Jean-Louis Vastey também conhecido por Pompée Valentin Vastey ou Barão de Vastey, (Saint-Domingue, 1781 – 1820), foi um escritor, político e um dos mais importantes intelectuais haitianos pós-revolução. Ocupou o cargo de secretário do Rei Henry Christophe I. Em seus escritos, denunciou os horrores do sistema de escravidão colonial, em um de seus livros mais célebres, Le Système Colonial Dévoilé (1814), "sua mais importante contribuição ao humanismo moderno" (Daut 2017:59).
No início do século XIX, Vastey era uma figura pública internacionalmente reconhecida em razão de seus escritos, que circulavam por todas as regiões do Atlântico, tendo sido resenhados em revistas e jornais franceses, americanos, alemães e britânicos (Daut 2017:13) e seus textos costumavam ser utilizados para provar as habilidades literárias de homens negros e para argumentar em favor de sua humanidade. Além disso, Vastey escreveu a primeira história completa do Haiti (Daut 2017:14). Após a Revolução Haitiana e a subsequente divisão da ilha entre diferentes governantes, assumiu diversos cargos sob a regência do Rei Christophe I, a quem serviu até sua morte em 1820.
Biografia Jean Louis Vastey era filho de um colono escravizador francês chamado Jean Vastey, de Jumièges, e de uma “mulher livre negra” chamada Marie Françoise Élisabeth Dumas oriunda de uma família dona de uma rica plantation de Santo Domingo. Viveu na França entre 1790 e 1794, passando algum tempo na Normandia, onde os parentes de seu pai viviam, assim como em Paris. Vastey teve duas filhas chamadas Aricie e Malvina, esta última também conhecida como Améthyste. A historiadora Marlene Daut desenvolveu uma hipótese em um artigo de que Vastey atuou como poeta, em que fornece amplas evidências de que um certo poeta chamado “Pompée Valentin Vastey” estava publicando poesias nas principais revistas francesas no final do século XVIII e início do século XIX. Daut identificou quase quarenta poemas escritos por este Vastey, incluindo um celebrando a ascendência normanda do poeta, assim como muitos anúncios para livros de poesia, dentre eles um intitulado Anaïde et Alcidore, Poème Érotique en Quatre Chants, que supostamente foi publicado em 1799 e 1800, mas não há mais registros de suas cópias. Porém, essa hipótese não foi amplamente confirmada por outros estudiosos.
Entre 1814-1819, Vastey publicou cerca de nove livros sob seu nome e muitos outros atribuídos a ele. Algumas de suas obras são: Réflexions sur une lettre de Mazères, réflexions politiques sur quelques ouvrages et journaux français, concernant Hayti e Essai sur les causes de la révolution et des guerres civiles d’Hayti, Cri de la conscience, À mes concitoyens e sua principal obra Le Système Colonial Dévoilé.
Considerado por muitos intelectuais um pensador responsável por uma antecipação visionária do anticolonialismo, principalmente em Le Systéme Colonial Dévoilé Vastey parte de seu contexto de vivência, Le Systéme colonial dévoilé criticando-o de um ponto de vista antiescravista, anticolonial e anti-racista (Martínez, 2018, 182; Balbuena et al., 2020, p. 1). Desde outra perspectiva, sua obra tem como objetivo afirmar a humanidade dos negros e das negras e a igualdade diante dos brancos e das brancas, uma tarefa intelectual que começou ainda no século dezoito dos dois lados do Atlântico - em particular, criticando um sistema que utilizava a suposta desigualdade para escravizar e torturar africanos e afrodiaspóricos. Para Marlene Daut, o uso dado por abolicionistas (século XIX) e anticolonialistas (século XX) aos escritos de Vastey faz dele "uma figura fundacional em um movimento filosófico do humanismo do Atlântico Negro cujo objetivo era romper com as filosofias iluministas que sustentavam a escravidão colonial e o racismo colonial" (Daut 2017:xviii).
Em uma carta datada de 1819 à Thomas Clarkson, Vastey relata que aos 15 anos, no ano de 1796, obteve seu primeiro encontro com o líder Toussaint Louverture, quando prestou serviço para o país sob o comando do General Toussaint e, posteriormente, sob o comando do imperador Dessalines e do Rei (Vastey and Bongie 2014: p. 26). Nos primeiros momentos da revolução haitiana, alista-se às tropas francesas e combate os revolucionários haitianos. Mais tarde, em 1803, ao tomar consciência da questão racial e ao se opor às táticas genocidas de Leclerc e Rochambeau, muda de lado e junta-se aos revolucionários (Daut, 2017, 11).
Os anos que se seguiram à revolução foram de grandes reviravoltas. Dessalines foi assassinado em 17 de outubro de 1806. Após sua morte, o Haiti foi dividido em três províncias, controladas por três antigos generais da Revolução Haitiana. No norte, Henry Christophe; no sul, Alexandre Pétion; o sudoeste do Haiti inicialmente foi governado por André Rigaud, até sua morte em 1811, quando passou as mãos, primeiro, do General Borgella e, por fim, em 1812, de Pétion. Pétion se declarou presidente e criou uma república democrática, segundo ele mesmo, nos moldes da república norte-americana. Ao seu turno, em 1811, Christophe transformou seu estado em uma monarquia constitucional, ainda que hereditária. E é precisamente este último que dá a Vastey seu título honorífico pelo qual veio a ser conhecido.
Vastey ocupa e mesmo acumula muitos cargos no reinado de Christophe I - inclusive o de tutor do filho e herdeiro do rei. O mais importante, ou ao menos aquele pelo qual veio a ser conhecido, é o de seu secretário, a quem é incumbida a tarefa de defender o reino por meio de escritos.
Christophe comete suicídio em outubro de 1820. Logo após, membros do seu governo que não se renderam a Boyer, inclusive Vastey, são assassinados.
Le Système Colonial Dévoilé A epígrafe já anuncia o projeto de Vastey em O Sistema Colonial Desvelado: revelar o segredo horrível do sistema colonial de dominação branca que massacra e escraviza negros (Vastey e Bongie, 2014, pág. 92), condenando os escravizados a trabalhos duros, tortura, desprezo e mesmo à morte (Martínez, 2018: 195-196). A referência paródica a uma passagem do livro do colono francês Pierre Victor Malouet, em que este lamenta os efeitos da “dominação negra” sob Toussaint Louverture, é ilustrativa da estratégia retórica e argumentativa adotada por Vastey. Além disso, parte da originalidade do pensamento de Vastey está na conexão estabelecida entre o racismo e o colonialismo e na argúcia com que foi capaz de observar o elemento de poder e dominação presente no racismo.
Segundo Chris Bongie, O Sistema Colonial Desvelado é o único livro de Vastey a contar com uma dedicatória formal ao seu soberano (Vastey and Bongie 2014: 153), o Rei Henry Christophe I. Além disso, Barão de Vastey a utiliza para fazer referências importantes à soberania do Haiti, reivindicada por Christophe, e suas conexões com os direitos dos homens, com a opressão racial e com a história do próprio Haiti.
Vastey abre a introdução com um apelo aos líderes e nações europeias, se conectando com as leituras políticas dos abolicionistas, mencionando Alexander I (1777-1825) - imperador russo, visto pelos abolicionistas britânicos como um forte aliado - e fazendo referências pragmáticas e ideológicas à “grande e magnânima Nação Britânica” (Vastey and Bongie 2014:95). Além disso, louva aquilo que considera avanços da luta na direção da abolição permanente da escravidão, ao mesmo tempo em que denuncia a insistência da França em manter o tráfico transatlântico por mais cinco anos, explorando retoricamente as contradições políticas e morais francesas. Nesse contexto, avaliado como “propício para o povo haitiano” (Vastey and Bongie 2014:96), também relembra o manifesto publicado pelo Rei Christophe I em 18 de setembro de 1814 (o documento buscava sustentar a independência haitiana diante do Tribunal das Nações e é responsável pela boa percepção dos abolicionistas britânicos em relação ao reinado de Christophe) e anuncia a tarefa auto imposta de “desvelar o bárbaro Sistema Colonial que nos oprimiu por séculos” (Vastey and Bongie 2014:96). O contexto histórico em que se encontravam os escravizados e a ênfase dada aos seus relatos servem o propósito de denunciar e criticar os horrores coloniais e racistas da Europa colonizadora. (Balbuena e Bruschetti, 2020, p. 1). A proposta de Vastey é oferecer uma crítica ao colonialismo enquanto um sistema baseado na violência, roubo, pilhagem entre outros tipos de violências (Bongie, 2005, 78).
A primeira seção do livro tem uma tripla divisão e consiste em um relato histórico da colonização das Américas e do Haiti em particular, dos atos violentos perpetrados pelos europeus nas Américas, culminando com a “monstruosidade desse tráfico”. Assim, o primeiro passo consiste em falar da violência cometida no novo mundo pelos europeus, indicando que “os seus [dos europeus] primeiros passos foram acompanhados por crimes em grande escala, massacres, destruição de impérios, obliteração de nações inteiras das fileiras dos vivos” (Vastey and Bongie 2014:97), cujas fúteis motivações eram a cobiça, a crueldade, a arrogância e a vontade de poder. Esses terríveis crimes levaram ao extermínio da população original do próprio Haiti. O lamento pelos dizimados é acompanhado de uma apologia às armas - um meio de resistência contra os tiranos e um argumento em favor da autodefesa dos haitianos contra as violências cometidas pelos europeus. Apoiando-se na Introdução ao Manuel des habitans de Saint-Domingue de Ducœurjoly, texto que cita generosamente, Vastey produz uma breve história da ilha e de seus habitantes, narrando suas condições antes e depois da chegada dos europeus. Assim, conecta a escravidão e os atos bárbaros e violentos dos europeus com a dizimação da população indígena original e com a busca de novos trabalhadores explorados, precisamente negros oriundos da África. Nesse contexto, o estilo argumentativo de Vastey - explorando as contradições dos defensores da escravidão, seus vícios morais e sua ignorância - é utilizado para responder a afirmação de que o tráfico era positivo para os africanos. Para Vastey, "[A] posteridade ficará espantada que um sistema tão horrível, que é baseado na violência e no roubo, na pilhagem e na mentira, nas mais sórdidas e impuras formas de vício, tenha encontrado zelosos apologistas entre as nações iluminadas da Europa" (Vastey and Bongie 2014:102). Em outras palavras, trata-se de difamar os africanos para justificar a escravidão e esconder seus crimes, afirmando a impossibilidade de civilizar os territórios africanos. Respondendo a um argumento ainda hoje utilizado (de que a escravidão seria produto de práticas dos próprios africanos), Vastey observa que culpa pertence única e exclusivamente dos traficantes europeus, que se valem da manipulação política e de métodos violentos para atingir seus objetivos. Os capturados, por sua vez, são tratados como mercadoria, de maneira violenta e colocados à força nos navios responsáveis por transportá-los, onde sofrem com a crueldade e a desumanidade dos escravizadores e têm seus vínculos com suas famílias e comunidades quebrados - mais um ponto em que podemos visualizar uma argumentação moral que mistura o apelo a sentimentos e a descrição de cenas de violência e crueldade.