A Escrava Isaura é uma telenovela brasileira produzida e exibida pela Record entre 18 de outubro de 2004 até 29 de abril de 2005 em 167 capítulos, substituindo parte do horário ocupado pelo Cidade Alerta e sendo substituída por Essas Mulheres. É a 1ª novela exibida pela emissora a partir da retomada da dramaturgia naquele ano. Baseada no romance homônimo de 1875, de Bernardo Guimarães, é uma novela de Tiago Santiago e Anamaria Nunes com colaboração de Altenir Silva, direção de Fábio Junqueira, Emílio Di Biasi e Flávio Colatrello Jr. e direção geral de Herval Rossano.
Henrique Daniel interpretou o tema de abertura "Luz do Sol que Clareia a Terra" e Rogério Machado o encerramento "Retirantes", ambas presente na trilha sonora da trama, lançada em 2005. O elenco recebeu consagrações do Prêmio Zumbi dos Palmares e de órgãos argentinos, por ser exibida internacionalmente. A telenovela abrangeu o tema racismo, usando a escravidão como metáfora para difusão de "injustiças e arbitrariedades". A trama encerrou com 15 pontos de média na medição do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística em São Paulo, índices considerados satisfatórios para a emissora, que determinou uma meta inicial de apenas 7 pontos. Foi elogiada pelas atuações dos atores.
Contou com as atuações de Bianca Rinaldi, Leopoldo Pacheco, Patrícia França, Théo Becker, Renata Dominguez, Mayara Magri, Jackson Antunes e Maria Ribeiro.A Escrava Isaura (2004)
Antecedentes Em 1875, Bernardo Guimarães escreveu um romance sobre uma escrava branca, que foi publicado no mesmo ano pela editora Casa Garnier sob o título de A Escrava Isaura. Guimarães teve reconhecimento pela obra, que foi um sucesso logo após ser publicada, em parte pelo apelo feminino em razão do sentimentalismo do enredo. O livro toca em pontos abolicionistas, que eram controversos na época e é considerado um marco na literatura abolicionista brasileira. Duas tentativas de filmes baseados na obra de Guimarães foram feitas em 1917 e 1922, mas somente em 1929 a versão muda foi lançada, seguida da versão sonora de 1949 que foi protagonizada por Fada Sontoro. Mais tarde, em 1976, a telenovela Escrava Isaura foi produzida pela TV Globo.
A Record havia encerrado seu núcleo de teledramaturgia em 1974 após Meu Adorável Mendigo, dispensado atores, autores e toda equipe de produção, colocando fim na tradição de produzir telenovelas que trazia desde 1954, o que gerou revolta nos artistas pela diminuição do mercado de trabalho. Em 1977 a emissora produziu uma única telenovela, O Espantalho, à pedido de Ivani Ribeiro, autora da obra que considerada inadmissível o fechamento da dramaturgia, porém após esta a emissora decidiu não reativar seu núcleo. Em 1997 a emissora voltou a produzir algumas telenovelas de baixo-orçamento e de forma independente, recorrendo à produtoras terceirizadas ou utilizando cenários desocupados pelo jornalismo, entre elas Canoa do Bagre (1997), Estrela de Fogo (1998), Louca Paixão (1999), Tiro e Queda (1999), Marcas da Paixão (2000), Vidas Cruzadas (2000), Roda da Vida (2001), e Metamorphoses (2004), além de algumas séries infantis e minisséries.
Produção thumb|direita|220px|Fazenda Santa Gertrudes, onde a novela foi gravada Em 10 de maio de 2004, Herval Rossano foi contratado pela Record para reativar o núcleo fixo de teledramaturgia da emissora, inexistente desde o fim Meu Adorável Mendigo (1974), trinta anos antes – evitando produções independentes de baixo orçamento feitas nos anos anteriores. Recebendo uma "carta branca" para realizar o que fosse preciso, independente do valor, Herval promoveu uma reestruturação total nos estúdios da emissora em São Paulo, além de investir na compra de equipamentos de última geração dos Estados Unidos e expansão da equipe, que incluía contratação de produtores e técnicos, novos autores e outros já renomados que estivessem infelizes em outras emissoras e novo, além de atores qualificados e que dessem "nome" às produções, oferecendo contratos de longa duração.
Ao todo foi gasto em torno de 8 milhões de dólares – 24 milhões de reais na época – em equipamento e construção de estúdios, algo considerado colossal. Além disso, visando produções futuras, Herval começou a buscar um complexo de estúdios no Rio de Janeiro para que a Record pudesse comprar dentro de 1 ou 2 anos, indicando que seria mais fácil contratar novos atores da TV Globo na capital carioca, onde a maioria morava. O diretor apresentou sete sinopses para a direção da emissora, trazidas de autores independentes, colaboradores da TV Globo que queriam alçar as carreiras como titulares e livros de impacto cultural que poderiam ser adaptados, decidindo então produzir uma nova versão do romance literário de Bernardo Guimarães após oito dias de reuniões, o qual foi escolhido tanto pela história tida como "bem amarrada", quanto por confiar que atrairia o público pela memória afetiva da primeira versão televisiva.
A história foi adaptada diretamente o livro de 1875 – uma obra de domínio público –, e não da versão da TV Globo, tendo o decorrer da trama diferentes, além da inclusão de outros personagens. Tiago Santiago foi o primeiro autor contratado pela emissora, sendo anunciado como autor da adaptação ainda em maio de 2004. Foram investidos, para cada capítulo da trama, 250 mil reais.
Escolha do elenco Patrícia França, Mayara Magri e Jackson Antunes foram os primeiros atores confirmados na trama em junho de 2004. Originalmente Cleo foi a primeira convidada para interpretar Isaura, porém a atriz recusou, alegando que não estava pronta para o papel central de uma trama, fato este que levou-a a recusar a protagonista de Cabocla, na TV Globo, na mesma época. Mel Lisboa chegou a ser negociar com a emissora, porém Herval Rossano barrou sua escalação. O papel ficou com Bianca Rinaldi, que vinha de duas protagonistas bem sucedidas no SBT, sendo que a atriz abriu mão de um papel menor na novela América por Isaura. Bianca recebeu críticas negativas ao ser anunciada por ser loira de olhos azuis, além de ter a pele bronzeada, diferente da descrição do livro que citava Isaura como "tão branca quanto a Lua", sendo que a atriz teve que passar por um processo de caracterização, que incluía pintar os cabelos de preto, usar lentes de contato e evitar o contato com o sol meses antes.
Lavínia Vlasak foi convidada para interpretar a antagonista Branca, porém recusou pela trama ser gravada em São Paulo, o que lhe faria ter que mudar-se durante meses – a atriz aceitaria o convite um ano depois para Prova de Amor, quando a teledramaturgia da Record migrou para o Rio de Janeiro. Após o bom desempenho em Malhação, Henri Castelli foi convidado para interpretar o protagonista Álvaro, porém o ator acabou tendo seu contrato renovado com a TV Globo e sendo escalado para o antagonista de Como uma Onda. Theo Becker foi escolhido para o papel após realizar testes com outros cinco atores, incluindo Miguel Thiré e Caio Junqueira – que também foi incluído na trama como Geraldo, melhor amigo do protagonista. Rubens de Falco foi convidado para interpretar Comendador Almeida exatamente por já ter feito parte da primeira versão da telenovela, no qual interpretou Leôncio. Leopoldo Pacheco foi convidado pessoalmente por Herval Rossano por seu destaque no teatro.
Cenografia e figurinos As locações externas foram feitas em uma fazenda cafeeira localizada em Santa Gertrudes, com mais de 22 mil m² de construção em arquitetura francesa que pertenceram ao Barão de São João do Rio Claro e ao Conde de Prates; contendo casa de colonos, senzala e estação de trem, que seriam importantes para o enredo da trama. As cenas internas foram feitas nos estúdios da Barra Funda, que pertencem a Rede Record, em um espaço de 2 mil m², com cenários e camarins. Os figurinos de época foram feitos sobre encomenda, contendo cerca de 2 mil peças; as vestimentas femininas chegavam a pesar cerca de 20 quilos, contendo calçolas, saiotes, cintas e crinolina, que inflava as saias até um diâmetro de 1,20 metro. As gravações começaram dia 27 de julho de 2004.
Personagens thumb|150px|Rubens de Falco como Comendador Almeida A atriz Bianca Rinaldi interpreta a personagem principal, Isaura dos Anjos, filha da escrava Juliana (Valquíria Ribeiro) com o feitor branco Miguel (Jackson Antunes), que sonha com a sua liberdade. Ela pertence ao Comendador Almeida (Rubens de Falco) e Gertrudes (Norma Blum), essa última que é a sua madrinha e lhe deu uma educação esmerada. Isaura despertou em Leôncio (Leopoldo Pacheco), filho do Comendador, uma obsessão doentia por conta da psicopatia, crueldade e egoísmo que vive dentro dele desde pequeno. Ele é casado com Malvina (Maria Ribeiro), que é irmã de Henrique (Gabriel Gracindo) e filha do Coronel Sebastião (Paulo Figueiredo), também pai da escrava Rosa (Patrícia França), que deseja o mal de Isaura e afeiçoa-se a meia-irmã Helena (Fernanda Nobre). Os escravos do Comendador Almeida, André (Déo Garcez), Joaquina (Chica Lopes) e o jardineiro corcunda e de dentes podres Belchior (Ewerton de Castro), que são chefiados pelo feitor Chico (Jonas Mello), amam e protegem Isaura de Leôncio.
Tomásia Albuquerque (Mayara Magri), filha de Gioconda (Mirian Mehler) e irmã de Gabriel (André Fusko), se casou com o Conde Campos (Carlo Briani) e tornou-a rica e seu único objetivo é vingar-se de Leônico. Álvaro (Théo Becker), que se apaixona por Isaura sob o nome de Elvira e é um abolicionista, é prometido em casamento a Branca (Renata Dominguez) e é filho de Perpétua (Sylvia Bandeira). Flor-de-Lís (Lígia Fagundes), Margarida (Thaís Lima) e Violeta (Daniela Duarte) trabalham no bordel comandado por Serafina (Maria Cláudia).
Enredo direita|thumb|230px|Bianca Rinaldi com o figurino da protagonista Isaura Isaura nasceu em 1834, na fazenda do Comendador Almeida, na cidade de Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro. É filha da bela negra Juliana, escrava do comendador, e do feitor da fazenda, Miguel. Juliana morre açoitada no tronco, pouco depois do parto, pois sempre se negou a ir para cama com o comendador. Isaura, sua filha, é criada e educada por Gertrudes, mulher de Almeida, que desejou ter uma filha. Apesar da excelente educação e de ter a pele muito clara, Isaura é escrava.
Em 1854, Isaura tem 20 anos e é uma bela e casta donzela que toca piano, canta, pinta, borda e fala alguns idiomas. Tudo o que ela faz é divinamente belo, o que desperta a inveja doentia de Rosa, uma escrava má e falsa, que já se deitou com todos os homens da fazenda. Tudo se complica na sua vida quando volta para a fazenda do perverso senhor Leôncio, filho do Comendador, que desenvolve uma paixão doentia por Isaura. Ele terá Rosa como sua amante e aliada, que sofre na mão do vilão, mas o obedece e pratica crueldades com sua inimiga. Leôncio é obrigado a se casar por interesse com Malvina, filha do rico coronel Sebastião Cunha, mas continua tentando seduzir Isaura.
Todas suas tentativas e propostas são sempre indeferidas pela escrava. Malvina passa a sofrer com agressões de Leôncio e sua brutalidade sexualmente, e no começo desconfia que Isaura tem relações com Leôncio, mas com o tempo descobre a verdade. Gertrudes tenta dar a liberdade para Isaura, mas morre antes de conseguir realizar o objetivo. Pouco depois de sua morte, o Comendador Almeida também morre e é perdoado pela escrava pelas maldades que ele fazia consigo e com sua mãe no passado. Leôncio queima o testamento do pai que concedia a alforria a Isaura e torna-se assim o dono da escrava, para desespero total da mesma, que até é proibida por ele de visitar seu pai. A vida de Isaura transforma-se num inferno. Passa a se vestir feita escrava e fazer todos os trabalhos pesados, além de sempre agredida e sofrer assédio sexual de Leôncio. Ela passa a dormir na senzala e sofrer ainda mais com as crueldades de Rosa.