Marta Guarani, nascida Marta Silva Vito e também conhecida como Kunha Gevy (Aldeia Jaguapiru, Dourados, 29 de julho de 1942 - Campo Grande, 6 de setembro de 2003), foi uma liderança da etnia Guarani que atuou nos movimentos de mulheres indígenas no Brasil e na luta pelo acesso à terra dos povos indígenas na região do bioma do Pantanal, na região Centro-oeste do BrasilSOUZA, Marlene Ricardi de. Transformações no modo de ser mulher Guarani e Kaiowá no MS no cenário de profundas transformações no território, na organização social, nas formas de sustentabilidade e na participação política (1970 a 2017). 2020. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2020. Disponível em: https://www.ppghufgd.com/wp-content/uploads/2021/03/Dissertacao-Marlene-Ricardi-de-Souza.pdf. Acesso em: 28 ago. 2026..
Juventude e ditadura Militar no Brasil Desde jovem já se colocou na luta por melhores condições de vida para sua Aldeia, denunciando violências e abusos da administração da Funai, que retirou o cacique e o pajé do poder para colocar uma milícia comandada por coronéis. Ela tinha 28 anos quando foi obrigada a deixar sua Aldeia de nascimento e foi perseguida pelo regime da ditadura civil-militar brasileira, pois ao longo de toda a década de 1970 correu pelas estradas para convocar pessoas indígenas para a luta por direitos dos povos originários na região. Passou por Vila Índia em Dourados, e nos bairros de Moreninhas, Tiradentes, Guanady e Itamaracá em Campo Grande, e na região de Cristo Redentor na cidade de Corumbá. REDEH. Marta Guarani (1942 – 2003) In: Mulher 500 anos atrás dos panos. Disponível em: http://www.mulher500.org.br/marta-guarani-1942-2003/. Acesso em 16/03/2022
Luta pelos direitos das mulheres originárias Marta Guarani também se dedicou na luta pelos direitos das mulheres originárias por melhores condições de vida e contra as violências destinadas a elas. Participou do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher no Mato Grosso do Sul e representou as mulheres indígenas na Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras. Também foi representante das comunidades indígenas na Organização das Nações Unidas – ONU por diversas vezes.
Luta pela terra Em 1983, Marta Guarani atuou politicamente para que fosse fundada uma unidade da Funai no município de Amambaí, pois a região contava com uma grande quantidade de pessoas indígenas desassistidas de direitos básicos. Três anos depois, 1986, atuou na localização de anciãos e anciãs da etnia Guató, em Corumbá. O povo Guató era considerado extinto pelo poder público, e a atuação de Marta Guarani contribuiu para a demarcação da Terra Indígena Guató. Em 1997 a cidade de Campo Grande reconheceu a trajetória de luta pela terra de Marta Guarani e a concedeu o título de Cidadã Campo-grandense. No ano de 2001, Marta Guarani participou da construção da Aldeia Urbana Água Bonita, em Campo Grande, destinada a pessoas indígenas desaldeadas.SOUZA, Marlene Ricardi de. TRANSFORMAÇÕES NO MODO DE SER MULHER GUARANI E KAIOWÁ EM MS NO CENÁRIO DE PROFUNDAS TRANSFORMAÇÕES NO TERRITÓRIO, NA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, NAS FORMAS DE SUSTENTABILIDADE E NA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA (1970 A 2017). Dissertação apresentada ao Programa de Pós- -Graduação em História, da Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, como parte dos requisitos finais para a obtenção do título de Mestre em História.p. 72-73. Disponível em: https://www.ppghufgd.com/wp-content/uploads/2021/03/Dissertacao-Marlene-Ricardi-de-Souza.pdf. Acesso em 16 de março de 2022.
Associação Indígena Kaguateca Marçal de Souza
Além da atuação em conjunto com o povo Guarani e Kaiowá, Marta Guarani também atuou com os povos Guató, Terena, Kadiwéu e Ofaié da região do Mato Grosso do Sul para garantia do direito à terra e a melhores condições de vida.
Em meados de 1985, Marta Guarani fundou e assumiu a presidência da Associação de Índios Kaguateca "Marçal de Souza". O propósito da entidade foi reunir os povos originários de Mato Grosso do Sul, presentes no campo e na cidade, para promover uma articulação pan-indígena inédita na região e superar divisões históricas decorrentes da fragmentação colonial. O termo "Kaguateca" consiste em um acrônimo político idealizado pela própria fundadora, estruturado a partir da junção das sílabas iniciais das quatro principais etnias indígenas do estado: Kadiwéu, Guarani, Terena e Kaiowá. Ao operar como uma frente unificada, a organização conferiu peso político e representatividade coletiva às comunidades. A associação pautou sua atuação na defesa do direito à terra e de uma vida digna, exigindo do Estado brasileiro a demarcação de territórios, o respeito aos direitos humanos e a preservação das tradições e dos modos de vida.CAMPO GRANDE. Lei nº 7.136, de 4 de setembro de 2023. Institui o Dia Municipal da Mulher Indígena, denominado "Kaguateca". Campo Grande, MS, 4 set. 2023. Disponível em: https://legis.camara.ms.gov.br/ato/consolidado/id/103253/lei_ordinaria/2023/7136/lei_ordinaria-n-7136-2023-institui_o_dia_municipal_da_mulher_indigena_denominado_kaguateca_. Acesso em: 28 ago. 2026. A organização manteve-se ativa até o início da década de 2000.
Marta Guarani era sobrinha de Marçal de Souza, o Tupã-I, uma grande liderança guarani que lutou pela terra e cultura indígenas no mato Grosso do Sul na região de Dourados. Ele foi perseguido pela Ditadura Civil-Militar e assassinado em 1983.SOUZA, Marlene Ricardi de. TRANSFORMAÇÕES NO MODO DE SER MULHER GUARANI E KAIOWÁ EM MS NO CENÁRIO DE PROFUNDAS TRANSFORMAÇÕES NO TERRITÓRIO, NA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, NAS FORMAS DE SUSTENTABILIDADE E NA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA (1970 A 2017). Dissertação apresentada ao Programa de Pós- -Graduação em História, da Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, como parte dos requisitos finais para a obtenção do título de Mestre em História.p.30, 59. Disponível em: https://www.ppghufgd.com/wp-content/uploads/2021/03/Dissertacao-Marlene-Ricardi-de-Souza.pdf. Acesso em 16 de março de 2022.
Falecimento Marta Guarani faleceu em seis de setembro de 2003 em decorrência de problemas cardíacos.CÂMARA DE DOURADOS. Marta Guarani deixa órfã a Comunidade Indígena.07/09/2003. Disponível em: https://www.dourados.ms.gov.br/index.php/marta-guarani-deixa-orfa-a-comunidade-indigena/. Acesso em 16/03/2022
Legado O exemplo das lutas de Marta Guarani podem ser vistos nos movimentos e organização das mulheres indígenas hoje, como o CONAMI – Conselho Nacional de Mulheres Indígenas - que em seu livro Natyseño: Trajetória, Lutas e Conquistas das Mulheres Indígenas, publicado pela primeira vez em 2006, a homenageou por toda sua vida dedicada às lutas sociais pelos direitos das pessoas indígenas.
A atuação política de Marta Guarani também atingiu o mundo com suas falas na ONU. De acordo com o relato de Solange Guarani, uma das filhas de Marta Guarani, a liderança esteve na ONU por diversas vezes para levantar as demandas dos povos originários:
Ao comentar a trajetória de sua mãe, destacou sua atuação na defesa dos povos Guarani e Kaiowá e sua participação em encontros na Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo seu relato, ela percorreu diferentes regiões para dar visibilidade às reivindicações dessas comunidades. Também manifestou preocupação com a continuidade de conflitos, disputas territoriais e episódios de violência e preconceito envolvendo povos indígenas, avaliando que, apesar das mobilizações realizadas ao longo das décadas, diversas reivindicações relacionadas aos seus direitos permanecem pendentes.SOUZA, Marlene Ricardi de. TRANSFORMAÇÕES NO MODO DE SER MULHER GUARANI E KAIOWÁ EM MS NO CENÁRIO DE PROFUNDAS TRANSFORMAÇÕES NO TERRITÓRIO, NA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, NAS FORMAS DE SUSTENTABILIDADE E NA PARTICIPAÇÃO POLÍTICA (1970 A 2017). Dissertação apresentada ao Programa de Pós- -Graduação em História, da Faculdade de Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados, como parte dos requisitos finais para a obtenção do título de Mestre em História.p. 64-65. Disponível em: https://www.ppghufgd.com/wp-content/uploads/2021/03/Dissertacao-Marlene-Ricardi-de-Souza.pdf. Acesso em 06 de setembro de 2022
Marta Guarani nomeia um capítulo no livro Contemporary Indigenous Movements in Latin America [Movimentos indígenas contemporâneos na América Latina, em tradução livre], editado por Erick D. Langer e Elena Muñoz, que traz uma fala de Marta Guarani na ONU em maio de 1994.
Desde 2004, a Câmara Municipal de Dourados - MS promove o Prêmio Marta Guarani para reconhecer a atuação política de mulheres naquele município.CÂMARA MUNICIPAL DE DOURADOS. Câmara de Dourados entrega a 15ª edição do Prêmio Marta Guarani na segunda-feira.04/03/2022. Disponível em: https://www.camaradourados.ms.gov.br/noticia/camara-de-dourados-entrega-a-15-edicao-do-premio-marta-guarani-na-segunda-feira. Acesso em 16/03/2022.
Em 26 de abril de 2016, esculturas em busto de Marta Guarani e de Marçal de Souza foram inauguradas no Parque das Nações Indígenas em Campo Grande - MS. Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. Bustos de Marçal de Souza e Marta Guarani são inaugurados no Parque das Nações Indígenas, 26/04/2016. Disponível em https://www.fundacaodecultura.ms.gov.br/bustos-de-marcal-de-souza-e-marta-guarani-sao-inaugurados-no-parque-das-nacoes-indigenas/. Acesso em 16/03/2022
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