic animals (Lepidoptera, Osteichthyes, Mammalia): conserved. Bulletin of Zoological Nomenclature 60: 81-84.
Domesticação
Pré-história esquerda|thumb|O cão divergiu de uma população agora extinta de lobos imediatamente antes ou durante o último máximo glacial, quando grande parte das gigantescas estepes estavam frias e secas
As origens do cão doméstico baseiam-se em suposições, por se tratar de ocorrências de milhares de anos, cujos crescentes estudos mudam em ambiente e datação dos fósseis. Uma das teorias aponta para um início anterior ao processo de domesticação, apresentando a separação de lobo e cão há cerca de anos, sob a luz dos encontrados restos de canídeos com uma morfologia próxima à do cinzento, misturados com ossadas humanas.Wang, Xiaoming & Tedford, Richard H. Dogs: Their Fossil Relatives and Evolutionary History. Capítulo 3. Ed. Columbia University Press, Estados Unidos 2010. ISBN 0231135297 Outras, cujas cronologias são mais recentes, sugerem que a domesticação em si começou há cerca de anos, os primeiros trabalhos caninos e o início de uma acentuada evolução entre e , e por volta de 20% das raças encontradas atualmente, entre e 8 000 anos no Oriente Médio.Alderton (2002), pág 6 Além das imprecisões do período, há também discordâncias sobre a origem. Enquanto especula-se que os cães sejam descendentes de uma outra variação canídea, as mais aceitáveis são a descendência direta do lobo cinzento ou dos cruzamentos entre lobos e chacais.Teixeira, Eduardo de Souza. Princípios básicos para a criação de cães. págs 13-15. Ed. Nobel, Brasil 2005. ISBN 8521311338
As evidências baseiam-se também em achados arqueológicos, já que foram encontrados cães enterrados com humanos em posições que sugerem afetividade. Segundo estes trabalhos de pesquisa, o surgimento das variações teria ocorrido por seleção artificial de filhotes de lobos-cinzentos e chacais que viviam em volta dos acampamentos pré-históricos, alimentando-se de restos de comida ou carcaças deixadas como resíduos pelos caçadores-coletores. Os seres humanos perceberam a existência de certos lobos que se aproximavam mais do que outros e reconheceram certa utilidade nisso, pois eles alertavam para a presença de animais selvagens, como outros lobos ou grandes felinos. Mais sedentários devido ao desenvolvimento da agricultura, os seres humanos então deram um novo passo na relação com os caninos. Eventualmente, alguns filhotes foram capturados e levados para os acampamentos na tentativa de serem utilizados. Com o passar dos anos, os animais que, ao atingirem a fase adulta, mostravam-se ferozes, não aceitando a presença humana, eram descartados ou impedidos de se acasalar. Deste modo, ao longo do tempo, houve uma seleção de animais dóceis, tolerantes e obedientes aos seres humanos, aos quais era permitido o acasalamento e que, quando adultos, eram de grande utilidade, auxiliando na caça e na guarda. Esse gradual processo, baseado em tentativas e erros, levou eventualmente à criação dos cães domésticos.JOHNS, Catherine. Dogs: history, myth, art. págs 9 a 21. Ed. The British Museus Press, 2008. ISBN 978067403093Fogle (2009), págs 10, 16, 18 e 19 Foi ainda durante a Pré-História que surgiram os primeiros trabalhos caninos e, com isso, começaram a fortalecer os laços com o ser humano. Cães de caça e de guarda ajudavam as tribos em troca de alimento e abrigo. Com o tempo, aperfeiçoaram o rastreio e dividiram o abate das presas com os humanos. Por possuírem alta capacidade de adaptação, espalharam-se ao redor do mundo, levados durante as migrações humanas e aparecendo em antigas culturas romanas, egípcias, assírias, gaulesas e pré-colombianas, tendo então sua história contada ao lado da do homem. thumb|O cão-lobo-de-saarloos carrega mais DNA de lobo-cinzento do que qualquer outra raça de cachorro